Entrevista: José Lopes

Dossiê Toni Cardi

 

Entrevista com José Lopes 

Por Matheus Trunk

Foto: Beto Ismael (www.pornochancheiro.blogspot.com)

São 70 anos de vida e mais de 40 dedicados a sétima arte. José Lopes, o Índio, viveu diversos momentos cruciais da história do cinema paulista. O versátil ator trabalhou em diversos longas-metragens com diversos realizadores. Num primeiro momento, liguei para ele durante a semana. Mas Lopes negou-se a dar declarações por telefone. “Passa na galeria essa semana que a gente conversa”, respondeu com seu usual sotaque baiano.

Alguns dias depois, nos encontramos num bar da galeria Boulevard, no centro. Esse é o local em que a velha guarda do cinema se reúne diariamente. Sem qualquer problema, conversamos sobre Toni Cardi, amigo que Índio não vê há anos.

 

Zingu!– Como você conheceu o Toni Cardi?

José Lopes- Olha, o Toni Cardi já era galã quando eu conheci ele. Inclusive, ele trabalhou em vários filmes do Mazzaropi, fazendo quase sempre esse tipo de papel. Nós estivemos juntos no O Grande Xerife. Ele era um grande cartaz, acredito que depois do Mazza ele fosse a maior estrela do longa. 

Como foi o relacionamento entre vocês?

JL- O Toni Cardi é um grande amigo e nós sempre nos demos bem. Hoje, ele está no interior e acredito que ele esteja muito bem, porque ele merece. Ele sempre foi um molecão, sabe? (risos). Então, muitas vezes ele aprontava com o pessoal. Mas aprontava numa boa. Não era algo para denegrir ou humilhar ninguém. 

Z- Você se lembra de algum episódio engraçado dele?

JL- Sim. Lembro que lá na fazenda do Mazza todo mundo arrumava com todo mundo. Uma vez, ele pegou o meu colchão, ensopou tudo com água e depois colocou o cobertor por cima. Depois, quando eu pulei na cama só foi água que voou (risos). 

Z- O que você achava do Toni ator?

JL- Além de ser um cara legal e brincalhão, ele era um bom ator. Amigo e era um bom tipo pra cinema. Acontece que nos filmes do Mazzaropi só tinha espaço para uma estrela: o próprio Mazza. Ele era o dono do negócio e um grande comediante. Então, fica difícil pros outros atores aparecerem muito. Verdade seja dita: eu acredito que o Mazzaropi seja um dos melhores no segmento dele no cinema brasileiro, senão for no mundo. 

Z- No Grande Xerife teve uma confusão e ele acabou saindo antes do filme. Você se lembra disso?

JL- Foi uma besteira. O Toni era um cara educado com todo mundo. Eu sei que um dia a equipe estava jantando. Parece que ele pediu um negócio pro cozinheiro e o pessoal da cozinha começou a fazer onda. Quero deixar bem claro que o Mazzaropi não fazia questão de comida, só que o empregado dele tinha umas frescurinhas. O cara não quis dar e o Toni Cardi se invocou, jogou o prato e fez uma confusão. Nisso, ele saiu do filme. Daí pra cá, não sei se ele andou fazendo mais algumas coisas. Esse imprevisto realmente aconteceu com ele. Mas todo mundo gostava dele lá no Mazzaropi. Só que o cara se desentendeu e ele estava de saco cheio. 

Z- Você lembra como era o relacionamento dele com o Pio Zamuner?

JL- Se davam bem. O Pio tinha trabalhado em várias produções com o Mazza. Mas o Pio você conhece bem, é aquele italianão estouradão, né? Ele até hoje é assim. Mas esse desentendimento naquele filme foi uma besteira e tudo bem. 

Z- Ele chegou a fazer alguns trabalhos com o Tony Vieira. Você chegou a acompanhar como era o relacionamento dos dois?

JL- Sei que antes da Boca ir acabando, o Toni foi pro interior e começou a mexer com imobiliária. Inclusive, ele vendeu um terreno pro Tony num lugar além de Campinas. Os dois se chamavam de xará e se gozavam. O Toni se deu bem graças a Deus, foi pro interior e está bem de vida. Eu sei que ele fez vários trabalhos. São essas coisas, vai passando o tempo e a gente vai esquecendo uma porção de coisas. Mas o que eu tenho que afirmar é que o Toni Cardi é um puta de um cara legal, não é mau ator. Era um puta de um tipo. Como colega de trabalho e fora, é uma pessoa muito decente. Ele que fez certo, saiu antes da bucha pegar fogo (rindo). 

Papo Furado com Toni Cardi

Dossiê Toni Cardi

 
 
 

Dedé Santana e Toni Cardi em cena de Os Irmãos sem Coragem (1972)

Papo Furado com Toni Cardi 

Por Matheus Trunk

Como Toni Cardi é um personagem especial do cinema brasileiro, Zingu! pediu que ele respondesse a esse questionamento. O ator deu sua opinião sobre algumas pessoas que fizeram parte de sua trajetória artística e recomendou um diretor, uma musa e um herói.
 

David Cardoso: Galã aquático. Era assim que eu e Chico Di Franco chamava-o após ele produzir filmes na praia. 

Dedé Santana: “Meu largo e profundo amigo”, (expressão muito usada por ele). É um irmão camarada, grande companheiro.

Marlene França: A fogosa. Minha irmãzinha do coração, morreu praticamente esquecida da mídia. Uma pena.

Ozualdo Candeias: O Professor. Antipático para muitos, para mim, excelente camarada.

