Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 

Reflexos em película: As rainhas estão nuas
 

A televisão brasileira, de modo geral, apresenta um nível baixíssimo. 

Não vou falar do que representa essa situação, e nem dos fatores históricos envolvidos, ou mesmo de eventuais maneiras de mudar esse quadro. O que acontece é que a televisão brasileira não só é consumida por gente, digamos, “simplória” das ideias como também é feita por gente assim. 

É fácil em qualquer site ou revista “de fofoca” encontrar uma entrevista com alguma atriz em evidência na telinha, e a pergunta virtualmente mais recorrente é a sobre nudez. “Você teria problemas em filmar cenas nua? Toparia aparecer nua numa novela?” etc. 

A resposta mais recorrente é: “se a personagem exigir”. E suas variações: “depende do contexto”, “se for importante para a história”, “se não for uma cena gratuita”. 

Contrariamente a isso tudo, temos o cinema brasileiro sendo conhecido como um antro de “putaria”, de esbórnia, de mulher pelada. O que é essa discrepância e o que ela significa? 

A meu ver, essa questão da nudez é muito mal entendida. Essas atrizinhas televisivas gostam de aparentar classe, refinação e pudor, mas, quando muito, soam apenas ridículas: o que seria nudez “gratuita” ou “fora de contexto”? Havendo a personagem, toda cena com ela é “importante” para sua história. 

Carlos Reichenbach é um dos que zombam desse moralismo de fachada. Não com agressão gratuita (agora sim a palavra é adequada), mas com inteligência. A primeira cena de Garotas do ABC, por exemplo, traz a bela atriz Michelle Valle (Aurélia Schwarzenega) completamente nua em seu quarto, dançando e simultaneamente colocando suas roupas; primeiro a calcinha, depois a calça, em seguida a blusa. Então arruma os cabelos, e pronto. O que há de “apelativo” (outro termo impróprio usado à exaustão) nisso? O que pode ser mais natural que uma garota nua em seu quarto, ouvindo música enquanto se troca? É um naturalismo incrível e ainda assim cotidiano, esse que Reichenbach apresenta. É nudez, nudez sincera e nudez exposta, nudez da verdade da personagem, porque assim ela é. Também o seria caso o filme mostrasse a garota no banho, ou masturbando-se no banheiro, ou o que quer que fosse. Por que exigir uma hipócrita camada de respeitabilidade no que é, em essência, tão comum e habitual? Que dogmatismo é esse que as intérpretes televisivas evocam em suas entrevistas quando falam de cenas “importantes”, “não gratuitas” e “contextualizadas”? O que não seria assim? O que elas pretendem com essas declarações esdrúxulas? 

Porque aí chegamos também na estranha contradição: algumas atrizes protegem-se virginais contra a exposição de seus corpos na televisão e não fazem esse charminho no cinema, onde revelam intrépidas o esplendor de sua nudez. Exemplos não faltam: a desinibida Paola Oliveira de Entre lençóis, a outrora recatada Carolina Dieckmann mostrando os seios em Onde andará Dulce Veiga? e agora, parece, Camila Pitanga em Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios — filme que já vem sendo muito comentado justamente pelas cenas com a moça despida. 

Talvez Pedro Cardoso, em seu controverso “manifesto” contra a exploração da nudez em fitas nacionais, não estivesse tão errado assim. É que há um certo jogo de interesses na valorização ou depreciação de nudez (sobretudo feminina, a que discuti) nas artes brasileiras. Ou então talvez haja uma tremenda cultura de subserviência cega ao estrangeiro e depreciação pura e simples do nacional, para tantas críticas infundadas e incoerentes. Ou, o mais provável, há ignorância e gente ignorante sempre se intrometendo. 

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