Inventário Grandes Musas da Boca

Angelina Muniz

Por Adilson Marcelino

 

A Boca do Lixo, vez ou outra, buscava sua desejáveis atrizes também na cidade maravilhosa. Algumas fizeram poucos filmes no pedaço, mas são experiências tão marcantes e inesquecíveis que lhe reservaram um espaço especial na memória como verdadeiras Musas da Boca. E aí é impossível não falar da carioca Angelina Muniz.

Angelina Muniz é uma das belas atrizes que surgiram nos anos 1970. A atriz tem uma trajetória curta mas intensa nas telas, em período de cerca de cinco anos que vai de 1978 a 82. E deixou sua marca principalmente no encontro com o genial Jean Garret.

Angelina Muniz nasceu no Rio de Janeiro em 25 de março de 1955. Começou sua carreira como modelo fotográfico – passando também pela escola de teatro.

A estréia em novelas é em Sinal de Alerta, de Dias Gomes, em 1979, e tem papel de destaque em Pé de Vento, em 1980, de Benedito Ruy Barbosa, exibida na Bandeirantes. Sua atuação carimba o passaporte para a Globo, onde marca presença em várias novelas como Plumas & Paetês (1980), de Cassiano Gabus Mendes, e Vereda Tropical (1984), de Sílvio de Abreu. Depois de passar pelo SBT, atualmente é uma das estrelas da Record.

E é nessa primeira fase de sua carreira que a atriz vai atuar em quase uma dezena de filmes, popularizando seu talento e sua beleza. Em solo carioca, ela é dirigida por Antonio Calmon, Paulo Porto, J.B. Tanko e Pedro Carlos Róvai- dentre eles, é protagonista de As Borboletas Também Amam (1979), de Tanko, e atua em Amante Latino, de Pedro Carlos Róvai, veículo para o cantor e ator Sidney Magal, que marcava as paradas de sucesso da época.

Angelina Muniz é um dos símbolos sexuais daquela época, chegando a posar três vezes para a Revista Playboy.

A atriz ficou associada ao cinema popular, às vezes com forte dose de erotismo e sempre explorando sua beleza morena e estonteante. Mas o filme preferido de Angelina é o juvenil O Grande Palhaço (1980), dirigido por William Cobbett.

O lugar de honra como musa da Boca do Lixo está sustentado, principalmente, no seu encontro com o cinema de alto quilate de Jean Garrett.

Mas antes disso, estreia na Boca em O Inseto do Amor, comédia picante dirigida por Fauzi Mansur.

Neste filme, Angelina está ao lado de muitas das mais desejadas musas da Boca, pois o elenco feminino é estelar: Helena Ramos, Ana Maria Kresleir, Zélia Diniz, Claudette Joubert, Alvamar Taddei, Nádia Destro, Aryadne de Lima, Rossana Ghessa, Misaki Tanaka, Liza Viera.

O primeiro encontro com Jean Garrett é o libertário Karina, Objeto do Prazer. Aqui ela é personagem título, que depois de ser vendida pelos pais roda de mão em mão, passando por canalhas de diferentes tipos – Luigi Picchi, Cláudio Cunha.

E é ao dar um basta nesse destino de objeto, que ela conhece uma advogada – Rosina Malbouisson, e encontra, finalmente, seu repouso do guerreiro, em entrecho homossexual surpreendente, foco que faz jus ao teor libertário citado.

Esse encontro com Garret é tão espetacular que atriz e cineasta repetem a dobradinha no filme seguinte de ambos, o sombrio e maravilhoso Tchau Amor.

Com roteiro assinado por Inácio Araújo, Tchau Amor é protagonizado por Antonio Fagundes e Angelina Muniz, tendo ainda no elenco Walter Forster, como pai dela, e Selma Egrei como mulher dele.

Angelina Muniz tem aqui personagem completamente diverso de Karina, Objeto do Prazer. Na trama, ela é a mimada Rejane, filhinha de papai voluntariosa que faz gato e sapato de Fagundes, radialista em caminho indesviável da depressão.

É claro que filhinha de papai de Angelina nesse Tchau Amor não é construída de forma alguma pelas tintas da superficialidade. Ainda mais pelos talentos envolvidos na direção, roteiro e atuação. Além do que, Angelina e Fagundes demonstram ótima química, nesse triste e angustiado grande momento do cinema dos anos 80.

Da década de 80 para a frente, Angelina Muniz vai intensificar sua carreira na televisão, voltando ao cinema somente em 2008, em Olho de Boi, de Hermanno Penna.