Pio Zamuner: O italianinho. Figura maravilhosa, mesmo após algumas cervejas, pilotava uma câmera como ninguém.

Raffaele Rossi: Rafa, o culpado por eu trilhar nesta vida de malucos, “a sétima arte no Brasil”.

Um diretor: Cecil B. de Mille

Uma musa: Shirley MacLaine

Um herói: Nelson Mandela

 

Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 

Reflexos em película: As rainhas estão nuas
 

A televisão brasileira, de modo geral, apresenta um nível baixíssimo. 

Não vou falar do que representa essa situação, e nem dos fatores históricos envolvidos, ou mesmo de eventuais maneiras de mudar esse quadro. O que acontece é que a televisão brasileira não só é consumida por gente, digamos, “simplória” das ideias como também é feita por gente assim. 

É fácil em qualquer site ou revista “de fofoca” encontrar uma entrevista com alguma atriz em evidência na telinha, e a pergunta virtualmente mais recorrente é a sobre nudez. “Você teria problemas em filmar cenas nua? Toparia aparecer nua numa novela?” etc. 

A resposta mais recorrente é: “se a personagem exigir”. E suas variações: “depende do contexto”, “se for importante para a história”, “se não for uma cena gratuita”. 

Contrariamente a isso tudo, temos o cinema brasileiro sendo conhecido como um antro de “putaria”, de esbórnia, de mulher pelada. O que é essa discrepância e o que ela significa? 

A meu ver, essa questão da nudez é muito mal entendida. Essas atrizinhas televisivas gostam de aparentar classe, refinação e pudor, mas, quando muito, soam apenas ridículas: o que seria nudez “gratuita” ou “fora de contexto”? Havendo a personagem, toda cena com ela é “importante” para sua história. 

Carlos Reichenbach é um dos que zombam desse moralismo de fachada. Não com agressão gratuita (agora sim a palavra é adequada), mas com inteligência. A primeira cena de Garotas do ABC, por exemplo, traz a bela atriz Michelle Valle (Aurélia Schwarzenega) completamente nua em seu quarto, dançando e simultaneamente colocando suas roupas; primeiro a calcinha, depois a calça, em seguida a blusa. Então arruma os cabelos, e pronto. O que há de “apelativo” (outro termo impróprio usado à exaustão) nisso? O que pode ser mais natural que uma garota nua em seu quarto, ouvindo música enquanto se troca? É um naturalismo incrível e ainda assim cotidiano, esse que Reichenbach apresenta. É nudez, nudez sincera e nudez exposta, nudez da verdade da personagem, porque assim ela é. Também o seria caso o filme mostrasse a garota no banho, ou masturbando-se no banheiro, ou o que quer que fosse. Por que exigir uma hipócrita camada de respeitabilidade no que é, em essência, tão comum e habitual? Que dogmatismo é esse que as intérpretes televisivas evocam em suas entrevistas quando falam de cenas “importantes”, “não gratuitas” e “contextualizadas”? O que não seria assim? O que elas pretendem com essas declarações esdrúxulas? 

Porque aí chegamos também na estranha contradição: algumas atrizes protegem-se virginais contra a exposição de seus corpos na televisão e não fazem esse charminho no cinema, onde revelam intrépidas o esplendor de sua nudez. Exemplos não faltam: a desinibida Paola Oliveira de Entre lençóis, a outrora recatada Carolina Dieckmann mostrando os seios em Onde andará Dulce Veiga? e agora, parece, Camila Pitanga em Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios — filme que já vem sendo muito comentado justamente pelas cenas com a moça despida. 

Talvez Pedro Cardoso, em seu controverso “manifesto” contra a exploração da nudez em fitas nacionais, não estivesse tão errado assim. É que há um certo jogo de interesses na valorização ou depreciação de nudez (sobretudo feminina, a que discuti) nas artes brasileiras. Ou então talvez haja uma tremenda cultura de subserviência cega ao estrangeiro e depreciação pura e simples do nacional, para tantas críticas infundadas e incoerentes. Ou, o mais provável, há ignorância e gente ignorante sempre se intrometendo. 

Musas Eternas

Brigitte Bardot

Por Filipe Chamy
           

Brigitte Bardot não faz um filme há quase quarenta anos. 

No entanto, segue firme como um ícone, uma lenda, um arquétipo. 

Na verdade, ela é talvez a maior prova do que o cinema pode eternizar enquanto arte. A Brigitte Bardot lembrada, reverenciada e (ainda) amada é a jovenzinha de ar petulante misturado a uma sórdida candura, os dentes separados dando o tom de um sorriso franco, intenso, marcante. 

Todos sabemos que hoje Brigitte Bardot é uma reclusa senhora que beira os oitenta anos e que vive para proteger animais – por meio, aliás, de sua fundação, em atividade há já vários anos. Também são notórios os processos em que se envolve por, alegadamente, fomentar preconceitos raciais e étnicos. E o que dizer de seu suposto reacionarismo político, sua aproximação com a direita extrema francesa e seu desprezo aparente pela maior parte das pessoas? 

Nada disso importa muito. Brigitte Bardot foi um cometa que riscou o céu do cinema, não adianta mais apontar telescópios para cima: o astro já passou. 

Fenômenos como essa francesa, nascida em 1934 numa família tradicional da classe média burguesa, não são fáceis de explicar. Até hoje há quem não a ache uma grande beleza – na década de 1950, um jornalista descreveu sua figura como detentora de um “físico de empregadinha”-, pouco ou nada talentosa, uma farsa inventada pela mídia e superestimada pela imprensa. Ou apenas “um rostinho bonito”. Ou uma vulgar prostituta, vendendo seu corpo a cada filme. 

