A Filha de Madame Betina

Especial Jece Valadão Cineasta

A Filha de Madame Betina
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1973.

Por Adilson Marcelino

 

Em 1971, Jece Valadão produziu para Carlos Alberto Pieralisi dirigir o delicioso O Enterro da Cafetina. Comédia de costumes com pitadas de erotismo dirigida com elegância, o filme é adaptado de obra do mestre Marcos Rey, sempre marcada por um olhar inconfundível sobre a classe média carioca. Jece, claro, era o protagonista, que ali rememorava em velório festivo a morte da cafetina vivida por Elza Gomes. Havia ainda espaço para a obsessão dele em se casar com uma virgem, palco perfeito para a entrada de uma sensacional Elizângela, mal saída da adolescência e exalando sensualidade pelos poros.

O belo resultado do filme originou essa continuação, A Filha de Madame Betina, agora com o próprio Jece dirigindo, além de produzir pela sua Magnus Filmes e também assinar o roteiro. Mas infelizmente, dessa vez, as coisas não deram nada certo. Se lá havia ternura, nostalgia e uma fina ironia no olhar sobre os tempos dos velhos prostíbulos cariocas e toda a sua fauna boêmia circundante, aqui sobra apelo fácil, falta de sutileza e personagens e/ou situações mal delineados. Uma pena que Jece Valadão, ator inesquecível e diretor interessante, sobretudo nos filmes policiais, tenha perdido o remo do barco nessa produção.

Em A Filha de Madame Bettina, ele encarna novamente o  publicitário Otávio, às voltas com seus amigos Paulo Fortes, Arthur Costa Filho e Martim Francisco – esse último substituindo Fernando José no mesmo personagem. Todos agora estão empenhados para que Otávio receba a herança que Betina deixou para ele, mas com clausula soberana: para botar a mão na grana, ele terá que se casar com sua filha Margot – Geórgia Quental. A procura da filha misteriosa norteará boa parte da trama, e durante a trajetória Otávio vai se encantar com a não menos misteriosa personagem de Vera Gimenez, que se passará por Margot.

A Filha de Madame Betina foi interditado pela censura na época e teve que abrir mão de seu título original, “A Filha da Cafetina”.

 

 

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Carta ao Leitor

A Zingu! chega à 51ª edição com fôlego. Afinal, apresentamos um dossiê e dois especiais, além, claro, das tradicionais colunas.

O dossiê do mês é com o cineasta e montador Jair Correia. Diretor do pioneiro em seu gênero Shock: Diversão Diabólica, Correia dirigiu mais dois longas de ficção: Duas Estranhas Mulheres e Retrato Falado de uma Mulher sem Pudor. O primeiro um tanto desaparecido por aí; já o segundo, acessível, com uma atuação de Monique Lafond no auge da beleza.

E desempenhou outras funções, sobretudo a montagem, em filmes de cineastas como José de Anchieta, Jeremias Moreira Filho e Mauricio de Sousa.

Gabriel Carneiro, redator da Zingu!, fez entrevista com Jair Correia, que repassa sua trajetória e comenta seus trabalhos. Há ainda críticas dos filmes e filmografia.

O primeiro especial é sobre o ator, diretor, produtor e roteirista Jece Valadão. Falecido no dia 26 de novembro de 2006, já são cinco anos sem o talento deste que é capítulo importante da história do cinema brasileiro, pois como ator trafegou por diferentes ciclos e como produtor trouxe para às telas grandes filmes.

O especial Jece Valadão Cineasta focaliza o legado que ele deixou como diretor e é formado por texto introdutório, críticas de 8 filmes e filmografia.

Já o segundo especial é temático: A Aids no Cinema Brasileiro. Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate à Aids, e com esse especial a Zingu! mira foco para produção sobre o tema pelo cinema nacional, dos anos 1980 até os dias de hoje.

O especial é formado por artigo exclusivo do pesquisador Carlos Alberto de Carvalho, Memória e esquecimento da Aids no filme Cazuza, o tempo não para, texto introdutório e críticas de 8 filmes.

E por fim, apresentamos as tradicionais colunas: Uma reflexão sobre liberdade e preconceito; uma resposta do cineasta, crítico e pesquisador Paulo Augusto Gomes; Os Saltimbancos em Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte; e as musas Claudia Magno e Liza Vieira.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

As Aventuras da Turma da Mônica

Dossiê Jair Correia

 

As Aventuras da Turma da Mônica
Direção: Maurício de Sousa
Edição de Som: Jair Correia
Brasil, 1982. 