Filmografia

Nos Embalos de Ipanema, 1978, de Antonio Calmon
Fim de Festa, 1978, de Paulo Porto
As Borboletas Também Amam, 1979, de J. B. Tanko
O Sol dos Amantes, 1979, de Geraldo dos Santos Pereira
Amante Latino, 1979, de Pedro Carlos Róvai
O Inseto do Amor, 1980, de Fauzi Mansur
O Grande Palhaço, 1980, de William Cobbett
Karina, Objeto do Prazer, 1981, de Jean Garret
Tchau, Amor, 1982, de Jean Garret
Olho de Boi, 2008, de Hermanno Penna

Fonte:

Site Mulheres do Cinema Brasileiro
Site IMDB

Carta ao Leitor

É com muita felicidade que trazemos à cena mais uma edição da Zingu!, agora a de número 46.

E com ela, fazemos um mergulho profundo, sobretudo na produção da Boca do Lixo.

No dossiê do mês, a segunda parte da série de montadores idealizada e editada por Matheus Trunk. Se na edição anterior, o focalizado foi Luiz Elias, agora chegou a vez de Gilberto Wagner.

Com cerca de quarenta filmes no currículo, Gilberto Wagner foi um dos montadores mais atuantes da fase áurea da Boca do Lixo. Gilberto começou a carreira ao lado do tio, o grande cineasta Ary Fernandes, como assistente de Luiz Elias na série Águias de Fogo. Depois, editando comerciais e documentários, e, claro, muitos filmes para os mais diversos cineastas da Boca.

Nomes fundamentais como Ary Fernandes, Osvaldo de Oliveira, José Miziara, Alfredo Sternheim, Roberto Mauro, Walter Hugo Khouri e Antonio Meliande são alguns dos cineastas que tiveram seus filmes montados por Gilberto Wagner.

Para o dossiê, Matheus Trunk fez longa entrevista com Gilberto Wagner, que repassa sua trajetória, além de ouvir parceiros como José Miziara, Alfredo Sternheim e Eduardo Aguilar.

Já no especial desta edição, um foco sobre os 30 anos da estréia de Coisas Eróticas, de Raffaele Rossi e Laerte Calicchio, portanto, 30 anos em que o sexo explícito invadiu a produção da Boca do Lixo.

O especial Boca Pornô – 30 anos apresenta artigo que situa esse acontecimento que agitou as telas e a Boca do Lixo, e, infelizmente, passo fundamental para seu ocaso.

A equipe de Zingu! – editor, redatores e colaboradores – mapeou 15 filmes dos cineastas mais significativos da época e do gênero, muitos sob pseudônimo.

Estão reunidos aqui filmes de Raffaele Rossi e Laerte Calicchio, Roberto Mauro, José Mojica Maris, Alfredo Sternheim, José Miziara, Fauzi Mansur, Ody Fraga, Cláudio Cunha, Jean Garret, Tony Vieira, Juan Bajon, Mário Vaz Filho, Sady Baby e Renato Alves.

Como não poderia deixar de ser, a Zingu! 46 apresenta também suas colunas tradicionais: os dilemas da exibição dos filmes brasileiros; a complexidade do que é cinema brasileiro; um farol contemporâneo; a mítica trilha de Orfeu do Carnaval; e as beldades Soledad Miranda, Angelina Muniz e Thais Fersoza

E por fim, uma ótima notícia: a volta de Daniel Salomão Roque à equipe fixa de redatores da Zingu!.

Ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Farra e ressaca explícitas

Especial Boca Pornô – 30 Anos


Por Adilson Marcelino 

Tudo começou com um sucesso de escândalo, que depois se eternizou como grande filme, dirigido por um cineasta nascido no do outro lado do planeta. O título? O Império dos Sentidos; o nome do moço? Nagisa Oshima.

Considerado diretor dos então chamados Filmes de Arte, o japonês Nagisa Oshima balançou o coreto no mundo inteiro com seu O Império dos Sentidos, de 1976, que falava do encontro seminal entre um casal de amantes, tendo como pano de fundo os horrores da guerra.

E o que Kichizo (Tatsuya Fugi) e Sada (EikoMatsuda) fazem o tempo todo? Trepam desesperadamente e explicitamente. Ele como objeto passivo e obediente da sofreguidão insaciável dela. Era o sexo explícito invadindo a cena do cinema autoral em grande estilo, em cenas que ficaram no imaginário mundial, como Sada botando ovo e temperando a comida na vagina antes do guapo digeri-la.