Brigitte Bardot sempre uma estrela ao contrário: não gostava de enfeitar-se com joias e roupas caras e pomposas, odiava holofotes e câmeras apontados para ela e preferia ficar em sua casa com seus amigos e bichos do que num set de filmagem, ou numa coletiva ou evento social qualquer. Isso lhe valeu a fama de esnobe e caprichosa que, de certo modo, mantém até hoje. 

Mas é digna de admiração a forma como chegou ao estrelato. Ao contrário de tantas estrelas forjadas, Brigitte começou timidamente, como discreta protagonista de filmes de qualidade duvidosa ou, mais ativamente, como coadjuvante (às vezes, quase figurante) em produções de nomes respeitáveis como Sacha Guitry, René Clair e Anatole Litvak. Aos poucos foi, com seu carisma insuperável, galgando degraus na escada da fama – também por algumas pequenas incursões em publicidade; o que, aliás, a levou ao cinema – e despontando finalmente com o hit mundial E Deus criou a mulher, dirigido por seu então marido Roger Vadim. A sensualidade espontânea da jovem garota de pouco mais de vinte anos conquistou o mundo, e filmes como Desfolhando a margarida, em que faz uma encantadora menina “maluquinha” (um de seus papéis recorrentes nessa fase), confirmam que a aposta do planeta não estava errada: Brigitte Bardot era um achado. 

Com a hipocrisia reinante no mundo pré-feminismo “institucionalizado”, Brigitte era execrada pela Igreja, pelos “cidadãos de bem”, pelas mães zelosas, pelas esposas fiéis, enfim, por toda a moralidade vigente. É difícil hoje mensurar o impacto que BB (suas famosas iniciais) causou na sociedade de então, com a exibição de sua nudez em filmes, suas fotos e ensaios sensuais, seus hábitos progressistas de usar biquínis diminutos, fazer topless e ter vários maridos e amantes. Não que sua vida seja um exemplo de consciente liberação feminina; muitas de suas opções foram casuais, ou mesmo equivocadas, mas seu desejo de ser honesta a si mesma criou, como esperado, muitas inimizades para a controversa jovem vedete do cinema francês e mundial. Suas fitas eram tidas por “luxuriosas”, muitas agressões foram sofridas em diversas localidades por ela estar sempre associada ao “mal” e ao “pecado”, e muitos homens a usaram, muitos diretores a exploraram, muitos repórteres a importunaram. Sua vida pessoal era devassada, sua privacidade, destruída. Seus momentos de intimidade eram fotografados, vendidos a mil jornais e revistas, deturpados e “sensacionalizados” pelo jornalismo marrom. Não é muito diferente do que se vê hoje, com facilidade, nas perseguições dos paparazzi e público descontrolado a gente como Justin Bieber, Miley Cyrus, Taylor Lautner. Os astros da moda, que o pessoal segue por imposição midiática e falta de referência, sem hesitar, sem dar trégua. 

Mas BB não era farinha desse saco. Não tinha a vaidade ridícula desses artistas improvisados, e essa violência a agredia, a constrangia, a deixava desgostosa e contrariada. Foi esse o germe para sua decisão de se aposentar do cinema, precocemente, aos trinta e oito anos. 

De qualquer modo, a moça segue fazendo muitos filmes durante todos os anos cinquenta, e sua década seguinte veria uma filmografia mais ambiciosa, em que diretores legendários se acotovelam para tê-la em suas produções. 

O primeiro filme dessa fase mais determinada, na qual se mostra mais madura como intérprete, é o clássico instantâneo A verdade, do “mão de ferro” Henri-Georges Clouzot, filme que arrebatou público e crítica logo em sua estreia em 1960 – época em que Brigitte se via às voltas com o nascimento do primeiro e único filho, Nicolas, cujo pai foi seu segundo marido, o hoje não muito lembrado ator Jacques Charrier. 

Seguem seus encontros com Louis Malle, em três fitas: Vida privada, em que dividia a cena com ninguém menos que Marcello Mastroianni, obra melancólica sobre os tormentos da celebridade; Viva Maria!, farsa western com Jeanne Moreau, em que se diverte, canta e sensualiza; e William Wilson, um dos segmentos de Histórias extraordinárias, filme baseado em textos de Edgar Allen Poe que contava ainda com episódios de Federico Fellini e de seu ex-marido Roger Vadim (agora dirigindo sua atual companheira, Jane Fonda).

 Enquanto isso, em 1963, ocorre a parceria mais inusitada do cinema francês de então: Brigitte Bardot e Jean-Luc Godard! A estrela clássica e o diretor iconoclasta, juntos em um filme que contaria ainda com Michel Piccoli, Jack Palance e Fritz Lang (!). Tratava-se, claro, de O desprezo. BB adorava o romance de Alberto Moravia, mas hesitava em filmar com Godard — que queria tratar a história a sua maneira, realizando tantas modificações que no final das contas dava a impressão de ter utilizado outra fonte. O filme é hoje muito justamente um clássico, tido entre os melhores filmes de Godard, ou talvez o melhor isolado. Em O desprezo há crítica social, referências cinéfilas, brincadeiras metalinguísticas e toda a irreverência que marcou a fase mais aceita de Godard. 

