24 Horas de Sexo Explícito / 48 Horas de Sexo Alucinante

Especial Boca Pornô – 30 anos

24 Horas de Sexo Explícito
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1985.

48 Horas de Sexo Alucinante
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1987.

Por Vlademir Lazo

A visão de um público numeroso que torce o nariz diante dos filmes realizados pela antiga Boca do Lixo, desprezando-os como fitas artisticamente pobres e recheadas de sexo, só seria verídica se considerássemos apenas o ciclo final da produtora paulista, o de sexo explícito no decorrer da década de oitenta. Seguir em frente com essa opinião é desconsiderar um outro período bem mais rico e proveitoso que foi o dos anos 60 até mais ou menos 1982 – quando o sexo explicito tomava conta do mercado e filmes com apenas sequências eróticas (chamarizes de bilheteria, mas que não raro permitiam certos diretores de rodarem filmes por vezes notáveis), em tempos de pós-Abertura, já não eram mais suficiente para atender a vontade irrefreável de um público que, à época, finalmente se via em liberdade para consumir o erotismo no grau que desejasse. O que gerou não apenas uma corrida ao pote de ouro como uma necessidade de sobrevivência dos profissionais de cinema na época, desde produtores e roteiristas até os técnicos e atores/atrizes (estes, em sua maioria, acabaram na miséria ou morrendo de doenças venéreas), o que inclui os cineastas que tiveram de aderir ao pornô, muitos contra a própria vontade. Com José Mojica Marins não foi diferente.

Os filmes dessa fase, quando muito, valem como curiosidade histórica em se tratando de um período difícil para o cinema brasileiro, ou no caso dos que Mojica realizou, interessam unicamente aos completistas e pesquisadores da obra do criador de Zé do Caixão. Vale dizer que estes de sexo explicito foram praticamente os únicos longas de ficção que Mojica pôde fazer nos trinta anos que separam a sua produção setentista até o lançamento de Encarnação do Demônio, em 2008. Na verdade, eles dão seguimento às (fracas) comédias eróticas que o cineasta filmara na década anterior (assinando-as com o pseudônimo de J. Avelar) – inclusive o primeiro trabalho de Mojica nos anos 80 era um filme erótico comum, A 5ª Dimensão do Sexo (1984), o qual os exibidores exigiram o posterior acréscimo de cenas de sexo explicito para passar nas telas. Mojica conta que o filme (um dos raros na época a tratar de homossexualidade) só não fez sucesso porque teve o azar de estrear simultaneamente com o hoje clássico nacional Oh! Rebuceteio (de Cláudio Cunha), que com um título desses roubou todos os espectadores, mas o produtor do seu filme, Mario Lima (seu parceiro antigo), propôs que entrasse na onda do pornô com a promessa de em seguida produzir o seu sonhado projeto de Encarnação do Demônio. Daí nasceu o 24 Horas de Sexo Explícito.

Pensar em pornô daquela época é completamente diferente do que o que viria a ser mais tarde (com mais sofisticação em cena, padronização do gênero e beleza dos integrantes do elenco, etc.). Os nacionais dessa fase foram em sua maioria uma diluição bem pobre dos aspectos mais superficiais dos filmes eróticos que os precederam, agora como pretexto para as cenas explicitas. Ciente disso, Mojica declarou que encheu 24 Horas de Sexo Explícito de mulheres feias e inseriu cenas de zoofilia para que o público não quisesse mais pensar em sexo, o que alguns podem até achar se tratar de um golpe publicitário por parte do diretor. Mas vendo o filme, realmente ele é muito pouco erótico, não apenas pelo contexto de produção da época, mas pela realização em si. Não há construções de um clima erótico ou de uma atmosfera de sedução (o mais próximo disso é uma cena lésbica perto do final). Os filmes de Mojica Marins jamais prezaram pela singeleza, e nesse o que vemos, cruamente, são apenas uma sucessão de cenas bizarras (e um tanto sem graça) e orgíacas de corpos nus, órgãos genitais masculinos e femininos, felações e carne batendo contra carne. Logo no começo do filme, Silvio Jr., Walter Laurentis e Antônio Rody (três atores conhecidos dos filmes pornográficos na época, interpretando a si mesmos) lêem numa mesa de bar uma noticia de jornal que os chamam de Os Campeões do Sexo Explícito no Brasil. E após uns vinte minutos de alguns encontros e muito falatório, os três iniciam uma competição: gozar mais vezes num período de vinte e quatro horas, em transas ininterruptas com um grupo de garotas na casa de praia do amigo de um deles.

