Estou com Aids

Especial A Aids no Cinema Brasileiro

 

Estou com Aids
Direção: David Cardoso
Brasil, 1986.

Por Adilson Marcelino

A década de 1980 revelou para o mundo uma das maiores tragédias do nosso tempo: A Aids. Ainda hoje sem cura, mesmo que com tratamentos avançados que prolongam a vida dos infectados com o vírus HIV, a Aids vem ceifando vidas no mundo inteiro, independente de idade, classe social, raça e identidade sexual.

Mas no princípio, a ciência e a sociedade apontavam, equivocadamente,  os tais grupos de risco: homossexuais masculinos, prostitutas, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos. E os homossexuais, principalmente, foram os que mais sofreram, na pele e no preconceito, já que a Aids era chamada, inclusive, de câncer gay.

O filme Estou com Aids, produzido pela Dacar Filmes, de David Cardoso, é pioneiro na abordagem sobre o tema nos nossos cinemas, aliando ficção e documentário. Cardoso dirige e também comanda a cena no filme, já que é o entrevistador que sai a campo para ouvir médicos, psicólogos, anônimos, artistas e celebridades sobre o assunto.

Há em Estou com Aids toda a imperfeição de algumas produções mais pobres da Boca, sobretudo a estética descuidada, sem o famoso recurso da criatividade para driblar as dificuldades – não se pode perder de vista que foi um filme realizado totalmente de forma independente por Cardoso, que, inclusive, apostou que seria um sucesso, mas resultou em tremendo fracasso de público.

 O roteiro de Luiz Castillini é implacável com os personagens, para os quais a única saída é a morte. E esse fator é, inclusive, potencializado pela direção no uso exagerado da maquiagem. Mas é necessário salientar que David Cardoso, como repórter, vai em busca de diferentes fontes na época e tenta se manter neutro diante dos entrevistados, ainda que sua expressão facial pareça querer traí-lo.

Daí, temos tanto o esperado discurso alarmado de Pedro de Lara quanto um inesperado da cantora Alcione que joga a culpa nas costas nos turistas estrangeiros de olhos azuis.

Na parte ficcional da trama, o destaque fica com a personagem de Débora Muniz, uma empregada doméstica que é infectada pelo patrão bissexual. Durante o filme, acompanhamos sua tragédia, desde a perda do emprego, a recusa de abrigo da família no interior e seu final anunciado.

Estou com Aids é filme conduzido com mão pesadíssima, mas jamais deixa de ser interessante – além da importãncia pelo seu pioneirismo no cinema brasileiro.

Mágoa de Boiadeiro

Dossiê Jair Correia

Mágoa de Boiadeiro
Direção: Jeremias Moreira Filho
Montagem: Jair Correia
Brasil, 1978.

Por Adilson Marcelino

Na década de 1970, o cineasta Jeremias Moreira Filho fez parceria com o cantor Sérgio Reis em dois filmes rurais inspirados em músicas sertanejas de sucesso: Menino da Porteira (1976) e Mágoa de Boiadeiro (1977).

Só que ao contrário de Menino da Porteira, que foi um grande sucesso de público – e marcou a volta do cineasta mais de trinta anos depois com um remake -, infelizmente Mágoa de Boiadeiro não repetiu o sucesso da dobradinha.

Pura injustiça, pois Mágoa de Boiadeiro é filme rural dos mais interessantes.

O roteiro de Benedito Ruy Barbosa, um craque nesse universo e que depois focalizaria a ruralidade em novelas de sucesso, é inspirado na música homônima de Índio Vago e Nonô Basílio.

Na trama, Sérgio Reis é Diogo, um condutor de boiada que vê o crepúsculo de sua profissão, de seu grupo e de toda uma cultura arraigada no campo com a chegada do transporte de gado em frotas de caminhões.