Apesar de ainda fazer comédias “inconsequentes”, romances formulaicos e filmes “leves”, alguns filmes que Brigitte faz nessa época vão mais a fundo em sua vida e, por vezes, parecem relatos autobiográficos: por exemplo, a amante acusada e julgada por todos em seu comportamento “imoral” em A verdade não era senão ela, com tentativas de suicídio semelhantes às que praticava na vida fora das telas, com a mesma incompreensão generalizada e a mesma zombaria de quem a taxava de rapariga e, no entanto, não conseguia olhar para ela sem imaginar e desejá-la nua; do mesmo modo, a celebridade perseguida e acossada pela fama em Vida privada também era a jovem BB, eterna caça alvo dos olhares atentos de todo o planeta. 

Brigitte sempre gostou de cantar e também lançou álbuns de música em seus anos de maior popularidade. Durante esses anos sessentistas, firmou uma grande dupla com o mitológico Serge Gainsbourg, e juntos fizeram História com obras como Comic strip, Bonnie and Clyde e Harley Davidson; além, é claro, de Je t’aime moi non plus, talvez a canção mais famosa de Gainsbourg, que ficou engavetada por anos e anos — para não comprometer seu terceiro casamento, com o playboy Gunther Sachs —, até ser lançada na voz da nova companheira do compositor, Jane Birkin. 

Bem no final da década, BB faz um dos filmes que mais lhe encheram de orgulho: O urso e a boneca, do grande e subestimado Michel Deville. Temperamental, ela se orgulha em dizer que foi uma das filmagens mais tranquilas por que passou, e que fez grandes amigos na produção — entre eles o também grande e subestimado Jean-Pierre Cassel, seu co-star. Brigitte Bardot entrava na década de 1970, e poucos anos e filmes a separam de seu voluntário ocaso cinematográfico. 

Menos de meia dúzia de trabalhos após O urso e a boneca e BB encerraria definitivamente sua participação na indústria cinematográfica. Seus últimos filmes não foram felizes: quase todos fracassos na concepção e na bilheteria, ela teria entre seus últimos momentos de atriz encontros com Annie Girardot (As noviças), Claudia Cardinale (Les petroleuses) e Jane Birkin (Se Don Juan fosse mulher, de seu ex-marido e eterno amigo Vadim). 

Incomodada com sua carreira, com o ofício que exercia e com a constante monitoração da imprensa sobre sua vida pessoal, Brigitte Bardot dá um adeus definitivo à vida pública em 1973. De lá para cá só apareceu em eventos sociais específicos, programas televisivos esporádicos e mobilizações determinadas, quase sempre motivada pelo seu desejo de conscientizar as pessoas sobre a terrível sorte dos animais, os inúteis sacrifícios de que são vítimas constantemente e a necessidade de tratá-los de maneira mais digna e sustentável. Nessas ocasiões, acompanha-se do quarto marido, com quem divide a vida há quase vinte anos. 

BB ainda é um enigma. O que se sabe dela são seus rumorosos (e numerosos) casos românticos, com Jean-Louis Trintigant, Sacha Distel, Gilbert Bécaud e muitos outros famosos ou anônimos, suas casas e chalés que ficaram conhecidos mundialmente, seu firme e polêmico posicionamento nas causas em que se envolve e sua extrema popularidade durante certos anos no cinema francês e mundial. Porém, o que se sabe da mulher? Os recentes livros que escreveu aos poucos vão ligando os pontos. E deixando claro que se nunca foi uma santa, também é inadequadamente trajada de demônio, devoradora de homens, mulher de vida fácil. 

É fácil apontar o dedo para os outros. Brigitte Bardot é a prova viva de que às vezes a pior hipocrisia é condenar quem leva a vida que você inveja. 

Nossa Canção

Por Edu Jancz

Ponteio, Domingo no Parque, Alegria Alegria, Roda Viva – músicas que marcaram uma geração – em Uma Noite em 67
 

Vi e vivi os Festivais da Record. Costumo dizer que eles têm, que eles devem ter o status de um “movimento” da MPB – Música Popular Brasileira.

O documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, registra não apenas os últimos momentos do Terceiro Festival de Música da Record. Ele testemunha  uma história de qualidade, realidade, alegria, participação popular e magia centrada num país a caminho de uma Ditadura violenta, estúpida e ultrajante – que se diplomou com a assinatura do Ato Institucional número 5, pelo general Arthur da Costa e Silva, em 13 de dezembro de 1968.

Embasado pelas imagens da TV Record – deliciosos documentos –  Uma Noite em 67, começa com  Edu Lobo e Marília Medalha cantando a música vencedora desse Festival: Ponteio, de Edu Lobo e Capinan:

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro… 

Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar:
“Ô você, de onde vai
de onde vem?
Diga logo o que tem
Pra contar”… 

Não era somente Edu Lobo que tinha algo para contar. Gilberto Gil, com Domingo no Parque, segundo lugar do Festival, provou que uma letra social podia ser simples e ter, ao mesmo tempo, um arranjo sofisticado: 

O rei da brincadeira
Ê, José!
O rei da confusão
Ê, João!
Um trabalhava na feira
Ê, José!
Outro na construção
Ê, João!… 

A semana passada
No fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde
Saiu apressado
E não foi prá Ribeira jogar
Capoeira!
Não foi prá lá
Pra Ribeira, foi namorar… 

O jovem Chico Buarque, num ato que parecia premonitório,  não foi namorar e cantou os tempos difíceis e de resistência que o povo brasileiro precisaria viver para manter sua dignidadade. A música, Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu… 

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá … 

Caetano Veloso, desenhando os primeiros passos da Tropicália,  retoma a bandeira da esperança  e exalta seu mais límpido desejo de Alegria, Alegria

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou… 

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou… 

Uma Noite em 67 é um documento exemplar. Nas imagens gravadas pela TV Record, você vai curtir o clima emocionado e participativo nesses Festivais. Como tempos difíceis se aproximavam, boa parte do público encontrou naquele auditório a sua tribuna livre. Torciam fervorosamente pelas músicas prediletas. Vaiavam músicas que “pareciam não pertinentes ao momento político-social”. Como a música Beto Bom de Bola, de Sérgio Ricardo, incidente que culminou com Sérgio “perdendo a cabeça”, aos gritos acusando o público: “Vocês venceram”, quebrando e arremessando o violão na platéia. 