É o sexo vivenciado até a exaustão e esgotamento físico completo dos personagens masculinos, alem de um clima de confronto deles com as mulheres, que os provocam e irritam (um deles reclama do excesso de feiúra delas, fazendo uma piada com o elenco dos filmes de Zé do Caixão), coisas que normalmente não seriam vistas em nenhum filme pornô antigo ou novo. As intervenções do juiz homossexual e até de um papagaio falante que aparece em cena só acentuam a esquisitice e os aspectos esdrúxulos do filme – isso para não dizer do pênis e da xoxota maquiados “conversando” ou da transa do cão pastor alemão com uma das garotas. Talvez Mojica quisesse mesmo sabotar o gênero com a pretensão de destruí-lo, filmando tanto bestialismo em cena. Mas se a sua intenção foi essa, o tiro saiu pela culatra: Mojica quase sempre foi subestimado como diretor pelos grandes filmes que realizou, mas independente desse 24 Horas de Sexo Explícito, na melhor das hipóteses (e quando muito), ser ou não uma pérola pela sua ruindade absoluta, o filme foi um êxito estrondoso de público (ainda que só tenha piorado a reputação artística tão injustiça do diretor). Sim, o que provavelmente é o pior filme da carreira do diretor também foi seu maior sucesso de bilheteria. As razões, entretanto, não são difíceis de apontar: por mais “exótico” que fosse o filme, suas bizarrices divertiam um público que, em sua maioria em 1985, ainda não possuíam nem vídeo-cassete em casa (e internet era uma realidade distante), e que se reuniam para sessões em cinemas pornôs que eram quase como grindhouses, onde o que menos importava era a qualidade do filme e mais o divertimento erótico que pudesse provocar dentro e fora da tela.

O produtor havia prometido financiar Encarnação do Demônio caso 24 Horas de Sexo Explicito fosse um sucesso. Foi, mas daí ele e Mojica foram fazer um outro pornô na linha do anterior, 48 Horas de Sexo Alucinante, aproveitando o êxito do outro filme. Mas dessa vez com maiores ambições,  com um roteiro mais elaborado e pretensioso, a começar por um ponto de partida bastante interessante: uma sexóloga de meia-idade (Andrea Pucci) contrata os produtores (Mojica e Mario Lima, interpretando a si mesmos) do filme anterior para rodar outra fita, dessa vez dobrando a dose para dois dias ininterruptos de uma maratona sexual em que novamente vencerá o mais resistente e o que gozar mais vezes. Os vinte primeiros minutos são o melhor do filme, nos proporcionando ver Mojica e seu produtor interagindo com a sexóloga (interessada em pesquisas para fins “científicos” e querendo estudar o comportamento erótico de homens e animais), num curioso processo de metalinguagem que resulta num filme dentro de um filme, e já o suficiente para torná-lo superior ao 24 Horas. O elenco da continuação também é muito melhor do que o filme predecessor, agora com bem mais gente e o melhor do que havia da produção hardcore de São Paulo. Retornam também o juiz gay (agora vestido como imperador romano e com o sugestivo e infame nome de “Calíngua”) e seu assistente, o Papagaio engraçadinho, ambos proporcionando momentos surreais ao filme. Mas quando a maratona começa, 48 Horas de Sexo Alucinante vai ficando enfadonho na sua sucessão de penetrações e muita gente enroscada uma na outra num verdadeiro bacanal, quase um circo romano controlado pelos olhares dos fiscais e  pelo computador que contabiliza tudo. O próprio filme em determinado momento se transforma em um espetáculo deprimente ainda que sempre na intenção de divertir e ser engraçado, o que talvez faça parte da proposta de Mojica de criticar e ironizar a obsessão do homem pelo sexo, pela resistência, e números.

O filme ganha novo fôlego depois de uma hora (ao término da maratona de dois dias), ao se concentrar na frigidez e perversão da sexóloga e suas fantasias, que resulta num dos mais puros momentos do cinema de absurdo vistos num filme nacional, o da mulher dentro da vaca mecânica sendo penetrada por um homem vestido de bumba-meu-boi. Em entrevistas, Mojica até hoje lamenta o que a cena tem de falso, o que por outro lado reforça ainda mais o que ela tem de bizarra (críticos na época descreveram essa sequência como “felliniana”, o que não deixa de fazer sentido). Tivesse terminado logo em seguida, 48 Horas de Sexo Alucinante seria um pouco melhor, pena que depois ele se alongue demais na relação mal-resolvida da sexóloga com seu ex-noivo, tornando-o mais longo que o necessário nos seus quase 100 minutos de duração (o filme anterior, ainda que pior, era bem mais enxuto), com uma salada de canções internacionais de sucesso na trilha instrumental, e uma tentativa de criação de cenas de sexo explicito com certo romantismo (além da apresentação musical completa de cantor interpretando El Dia Que Me Quieras num restaurante onde o filme se encerra).

O excesso de tentativas de sofisticação ajudam e ao mesmo tempo atrapalham o filme de Mojica. O público reagiu negativamente, e 48 Horas de Sexo Alucinante fracassou nas bilheterias, em parte porque os espectadores não se interessaram em compreender as qualidades e defeitos conseqüentes das pretensões do filme, o que inclui todo o seu processo metalingüístico e a participação do próprio Mojica em cena. O gênero também naquela altura já se transformava com a popularização do vídeo-cassete entre a classe média no país, quando então qualquer tentativa dos diretores em contar uma história mais elaborada num filme pornô eram frustradas pelo far forward no controle remoto (além da invasão de uma enxurrada de fitas norte-americanas que determinaram um novo estilo pro gênero). Na época, Mojica ainda se comprometeu em dirigir dois filmes em Brasília, ambos produzidos por Ary Santiago: um de sexo explicito, Dr. Frank na clínica das taras (1987), que praticamente ninguém viu e até hoje permanece inacessível (e o qual o cineasta renega a montagem); e um outro que não foi finalizado por desentendimentos entre os sócios.