Por Filipe Chamy 

É bem comum vermos comentários sobre certos filmes comparando-os a histórias em quadrinhos. 

Mas um gibi não tem um ritmo estabelecido, porque eles variam em gêneros, temáticas e mil condicionantes.           

É fácil perceber a diferença entre uma aventura clássica do Tio Patinhas (trama elaborada, desenho detalhista) e uma tira dos Peanuts (cenários simples, diálogos filosóficos), por exemplo. Então não dá mesmo para generalizar a coisa.           

Alguns cineastas, como Federico Fellini, José Mojica Marins e Alain Resnais, nunca esconderam seu fascínio pela “nona arte”, e legaram obras excepcionais onde flertavam com uma estética vinda dessa paixão, uma inspiração evidente mas nem por isso óbvia e formulaica.           

Mas há por vezes casos como o deste As aventuras da turma da Mônica, em que quem assume a chefia do filme que tem por fonte um quadrinho é o próprio quadrinista. Na verdade, faz parte da ambição de Mauricio de Sousa virar uma versão “abrasileirada” de Walt Disney (que, como sabemos, era antes um empresário que um artista). Seus esforços são dignos de consideração, mas falta a ele todo o aparato de que Disney se servia para legar produtos com acabamento perfeito e assombroso: Mauricio não tinha em 1982 uma equipe de animadores tão experiente e talentosa quanto a que Disney possuía quando em 1937 deu à luz o magnífico Branca de Neve e os sete anões, nem tampouco dispunha de grande talento como storyteller, ou narrador — as histórias deste filme são, como de costume nas revistinhas da menina dentuça e seus amigos, histórias simples e repetitivas, nada que pudesse destacar em um filme maravilhas invisíveis nos gibis regulares das bancas. 

De todo modo, apesar da animação “bruta”, As aventuras da turma da Mônica é sem dúvidas um programa agradável. É pautado por esquetes cômicas estreladas pelo próprio Mauricio, tentando, a todo custo, chamar seus personagens para participar deste projeto; todos possuem afazeres mais urgentes, e deixam o velho Sousa na mão para viver suas aventuras — que serão quatro ao todo, indo do cotidiano infantil da turma a ficção científica, passando por um romance insólito e uma trama de decepção com a vida social. 

Todos os problemas apresentados nos segmentos acabam desembocando de maneira um tanto quanto esquisita no final, em que Mauricio se junta às crianças e diz que o filme estava feito, era aquilo; ora, ele passa o tempo todo se lamentando por seu abandono e no final sorri como se já esperasse aquilo de há muito? Nessa falta de naturalidade escorrega boa parte da encenação da farsa: sabemos que é tudo um teatrinho sem grandes pretensões, e revelar o truque do mágico faz a plateia perceber que aquilo nada tem de especial. É um erro de principiante, que Mauricio procurará consertar em suas futuras incursões no cinema e televisão. 

Editando o som dessa história, Jair Correia. Ao contrário de uma HQ, em que há poucos artistas, um filme não se faz com uma equipe tão reduzida. E ainda que o comando-mor seja do patrão Mauricio, é necessário atentar à edição e procurar não quebrar o ritmo com lentidão e aceleramento indevidos, falta de coerência ou qualquer tipo de falha estrutural. Portanto, é preciso uma atenção a esses aspectos estruturais. 

É preciso também encarar a fantasia das coisas com naturalidade. Ainda que as partes live action tentem nos provar o contrário, As aventuras da turma da Mônica é uma animação, e deve ser visto assim. Ou talvez como um gibi sendo folheado rapidamente.

Parada 88 – O Limite de Alerta

Dossiê Jair Correia

Parada88

Parada 88 – O Limite de Alerta
Direção: José de Anchieta
Montagem: Jair Correia
Brasil, 1977.

Por Gabriel Carneiro

Único filme dirigido por José de Anchieta, assumindo-se despudoradamente como ficção científica – coisa tão rara por aqui -, Parada 88 – O Limite de Alerta conta a história de um futuro não muito distante, em que, por conta de vazamentos tóxicos, algumas cidades são enclausuradas numa espécie de cidade-bolha. É o caso de Parada 88. Ninguém pode atravessar seus limites e a vida se torna cada vez pior por conta disso, já que a população aumenta, mas não o trabalho – além disso, o preço do ar cresce. Cientistas trabalham para superar isso. Dias antes de uma suposta solução do problema e fim da estufa humana, um grupo militar avança para o local.

