Fora das Grades

Dossiê Toni Cardi

Fora das Grades
Direção: Astolfo Araújo
Brasil, 1971.

Por Adilson Marcelino

Há na cinematografia brasileira uma penca de cineastas que foi jogada de lado por grande parte da crítica.

Pura injustiça!

O paulista Astolfo Araújo é um desses nomes.

Astolfo Araújo, nascido em Ribeirão Preto, sempre andou em grande companhia: foi assistente de direção de A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos; fundou a Data Cinematográfica com Rubem Biáfora; roterizou Profissão: Mulher (1982), de Cláudio Cunha.

Em sua carreira de produtor e cineasta, dirigiu apenas cinco filmes de ficção, sendo dois deles notáveis. E políticos do cóccix até o pescoço: As Armas (1969) e Fora das Grades (1971).

No centro da ação de Fora das Grades está, acima de tudo, um tom trágico da condição humana. E aqui, paira no ar muito do clima em que se vivia do lado de fora, não das grades, mas na vida real mesmo, onde a repressão rolava solta e sem freios. Afinal, estamos nos sangrentos Anos de Chumbo.

Na trama, Sérgio Hingst, o Profeta de um tipo de albergue para deliquentes, vê a cidade do alto e proclama para seus súditos que ela os vê como sombras, mas que é para jamais eles se esquecerem que são gente. Vez ou outra, um daqueles marginais desce para o asfalto para pequenas trapaças ou mesmo assassinatos, mas acabam sempre voltando para aquele estranho lugar que, eles acreditam, os protege.

Já lá em baixo, na cidade, Luigi Picchi cruza o portão depois de 10 anos trancafiado. Pousa em um hotel barato, onde come seu pão dormido, e vive promessa de amor com uma cantora decadente da noite interpretado por Joana Fomm. E, vez ou outra, faz um assalto aqui, tenta um roubo acolá, e ainda tenta fugir de um tipo policial que o quer como informante.

Fora das Grades, que também tem argumento e roteiro de Araújo, tem vários momentos impactantes: Joana Fomm loira cantando na espelunca e sequestrando o olhar de Picchi; Liana Duval como outra cantora decadente dançando com Fomm e recebendo achaques de Roberto Maya – Prêmio Governador do Estado de São Paulo de Atriz Coadjuvante; Francisco Cúrcio com sua dignidade ultrajada; Luigi Picchi em atuação inesquecível. Toni Cardi faz pequena participação como um dos presos em uma briga.

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