Pronto! O filme foi proibidíssimo!

Mas aqui no Brasil, em plena ditadura, deu-se o famoso jeitinho. O filme foi liberado via mandado de segurança, garantido por brechas na legislação. E aí não teve jeito, fez um publicão. Esta foi a porta semiaberta para um novo filão que se abriu para produtores ávidos e advogados espertos, sobretudo na Boca do Lixo, em São Paulo, que cresceram o olhão.

Via garantia de exibição por mandados de segurança, produções explícitas começaram a pipocar, tendo em Raffaele Rossi e Laerte Calicchio com Coisas Eróticas, e Roberto Mauro com Viagem ao Céu da Boca, ambos de 1981, a primazia. Coisas foi lançado antes, passando à história como o primeiro filme brasileiro de sexo explícito lançado comercialmente nas telas. E, claro, arrebentou a boca do balão. Já Viagem, pela fauna desconcertante em foco – bandido, travesti, ninfomaníaca, criança, tortura -, levou pecha imediata de maldito, carimbo que resiste ainda hoje, mesmo que seja infinitamente superior ao arrasa-quarteirão de Rossi e Calicchio.

A bilheteria tilintando freneticamente mudaria por completo a bem-sucedida experiência de produção da Boca do Lixo, verdadeira geografia para filmes de gêneros diversos, desde que com a presença de vestais desnudas em situações eroticamente simuladas.

Lambendo os beiços diante da oferta, produtores e diretores da Boca do Lixo, mais os exibidores, refastelaram-se na onda do sexo explícito, já que também o público tinha mais possibilidades de escolha com o advento do vídeo cassete e parecia interessado em um tantão mais de pimenta, além do sexo simulado das velhas e boas pornochanchadas.

Filmes com sexo explícito foram sendo cada vez mais produzidos na Boca, não restando muita opção para quem reinava antes na agora chamada Velha Ordem. Com isso, as grandes musas debandaram e também grande parte do elenco de sustentação. Já boa parte dos cineastas migrou para o novo estado de coisas, ainda que sob pseudônimos; exceção para poucos, como Alfredo Sternheim, que assumiu sua assinatura em vários filmes do gênero, e Cláudio Cunha que dirigiu apenas um, o cult Oh! Rebuceteio.

Assistir paus e bocetas em plena atividade na telona com o atrativo irresistível de ouvir tudo na língua pátria pareceu mesmo ser o Ovo de Colombo, e nos primeiros anos o público compareceu em massa às salas. Daí, a Boca foi produzindo e produzindo rebentos.

O ritmo valia tanto para filmes dirigidos por veteranos como Jean Garret (J.A. Nunes), Fauzi Mansur (Rusnam Izuaf) , Tony Vieira (Mauri Queiróz); para cineastas que mudaram logo de lado, como Juan Bajon e Mário Vaz Filho; ou ainda para aqueles que já chegaram na nova onda, como Sady Baby e Renato Alves.

Claro, essa fase também revelou uma nova galeria de astros, com nomes revelados aí ou que atingiram o estrelato nesse momento: Débora Muniz, Sandra Midori, Sandra Morelli, Márcia Ferro, Aryadne de Lima, Shirley Benny, Oásis Minitti, Chumbinho.

Bom, como se diz, tudo que é bom acaba. E não foi diferente para esse modelo de produção. Aos poucos os filmes foram perdendo público, a produção foi se restringindo a guetos – Carlão Reinchebach acusa o fato dessa primeira fornada ter sido exibida nos grandes cinemas populares como uma das causas da aniquilação da produção da Boca – e os títulos produzidos foram minguando.

Foi o tiro de misericórdia na Boca do Lixo, que jamais voltou a se erguer, sepultando um passado de glória, quando era responsável pela produção e lançamento de grande parte dos filmes brasileiros. Essa derrocada, aposentou, precocemente, cineastas, técnicos e atores de talento e que regeram importante fase da história do cinema brasileiro.

Coisas Eróticas

Especial Boca Pornô – 30 anos

Coisas Eróticas
Direção: Raffaeli Rossi e Laerte Calicchio
Brasil, 1981.

Por Adilson Marcelino

Quando do seu lançamento em 1981, Coisas Eróticas causou sensação. Não era para menos, afinal era o primeiro filme brasileiro de sexo explícito lançado nos cinemas do país.