No elenco, Regina Duarte, já queridinha da TV, também no cargo de produtora, Joel Barcellos, Yara Amaral, Cleyde Yáconis, entre outros. Roberto Santos é produtor associado. Chico Botelho é diretor de fotografia e Jair Correia é montador, ambos nomes importantes do cinema paulista dos anos 80, em começo de carreira. Curioso ainda notar o nome de Cristina Amaral como assistente de montagem, ela que se tornaria uma das mais importantes profissionais da área.

Usando muitos clichês do gênero e prejudicado pela falta de tradição nele, Parada 88 sofre com uma falta de atmosfera sufocante e aflitiva, assim como de um maior encadeamento narrativo. A vertente a que se conecta tampouco ajuda. Anchieta busca uma ficção científica verista, com tom quase documental, buscando justamente o alerta a problemas recorrentes dentro da questão ambiental – caso da energia nuclear, por exemplo, mas sem nunca explicitar. O problema é pensar que basta a premissa, deixando o filme não só sem ação, mas com representações cotidianas estapafúrdias, sem se definir quanto à linha que se deve seguir – se é um filme sobre clausura e repressão, se é sobre os malefícios ambientais, etc.

Pensando politicamente, Parada 88 talvez ganhe uma sobrevida ao gênero e justifique interesse ainda hoje. Realizado em 1977, em tempos de começo de abertura política no Regime Militar, o filme é muito forte em mostrar uma interpretação da realidade brasileira, mostrando que ficção científica talvez seja sim o gênero que melhor representa o mundo contemporâneo. Os cidadãos de Parada 88 não vêem a hora de saírem da clausura, de estarem novamente livres para circular, tentar novos ares e novas possibilidades. Dias antes de conseguirem isso, uma tropa militar adentra a cidade, acabando com qualquer manifestação a favor da abertura, invade casas em que o ar não foi pago e ainda estupra suas moradoras, etc. Há ainda o sujeito que, para conseguir cotas de ar, aceita o desafio de ir até a cidade principal descobrir se de fato a abertura vai acontecer – só que, pra isso, ele precisa atravessar a bolha que envolve Parada 88. Tal personagem acaba funcionando quase como uma mistura entre refugiado e exilado, incorporando através da mecânica todos os malefícios da situação. Com seu pulmão queimado, ganha uma prótese mecânica que o transforma numa bestialidade destruída por dentro. Como metáfora de um Brasil ditatorial, Parada 88 consegue ainda um respiro hoje, por mais destrambelhado que seja. O gênero nunca se concretizou no país. Talvez o fracasso comercial de Parada 88, o dito primeiro filme a se assumir como ficção científica, tenha ajudado. É de se entender.

Retrato Falado de um Mulher sem Pudor

Dossiê Jair Correia

Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor
Direção: Jair Correia e Hélio Porto
Brasil, 1982. 

Por Matheus Trunk

Os estudiosos de cinema nacional não entendem a importância do filme policial brasileiro. Depois da comédia, este é o gênero mais explorado pelos realizadores tupiniquins. Na Boca do Lixo, existiram diretores especializados no cinema policial popular como Clery Cunha, Francisco Cavalcanti e Tony Vieira. Mas houveram produções ambiciosas do gênero que são pouco lembradas. Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor é um desses filmes.

Logo no início do longa-metragem, sabemos que a modelo fotográfica Paula (Monique Lafond) foi assassinada de maneira covarde. Mulher independente, a ex-aeromoça nunca manteve uma vida regrada. Ela se envolveu amorosamente com diversos homens. Tudo isso irá dificultar a vida do detetive que investiga o crime. Com uma trama cheia de armações, o policial terá que desafiar a própria corporação para achar o verdadeiro culpado. De certa maneira, o detetive adquire uma espécie paixão platônica pela vítima.

Diversos elementos nos fazem perceber que este é um filme acima da média. O roteiro caprichado prende o espectador até o final da película. A trilha sonora é assinada por Egberto Gismonti e a fotografia por Tony Rabatony. O elenco tem atores talentosos como Paulo César Pereiro, John Herbert, Fúlvio Stefanini, Jonas Bloch e Serafim Gonzalez.