O que me emociona em Uma Noite em 67 é perceber o grau de intensidade com que o público ali presente queria se manifestar. Participar! Havia uma disputa mesclada de sinceridade e paixão – com todos os excessos da paixão. Uma efervescência no palco, entre os jurados, no auditório que tinha um grau de festa popular e  liberdade de expressão. Que há muito não vejo. 

Depoimentos atuais dos principais participantes desta Uma Noite em 67, Solano Ribeiro, Sergio Cabral (o pai), Zuza Homem de Mello, Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Caetano Veloso,  ampliam a nossa compreensão do que foi aquele momento e de como esses artistas entendem o legado para o século 21. 

 

 

 

 

 

 

O Grande Xerife – Texto II

Dossiê Toni Cardi

 

O grande xerife
Direção: Pio Zamuner
Brasil, 1972. 

Por Edu Jancz
  

O argumento de O Grande Xerife é de Amácio Mazzaropi  e do escritor e roteirista Marcos Rey.

Tive o prazer de conhecer Marcos Rey nas Bienais do Livro. No final de março de 1999 – alguns dias antes de sua morte –  tive o privilégio de estar em sua casa. Claro que a conversa girou sobre literatura. Com  algum tato, perguntei do Marcos Rey roteirista. Donde ele me contou um encontro de trabalho entre ele e o velho Mazza.

Disse que Mazza o recebeu  vestindo um elegante robe de chambre. De um dos bolsos tirou um pacote de notas e passou ao escritor. Estava saldando um roteiro aprovado. Assim era o Mazza, pagava só e somente com dinheiro vivo. Nada de cheque ou depósito em conta.  Marcos saiu preocupado por estar com um pacote de dinheiro. Felizmente, nada aconteceu.

O Grande Xerife é outro exemplar de faroeste caboclo à moda Mazzaropi. No início, tal como nos westerns americanos ou italianos, um cavaleiro solitário cavalga por uma planície. Ele é Inácio Pororoca (Mazza), um simples chefe do Correio, valente, corajoso, viúvo, pai da Mariazinha. E um dos moradores mais antigos da Vila do Céu.

Nem tudo corre bem por lá. Um bando, sob a tutela  de João Bigode, espalha o terror na região, roubando e matando. Inclusive, o xerife é assassinado. Com a cidade sem uma autoridade legal, o prefeito, o dono do banco e alguns fazendeiros resolvem eleger Inácio Pororoca para o cargo. Não por acreditar em sua capacidade. Mas na esperança de que ele fosse rapidamente eliminado pelo bando de celerados, visto Inácio saber alguns “podres” dos donos do poder.

Inácio Pororoca é daquele matuto tinhoso, sem medo e disposto a não fugir de uma boa briga. Armado de uma espingarda com cano torto – para atingir bandidos que fugiram por uma esquina, ele vai levar sua luta adiante.

Em determinado momento, quando sabe que os bandidos vão atacar uma fazenda, Inácio pede ajuda da população. Um a um, os homens negam. Dizem estar ocupados. Tal como Gary Cooper em Matar ou Morrer ele parece estar só. Parece!

Em O Grande Xerife o tom de farsa predomina o tempo todo. O humor praticado por Mazza e seus personagens é simples, popular e lembram o fazer circense.

As cenas de luta e tiroteios permeiam o filme de ponta a ponta. Filmadas com grande habilidade pelo diretor Pio Zamuner

Toni Cardi aqui tem um papel de coadjuvante segunda linha e  interpreta o capataz Júlio. De início parece o mocinho, cena seguinte, ele está com o bando de João Bigode. É um personagem dúbio, traíra, instável e inconfiável. O que permite ao ator um bom exercício de interpretação.

O Grande Xerife – Texto I

Dossiê Toni Cardi

 

O grande xerife
Direção: Pio Zamuner
Brasil, 1972. 

Por Filipe Chamy 

 

Que O grande xerife é uma paródia, parece bem claro. 

Não chega a ser nada tão evidente quanto certas comédias da mesma época – o próprio Mazzaropi havia atuado num filme onde já no título aparecia um “Djeca” -, mas todo o filme é centrado mesmo na ideia de brincar com os clichês consagrados do faroeste como o conhecemos. 

Apesar da premissa pouco animadora (tendo em vista a extrema limitação das paródias), O grande xerife não faz nada tão feio. É uma brincadeira, e, todavia, uma brincadeira saudável, trazendo um tipo de iniciativa que até hoje parece meio tabu no cinema brasileiro: o filme de gênero. 