Há ainda um entrecho amoroso com o galã sendo disputado por Malu Rocha e Maria Vianna, e mais o embate com o proprietário da frota que quer modernizar o transporte de bois em busca de mais lucros e menos riscos.

Tanto Benedito Ruy Barbosa quanto Jeremias Moreira Filho conhecem de perto o universo retratado, e por isso o tempo todo particular que marca o campo é evidenciado não só na história e na direção como também na apropriadíssima montagem assinada por Jair Correia.

Há na história lugar para a graça de Zé Coqueiro, mas há sobretudo uma amargura com o destino inexorável de final de toda uma cultura, restando para os aboiadores o exílio involuntário do campo. Seja para os festivais de rodeios, para outros lugares como o Pantanal, ou ainda mesmo para o subemprego nas cidades.

Mágoa de Boiadeiro é filme melancólico sobre toda uma cultura dizimada pelo chamado progresso.

A Aids sob a lente do cinema

Especial A Aids e o Cinema Brasileiro

 

Por Adilson Marcelino

 

Como bem argumentou o pesquisador Carlos Alberto de Carvalho no artigo exclusivo para a Zingu! Memória e esquecimento da Aids  no filme Cazuza, o tempo não para, muito rapidamente o cinema se debruçou o tema. E brilhantemente, ele discorre sobre esse recorte, desaguando em considerações sobre o filme dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho.

Agora quando o recorte é quantidade de produções em longas, principal carro-chefe da produção,  nesses mais de 30 anos desde o surgimento da Aids, aí a situação não é nada atraente.

Se compararmos com outras tragédias que assolaram a humanidade,  como a peste negra, as grandes guerras mundiais, o holocausto,  e suas representações no cinema mundial, quando o assunto é Aids, o que se pode constatar é que o número de produção de filmes é bem inferior, sobretudo no campo de longa-metragem de ficção. Ou pelo menos do que chega até nós no circuito comercial.

Nesse universo nos lembramos de cara de filmes como  Mauvais Sang (1986), de Leo Carax, Filadélfia (1993), de Jonathan Demme,  Antes do Anoitecer (2000), de Julian Schnabel.

No cinema brasileiro não é diferente.

Desde o pioneiro docudrama produzido e dirigido por David Cardoso em 1986, Estou com Aids, com pouquíssima constância o tema resultou em longas de ficção no cinema nacional. E mesmo quando o formato é documentário em longa, quase sempre essas produções ficam confinadas nas TVs  Educativas.

Sérgio Bianchi foi outro pioneiro com seu interessante Romance (1988), perfeito representante do talento e do estilo cru e certeiro do cineasta.

Nelson Pereira dos Santos, considerado por muitos como o mais importante cineasta brasileiro vivo, foi dos poucos diretores do primeiro time que abordaram o tema. E ele fez isso elegantemente no subestimado Cinema de Lágrimas (1995).

Já nos anos 2000, foi a vez de chegar às telas a grande produção Carandiru (2003), de Hector Babenco, e a biografia Cazuza, o tempo não para (2004), de Sandra Werneck e Walter Carvalho.

Dentre os documentários, vale ressaltar O Olhar Triste (1995), de Olívio T. de Araújo, Positivas (2009), de Susanna Lira, e Dzi Croquettes (2010 – foto), de Tatiana Issa e Rafael Alvarez.

Todos esses longas estão focalizados nesse especial da Zingu! A Aids e o Cinema Brasileiro.

Um diretor de respeito

Especial Jece Valadão Cineasta

 

Por Adilson Marcelino

 

Jece Valadão faleceu no dia 26 de novembro de 2006 – seu nascimento foi  em 24 de julho de 1930, em Campo dos Goitacazes, no Rio de Janeiro. Portanto, são cinco anos sem o talento desse personagem importantíssimo para a história do cinema brasileiro.