E daí toma cinemas lotados no centros das cidades, com muito marmanjo disputando à tapa uma cadeira vaga. E o pior – ou melhor para muitos – tendo que dividir espaço lado a lado no escurinho do cinema com outros barbados.

Mesmo na época, o elenco de moços e moças nas telas, com exceção de algumas beldades como Zaira Bueno, meio de paraquedas naquilo tudo, era um tanto tosqueira. Mas como não se impactar já na primeira cena, quando Oasis Minitti levanta do trono e se masturba no banheiro? Afinal, era sacanagem no estilo gente como a gente e, mais impressionante ainda, falada em português.

Como se sabe, o que abriu brecha para esse Coisas Eróticas entrar em cartaz em plena ditadura foi o uso do mesmo mecanismo de mandado de segurança que possibilitou o lançamento de O Império dos Sentidos, o filme dirigido por Nagisa Oshima que causou escândalo no mundo inteiro. Daí, foi impossível frear a onda do pornô, que a partir de novos mandados de segurança despejou inúmeros rebentos na praça, o que determinaria, principalmente, a derrocada da produção efervescente da Boca do Lixo, em São Paulo.

Coisas Eróticas foi apenas o primeiro de um filão que parecia inesgotável.

Coisas Eróticas é filme dividido em três episódios – primeiro e segundo dirigidos por Raffaele Rossi, e segundo por Laerte Calicho; com Rossi assinando também a produção.

O primeiro episódio não tem nome e começa exatamente com a cena de prazer solitário de Minutti. Bom, isso logo muda quando ele sai de carro e em um sinal conhece uma mulata voluptosa e sedutora. O começo até parece que vai dar namoro, com encontro à noite e convite para final de semana em família na chácara. Mas no final, o que vai rolar mesmo é cena de cama entre o casal de um lado, e amasso lésbico no banheiro entre a filha da dona do pedaço e a sua amiguinha. Depois de papar mãe e filha, ficamos sabendo que Minutti tinha sido apenas mais uma vítima da tara familiar.

O segundo episódio é o que dá nome ao longa e é dirigido por Caliccho. Em cena, a prática do swinger entre um casal chegado ao sexo masoquista e outro debutando na farra moderna da época. O sexo entre as moças é mostrado de forma generosa, já entre os moços só é mesmo insinuado, ainda que ouse em mostrar cena em que os varões se bolinam, com direito a mão na bunda por dentro da sunga e piadinhas sobre dedo duro.

Já o terceiro, novamente com direção de Rossi, chama-se Férias de Amor, e é o que conta com o elenco mais bonito, inclusive com presença da musa Zaira Bueno, que não entra na dança da genitália em ação e parece um tanto perdida ali naquele meio. Na trama, um bonitão que vai passar o final de semana na casa da namorada, e lá é seduzido por toda a família da moça – mãe e irmãs.

A trilha sonora desse Coisas Eróticas é um capítulo à parte, pois junta numa panela só como fundo musical para trepadas e amassos de diferentes quilates, uma inesperada Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá; a música-tema de Emmanuelle; a francesa Je T´Aime ma non Plus; e o romantismo dos Carpenters. Inacreditável!

Viagem ao Céu da Boca

Especial Boca Pornô – 30 anos

Viagem ao Céu da Boca
Direção: Roberto Mauro
Brasil, 1981.

Por Adilson Marcelino

Dirigido por Roberto Mauro, Viagem ao Céu da Boca é filme brasileiro explícito pioneiro da mesma época de Coisas Eróticas (1981), de Rafffaele Rossi, e que contém alguns nomes notáveis na ficha técnica, como Clóvis Bueno no cenário e figurinos – além de ser adaptação livre de conto de José Loureiro.

Como o filme de Rossi estreou antes, acabou passando à história como o primeiro título brasileiro de sexo explícito, Viagem ao Céu da Boca amealhou outros méritos, ainda que involuntários. Se Coisas Eróticas lotou as salas, e realmente era uma novidade desconcertante e altamente erótica na época ver, já na primeira cena, um cara se masturbando no banheiro e falando português que nem a gente, público na platéia, coube a esse Viagem a pecha instantânea de maldito, carimbo que resiste até os dias de hoje.