A Máfia Sexual

Especial Boca Pornô – 30 anos

A Máfia Sexual
Direção: Sady Baby e Renato Alves
Brasil, 1986.

Por Leo Pyrata

Existem planos que passam por nossa vida e ficam marcados pra sempre como tatuagem em nossas retinas fustigadas e cansadas de tantas imagens esquecíveis. Ás vezes a coisa vem como que pelo acaso, numa feliz combinação quase astral de signos que se alinham dando mais profundidade para aquilo que é projetado na tela. O ato do público participar e completar um olhar do filme também permite alguns exageros e é a partir desse fato que eu me vejo no direito de cometer meus excessos para compartilhar um pouco sobre as minhas impressões sobre A Máfia Sexual . Filme de Sady Baby e Renalto Alves , em que Galego (Sady Baby) é um diretor de cinema que é preso pela policia federal por uma série de mutretas e na cadeia entra para a Máfia Sexual.

Junto com Pastor Crocodilo(Bim Bim) e um casal de detentos, ele foge para se vingar dos federais. Assim que consegue escapar, Galego obriga um casal de irmãos a consumar o incesto. Vê-se a seguir algumas seqüência de sexo feio harmonizadas com as pepitas da trilha sonora. Depois, o casal de presos deambula em abraços e beijos pelo centro de são Paulo em 86. De um lugar alto e distante, a câmera acompanha o trajeto até o casal ser escorraçado próximo de uma banca por um rapaz indignado armado com o jornal do dia. Impossível não pensar no Terayama jogando os livros e saindo por ai. Em Sady Baby, a transgressão é o próprio oxigênio do filme. A pulsão que pretende captar está sempre submetida aos gestos. Quebrar um ovo na glande de um ator quase é um ritual pra mostrar o sexo caseiro na cozinha.

A representação nesses filmes sempre tem em seu enquadramento o principio informativo. O registro que Sady e Renato fazem sobrevive muito dessa tensão entre o que é posto em cena e como isso é filmado. Quando a personagem de Leik-Du obriga seu amante a satisfazê-la o que existe é a assimilação do ator do que tipos de energia o filme precisa, pois a máfia está em dominar. E como a lógica das coisas nunca persiste por muito tempo nos filmes de Sady, é hora de interromper uma suruba com um revolver e depois com uma tocha e botar fogo no puteiro. Incendiada a cabaninha, é hora do cinema se tornar cachoeira. É nessa locação e com essa citação picareta de Humberto Mauro, que eu finalmente chego na cena que me levou a escrever sobre esse filme agora. Quem não tem Fuller tem Galego, de charuto no beiço e de revolver em punho está no habitat ideal para dar continuidade ao seu plano de vingança. Coloca suas putinhas para fazerem uma busca no local e logo encontra a amante de seu antagonista Tocha (Renalto Alves) que se torna alvo de uma tortura. Galego pega a moça e no meio da cachoeira ameaça matar e queimar o rosto da moça com seu charuto. Num dado momento, ele parece confuso entre queimar ou afogar a moça; depois surge outra seqüência, agora com Galego totalmente seco torturando outra moça e dessa vez ameaçando jogá-la num formigueiro.

Continuidade temporal é coisa para fracos. Por falar nisso, depois tem o caixão vermelho. Sim, um caixão vermelho é outro elemento bacana do filme. Ele surge pela primeira vez nos créditos inicias e volta à cena quando Tocha surge comentando que aquele é um lugar cruel. Tudo culpa da máfia sexual. .Enquanto isso, Galego segue traçando suas mafiosas na cachoeira até elas começarem a brigar por ele. Então é hora do confronto entre Galego e Tocha. Depois de um tiroteio, eles partem pra pancada, Galego leva a pior e é rendido por Tocha. Mas como os filmes precisam de finais felizes, surge alguém e mata o Federal.

Rola um misto de batismo-tortura com mais uma voluntária num tonel de óleo, que também merece nota. Ali tem toda essa força estranha, força-ação de barreiras própria do cinema de Sady Baby. Esse pajé intuitivo de um caos apocalíptico filmado como se Bosch fizesse um institucional do inferno da terra nos anos oitenta. A presença do Pastor Crocodilo pregando e a saturação de falas na banda sonora deixa a cena ainda mais extraordinária, mas o melhor mesmo é que a atriz torturada custa a sacar quando é sua deixa para morrer, o que deixa a cena ainda mais divertida. E a diversão não acaba. Um pouco depois, o pastor dá em cima de uma das mulheres do Galego e como vingança tem o sangue sugado por nosso vampiro Galego. Esse anjo caído de carne e osso sugando cinema de qualquer jugular, esgoto ou lote vago. Príncipe Valente da picaretice genial dos trópicos.