A assinatura de ator que Jece Valadão construiu em torno de sua pessoa é tão forte que muitos se lembram dele mais imediatamente no universo da atuação. E não é para menos, pois Jece marcou presença em dezenas de filmes e trafegou pelas mais diferentes fases do cinema brasileiro: chanchada, Cinema Novo, Boca do Lixo, Cinema Marginal, era Embrafilme, cinemas dos anos 80 e Retomada.

Com isso, muitos se esquecem que Jece Valadão foi produtor importantíssimo, não só produzindo seus próprios filmes como de tantos outros cineastas em filmes que protagonizou. Exemplos imediatos? Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra, Mineirinho Vivo ou Morto (1967), de Aurélio Teixeira, Navalha na Carne (1974), de Braz Chediak, Eu Matei Lúcio Flávio (1979), de Antonio Calmon. Sua Magnus Filmes é capítulo indesviável na filmografia brasileira, sobretudo no cinema policial.

Agora quando é a carreira de cineasta, aí é que Jece é menos citado, ainda que tenha dirigido 16 filmes. E filmes de destaque como A Lei do Cão (1967), A Noite do Meu Bem (1968), O Matador Profissional (1969), Obsessão (1973), Nós, Os Canalhas (1975) e Os Amores da Pantera (1977).

Em tantos deles fazendo dobradinha com sua musa, e esposa na época, Vera Gimenez, Jece Valadão construiu uma carreira de cineasta de valor e que merece ser mais conhecida e citada.

É o que a Zingu! procura fazer nesse especial ao lançar foco sobre 8 filmes significativos de sua trajetória como diretor.

O Olhar Triste

Especial A Aids no Cinema Brasileiro

 

O Olhar Triste
Direção: Olívio T. de Araujo
Brasil, 1995.

Por Adilson Marcelino

 

Não foi nada fácil ser homossexual, prostituta, usuário de drogas injetáveis e hemofílico nos anos 1980. Não que não seja quase sempre, mas ali foi o epicentro em que a Aids surgiu como câncer gay, cujo vírus era transmitido via sangue e sexo. E o elenco acima era o acusador grupo de risco.

Não foi fácil também ver tanta gente, amigos, companheiros, familiares, caindo feito moscas, não sem antes sofrer todo tipo de preconceito e falta de estrutura médica.

Com o tempo, o termo grupo de risco caiu por terra, e a Aids se tornou uma tragédia mundial que ataca a todos.

Daí que, uma década e meia depois de seu surgimento, mas ainda em tempos de medo e cerceamento, o filme O Olhar Triste, de 1995, surgiu como um consolo. Não por despir-se de dor, pois os relatos são marcados por ela, por pessoas infectadas pelo vírus HIV em pleno susto. Mas por banhar esses depoimentos e essas pessoas com um olhar de tanta ternura e respeito.

O espaço aberto pela lente de Olívio T. de Araújo é para que os infectados e os doentes pudessem falar sobre suas vidas a partir daquele acontecimento trágico. Não como relatos de condenados à morte, como as manchetes da época propagavam, mas sobre um cotidiano ainda possível de abrigar sonhos e planos.

Triste triste triste, como está registrado em seu título, o filme, realizado no formato vídeo, é também uma aposta na esperança, pois aposta na vida. O Olhar Triste aposta na ternura.

Chico Viola não Morreu

Especial Wilza Carla

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Chico Viola Não Morreu
Direção: Román Viñoly Barreto
Brasil/Argentina, 1955.

Por Gabriel Carneiro

Rei da Voz. Francisco Alves. Chico Viola. Todos esses nomes identificam uma pessoa, um cantor magistral que encantou o público nos anos 30 e 40, com sua potente voz e suas canções de amor, saudade e desilusão. Morto em 1952, ganhou uma cinebiografia pouco tempo depois, em 1955, pela Atlântida, que queria capitalizar em cima desse ícone da música, falecido precocemente num acidente de carro na via Dutra quando voltava de um show em São Paulo, aos 54 anos.