Realmente, mesmo 30 anos depois não se deglute facilmente o mostrado. Imaginem então naqueles tempos onde apenas o tatibitate já ouriçava os pelos de ponta a ponta? O foco de Viagem ao Céu da Boca não é mesmo brinquedo não, pois reúne toda uma fauna marginal por demais para a platéia ávida do nascente cinema pornô. Nesta fauna, que reúne bandido, uma dondoca ninfomaníaca, uma travesti e uma menina, o sexo e a violência imperam

A travesti Paula – Ângela Lecrely – é o grande destaque do filme e também a vítima maior de Nilo Barrão das Quebradas – Eduardo Black – um assaltante que invade a casa onde ela divide o espaço e também o marido de Mara – Bianca Blond. Entediado, Barrão circula para lá e para cá com seu jeans apertado revelando o documento volumoso entre as pernas. Depois de cismar pela cidade, passar os olhos nas manchetes dos jornais pregados nas bancas, ele inicia sua jornada de crimes: rouba um carro da companhia telefônica, exige que o dono do veículo se atire dele em movimento, e por fim bate à porta da casa de Mara para uma estadia de práticas violentas e sádicas.

Surpreendente e safadamente, a dondoca não aceita apenas ser assaltada, quer também ser currada pelo negão. Já ele, parece mais interessado é nos badulaques da casa kitch e modernosa, com janelas redondas, luminárias de todos os tipos e elementos fálicos presentes na decoração. Mas quando passa o deslumbre inicial, ele resolve mesmo é barbarizar, estendendo suas garras e intenções para a outra moradora do pedaço, a travesti Paula. É ela que será transformada no principal objeto do garanhão, sobretudo para humilhá-la, já que o desejo indesviável não pode ser assumido tão facilmente. Daí toma penetração com cano de revólver, alfinetada na bunda e roça a roça com Mara para deleite do voyeur sádico.

O circo já está mais que armado, mas aí novas surpresas surgem, como a aparição de uma menina de patins e em uniforme de escola, que será mais uma presa para satisfação sexual banhada em sangue de Barrão – como se vê, qualquer idéia de estatuto de criança e adolescente pareceria idéia de lunático sem o que fazer. Há ainda uma pomba-gira e por fim o algoz se transformando em vítima, inclusive de tortura oficial.

O cenário kitsch de Bueno é palco perfeito para as atrocidades do assaltante, que quase sempre escambam para o mau-gosto. Mas ainda assim tem algum humor involuntário, sobretudo na compulsão boqueteira de Mara e nas falas espirituosas de Paula – “No Brasil até bandido é moralista”.

Há também uma certa inquietação: se gays e lésbicas queremos ser vistos fazendo sexo com naturalidade, e é assim mesmo que tem que ser, com que direito nos empunhamos de certo asco quando essas cenas de sexo envolvem travestis? E mais, é assombrosa a construção fílmica em cima de um personagem que, torturado diariamente, também sonha com garbo com a tortura, não?

Viagem ao Céu da Boca é contra-indicado para a forma como se vê normalmente filme pornô, avançando as sequências. Isso porque em cada avanço, podemos esbarrar com paus em sangue sendo lambidos ou cano de revólver tomando o lugar do cujo, e aí se enfastiar de cara. Desconcertante até a medula, Viagem ao Céu da Boca precisa ser visto em seu tempo real, com começo, meio e fim, pois daí pode sair leituras possíveis – e a tortura particular e do Estado é uma delas – que sobrevivam em meio a esse desconforto.

Juventude em Busca de Sexo

Especial Boca Pornô – 30 anos

Juventude em Busca de Sexo
Direção: Juan Bajon
Brasil, 1983.

Por William Alves

Juan Bajon, como quase todos os chineses, é um camarada esperto. Logo no início do filme, os pais dos protagonistas se tornam vítimas fatais de um acidente de carro. Os filhos, acostumados à vida mansa, são obrigados a aceitar empregos de peão. Depois, a filha – interpretada pela voluptuosa Shirley Benny – é engravidada pelo filho do dono do supermercado onde trabalha, enquanto o irmão se apaixona por uma meretriz chave de cadeia. Sensibilizados os espectadores, Bajon tem, pois, seu pretexto perfeito para ancorar o resto da película em uma putaria sem arreios.

Embora não seja tão estarrecedor quanto alguns dos trabalhos subseqüentes do diretor (Seduzida por um Cavalo, Meu Marido Meu Cavalo, Duas Mulheres e um Pônei, títulos auto-explicativos), a cópula desenfreada é a única razão de ser desse Juventude em Busca de Sexo. A necessidade de mostrar todas as formas possíveis de fornicação, envolvendo tudo quanto é tipo de gente, anula qualquer tentativa de enredo verossímil.