O faroeste aqui é rural, com jeito roceiro e cujas diligências não passam de charretes, as cidades de fronteira são em verdade zonas de lavoura e a criação é mais de animais domésticos de pequeno porte que de grandes manadas e rebanhos para corte, venda e afins. Quer dizer: aqui se trata de brincar de “releiturar” as convenções do western com elementos típicos do Brasil; mais ou menos o que Mojica já praticava há alguns anos, com o terror e o cinema de insinuação de violência. 

Para coroar o absurdo da coisa, o herói da vez é um improvisado carteiro, feito pelo mítico Mazzaropi. Homem de pavio curto, humilde, ignorante, mas firme, incorruptível e muito vivo, Inácio Pororoca recebe a incumbência de defender a pequena cidade de Vila do Céu de uma corja de malfeitores desembestados, liderados pelo famigerado João Bigode. Ligando o lado “bom” e o “mau” dos personagens, está Júlio, feito pelo nosso homenageado Toni Cardi: o insuspeitável capataz da primeira fazenda atacada no filme é na verdade o leva-e-traz dos bandidos, que faz do jogo duplo uma segunda natureza. A mocinha da vez é enredada em seus encantos e “o grande xerife” terá a missão também de acabar com essa ilusão, desmascarar o agente maligno infiltrado na paz daquela gente simples e impor de vez na comunidade uma decência e moralidade de que, no fundo, ele próprio duvida. Porque é ele quem, com suas tiradas espirituosas, seu comportamento inegavelmente iconoclasta, subverte a lógica falsamente heroica da estruturação tradicional dos bangue-bangues; então quando Inácio Pororoca olha desconfiado para o capataz e alerta sobre o perigo de se confiar naquele homem, é preciso entender que não é uma falha do roteiro deixar a situação inalterada até muito depois; é simplesmente mais um giro na tradição, com Mazzaropi (quem diria!) salvando a situação no final após ter bagunçado a reputação viril desse tipo de narrativa ao confrontar João Bigode, Júlio e demais crápulas com uma trupe de mulheres valentes que, na ausência da determinação e coragem masculinas, arregaçam as mangas dos vestidos e vão à luta endireitar as coisas. 

A subversão ultrapassa a diegese do filme: o tão atacado Mazzaropi, o alegado reacionário autor de fitas comerciais ocas, é quem dá a voz às mulheres no cinema tupiniquim dos anos setenta, sob o disfarce de uma fantasia em faroeste e sob a ironia de ser uma fita passada em outra “realidade” que não a nossa. Digamos logo que O grande xerife é um pastiche, mas não esvaziado de política e de comentários críticos e precisos sobre mazelas sociais de seu tempo, travestidas de entretenimento raso e diversão descompromissada. 

O grande xerife arrisca troçar de cânones, celebrar o anti-heroísmo e questionar a natureza dos símbolos, com uma figura bizarra (Mazzaropi) cumprindo a mesma função de um Gary Cooper, um John Wayne — talvez apenas com um acréscimo de irreverência. Não é pouca ambição, reconheçamos.

Pedro Canhoto, O Vingador Erótico

Dossiê Toni Cardi

Pedro Canhoto, o Vingador Erótico
Direção: Raffaele Rossi
Brasil, 1974.

Por Rodrigo Pereira

Em 1972, à procura de áreas para lotear na região de Ribeirão Bonito, no interior paulista, o corretor imobiliário Moacir Maurício chegou até a cidade de Dourado. Na padaria onde entrou para comer algo, deparou-se com um mexicano – não de verdade, mas desses de cinema, gorducho, com poncho, chapelão e bigode com pontas em caracol. Perguntou se ele tinha fome e, diante da resposta afirmativa, lhe pagou um lanche. Papo vem, papo vai, descobriu não se tratar de um mendigo excêntrico, e sim de um ator de Pedro Canhoto, faroeste que vinha sendo rodado na cidade havia dois anos. O “mexicano” Nestor Lima levou Moacir à casa onde ele e seus colegas de elenco estavam hospedados. E contou que aguardavam o retorno do diretor Raffaele Rossi, italiano radicado no Brasil, e do astro da película, o piracicabano Irineu Antonino Travalini, artisticamente conhecido como Toni Cardi. Os dois tinham partido em busca de um produtor disposto a investir o dinheiro necessário para conclusão do filme.

A energia elétrica da casa fora cortada por falta de pagamento, e não havia mais comida para a equipe. Emocionado com o sonho daquelas pessoas, o corretor abasteceu a dispensa da casa, deu dinheiro a Nestor para que pagasse a conta de luz e voltou para Ribeirão Bonito. Umas três semanas depois, surgem em seu escritório Nestor Lima e o diretor Raffaele Rossi. Este veio lhe restituir o dinheiro gasto com a equipe. Cassiano Esteves, dono da distribuidora Marte Filmes, na Rua dos Gusmões, em São Paulo, aceitara investir em Pedro Canhoto e as filmagens podiam enfim recomeçar – foi a primeira produção de Cassiano Esteves, responsável nos anos seguintes por mais 50 filmes da Boca do Lixo. O intérprete de Rodrigo, filho do vilão coronel Martinez, havia assumido outros compromissos artísticos durante a paralisação das filmagens e não poderia retornar de imediato. Moacir Maurício tinha o mesmo tipo físico do artista ausente e foi por isso convidado a participar de algumas cenas, de costas, sem mostrar o rosto. O Rodrigo original acabou não voltando e o corretor assumiu de vez o papel, fazendo assim sua estreia no cinema – ele rodaria apenas outros dois filmes, ambos também da E. C. Produções Cinematográficas, produtora criada por Cassiano Esteves para Pedro Canhoto.