Filme de estrutura clássica, narrada a partir de um grande flashback – Chico Viola, no carro, relembra toda sua vida -, já acerta no título. Chico Viola talvez seja o nome mais íntimo e menos pomposo que o cantor recebeu, mais ligado às suas raízes – e é o que Chico Viola Não Morreu pretende, trazer de forma bastante humanizada o cantor, usando de todos os recursos que a ficção possibilita (assim como todos os clichês também). Afinal, Chico Viola, o ídolo, também é uma pessoa passível de problemas – vemos seu pai o reprimindo porque quer cantar, sua aventura pelo circo, sua passagem por várias funções profissionais, seus amores e desamores, sua descoberta num boteco de madrugada e, enfim, seu sucesso. Mas o sucesso, a priori, é o que menos importa. Todos conhecem seu sucesso, todos conhecem o Rei da Voz, todos conhecem Francisco Alves. Conheciam, ao menos, em 1955. O grande triunfo está aí, em trazer esse repertório desconhecido do público – e não importa minimamente que não seja o que realmente aconteceu. O Homem que Matou o Facínora, de John Ford, só foi realizado em 1962, mas seu principal ensinamento, já vinha sendo usado, de maneira até instintiva, muito antes. Entre a realidade e a lenda, publique-se a lenda: Chico Viola Não Morreu; ele permanece vivo através de suas músicas, ou algo do gênero – aliás, vale notar que Chico Viola não morreu muito antes que Elvis.

Com roteiro de Gilda de Abreu – que havia emplacado um dos maiores sucessos do cinema brasileiro dez anos antes, com o também musical O Ébrio, com Vicente Celestino -, Chico Viola Não Morreu traz grande elenco: Cyll Farney como Chico Viola, Eva Wilma como Maria das Trancinhas versão adulta, Wilson Grey como Maneco, Heloísa Helena como cigana e Wilza Carla em começo de carreira, esbelta, num físico muito diferente do qual ficou conhecida.

É claro, não se deve esperar uma grande obra-prima do filme. Não foi feito para isso. Mas dentro do que se propõe, o diretor argentino Román Viñoly Barreto consegue fazer um bom filme clássico, com muito menos problemas que esses dramas musicais tinham na época – e cito aqui novamente O Ébrio -, a começar pela duração (85 minutos), e sabendo bem o tom a usar. A se ver.

Com as Calças na Mão

Especial Wilza Carla

 

Com as Calças na Mão
Direção: Carlo Mossy
Brasil, 1975. 

Por Leo Pyrata
 

Em tempos de trevas cômicas onde o cinema brasileiro tem como representantes tranqueiras constrangedoras como Cilada.com e De pernas pro ar, a possibilidade de ter acesso através do Canal Brasil e da internet a filmes como Com as calças na mão é um privilégio. Dizem que todo pessimista costuma ser um apologista do passado, mas creio que não se trata de pessimismo e sim um desejo de que nosso cinema consiga voltar a lidar com a própria sexualidade sem soar reacionário, pudico e recalcado.

Com as calças na mão, de Carlo Mossy, começa pelo final com o personagem Reg (interpretado por Mossy) sendo levado amarrado numa maca para sua castração. Um grupo de mulheres acompanha a maca até a porta do centro cirúrgico. Na sala de operação, Reg apaga anestesiado e entramos em seu universo num momento anterior à crise do hospital. Não por acaso, somos transportados para outro momento crítico para Reg, que foge pela janela de um flagrante de Chinfrólio , marido de Onestalda .Estamos no maravilhoso mundo da pornochanchada e temos a comédia erótica brasileira num momento bastante inspirado.

Reg é o macho alfa cujas peripécias acompanhamos por diversos episódios. Dono na firma “Tem Tudo,” que sofre com a gagueira da secrétária e com a constante ausência de seus funcionários. O que leva Reg a delegar para si mesmo as entregas dos mais diversos produtos oferecidos por sua empresa. Logo percebemos que essa prontidão é levada por Reg ao pé da letra.