O ano de produção denuncia muita coisa – 1983. É a derrocada dos roteiros e o triunfo da suruba na Boca do Lixo paulistana. Embora tenha estreado com um thriller policial (O Estripador de Mulheres, 1978), Bajon foi um dos mais prolíficos produtores de sexo explícito de todo o mundo.

Uma aflição específica caracteriza as mulheres de Juventude em Busca de Sexo. Tudo é pretexto para abrir as pernas. Nem mesmo uma praia pública em horário de pico é suficiente para intimidar as meninas, que parecem determinadas em satisfazer todos os homens do país no menor tempo possível. Seria essa uma homenagem de Bajon ao Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley?

O Analista de Taras Deliciosas

Especial Boca Pornô – 30 anos

O analista de taras deliciosas
Direção: Izuaf Rusnam (Fauzi Mansur)
Brasil, 1984.

Por Filipe Chamy

O analista de taras deliciosas não é um bom filme. Mas aparentemente poderia ser bem pior. Fauzi Mansur (ou Izuaf Rusnam, seu nome ao contrário, que adota como pseudônimo aqui) ao menos não tentou dar uma roupagem “sensual” ou “excitante” a algo que em essência é pastelão vagabundo com sexo explícito.

A coisa toda é uma paródia do célebre seriado Ilha da fantasia, com um homem vestido de branco e seu parceiro anão (o mítico Chumbinho) satisfazendo os desejos dos visitantes de seu refúgio. Não é difícil imaginar que tipos de desejos são esses, sendo o filme uma produção XXX realizada no ocaso da Boca do Lixo.

Na verdade, o filme é uma colagem de referências: de vampiros a faroeste spaghetti (Sartana “participa” de uma passagem, junto a Billy the Kid), de Elizabeth Taylor a nunexploitations, O analista de taras deliciosas é um amontoado de citações bizarras e realmente não muito engraçadas. O tratamento como sátira é interessante, mas o roteiro pedestre e a direção mambembe fazem a graça de tudo se esvair em seu conceito. Então é divertido e curioso saber essas “homenagens”, mas vê-las sendo desenvolvidas é um exercício desabonador e até meio agoniante.

E dá-lhe a “facilidade” de empregar músicas de 8 ½ e My fair lady, ou brincar de iconoclastia, deboche, sátira ou o que seja, quando o fato é que todo esse esqueleto só serve ao propósito de, mais uma vez, mostrar mil esquematizações sexuais e empobrecer qualquer tentativa de narrativa com “forçadas” tão absurdas e ridículas que é constrangedor presenciá-las. Um exemplo: uma das fantasias de um certo indivíduo era fazer sexo com Elizabeth Taylor. O homem diz que viu todos os seus filmes, a adora e venera; mas aparentemente isso não bastou para ele identificar uma sósia tão falsa quanto nota de meio dólar. Não se aplica aqui a lógica “irreal” da fábula ou da comédia, é nítido que isso é feito num espírito “vale tudo”, assumindo que o público do filme irá engolir qualquer coisa (e vejam a ironia da expressão), o que talvez seja verdade mas não dignifica os esforços de tosquice de Fauzi Mansur e toda sua equipe. E aí poder-se-ia acreditar que isso é uma crítica justamente ao falho caráter humano, pois todos acabam se contentando com mentiras, engodos, representações, apontando talvez para o interessante ponto de vista que escancara a futilidade das metas pessoais: no final das contas as pessoas se contentam com suas próprias fantasias, por mais risíveis e, não é tão redundante dizer, fantasiosas. Mas acreditar que esse comentário é mérito do filme é ter as coisas numa boa vontade assombrosa: é claro que qualquer achado nesse sentido é acaso da interpretação — O analista das taras deliciosas não tem qualquer pretensão em ser levado a sério e não gasta energias em transparecer um trabalho nesse sentido.

O que dizer de um filme que tem em seu elenco o Anão Chumbinho sendo “agraciado” com os favores de uma alegada enfermeira enquanto o “respeitável” médico elenca o rol de pacientes recém-chegados? Se é difícil encontrar forças para sorrir ante esse lamentável feito, dá para imaginar que o restante da obra não é muito melhor. E todas essas encenações, brincadeiras e farsas não são cômicas e nem criativas, pelo contrário, tomam carona em mil sucessos anteriores acreditando na certeza infelizmente quase sempre comprovada que um filme que zomba e referencia coisas famosas ou na moda deva merecer só por isso atenção e uma certa condescendência. Como se se acovardassem ante a própria fraqueza do trabalho e dissessem: “só damos o que o povo quer, o que o povo conhece”. É muito fácil se esconder por trás de desculpas que dizem respeito a uma situação social ou à estrutura do cinema no país. Difícil é fazer mesmo um bom filme. Só um bom filme.