Comando Explícito

Especial Boca Pornô – 30 anos

Comando explícito
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1986.

Por Filipe Chamy

Discordando do colega Matheus Trunk, que há poucos meses comentou este filme na Zingu!, preciso afirmar: Comando explícito é uma horrível experiência.

Seguindo a linha do também tosco Orgia familiar — inclusive com algumas repetições de “técnicos”, “atores” e “locações” —, é um filme reacionário e misógino travestido de livre e sensual: a marca de todos os filmes de sexo explícito de baixa categoria.

A hipocrisia da moral de Comando explícito não é necessariamente um problema. Mas percebendo todos os seus inúmeros outros defeitos, pode-se muito bem adicionar mais essa chaga à pele doentia que reveste o filme.

Como era de se esperar, o sexo vendido aqui é o mais próximo ao desejo bestial. Trata-se de copular, possuir, maltratar o corpo. Não concordo com o amigo Trunk quando diz que este filme tem marcas autorais: filmar closes em vulvas, falos, penetrações, felações e ejaculações não é nada particular de alguém se expressando. Pelo contrário, até: limitar-se a filmar relações sexuais não encenadas com atores não profissionais é um flerte inequívoco com certa tendência que impera hoje em boa parte da mídia do sexo industrializado. Ou seja, nem esse duvidoso mérito pode ser imputado ao filme; ele é igual em infâmia e amadorismo a mil outras produções ruins.

Desde o cartaz, que vende animadamente estupros e assaltos como excitantes, o filme encontra em cada segundo de sua metragem um motivo para ser execrado. Atores tão pavorosamente fracos que chegam a ser risíveis seus lamentáveis esforços em falarem os (ridículos) diálogos de seus personagens; trama esquemática que une rascunhos de crítica social vagabunda (assédio sexual no trabalho, por exemplo) à denúncia estupidificada da segurança deficitária dos centros urbanos.

Porque o mote de tudo são bandidos “marca barbante” que resolvem barbarizar uma casa, seus habitantes e empregados, e para isso servem-se das duas coisas por que aparentemente vivem: violência e sexo. Em doses cavalares (são bestiais até literalmente, portanto). Forçam todas as pessoas da casa a serem violadas ou torturadas, sob ameaça de tiros. Fazem o chefe de família ver o estupro da esposa, defloram a jovem filha adolescente, obrigam mulheres a se masturbarem, o cardápio é vasto. Infelizmente, o cozinheiro (Sternheim) não tem o dom de fazer o prato apetitoso, e o que resta ao espectador são cenas maçantes, mal filmadas, com a sempre patética insistência em colocar música erudita como trilha para as cenas, reiterando o descompasso entre a intenção e o resultado — isso torna o filme mais formulaico e sem graça ainda.

Com o pretexto de “celebrar a diversidade”, vemos um festival de abominações de toda sorte: se os homossexuais não devem ser menosprezados, por que não colocar um estereótipo bem grosseiro de um rapaz gay louco para ser seviciado pela gangue de estupradores? Se as mulheres merecem também receber o orgasmo, por que não colocá-las seguindo à risca a máxima que diz que “se o estupro é inevitável, relaxe e goze”? Se ninguém pensa em se rebelar contra os vilões do filme, que passam mais tempo copulando que ameaçando, por que não simplesmente deixar todo mundo com um boçal marasmo que supostamente significa medo, mas que em realidade significa apenas um mau desenvolvimento da história, do filme e dos personagens?

É difícil reunir nisso tudo a força para resistir, como os “heróis” apresentados (que ao final sagrar-se-ão vencedores em uma apoteose paródica); mas seria preciso ser realmente um herói para fingir ter prazer com algo tão infeliz quanto este filme.

Fuk Fuk à Brasileira

Especial Boca Pornô – 30 anos

Fuk Fuk à Brasileira
Direção: J. A. Nunes (Jean Garrett)
Brasil, 1986.

Por Sérgio Andrade

Siri é anão, negro, órfão, pobre, mas fala com o espectador por telepatia com a voz de um galã de telenovela (adeptos do politicamente correto devem passar longe). Ele nos conta sua história, desde quando foi adotado por um casal que o transformou em escravo sexual e recebia como prêmio, toda semana, um pinto de borracha que guardava com carinho.

Uma noite o casal traz uma amiga para participar das brincadeiras e, no auge da animação, o marido resolve dar uma de Marlon Brando em O Último Tango em Paris: pede para Siri trazer a manteiga, mesmo a moça não sendo nenhuma Maria Schneider. Ela recusa a oferta e cabe à mulher ser devidamente besuntada, mas como ao invés de manteiga eles só tinham margarina (“afinal não estamos em Paris, mas no Brasil”) essa também desiste da brincadeira. O cara, então, decide se satisfazer com Siri mesmo, que foge entrando pela privada. Ele ainda consegue voltar escondido para a casa afim de pegar sua valiosa coleção e cair no mundo.