Essa historieta de bastidores, quase anedótica, mostra bem como se deu a realização desse pastiche nacional de western spaghetti – um exemplar daquilo que a imprensa nacional começava a chamar, pejorativamente, de “westerns feijoada”. Em função da falta de recursos, Pedro Canhoto resultou num filme “remendado”. E se isso compromete a qualidade, por outro lado confere a obra um aspecto bárbaro, selvagem, que dificilmente poderia ser alcançado intencionalmente. A ação se passa na região do fictício povoado de Santa Clara de La Sierra, na fronteira dos Estados Unidos com o México. A mando do coronel Martinez (Cavagnole Neto), os capangas do mercenário apelidado de General (José Velloni) matam a família de Pedro (Toni Cardi). Este acaba capturado por Rodrigo (Moacir Maurício) e pelos homens do General, que o torturam, esmagam os dedos de sua mão direita e deixam-no amarrado para morrer. Um velhinho mexicano (Nestor Lima) passa por ali com seu burrico e consegue libertar o “gringo”. Com a mão direita toda enfaixada, o personagem-título aprende a atirar com a esquerda e parte para o acerto de contas. Se junta a ele um mendigo (Nivaldo Lima) que testemunhara o massacre da família de Pedro – na verdade, trata-se de um temido pistoleiro que havia abandonado a vida de crimes.

As referências aos westerns spaghetti começam pela trilha sonora que se apropria sem cerimônia de temas musicais como os de Por um Punhado de Dólares (1964) e O Dólar Furado (1965). À época, a coletânea O Melhor do Bang-Bang à Italiana fazia enorme sucesso nas lojas de disco do Brasil; é provável que as músicas ouvidas em Pedro Canhoto tenham sido extraídas diretamente dos sulcos daquele LP (há apenas uma composição original, por sinal composta pelo corretor imobiliário convertido em ator, Moacir Maurício). Num rápido flashback, quando o mendigo relembra os homens que já matou, vemos um duelo inspirado no final de Três Homens em Conflito (1966): o personagem de Nivaldo Lima enfrentando o de Heitor Gaiotti, em participação especial, num cemitério. Gaiotti, vale lembrar, se parecia fisicamente com Lee Van Cleef e costumava encarnar um tipo malandro nos westerns feijoada de Tony Vieira – bem aos moldes do Tuco vivido por Eli Wallach naquela obra-prima de Sergio Leone. O esmagamento dos dedos do herói busca reproduzir uma das duas seqüências mais marcantes de Django (1966) – a outra é a da metralhadora no caixão, claro. Também vem do clássico dirigido por Sergio Corbucci a inspiração para as cenas nas quais o sádico General manda seus capangas torturarem a amante dele, Mariana (Adélia Coelho), que nadava nua num lago.

O intérprete do General, aliás, foi outro ator colocado no filme já com as filmagens avançadas. Vereador em Ribeirão Preto, José Velloni havia atuado com o astro de Pedro Canhoto, Toni Cardi, em algumas comédias de Mazzaropi. E aceitou o convite dele para substituir o primeiro General, um italiano que era dono da academia de judô onde Toni Cardi treinava em São Paulo, no oitavo andar do Edifício Martinelli. Durante uma das várias interrupções da filmagem, Giovanni viajou até sua Itália natal e não voltou mais. Foram aproveitados apenas alguns takes nos quais aparecia de costas, com o traje militar, ou a cavalo junto com seu bando. É impactante a seqüência em que o General, sentado numa escadaria e bebendo vinho, ri de forma doentia enquanto “observa” seus homens espancando Pedro – claramente, as cenas de José Velloni na escadaria e as de Toni Cardi levando pancada foram rodadas em momentos distintos.

Atos nojentos de comer e beber são recorrentes em Pedro Canhoto, do General deixando escorrer vinho pelos cantos da boca ao mendigo que suja a própria barba enquanto come feito um animal o prato de arroz que ganhou. Cenas assim contribuem para dar ao filme um tom bizarro, quase surrealista. O cenário de fachadas de madeira também caminha nessa linha, parecendo mais uma cidade cenográfica do que uma cidade propriamente dita. E os bandidos, recrutados entre os lutadores que treinavam junto com Toni Cardi na academia de Giovanni, completam a galeria de imagens grotescas da fita – entre eles, merece destaque o nissei Kazuachi Emmi, com seus 117 quilos e 1,80 metros, na pele de um índio-mexicano.

Cassiano Esteves resolveu lançar Pedro Canhoto com o subtítulo de O Vingador Erótico, provavelmente para se aproveitar do fato de que outro western feijoada – Gringo, o Último Matador (1973), de Tony Vieira – vinha sendo exibido em algumas praças com o título alternativo de Gringo, o Matador Erótico. No cartaz, em vez de usar alguma das cenas de Toni Cardi com o cabelo loiro – “Fiz tanta descoloração e pintura durante esse período que quase fico careca”, lembra o galã –, o produtor preferiu uma foto de… Lee Van Cleef (!!). Nenhuma dessas estratégias de marketing impediu o fracasso de Pedro Canhoto, o Vingador Erótico, lançado em São Paulo no dia 6 de junho de 1974. Os planos de Toni Cardi e Raffaele Rossi para outros filmes com o personagem foram deixados de lado. Embora o ator tenha vivido com garra uma série de personagens marcantes na carreira, nunca mais voltou a protagonizar um filme. Quanto ao cineasta, ele só emplacaria um grande sucesso de bilheteira oito anos depois, com Coisas Eróticas (1982) – o primeiro filme nacional de sexo explícito a ser liberado pela censura no Brasil. Mas isso, como todos sabem, já é outra história.