Oh! Rebuceteio.

Especial Boca Pornô – 30 anos

OhRebuceteio

Oh! Rebuceteio.
Direção: Cláudio Cunha
Brasil, 1984.

Por Gabriel Carneiro

Corro o risco de ser injusto e leviano, mas, me parece, que há sempre, dentro de um gênero, um grande filme entre grandes e pequenos. Ainda que discorde, parece ter se assumido o filme de sexo explícito como gênero. Dito isso, Oh! Rebuceteio. me parece ser o grande filme de sexo explícito feito no Brasil, ao menos entre os que vi dos anos 80. Realizado em 1984, logo no começo da febre pelo cinema pornô, e único do diretor Cláudio Cunha (de outros filmaços como Amada Amante), Oh! Rebuceteio. está muito a frente de seus congêneres justamente por saber explorar as características marcantes do gênero a seu favor, e não apenas porque faz parte de um conjunto de filmes.

A particularidade do filme de sexo explícito é, obviamente, o uso de cenas de sexo explícito ao longo do filme. Pois bem: é nisso que Oh! Rebuceteio. se sobressai. O sexo explícito está tão arraigado no cerne do filme quanto qualquer outro elemento, diferentemente do que era feito na época, quando as cenas de sexo eram apenas intervalos comerciais para a história, geralmente muito parecida às das pornochanchadas. Nisso, Cunha fez um metafilme, em que jamais poderia existir enquanto cinema sem as cenas. No longa, um diretor teatral busca fazer a peça mais solta e instintiva possível, fugindo de amarras morais. O improviso surge então em cenas belíssimas de um sexo gráfico pueril, que está além da sacanagem, ainda que seja esta o principal objetivo.

A cada ensaio, a cada exercício, mais os atores se soltam, e mais prazer tomam disso. A bem da verdade, pouco importa as bobagens que o diretor, interpretado pelo próprio Cunha, diz: as explicações de teatro terapêutico, psicológico e afins, são apenas subterfúgios para uma ilustração do pretendido, uma mentira branca, feita sem a menor noção do que está sendo falado. É a explicação para o público embarcar na história, mas que, convenhamos, não faz a menor diferença.

Se o filme narra a trajetória de um diretor para fazer a peça mais libertária de seus dias, do teste de elenco à apresentação, são as belamente fotografadas e montadas cenas de descobrimento do prazer luxurioso que ganham contorno de maestria. Acho que o sexo explícito nunca foi tão bem filmado quanto no filme de Cunha, todo requintado em termos de luz e quadro, sem cair na frenética dos filmes contemporâneos, e sem a vantagem de duas câmeras – lembremos, era tempo de película ainda, de 35mm, e não das facilidades do digital.

Rabo I

Especial Boca Pornô – 30 anos

Rabo I
Direção: José Miziara
Brasil, 1985.

Por Daniel Salomão Roque

Na mesa de um restaurante em São Paulo, quatro mulheres conversam animadamente acerca das suas aventuras sexuais. Os flashbacks, então, nos dão conta de parafilias, fetiches, adultérios e trepadas coletivas que se sucedem num crescente tom de bizarrice. Rabo I, uma das tantas investidas de José Miziara no cinema de sexo explícito, é um filme grotesco que se assume como tal. O verdadeiro protagonista da fita não é o falo de um ator ou a genitália peluda de uma moça qualquer, mas o garçom interpretado por Rony Cócegas, que se excita com as histórias narradas e ao fim das quais sempre tenta – sem sucesso – se masturbar no banheiro do estabelecimento.  

Isso, no final das contas, explica muita coisa. A presença constante de um ícone do humor popular brasileiro não é fruto do acaso, tampouco decorre apenas das necessidades mercadológicas vigentes: ela expressa, sobretudo, uma certa concepção da pornografia e da comédia, marcada pelo entrelaçamento de ambos os gêneros com vistas a atingir os extremos do pastelão e do duplo sentido.