Em sua jornada será acolhido por um casal de portugueses (quando poderá usar de toda a criatividade no uso da coleção com a portuguesa), passará pela casa de um gay cujo pai sofreu derrame cerebral (Oasis Minniti, desta vez sem fazer sexo), vai trabalhar na casa de massagem Suga Suga e finalmente receberá a visita de uma nave espacial, no formato de um pinto gigante, vinda do planeta Conas que o escolheu para aprender tudo sobre sacanagem (com direito à tiração de sarro sobre a pobreza dos efeitos especiais no cinema brasileiro).

Dirigido por Jean Garrett, um dos melhores (o melhor?) diretor da Boca, aqui assinando como J.A. Nunes (de seu verdadeiro nome, José Antônio Nunes Gomes e Silva), o filme tem mesmo alguns momentos bem engraçados, a começar pelos letreiros de abertura que trás créditos como roteiro de J. A. Improviso, música do Maestro Agulha e produtores um sinal de interrogação. As mulheres são menos feias do que de costume. Mas quem garante a diversão e o anão Chumbinho, figura freqüente nos pornôs da Boca e que hoje em dia possui uma legião de admiradores.

No gênero, porém, Garrett se sairia melhor em O Beijo da Mulher Piranha que, apesar do título, é um drama policial no qual ele pôde dar vazão aos seus enquadramentos sofisticados e o gosto pelo insólito (Amadas e Violentadas, Excitação, A Força dos Sentidos, A Mulher que Inventou o Amor, O Fotógrafo) na trama da garota que transa com sua piranha (o peixe mesmo!) de estimação e ela própria devora seus amantes.

Claro que sempre haverá quem goste de filmes como Fuk Fuk à Brasileira. Outros, no entanto, acharão que é mais um desperdício de um talento do nosso cinema.

Garrett dirigiu seu último filme em 1986 e morreria dez anos depois, em 21 de abril, cinco dias depois de ter completado 50 anos.

Senta no meu, que eu entro na tua

Especial Boca Pornô – 30 anos

SentanoMeu

Senta no meu, que eu entro na tua
Direção: Ody Fraga
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Senta no meu, que eu entro na tua nunca existiria fora do período do cinema de sexo explícito, porque os protagonistas de seus dois episódios, Alô, Buça e O Unicórnio, uma vagina falante e um pênis nascido na cabeça (de cima!), jamais ganhariam existência nos tempos de pornochanchada. Naqueles dias, com censura reguladora, jamais seria permitido (ou mesmo desejado por muitos) closes numa vagina e num pênis, ou mesmo mostrá-los de frente, tão graficamente. Fugia-se disso, ficava-se na imaginação ou, no máximo, no rápido vislumbre. Pois bem, mas se ainda fosse possível naqueles dias, Senta no meu, que eu entro na tua, seria uma das melhores pornochanchadas já feita. O sexo explícito, postiço e desnecessário, cumpre a função: vender. Porém, dentro da história, tanto faz como tanto fez.

É curioso notar tal paradigma. Se não fosse o moralismo (censura, público, realizador, e seja lá de quem for), talvez o filme, hoje, fosse lembrado e mais aceito dentro da cinematografia brasileira, não apenas como um dos grandes expoentes do cinema pornô tupiniquim. Porque o que importa nele é a extremamente imaginativa história, de ambos os episódios.

No primeiro, Alô, Buça, uma mulher liberal, ouve, durante uma transa, uma voz falando que não vai mais dar. Logo descobre que é sua vagina, que tomou consciência e resolveu reivindicar seus direitos: ela, a partir de então, escolheria o parceiro sexual, afinal, seria ela quem o teria de agüentar. Para tal efeito, uma ótima solução visual: a vagina falante é mostrada num close de uma vagina abrindo e fechando. Com viés feminista, o filme acaba servindo para mostrar uma nova mulher na sociedade, a que tem voz e direitos, não sendo mais necessariamente subjugada pelos homens. Risos garantidos numa comédia absurda.

A tônica de O Unicórnio é a mesma. Um homem cansado da vida, sem paciência de transar com a mulher, vê em um dia um calombo dolorido em sua cabeça ganhar forma e crescer. O que parecia um chifre se transforma num pinto na cabeça do sujeito, que tem o mesmo comportamento do outro. Quando excitado, ganha uma ereção. Uma das vítimas de seu desejo é a médica que o examina, pois, ao fazê-lo, deixa-o animado demais. A solução, ele diz, para que não morra (possivelmente, perdendo a circulação do sangue no cérebro), é aliviar-se no sexo. Com dois pênis, o homem vira uma máquina incansável do sexo, refutando inclusive a condição e pedindo que tirem o da cabeça.

Ody Fraga, hábil narrador, tem outro grande trunfo no filme: o título. Senta no meu, que eu entro na tua é, muito provavelmente, um dos títulos mais criativos do cinema brasileiro.