A proposta do cinema popular existente no Com as calças na mão aposta no humor picante e tempera suas situações deixando que a insinuação do erotismo transite elegante. Existe uma intenção clara de demarcar esse universo com os tons “sa-ca-nas” para que os personagens existam ali, criando um pacto tácito com o espectador. Afinal , como Mossy mesmo bem diz em um depoimento disponível no youtube dado nos bastidores do filme A Volta do Regresso, de Marcelo Valletta: “Todo brasileiro é pornochanchadeiro de nascimento”.

O meio encontrado pelo filme opera numa linguagem visual bem próxima dos quadrinhos, possibilitando o uso hiperbólico de todo um acúmulo de clichês e estereótipos bricolados de forma bastante potente no roteiro, propiciando a exploração antropofágica da narrativa. Assim, temos o farsesco a serviço do espetáculo cinematográfico .

Fazendo uso do duplo sentido e criando imagens onde a comédia física, o uso de gags cartunescas e um elenco caricato reforçam a liga produzida pela decupagem e pela escolha acertadíssima de grandes nomes do elenco como Wilson Grey, Zezé Macedo, Hugo Bidet, Henriqueta Brieba, Jorge Dória, Tião Macalé, Adele Fàtima,Lady Francisco, Wilza Carla e muitos outros.

Como esquecer Wilza Carla de enfermeira dublada de forma bastante sugestiva com um timbre sussurrado de garota indefesa contrastando com suas curvas de musa de Botero?A cena da aula de tênis erótico trás a lembrança do plano em que Jura Otero baila sobre a cidade em Bang Bang, de Andrea Tonacci.

Outro ponto sensacional do filme é a maneira bem resolvida com que os patrocinadores e apoiadores do filme são inseridos no roteiro, assim como a forma quase cínica com que seus produtos são apresentados. Com as calças na mão não é apenas um clássico da Pornochanchada, mas também um grande filme de cinema brasileiro. Um filme que soube fazer da história do tesão incontrolável de um homem um espetáculo engenhoso e divertido.

Depoimento: Castor Guerra

Dossiê Toni Cardi

Depoimento de Castor Guerra
 

O início da minha carreira artística foi como figurante. Não tenho nenhuma vergonha em falar isso. Meu primeiro longa-metragem foi Um Pistoleiro Chamado Caviúna, junto com o Tony Vieira. Depois, eu fiz Gringo, o Último Matador e comecei a freqüentar a Rua do Triunfo, que era o centro da produção cinematográfica.

Nisso, eu fui fazer figuração num filme do Mazzaropi, chamado O Grande Xerife. Eu ganhei um cachê de coadjuvante, quando na verdade eu fazia figuração. Fiquei 22 dias na fazenda em Taubaté com toda a equipe. No primeiro dia que eu cheguei, ninguém falava comigo. Eu era um inteiro desconhecido e também só conhecia o Mazzaropi. Mas eu ia me sentar na mesa com ele?

Essa passagem que eu vou te falar sobre o Toni Cardi, eu gostaria de falar olhando nos olhos dele. Ele foi uma das primeiras pessoas a conversar comigo e me perguntou qual seria a minha função naquela produção. “Vou fazer figuração”, respondi. “Legal. Escuta, você vai pra Tremembé com a gente?”. Puxa, eu nem sabia que existia essa cidade. Depois do jantar, uma kombi levou a gente pra dar um passeio em Tremembé. Me lembro que estava tendo uma festa ou uma espécie de quermesse lá. Nós ficamos andando juntos e olhando as moças.

O Toni Cardi foi a primeira pessoa a me respeitar como figurante. Ele me ensinou isso. Eu nunca imaginei que um ator do porte dele pudesse ter uma atitude como aquela. Na época, ele já era uma estrela, um grande nome. Nunca vou me esquecer desse episódio que vivi com ele.