O sexo, em muitos pornôs da Boca, é uma ode ao nonsense, e Rabo I não constitui exceção. Aqui, as transas são sempre anedóticas, de uma vulgaridade berrante e não raras vezes monstruosa – ao mesmo tempo, parece inexistir qualquer intenção de excitar o espectador. Seu elenco canastrão de mulheres flácidas e homens desdentados é pavoroso, e somos levados a nos interessar mais pelo absurdo das situações que pelo ato sexual em si.

Se fazer do sexo um mero pretexto para tiradas grosseiras esvazia o filme de qualquer potencial erótico, por outro lado confere a ele alguns outros matizes que sem dúvida o tornam menos repulsivo. Miziara, dentre outras coisas, nos mostra com todos os detalhes uma sessão de swing na qual um dos casais é composto por um travesti e um cachorro, mas não induz nenhum vínculo de cumplicidade entre a platéia e os personagens. As pessoas simplesmente trepam: a mulher se decepciona com as reduzidas proporções penianas do travesti e este, por sua vez, lhe adverte que o dito cujo “só subirá quando o Brasil pagar a dívida externa”, recomendando em seguida que a moça passe um tempo com seu amante de quatro patas.

Achamos tudo muito engraçado. Ou não. Mas certamente passamos longe da idéia de experimentar qualquer coisa parecida, pois as aventuras narradas em Rabo I estão muito mais próximas da piada suja que do conto erótico, e seu efeito físico mais imediato é o riso – não a ereção.

Banho de Língua

Especial Boca Pornô – 30 anos

Banho de Língua
Direção: Maury Queiróz (Tony Vieira)
Brasil, 1985.

Por Leo Pyrata

Banho de Língua é um filme de sexo explícito dirigido por Mauri Queiroz em 1985. O filme começa com uma entrevista de emprego em que o patrão ardiloso e populista no seu trato tenta resolver a entrevista no tato e é repelido pela mocinha . Ela conhece outras garotas desempregadas procurando oportunidades de trabalho que também só encontram segundas intenções da parte dos patrões. Depois ficamos conhecendo os personagens que completam a história. O Playboy e seus companheiros curtindo uma tarde de lancha com uma garota dopada pronta pro sexo selvagem com o vencedor do par ou impar, produzindo a foda abre-alas do filme bucólica e quase romântica. Conhecemos também uma mãe preocupada com a filha menor tentando arrumar trabalho. Não demora e a mocinha do filme vai procurar emprego justamente na casa do playboy. Em pouco tempo ela está dopada, é currada e abandonada inconsciente na beira de um lago pelo playboy e um companheiro Depois acaba caindo na vida com as amigas.

Surgem os clientes, o vizinho rico, a boate e tem até desfile de escola de samba. Elas se estabelecem e rolam orgias com velas acesas e espanadores no rabo de outros rapazes de forma performática. Ai a mocinha que foi currada no começo resolve ir disfarçada novamente atrás de emprego na casa do playboy. Só que dessa vez ela não toma o copo de boa noite cinderela e ainda sim entra novamente no sanduíche do playboy e seu companheiro no final do filme.

Banho de Língua é um explicito sobre relação de classes. São impagáveis as cenas do vizinho recebendo seu show ali de camarote do seu zigurate, depois de presentear as moças e se divertindo à distancia, dando ordens pra elas pelo telefone enquanto testemunha pela fresta de sua janela o banho de língua das meninas. Não ocorre a vingança da moça contra o playboy e como estão as coisas ficam.

O que falta em Banho de Língua é justamente um banho de sangue. O final conciliador aborrece o espectador que tenha depositado suas fichas numa possível vendetta. Confesso que entendo que uma puta matadora de sacanas filhos da mãe daquele não seria uma mensagem muito bem digerida pra quem fosse assistir o banho de língua na época. Acaba que o filme promete mais do que entrega mesmo, provavelmente porque o explicito como novo momento do cinema da Boca era uma realidade que não entusiasmava as pessoas envolvidas nas produções por verem aquele momento com muitas ressalvas. Faziam as concessões que o mercado exibidor exigia para continuarem trabalhando com o cinema, porém sem o esmero para satisfazer uma minoria de publico que ainda se importasse com o filme em si naquele momento. O que não impede de ressaltar as qualidades da trilha sonora e apontar outros bons momentos do filme como a cena em que as garotas fazem um showzinho na piscina pro vizinho. E o momento que a atriz vira parara câmera e reclama da vida de artista é impagável. Vale também por ser um dos poucos filmes do Tony Viera que temos acesso pela internet