Senta no meu, que eu entro na tua

Especial Boca Pornô – 30 anos

SentanoMeu

Senta no meu, que eu entro na tua
Direção: Ody Fraga
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Senta no meu, que eu entro na tua nunca existiria fora do período do cinema de sexo explícito, porque os protagonistas de seus dois episódios, Alô, Buça e O Unicórnio, uma vagina falante e um pênis nascido na cabeça (de cima!), jamais ganhariam existência nos tempos de pornochanchada. Naqueles dias, com censura reguladora, jamais seria permitido (ou mesmo desejado por muitos) closes numa vagina e num pênis, ou mesmo mostrá-los de frente, tão graficamente. Fugia-se disso, ficava-se na imaginação ou, no máximo, no rápido vislumbre. Pois bem, mas se ainda fosse possível naqueles dias, Senta no meu, que eu entro na tua, seria uma das melhores pornochanchadas já feita. O sexo explícito, postiço e desnecessário, cumpre a função: vender. Porém, dentro da história, tanto faz como tanto fez.

É curioso notar tal paradigma. Se não fosse o moralismo (censura, público, realizador, e seja lá de quem for), talvez o filme, hoje, fosse lembrado e mais aceito dentro da cinematografia brasileira, não apenas como um dos grandes expoentes do cinema pornô tupiniquim. Porque o que importa nele é a extremamente imaginativa história, de ambos os episódios.

No primeiro, Alô, Buça, uma mulher liberal, ouve, durante uma transa, uma voz falando que não vai mais dar. Logo descobre que é sua vagina, que tomou consciência e resolveu reivindicar seus direitos: ela, a partir de então, escolheria o parceiro sexual, afinal, seria ela quem o teria de agüentar. Para tal efeito, uma ótima solução visual: a vagina falante é mostrada num close de uma vagina abrindo e fechando. Com viés feminista, o filme acaba servindo para mostrar uma nova mulher na sociedade, a que tem voz e direitos, não sendo mais necessariamente subjugada pelos homens. Risos garantidos numa comédia absurda.

A tônica de O Unicórnio é a mesma. Um homem cansado da vida, sem paciência de transar com a mulher, vê em um dia um calombo dolorido em sua cabeça ganhar forma e crescer. O que parecia um chifre se transforma num pinto na cabeça do sujeito, que tem o mesmo comportamento do outro. Quando excitado, ganha uma ereção. Uma das vítimas de seu desejo é a médica que o examina, pois, ao fazê-lo, deixa-o animado demais. A solução, ele diz, para que não morra (possivelmente, perdendo a circulação do sangue no cérebro), é aliviar-se no sexo. Com dois pênis, o homem vira uma máquina incansável do sexo, refutando inclusive a condição e pedindo que tirem o da cabeça.

Ody Fraga, hábil narrador, tem outro grande trunfo no filme: o título. Senta no meu, que eu entro na tua é, muito provavelmente, um dos títulos mais criativos do cinema brasileiro.

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