A Dama de Paus

Especial Boca Pornô – 30 anos

A Dama de Paus
Direção: Mário Vaz Filho
Brasil, 1989.

Por William Alves

A Dama de Paus tem uma das sequências iniciais mais atordoantes da história do cinema nacional. Milhares de indivíduos encapuzados, que se assemelham à temida ordem Ku-Klux-Klan, se enfileiram para penetrar Débora Muniz, uma das grandes musas do sexo explícito brasileiro.

O ápice (para ela e para quem assiste) é esticado para o final, quando ela é sexualmente violada pelo líder, que ostenta uma máscara, portentosamente confeccionada, de (pasme!) cavalo. Em dez minutos, Mário Vaz Filho já gastou todos os trunfos de uma produção de gênero, você diz. E você está brutalmente equivocado, já que um cavalo de verdade vai pintar lá pelo meio da produção.

Ao contrário de outros diretores da Boca do Lixo, como Alfredo Sternheim e José Miziara, Vaz Filho não tem uma filmografia “convencional”, já que ingressou diretamente nas produções pornôs. Talvez por isso, seja consideravelmente mais criterioso em suas perversões do que ambos. Enquanto Sternheim e Miziara se limitavam a posicionar os seus personagens em fazendas borbulhantes de hormônios, Vaz Filho tinha um arsenal mais variado de promiscuidade. Ele prova, tal como MacGyver, que dois tomates e uma cenoura, em posições previamente calculadas, constituem um tremendo afrodisíaco.

Como se filmar sexo não fosse o bastante, A Dama de Paus tem uma “história”. Uma esposa insatisfeita (Débora) se perde em devaneios libidinosos, para esclarecer o mínimo. Invariavelmente, múltiplos personagens aleatórios se juntam à trama – um deles é interpretado por um tal José Mojica Marins -, sem maiores explicações. Afinal, o intento é socializar, não discriminar.

O Ônibus da Suruba

Especial Boca Pornô – 30 anos

O Ônibus da Suruba
Direção: Sady Baby e Renato Alves
Brasil, 1990

Por Leo Pyrata

O Ônibus da Suruba é um dos filmes mais singulares da fase terminal do explicito da Boca do Lixo. Sady Baby e Renalto Alves produziram esse petardo da cinematografia brasileira. O ônibus da suruba atravessa o Brasil soltando a franga com sua trilha sonora desconcertante combinando Beto Barbosa e Flash Dance numa orgia itinerante de delitos e putaria.

Partindo da premissa da Lei do Cascão, em que “trabalhar é pra otário e que se esse país é uma foda então vamos fudê”, Cascão (Sady Baby) reúne um exercito de Brancaleone para seu épico da picaretagem. Um roadie movie pornô orquestrado pela lei do Cascão. Cascão é um mestre de cerimônias afinado com a tradição brasileira do apresentador grotesco de televisão. Ele cafetina o elenco para passar por peripécias de sexo, roubos e trapaças, financiando sua jornada atrás de um comparsa caloteiro.

O filme é feio, sujo e forte, principalmente pela distancia que se situa das convenções higiênico-eugênicas da fotografia publicitóide de produções contemporâneas como Bruna Surfistinha e outras bundas mais lindas da cidade. Negar a força cinematográfica de Onibus da suruba é como partir em defesa da ditadura do belo, programático, limpo e eficiente e se afinar com as carolas medianas da mercantiização doriana da imagem. Hoje mais que nunca trata-se de um filme belíssimo.

A montagem da seqüência da suruba da mexerica é um achado. Uma feijoada de planos mesclando caras e coitos com muita inventividade. Sady Baby transforma a pornografia em ficção investindo numa performance quase frontal, bancando o xerife da misé em scene, ditando ações e submetendo sua trupe à situações em quee o risco do real é muito mais que cinematográfico.O espetáculo sexual do filme está sempre operando nesse sentido. Existe nesse formato uma pulsão que aproxima sempre o sexo da violência e o prazer da morte. Os gritos do profeta Sady são pra que seus seguidores saibam que eles estão vivos.

E a nave de Sady vai, essa Atalante do desbunde putanhesco tupiniquim às margens do aceitável e na contramão das alamedas do bom gostismo, corrompendo freiras, casais e prejudicando os passantes de boa índole. Dessa jornada surge um filme rude e vigoroso com o melhor travelling pornográfico rodado no capô do ônibus em plena rodovia, a documentação da cagada que um ator dá pela janela também com o ônibus em movimento, junto com outras cenas antológicas como a de X-Tayla correndo em câmera lenta em frente as ruínas.Vários momentos brilhantes da fotografia de Renato Alves que, combinados com os registros sexuais enquadrados de forma seca e documental num ritmo que muitas vezes briga com a trilha sonora, consegue produzir uma experiência única de antipornografia. Provavelmente a mesma antipornografia que Nagisa Oshima procurava. No desfecho do filme Sady Baby tenta mas não consegue se livrar de sua trupe. No fundo ele sabe que é a suruba que bota seu ônibus pra andar.