Atualmente, são poucos os realizadores brasileiros que gostam de trabalhar com o cinema policial. Um dos cineastas que investe no gênero é José Joffily que assinou a direção de Achados e Perdidos. O grande mérito de Retrato Falado é conseguir ser uma fita policial na acepção da palavra, com uma trama envolvente.

 

Shock: Diversão Diabólica

Dossiê Jair Correia

 

Shock: Diversão Diabólica
Direção: Jair Correa
Brasil, 1984.

Por Vlademir Lazo

O título pode não trazer uma associação imediata, mesmo para os que cultivam o gosto pelo cinema brasileiro mais popular, porém Shock: Diversão Diabólica carrega consigo a importância de ser pioneiro em um gênero: o primeiro slasher do cinema nacional.  No caso, os chamados slashers movies popularizados a partir do Halloween de 1978, de John Carpenter, e diluído à exaustão nos anos seguintes pelas continuações do mesmo, e imitações diretas como os primeiros exemplares de Sexta-Feira 13, A Noite das Brincadeiras Mortais, entre tantos outros. Tudo a partir de uma estratégia dos estúdios de continuarem achando uma forma de lucrar com um nicho que parecia interminável (e que ainda se mantém com derivados como a franquia Jogos Mortais e congêneres).

Coube ao diretor e montador Jair Correa a idéia de conceber o que seria uma versão tupiniquim do subgênero (ainda que o próprio cineasta, em entrevista pro site Boca do Inferno, recuse-se a admitir as semelhanças com os filmes norte-americanos, alegando tê-los visto só depois de ter realizado Shock), tornando-se parte de uma longa tradição de cinema de terror realizado no Brasil. Quem vê o cartaz pode achar que se trata de um autêntico slasher americano (o título em inglês com subtítulo genérico é perfeito nesse sentido), ou os que apenas se detiveram em algumas imagens dos bootlegs de qualidade lamentavelmente ruim que restaram do VHS lançado na época podem, num olhar apressado, acreditar que estamos diante de uma produção Z ou assumidamente trash, o que tampouco é verdade. Na mesma época, Jair dirigiria um policial bastante respeitado como Retrato Falado de uma Mulher Sem Pudor, e o elenco de Shock: Diversão Diabólica conta com atores conhecidos como Aldine Muller, Claudia Alencar, Mayara Magri e o então jovem Taumaturgo Ferreira.

Com isso tudo, é óbvio que sabemos que não há muito mais a se esperar em termos de estrutura do que mais uma reedição do suspense desses velhos e formulaicos exemplares do subgênero em questão. Mas também não seria exagero dizer que o filme por vezes captura aquele tom de suspense juvenil presente nos velhos contos de mistério da Coleção Vagalume que liamos na pré-adolescência, só que com mais sanguinolência e final negativo. Shock começa num clima de festa que vai se dissipando à medida que o filme avança: na abertura, vemos a apresentação de uma banda pop adolescente tocando em uma reunião com muitos jovens, danças e bebidas. Finda a apresentação, os músicos se dirigem a um sitio isolado e à beira de um lago onde são obrigados a passarem a noite para cuidarem dos instrumentos, levando juntos algumas garotas para fazer companhia. A noitada segue com sexo e namoros, consumo de drogas, brigas e algum bate-papo

Toda a curtição é interrompida com o surgimento de um indíviduo desconhecido e cuja identidade não é nos permitido ver, liquidando e destroçando um a um dos adolescentes. Só o que enxergamos com destaque no assassino são os seus pés, calçados em coturnos negros. As mortes são rápidas, mas filmadas com requintes de sanguinolência e boas doses de gore. Muito da presença do psicopata é por vezes sugerida pela decupagem e edição de som, além das sequências em que o grupo restante após as primeiras mortes, confinados em um cerco num dos quartinhos do sitio, detecta os sinais do vilão apenas pela bateria que ele toca sistematicamente num outro cômodo da casa.