 

Rodrigo Pereira é jornalista e pesquisador. Escreveu com Daniel Camargo e Fábio Vellozo a biografia Anthony Steffen – A Saga do Brasileiro que se Tornou Astro do Bangue-Bangue à Italiana (Matrix, 2007). Atualmente prepara o livro-reportagem Faroeste Caboclo – Filmes de Cangaço e Westerns Made in Brazil, baseado em sua dissertação de mestrado, Western Feijoada: o Faroeste no Cinema Brasileiro (2002).

 

Fora das Grades

Dossiê Toni Cardi

Fora das Grades
Direção: Astolfo Araújo
Brasil, 1971.

Por Adilson Marcelino

Há na cinematografia brasileira uma penca de cineastas que foi jogada de lado por grande parte da crítica.

Pura injustiça!

O paulista Astolfo Araújo é um desses nomes.

Astolfo Araújo, nascido em Ribeirão Preto, sempre andou em grande companhia: foi assistente de direção de A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos; fundou a Data Cinematográfica com Rubem Biáfora; roterizou Profissão: Mulher (1982), de Cláudio Cunha.

Em sua carreira de produtor e cineasta, dirigiu apenas cinco filmes de ficção, sendo dois deles notáveis. E políticos do cóccix até o pescoço: As Armas (1969) e Fora das Grades (1971).

No centro da ação de Fora das Grades está, acima de tudo, um tom trágico da condição humana. E aqui, paira no ar muito do clima em que se vivia do lado de fora, não das grades, mas na vida real mesmo, onde a repressão rolava solta e sem freios. Afinal, estamos nos sangrentos Anos de Chumbo.

Na trama, Sérgio Hingst, o Profeta de um tipo de albergue para deliquentes, vê a cidade do alto e proclama para seus súditos que ela os vê como sombras, mas que é para jamais eles se esquecerem que são gente. Vez ou outra, um daqueles marginais desce para o asfalto para pequenas trapaças ou mesmo assassinatos, mas acabam sempre voltando para aquele estranho lugar que, eles acreditam, os protege.

Já lá em baixo, na cidade, Luigi Picchi cruza o portão depois de 10 anos trancafiado. Pousa em um hotel barato, onde come seu pão dormido, e vive promessa de amor com uma cantora decadente da noite interpretado por Joana Fomm. E, vez ou outra, faz um assalto aqui, tenta um roubo acolá, e ainda tenta fugir de um tipo policial que o quer como informante.

Fora das Grades, que também tem argumento e roteiro de Araújo, tem vários momentos impactantes: Joana Fomm loira cantando na espelunca e sequestrando o olhar de Picchi; Liana Duval como outra cantora decadente dançando com Fomm e recebendo achaques de Roberto Maya – Prêmio Governador do Estado de São Paulo de Atriz Coadjuvante; Francisco Cúrcio com sua dignidade ultrajada; Luigi Picchi em atuação inesquecível. Toni Cardi faz pequena participação como um dos presos em uma briga.

Até o Último Mercenário

Dossiê Toni Cardi

AteoUltimo_Mercenario

Até o Último Mercenário
Direção: Penna Filho.
Brasil, 1971.

Por Gabriel Carneiro

Buscando capitalizar ainda mais em cima do sucesso que O Vigilante Rodoviário foi, tanto na TV quanto no cinema, o produtor Ary Fernandes resolveu reunir mais uma vez o combo ‘Carlos Miranda + polícia’, dessa vez entregando a direção às mãos do então novato Penna Filho. Até o Último Mercenário narra a história de Capitão Carlos, que sai investigando um grande acidente ocorrido entre contrabandistas, e se vê metido nas agruras do mundo militar/policial. Capitão Carlos é, claro, interpretado por Carlos Miranda, o nosso típico policial nobre. No elenco, ainda estão Marlene França, Bentinho e Toni Cardi, como membros do grupo de mercenários sem escrúpulos.

É muito curioso ver um filme como Até o Último Mercenário que, apesar das muitas explosões, tiros, e afins, mais parece um longa infanto-juvenil, pela maneira romântica com que o ofício militar é abordado, num viés claramente maniqueísta, em que o exército está lá apenas para fazer o bem e os bandidos são apenas malvados. Não há interesse, no roteiro ou na direção, em dar mais substância ao personagem, além dos tradicionais clichês, com um herói bem definido, que passa por poucas e boas, tentando salvar a pseudo-namorada (é evidente que gostam um do outro, mas sequer se beijam), o irmão dela e o mundo inteiro das garras daqueles bandidos odientos. Isso tudo é reforçado pelo uso de marchas militares como trilha sonora que não condizem em nada com as cenas de ação, quase numa auto-chacota – o que deixa certamente o trabalho mais interessante.

Esse aspecto é quase uma afronta com o que acontecia na época. Realizado durante a ditadura militar, no governo Médici, Até o Último Mercenário reforça apenas estereótipos pró-governo, quase numa propaganda escancarada sobre o exército. É de se entender que, sem tantas imagens institucionais, o filme dificilmente sairia o papel e a força comercial do longa justificava esse apadrinhamento, porém é difícil engolir o que parece ser uma história tão boba – o herói Carlos Miranda repete apenas o que fez dele famoso, em O Vigilante Rodoviário, mas sem o mesmo carisma, culpa de seu próprio personagem -, e sem qualquer maior preocupação estética.