Expediente

 

EDITOR-CHEFE: Adilson Marcelino

EDITOR DOSSIÊ GILBERTO WAGNER: Matheus Trunk

CONSELHO EDITORIAL: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo Correa

REDATORES: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Daniel Salomão Roque, Diniz Gonçalves Júnior, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Marcelo Carrard, Matheus Trunk, Sergio Andrade, Vlademir Lazo Correa e William Alves

REDATORES CONVIDADOS: Ataídes Braga, Felipe Guerra, Leo Pyrata, Nísio Teixeira.

CONVIDADOS ESPECIAIS: Alfredo Sternheim, Eduardo Aguilar, José Miziara

CONTATO: revistazingu@gmail.com

Adilson Marcelino tem paixão pelo cinema nacional em geral e acredita piamente na máxima atribuída a Paulo Emílio Salles Gomes, de que o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor estrangeiro. Chamado por um grupo de jornalistas como o Super Adilson do Cinema Brasileiro, é graduado em Letras e em Jornalismo. Trabalha com cinema desde 1991: foi bilheteiro, gerente, assessor de imprensa, programador, redator e apresentador de programa de rádio. É pesquisador, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro – premiado com o troféu Quepe do Comodoro, outorgado pelo Carlão Reichenbach -, e do blog Insensatez. É o atual Editor-Chefe da Zingu!

Andrea Ormond, pesquisadora e crítica de cinema, mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro  (http://estranhoencontro.blogspot.com), inteiramente dedicado à revisão crítica do cinema brasileiro. Escreve na revista Cinética, além de integrar o conselho editorial da revista Zingu. Colaborações publicadas nas revistas Filme Cultura e Rolling Stone, dentre outros veículos.

Daniel Salomão Roque possui um gosto cinematográfico bipolar, oscilante entre Jacques Tati e Jörg Buttgereit. Afeito a filmes dos mais diversos tempos, recantos e tendências, ele tem, contudo, um carinho especial pelo film noir e suas derivações, pelas fitas B estadunidenses dos anos 50/60 e pelo cinematografia popular latino-americana. Adepto de Samuel Fuller, acredita que o cinema é um campo de batalha e também uma área de garimpo: o prazer da descoberta anda lado a lado com os extremos da emoção. Ele já fez curadoria de cineclubes em parceria com a Prefeitura de Osasco, colaborou com a finada Revista Zero, manteve uma coluna sobre quadrinhos nos primórdios da Zingu! e hoje estuda História na Universidade de São Paulo.

Diniz Gonçalves Júnior é paulistano e poeta. Tem trabalhos publicados na Cult, no Suplemento Literário de Minas Gerais, naArtéria, na Nóisgrande, na Sígnica, em O Casulo, na Zunái, na Germina, na Paradoxo, no Mnemocine, no Jornal de Poesia, na Freakpedia, e no Weblivros. Autor do livro Decalques (2008).

Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte.

Gabriel Carneiro é um pretenso jornalista e crítico de cinema, mais pretenso ainda pesquisador. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, o que gosta mesmo é de assistir filmes e ponderar sobre eles. Como iniciação científica, pesquisou a filmografia de Guilherme de Almeida Prado. Já escreveu no portal Cinema com Rapadura, e manteve por três anos e meio o blog Os Intocáveis. Rascunhou em alguns outros lugares. Atualmente, também escreve no Cinequanon e na Revista de CINEMA. Adora resmungar, e adora as feminices das mulheres que o rodeiam – é fato, a falta da simples presença feminina o deixa deprimido. A cada dia sua admiração por filmes de baixo orçamento aumenta – tanto que fez um TCC sobre a ficção científica de 1950-64 e planeja fazer um filme de terror. Foi editor-chefe da Zingu! entre maio de 2009 e dezembro de 2010. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial da revista.

Marcelo Carrard é jornalista e crítico de cinema. Autor da tese de mestrado: O Cozinheiro, O Ladrão, Sua mulher e o Amante – Peter Greenaway e Os Caminhos da Fábula Neobarroca, colaborou no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib. Nesse livro, foi o responsável pelas entrevistas com os diretores José Joffily, Silvio Back e Neville de Almeida. Doutorado em cinema pela Unicamp. Grande conhecedor de cinema oriental, europeu e mesmo brasileiro, ministra cursos e workshops. Manteve o blog Mondo Paura, premiado no troféu Quepe do Comodoro. Carrard é também crítico do site Boca do Inferno, o maior em português dedicado ao Cinema Fantástico. Muito sincero e honesto, o que lhe causa grandes problemas frente os pseudointelectuais de esquerda que pensam que escrevem na “Cahiers du Cinema”. Assina a coluna Cinema Extremo, dedicado a filmes feitos fora da linguagem comum.

Matheus Trunk é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi editor-chefe da Zingu! entre outubro de 2006 e abril de 2009. Trabalhou na revista Transporte Mundial, no jornal Nippo-Brasil e no jornal Metro ABC. Atualmente é assessor de imprensa. Fanático por cinema brasileiro, música popular e pela Sociedade Esportiva Palmeiras, é editor do blog Violão, Sardinha e Pão.