Os slashers movies possuíam um elemento moralista que triunfou na era Reagan daquele período, e que coincide com muito do que vemos em Shock, por estar intrincado à própria estrutura do subgênero. Após o estouro e consolidação da revolução de costumes dos anos 60 e 70, os oitenta, de certa forma, representaram um fim de festa (marcados sobretudo pelo advento da AIDS). Nos slashes quase sempre fica sugerido que o vilão é um agente do mal vindo do inferno para dizimar os pecados de uma juventude ingênua mas perdida em meio a drogas, sexo e bebidas. Uma punição pelos atos levianos, os mau-cuidados, a diversão inconsequente e a luxúria. As regras são claras dentro do “Quem Será o Próximo” no velho jogo de Resta 1 proposto por sua estrutura. Mas em Shock: Diversão Diabólica, o mais cruel é o recado que fica do seu plano final: os verdadeiros monstros permanecem à solta. 

As Sete Faces de um Cafajeste

Especial Jece Valadão Cineasta

As Sete Faces de um Cafajeste
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1968. 

Por Daniel Salomão Roque  

Quando nos dispomos a assistir um filme intitulado As Sete Faces de um Cafajeste, certas premissas nos parecem quase certas. A primeira delas é o cinismo. Afinal de contas, cafajeste é uma palavra deveras forte, embora datada, e costuma polarizar todas as orações nas quais esteja inserida. A segunda, evidentemente, é a fragmentação, que, supomos, pontua de algum jeito qualquer a vida deste indivíduo desprovido de escrúpulos amorosos. 

O filme começa, o tempo passa, e as premissas se revelam verdadeiras da maneira mais curiosa possível. O cafajeste, claro, é Jece Valadão, que dá corpo ao personagem e tem seu nome creditado nas funções de roteirista, produtor e diretor. Nesta e noutras fitas, Jece se mostra um cineasta irregular, desajeitado, mas sem medo de riscos e com um olhar sempre atento para as possibilidades oferecidas pela linguagem – e é aqui mesmo, no âmbito da linguagem, que a fragmentação se opera de modo radical, a despeito das sete faces serem, na realidade, uma metáfora das últimas relações mantidas pelo personagem com o sexo oposto. 

O cafajeste leva uma vida de mordomias, e captura de modo inexplicável a atenção de algumas das mais belas atrizes do cinema nacional: Odete Lara, Betty Faria, Tânia Scher, Norma Blum, Marisa Urban, Georgia Quental, Diana Azambuja e Adriana Prieto são as mulheres que deitam em sua cama para, logo em seguida, serem descartadas sem muita cerimônia em função de uma outra parceira ou de algum capricho qualquer. 

O filme seria tremendamente machista, quase misógino, não fosse a patetice do protagonista: é difícil não simpatizar com ele; por outro lado, é impossível levá-lo a sério. Feio, pouco gentil, não muito inteligente e dono de hábitos patéticos, o cafajeste brinca com patinhos de borracha na banheira e se dá o trabalho de estacionar o carro na praia só para roubar a batina da qual um padre se despe para entrar no mar. 

No entanto, a imbecilidade desta criatura não é empecilho para o despertar de rancores nas suas diversas companheiras. O cafajeste passa a receber ameaças de morte anônimas, que conduzem o enredo, por vias cômicas e tortas, na direção do thriller. A obra, então, deixa de ser uma simples sátira das relações entre os sexos para se tornar uma grande piada sobre a década de 60. Jece Valadão conquista garotas discursando sobre a moral burguesa; seus desafetos o chamam de reacionário. Naquela que talvez seja a cena mais memorável do filme, uma de suas parceiras lhe confessa que tem como meta a obtenção de uma bolsa de estudos na Europa, onde pretende conhecer pessoalmente Alain Resnais e Jean-Luc Godard. O casal passeia por uma galeria de arte. Ele mira o poster de Made in USA e, entre dois bocejos, diz: “genial”. 

O cinismo do protagonista só não é maior que o da própria narrativa, espécie de elo perdido entre o nascente cinema marginal e a pornochanchada que se consolidaria alguns anos adiante: com o primeiro, As Sete Faces de um Cafajeste compartilha um evidente gosto pelo fazer cinematográfico, pelo deboche, pela quebra da quarta parede, pela subversão de alguns elementos da cultura popular; com o segundo, uma visão cômica da nudez, um certo chauvinismo que mira o sexo como mísera inspiração do humor pastelão. E é nesse caráter híbrido que reside a força da obra em questão. 