 

Castor Guerra é ator. Trabalhou com Toni Cardi em O Grande Xerife (1972).

Depoimento: Virgilio Roveda

Dossiê Toni Cardi

Depoimento de Virgílio Roveda

Conheci o Toni Cardi em 1966, quando eu trabalhava numa produção do Raffaele Rossi. A gente foi filmar um documentário sobre um restaurante da região de Piracicaba. De São Paulo, fomos eu, Ewerton de Castro e Roberto Leme. Todos em começo de carreira. Desde o início, percebi que o Toni era um cara bem intencionado. Mas, infelizmente, o Rossi não tinha estrutura para dirigir aquele trabalho. O documentário acabou não acontecendo.

O Toni cuidava dessa parte de produção e deu a cara para bater. Me lembro dele sempre ser um cara muito batalhador. Durante muitos anos, freqüentamos a Boca juntos e ele militou na TV Tupi também. O Toni fez filmes com vários realizadores, lembro que algumas coisas com o Ary Fernandes e mesmo com o José Mojica Marins. Inclusive, estivemos juntos no A Virgem e o Machão.  Poxa, esse filme foi realizado em São Sebastião. Diz no letreiro que eu era assistente de câmera, mas eu fui assistente de tudo, inclusive fiz alguma coisa de produção, trabalhei como um camelo.

Me lembro que o Toni Cardi tinha aquelas preocupações típicas de ator. Ainda mais ele, que sempre foi galã. Mas ele não se restringia a isso. Ele tinha um espírito solidário com todos da equipe, sempre foi uma pessoa de bom caráter e bastante empenhado no campo de filmagem. Posso falar isso porque tivemos alguns trabalhos juntos.

Também trabalhos juntos no Meu Nome É Tonho, em que ele não fez corpo mole. Nossa estrutura nesse filme era o mínimo, tanto em equipamento, câmera e negativo. Mesmo assim, conseguimos ganhar vários prêmios pelo trabalho de gente como o Peter Overbeck na fotografia e o Luiz Elias na montagem. Esse filme foi realizado em 1969, na região onde tinha sido feito O Cangaceiro, do Lima Barreto, exatos quinze anos antes.

O elenco masculino era numeroso: Toni Cardi, Zé Ferreira, Allan Fontaine, Cláudio Viana. Esse Cláudio Viana era um carioca meio folgado. Mas folgado no bom sentido, no fundo era um sarrista. Ele se deu muito bem com o Toni e eles aprontaram algumas juntos.

Os dois aprontaram várias para cima do Allan Fontaine. Porque o cara dizia que era um baita cavaleiro e na realidade nem sabia subir em cima de um cavalo. O Fontaine também dizia que era o maior gatilho e não sabia segurar uma arma. O Candeias não gostou disso. Tanto que se você ver o filme, percebe que o Allan não usa calça e sim uma espécie de quiripá. Ele estava reclamando do personagem dele e o Candeias disse: “Poxa, já que você está reclamando vou deixar o seu personagem sem calças”. Teve uma tomada em que ele caiu cinco vezes do cavalo. Esse filme teve várias coisas divertidas. Mas foi um trabalho importante. Tanto que durante as filmagens, choveu muito. Mas nós conseguimos contornar todas essas dificuldades e fizemos o trabalho rapidamente.

O Toni Cardi era um excelente cavaleiro, sabia andar de cavalo com a maior facilidade. Posso dizer que a relação dele com o Candeias foi muito boa, nunca tiveram uma discussão. O nome dele é Irineu Travaglini, mas ficou conhecido pelo pessoal do cinema como Toni Cardi. Grande sujeito.

 

Virgílio Roveda é diretor de fotografia, assistente de direção e diretor de produção. Trabalhou com Toni Cardi em Meu Nome É Tonho (1969), O Grande Xerife (1972) e A Virgem e o Machão (1974).

