O Grande Xerife – Texto I

Dossiê Toni Cardi

 

O grande xerife
Direção: Pio Zamuner
Brasil, 1972. 

Por Filipe Chamy 

 

Que O grande xerife é uma paródia, parece bem claro. 

Não chega a ser nada tão evidente quanto certas comédias da mesma época – o próprio Mazzaropi havia atuado num filme onde já no título aparecia um “Djeca” -, mas todo o filme é centrado mesmo na ideia de brincar com os clichês consagrados do faroeste como o conhecemos. 

Apesar da premissa pouco animadora (tendo em vista a extrema limitação das paródias), O grande xerife não faz nada tão feio. É uma brincadeira, e, todavia, uma brincadeira saudável, trazendo um tipo de iniciativa que até hoje parece meio tabu no cinema brasileiro: o filme de gênero. 

O faroeste aqui é rural, com jeito roceiro e cujas diligências não passam de charretes, as cidades de fronteira são em verdade zonas de lavoura e a criação é mais de animais domésticos de pequeno porte que de grandes manadas e rebanhos para corte, venda e afins. Quer dizer: aqui se trata de brincar de “releiturar” as convenções do western com elementos típicos do Brasil; mais ou menos o que Mojica já praticava há alguns anos, com o terror e o cinema de insinuação de violência. 

Para coroar o absurdo da coisa, o herói da vez é um improvisado carteiro, feito pelo mítico Mazzaropi. Homem de pavio curto, humilde, ignorante, mas firme, incorruptível e muito vivo, Inácio Pororoca recebe a incumbência de defender a pequena cidade de Vila do Céu de uma corja de malfeitores desembestados, liderados pelo famigerado João Bigode. Ligando o lado “bom” e o “mau” dos personagens, está Júlio, feito pelo nosso homenageado Toni Cardi: o insuspeitável capataz da primeira fazenda atacada no filme é na verdade o leva-e-traz dos bandidos, que faz do jogo duplo uma segunda natureza. A mocinha da vez é enredada em seus encantos e “o grande xerife” terá a missão também de acabar com essa ilusão, desmascarar o agente maligno infiltrado na paz daquela gente simples e impor de vez na comunidade uma decência e moralidade de que, no fundo, ele próprio duvida. Porque é ele quem, com suas tiradas espirituosas, seu comportamento inegavelmente iconoclasta, subverte a lógica falsamente heroica da estruturação tradicional dos bangue-bangues; então quando Inácio Pororoca olha desconfiado para o capataz e alerta sobre o perigo de se confiar naquele homem, é preciso entender que não é uma falha do roteiro deixar a situação inalterada até muito depois; é simplesmente mais um giro na tradição, com Mazzaropi (quem diria!) salvando a situação no final após ter bagunçado a reputação viril desse tipo de narrativa ao confrontar João Bigode, Júlio e demais crápulas com uma trupe de mulheres valentes que, na ausência da determinação e coragem masculinas, arregaçam as mangas dos vestidos e vão à luta endireitar as coisas. 

A subversão ultrapassa a diegese do filme: o tão atacado Mazzaropi, o alegado reacionário autor de fitas comerciais ocas, é quem dá a voz às mulheres no cinema tupiniquim dos anos setenta, sob o disfarce de uma fantasia em faroeste e sob a ironia de ser uma fita passada em outra “realidade” que não a nossa. Digamos logo que O grande xerife é um pastiche, mas não esvaziado de política e de comentários críticos e precisos sobre mazelas sociais de seu tempo, travestidas de entretenimento raso e diversão descompromissada. 

O grande xerife arrisca troçar de cânones, celebrar o anti-heroísmo e questionar a natureza dos símbolos, com uma figura bizarra (Mazzaropi) cumprindo a mesma função de um Gary Cooper, um John Wayne — talvez apenas com um acréscimo de irreverência. Não é pouca ambição, reconheçamos.

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