Nós, Os Canalhas

Especial Jece Valadão Cineasta

Nós, os Canalhas
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1975.

Por Vlademir Lazo

Não fosse por ter criado uma persona tão marcante como ator no cinema brasileiro, Jece Valadão precisaria ser lembrado também como cultivador de um dos gêneros mais maltratados do cinema brasileiro (ou pelo menos por quem se dedica a estudá-lo): o policial. Tanto nos que dirigiu ou apenas participou como intérprete o resultado pode nem sempre ter sido muito expressivo, mas embora também funcionasse em outros gêneros, sua presença em cena parecia encontrar um habitat perfeito quando se dedicava às fitas policiais em que gostava de trabalhar.

Uma delas, Nós, os Canalhas, fruto de sua produtora Magnus, pode-se dizer que foi criação inteiramente sua, desde a história e o roteiro, até à produção e direção. A trama parece saída diretamente de um daqueles exemplares das clássicas e infames coleções de livrinhos de bolso com histórias policiais que pululavam nas bancas de jornal da época, mas sua natureza pulp poderia estar também em algum noir norte-americano da década de 1940. Basta lembrar que até mesmo Humphrey Bogart apareceu como um personagem com o rosto enfaixado e depois a face reconstruída e mudada no brilhante Prisioneiro do Passado (1947), de Delmer Daves.

Jece Valadão acrescenta pelo menos um detalhe importante que não existia no filme de Bogart (que, de resto, não guarda maiores semelhanças com o de Jece): a existência de um irmão gêmeo, sendo que a princípio ambos são interpretados por Celso Faria (ex-ator de faroestes italianos), um deles marginal e contraventor (Cláudio José), há mais tempo no Rio de Janeiro, outro mais bom-moço (José Cláudio), recém-chegado a capital carioca vindo do Espírito Santo, e que confundido com o irmão, sobrevive a uma chacina que o deixa com a face desfigura, e vitima sua esposa, grávida de oito meses.

Num hospital, José Cláudio passa por uma cirurgia que salva o seu rosto, uma plástica milagrosa que faz com que Jece Valadão assuma o personagem. Refeito fisicamente, mas não com sua paz e serenidade, vai atrás dos rastros do irmão e dos gângsteres que o atacaram. Descobre uma dançarina, Shirley (Vera Gimenez), ex-amante do irmão e de um chefão do crime, Tatá (Rubens de Falco), a quem se apresenta com uma identidade diferente pedindo trabalho até se tornar praticamente o seu leão-de-chácara, ambos protegendo-se mutuamente como patrão e empregado.

Há rápidas e falsas referências ao Esquadrão da Morte (uma das polêmicas da época e equivalente ao que seria hoje o Bope), porém o núcleo de Nós, os Canalhas permanece sempre a investigação e vingança lentamente concebidas pelo personagem de Jece Valadão, em meio a marginalia, cafajestice, meretrizes e travestis. O filme por vezes sofre com problemas de montagem e direção desajeitada de Valadão, mas dentre os pontos altos contém ao menos uma sequência sublime: um dos flashbacks com um encontro regado a drogas ao som da bela versão de Roberto Carlos para “El Día Que Me Quieras” (presente num dos discos do cantor em sua fase do medalhão). Demais, Nós, os Canalhas é do começo ao fim cinema popular cafajeste e politicamente incorreto.

Obsessão

Especial Jece Valadão Cineasta

 

Obsessão
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1973. 

Por Daniel Salomão Roque

O mote de Obsessão é o mesmo de muitas outras fitas da década de 70: um homicídio a ser investigado e devidamente punido. O papel de Jece Valadão – prefeito de uma pequena cidade interiorana que, às vésperas de empossar o cargo, tem a esposa assassinada – poderia muito bem ser entregue a Charles Bronson ou Clint Eastwood, tamanha a semelhança entre o personagem que interpreta e o arquétipo hollywoodiano de macho vingador.  Há, no entanto, algo que diferencia Obsessão da maior parte dos thrillers de ação que lhe são contemporâneos: trata-se da utilização da realidade nativa como elemento transformador dos clichês estrangeiros. 