 

Expediente

EDITOR-CHEFE: Adilson Marcelino 

EDITOR DOSSIÊ TONI CARDI: Matheus Trunk 

CONSELHO EDITORIAL: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo Correa 

REDATORES: Adilson Marcelino, Ailton Monteiro, Andrea Ormond, Daniel Salomão Roque, Diniz Gonçalves Júnior, Edu Jancz, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Marcelo Carrard, Matheus Trunk, Sergio Andrade e Vlademir Lazo Correa. 

REDATORES CONVIDADOS: Leonardo “Leo Radd” Freitas, Leo Pyrata, Rodrigo Pereira.

CONVIDADOS ESPECIAIS: Carlos Miranda, Castor Guerra, José Lopes, Virgílio Roveda.  

CONTATO: revistazingu@gmail.com 

Adilson Marcelino tem paixão pelo cinema nacional em geral e acredita piamente na máxima atribuída a Paulo Emílio Salles Gomes, de que o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor estrangeiro. Chamado por um grupo de jornalistas como o Super Adilson do Cinema Brasileiro, é graduado em Letras e em Jornalismo. Trabalha com cinema desde 1991: foi bilheteiro, gerente, assessor de imprensa, programador, redator e apresentador de programa de rádio. É pesquisador, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro – premiado com o troféu Quepe do Comodoro, outorgado pelo Carlão Reichenbach -, e do blog Insensatez. É o atual Editor-Chefe da Zingu! 

Ailton Monteiro é mestrando em Letras-Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Mantém desde 2002 o blog Diário de um Cinéfilo, um espaço muito querido (pelo menos por parte de seu realizador) e agraciado com o Quepe do Comodoro. Tem um gosto tão diversificado por cinema que quer ver a maior quantidade possível de filmes que o seu tempo de vida puder lhe proporcionar. Contribui eventualmente para os sites Scoretrack e Pipoca Moderna. Também tem forte interesse por literatura, religião (em seu sentido mais amplo) e rock’n’roll. 

Andrea Ormond, pesquisadora e crítica de cinema, mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro  (http://estranhoencontro.blogspot.com), inteiramente dedicado à revisão crítica do cinema brasileiro. Escreve na revista Cinética, além de integrar o conselho editorial da revista Zingu!. Colaborações publicadas nas revistas Filme Cultura e Rolling Stone, dentre outros veículos. 

Daniel Salomão Roque possui um gosto cinematográfico bipolar, oscilante entre Jacques Tati e Jörg Buttgereit. Afeito a filmes dos mais diversos tempos, recantos e tendências, ele tem, contudo, um carinho especial pelo film noir e suas derivações, pelas fitas B estadunidenses dos anos 50/60 e pelo cinematografia popular latino-americana. Adepto de Samuel Fuller, acredita que o cinema é um campo de batalha e também uma área de garimpo: o prazer da descoberta anda lado a lado com os extremos da emoção. Ele já fez curadoria de cineclubes em parceria com a Prefeitura de Osasco, colaborou com a finada Revista Zero, manteve uma coluna sobre quadrinhos nos primórdios da Zingu! e hoje estuda História na Universidade de São Paulo. 

Diniz Gonçalves Júnior é paulistano e poeta. Tem trabalhos publicados na Cult, no Suplemento Literário de Minas Gerais, naArtéria, na Nóisgrande, na Sígnica, em O Casulo, na Zunái, na Germina, na Paradoxo, no Mnemocine, no Jornal de Poesia, na Freakpedia, e no Weblivros. Autor do livro Decalques (2008). 

Edu Jancz (pseudônimo de José Edward Janczukowicz) é jornalista diplomado, formado em Cinema pela FAAP e pelas críticas de Rubem Biáfora, Carlos M. Motta e Alfredo Sternheim (no Estadão). Gosta de cinema. Sem nenhum preconceito. Nenhum pré-conceito. Vê todos os filmes – dos faroestes italianos (dos quais é grande fã) aos clássicos mais e menos conceituados. Sua lista dos 100 melhores filmes do mundo nunca empata com a crítica “acadêmica”. Cobriu para a revista Big Man Internacional o período explícito da Boca do Lixo: desde Coisas Eróticas até o fim de sua atividade. Acredita que a Boca do Lixo – com sua vasta produção  de cinema brasileiro (sem dinheiro da Embrafilme) –  merece um resgate digno, sempre relegado pela “grande e preconceituosa imprensa”.

Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte. 

Gabriel Carneiro é um pretenso jornalista e crítico de cinema, mais pretenso ainda pesquisador. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, o que gosta mesmo é de assistir filmes e ponderar sobre eles. Como iniciação científica, pesquisou a filmografia de Guilherme de Almeida Prado. Já escreveu no portal Cinema com Rapadura, e manteve por três anos e meio o blog Os Intocáveis. Rascunhou em alguns outros lugares. Atualmente, também escreve no Cinequanon e na Revista de CINEMA. Adora resmungar, e adora as feminices das mulheres que o rodeiam – é fato, a falta da simples presença feminina o deixa deprimido. A cada dia sua admiração por filmes de baixo orçamento aumenta – tanto que fez um TCC sobre a ficção científica de 1950-64 e planeja fazer um filme de terror. Foi editor-chefe da Zingu! entre maio de 2009 e dezembro de 2010. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial da revista. 

Marcelo Carrard é jornalista e crítico de cinema. Autor da tese de mestrado: O Cozinheiro, O Ladrão, Sua mulher e o Amante – Peter Greenaway e Os Caminhos da Fábula Neobarroca, colaborou no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib. Nesse livro, foi o responsável pelas entrevistas com os diretores José Joffily, Silvio Back e Neville de Almeida. Doutorado em cinema pela Unicamp. Grande conhecedor de cinema oriental, europeu e mesmo brasileiro, ministra cursos e workshops. Manteve o blog Mondo Paura, premiado no troféu Quepe do Comodoro. Carrard é também crítico do site Boca do Inferno, o maior em português dedicado ao Cinema Fantástico. Muito sincero e honesto, o que lhe causa grandes problemas frente os pseudointelectuais de esquerda que pensam que escrevem na “Cahiers du Cinema”. Assina a coluna Cinema Extremo, dedicado a filmes feitos fora da linguagem comum. 

Matheus Trunk é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi editor-chefe da Zingu! entre outubro de 2006 e abril de 2009. Trabalhou na revista Transporte Mundial, no jornal Nippo-Brasil e no jornal Metro ABC. Atualmente é assessor de imprensa. Fanático por cinema brasileiro, música popular e pela Sociedade Esportiva Palmeiras, é editor do blog Violão, Sardinha e Pão. 

Sergio Andrade é bibliotecário e cinéfilo dos mais atuantes. É fã de cinema extremo, mas também de grandes diretores. Em matéria de cinema brasileiro também é grande entendido, sendo fã de carteirinha do saudoso crítico Rubem Biáfora. Mantém uma relação de amor com a Cinemateca Brasileira, por ter trabalhado lá nos arquivos da entidade. Mantém os blogs Kinocrazy e Indicação do Biáfora. 

Vlademir Lazo Correa é gaúcho de nascimento e tem como única qualidade inquestionável nessa vida o fato de ser torcedor fanático do Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Escritor sem obra e atleta cujo único esporte é o jogo de xadrez, é apaixonado por antiguidades das mais diversas, dedicando-se a colecionar discos de vinil que ninguém mais quer e livros velhos de sebos empoeirados que quase ninguém lê. Desde que se conhece por gente aprecia o cinema em suas mais diferentes formas, vertentes e direções ao ponto de estar se convertendo em um museu de imagens e só prestar nesse mundo para assistir filmes e, ocasionalmente, escrever sobre eles. Foi colunista do site Armadilha Poética e mantém (só não sabe até quando) o blog O Olhar Implícito.