Sergio Andrade é bibliotecário e cinéfilo dos mais atuantes. É fã de cinema extremo, mas também de grandes diretores. Em matéria de cinema brasileiro também é grande entendido, sendo fã de carteirinha do saudoso crítico Rubem Biáfora. Mantém uma relação de amor com a Cinemateca Brasileira, por ter trabalhado lá nos arquivos da entidade. Mantém os blogs Kinocrazy e Indicação do Biáfora.

Vlademir Lazo Correa é gaúcho de nascimento e tem como única qualidade inquestionável nessa vida o fato de ser torcedor fanático do Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Escritor sem obra e atleta cujo único esporte é o jogo de xadrez, é apaixonado por antiguidades das mais diversas, dedicando-se a colecionar discos de vinil que ninguém mais quer e livros velhos de sebos empoeirados que quase ninguém lê. Desde que se conhece por gente aprecia o cinema em suas mais diferentes formas, vertentes e direções ao ponto de estar se convertendo em um museu de imagens e só prestar nesse mundo para assistir filmes e, ocasionalmente, escrever sobre eles. Foi colunista do site Armadilha Poética e mantém (só não sabe até quando) o blog O Olhar Implícito.

William Alves, 24 anos, é belorizontino e eterno postulante a jornalista, estudante de Comunicação Social na capital mineira. Ele acredita em um tipo de crítica cinematográfica mais simples e objetiva, largando de lado todas as citações desnecessárias e a cânones literários. Queria ter visto os Stones em 68 e pegado a Ava Gardner em 46. É fã de westerns, futebol inglês e da Rockstar Games. Tem um blog que ninguém lê, o Lazarus Threw the Party. Aprecia especialmente o cinema marginalizado de Sganzerla e Bressane, embora não deixe de olhar com carinho a filmografia do Nelson Pereira dos Santos. Já largou uma porção de maus hábitos, mas o Marlboro vermelho continua

Depoimento: Eduardo Aguilar

Dossiê Gilberto Wagner

Por Eduardo Aguilar

Eu conheci o Gilberto na Boca e acabamos trabalhando juntos naquele filme do Conrado. Lembro que a edição foi feita em algum lugar longe da Triunfo. Trabalhamos juntos durante muito pouco tempo e talvez por isso não tenhamos estabelecido uma amizade.

Durante todo o nosso trabalho, o Gilberto sempre foi um cara bastante animado e a gente se divertiu fazendo a edição do A Menina. Ele tinha uma coisa que é uma característica de todo grande montador, que é ser bastante inquieto. A ideia de chamar ele pra editar o filme veio do produtor Antonio Polo Galante.

O pessoal da Boca sempre destacava que uma das principais características do trabalho do Gilbertinho era a agilidade dele. Ele era muito ligeiro e isso eu pude comprovar vendo ele editar na moviola. Nós fizemos A Menina e o Estuprador em 1982. Desde então, nunca mais vi o Gilberto Wagner.

Outro filme que eu trabalhei naquele ano foi Tensão e Desejo, do Alfredinho Sternheim. Esse filme também foi editado pelo Gilberto. Mas esse eu não acompanhei a parte da edição. Na Boca, isso não era algo obrigatório para o assistente. Acabei fazendo isso somente no filme do Conrado.

Eduardo Aguilar é cineasta e assistente de direção. Trabalhou com Gilberto Wagner em A Menina e o Estuprador (1982).

Depoimento: Alfredo Sternheim

Dossië Gilberto Wagner

Por Alfredo Sternheim

Quando soube que teria Gilberto Wagner como montador de Mulher Desejada, fiquei um pouco assustado. Eu o conhecia pessoalmente e ele era bem simpático. Mas me deixei levar por preconceitos: Gilberto era jovem e não parecia ter formação cinéfila. E Mulher Desejada era um projeto bem ambicioso. Eu achava que precisava de um montador mais experiente e com mais conhecimento cultural. Bobagem minha, engano meu.

Além de alegre e amável, mostrou ter uma rápida compreensão do que se fazia necessário ao filme e uma forma terna de trabalhar que não dispensava o ritmo ágil. Foi uma ótima convivência, que se repetiu depois em As Prostitutas do Doutor Alberto, Herança dos Devassos (os problemas criados pelo supervisor argentino não atingiram nossas relações) e especialmente em Tensão e Desejo. Sua colaboração nesses filmes e no derradeiro foi muito marcante. Em Tensão e Desejo, ele mostrou grande desenvoltura na montagem da seqüência do sonho-balé com a personagem interpretada pela atriz Sandra Graffi.

Escrevo estas linhas com muita saudade desse tempo fraterno do Gilberto. Um grande montador e uma grande pessoa.

Alfredo Sternheim é cineasta. Trabalhou com Gilberto Wagner em Mulher Desejada (1978), Herança dos Devassos (1979), As Prostitutas do Doutor Alberto (1981) e Tensão e Desejo (1983).