Sob os créditos de abertura, acompanhamos os últimos momentos da primeira dama. Ela corre desesperadamente por um matagal, mas não enxergamos seu algoz – na tela, vemos apenas o revólver que dispara o tiro fatal. Entre esta cena e a seguinte, temos um lapso temporal de semanas: agora, a câmera se dedica a percorrer, de modo quase documental, os arredores da praça onde se realiza a cerimônia de inauguração do monumento que homenageia a falecida, construído por ordens do prefeito. Tal episódio acirra as tensões já existentes entre o político e a população conservadora da cidade, pois, como descobriremos logo adiante, a primeira dama, que morrera grávida, sofria com os estigmas de “mãe solteira” e “mulher liberal”. 

Esse conflito é particularmente interessante por deslocar a atenção do espectador – quase sempre condicionado ao drama individual – para as tensões coletivas. O personagem central do filme não é a moça assassinada, tampouco o viúvo obcecado pela ideia de se vingar, mas o próprio município escolhido como cenário da narrativa, com suas belezas naturais e pequenas lojinhas, sua associação de moradores capitaneada por velhas moralistas, sua praça a centralizar o espaço urbano em torno de uma igreja, seus escrivães preguiçosos, delegados corruptos e, principalmente, seu prostíbulo, frequentado às escondidas pela maior dos habitantes e que as senhoras católicas teimam em chamar de “cabaré”. 

O crime propriamente dito é apenas um pretexto para a investigação desse tipo de mentalidade conservadora – não à toa, sua solução passa pela queda das máscaras alheias. Já do prefeito, quase nada sabemos: ele se define por oposição aos outros, e os poucos detalhes que nos são revelados de sua vida pessoal e trajetória política surgem de informações desencontradas, acusações não confiáveis e flashbacks confusos. 

Obsessão é a história do choque entre essas duas partes e da maneira como elas se enxergam. Se no final das contas a narrativa favorece uma visão em detrimento da outra, é porque, num mundo de hipocrisia descarada, a empatia pelas figuras ambíguas torna-se nossa única saída. 

 

O Matador Profissional

Especial Jece Valadão Cineasta

O Matador Profissional
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1969. 

Por Daniel Salomão Roque 

Coincidência ou não, uma série de elementos apontam para O Matador Profissional como uma releitura de O Samurai (1967), obra-prima de Jean-Pierre Melville que trazia Alain Delon no papel de um mercenário lacônico às turras com as testemunhas de seu último crime. Na “versão nacional”, o protagonista também é um assassino de aluguel, também fala pouco e também é perseguido, mas algumas diferenças são evidentes, a começar por um certo senso de fatalismo, que atravessa o filme original mas não aparece de forma tão marcante no brasileiro. 

De todo modo, Jece Valadão tenta trazer para sua obra, sem muito sucesso, aquilo que faz da fita francesa algo tão fascinante: a aproximação brutal entre a plateia e um personagem completamente avesso ao mundo que habita. Tanto O Samurai quanto O Matador Profissional são crônicas sobre a intimidade de lobos solitários, narrações sobre o cotidiano de verdadeiras incógnitas humanas. O maior problema, no caso do segundo filme, encontra-se no seu ritmo falho: cineasta aventureiro, porém engessado, Jece não consegue reproduzir satisfatoriamente a estrutura minimalista sobre a qual se baseia o estilo de Melville – um dos mais brilhantes e seminais autores que o cinema policial já teve, diga-se de passagem. 

O icônico plano inicial de O Samurai, onde contemplamos Alain Delon deitado em sua cama, imerso no silêncio de uma espelunca qualquer, acompanhado apenas por seu pássaro de estimação e por si mesmo, aparece replicado nos primeiros minutos de O Matador Profissional, com gaiola e tudo. No filme brasileiro, o mercenário não é devidamente pago pelo trabalho que executa, se envolve com uma prostituta e entra num jogo de gato e rato com seus contratadores, situações que, no final, acabam por se entrelaçar. Ao contrário de Jean-Pierre Melville, Jece Valadão não estende o silêncio do assassino aos coadjuvantes; pelo contrário, eles falam por si mesmos e pelo protagonista, proclamando diálogos caricatos que diluem, definitivamente, a secura da narrativa. 

Mas a despeito de suas debilidades, O Matador Profissional não deixa de ser uma obra interessante: ela constitui, simultaneamente, uma rara incursão do cinema nativo no film noir, uma curiosa homenagem a um dos maiores clássicos de seu tempo e, acima de tudo, um precioso testemunho da face menos conhecida de Jece Valadão – a de cineasta.