Sexo em Grupo

Dossiê Alfredo Sternheim

Sexo em Grupo
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1983.

Por William Alves

Primeira parceria do diretor Alfredo Sternheim com o produtor Juan Bajon, espécie de decano do cinema de sexo explícito da Boca, Sexo em Grupo se situa nos anos 80, período farto para a produção desse tipo de filme em São Paulo. A essa altura, Sternheim ainda era estreante no pornô, visto que Tensão e Desejo foi o seu último filme convencional, e Sexo em Grupo era a sua primeira empreitada pornográfica.

Sternheim contou com atores como Oswaldo Cirillo e Gisa Delamare, que, como ele, mergulharam (ou chafurdaram, dependendo do ponto de vista) fundo em espetáculos de putaria ilimitada, como é esse Sexo em Grupo. Sternheim lança mão de um enredo minimalista, ligeiramente mais trabalhado do que as “histórias de encanador” do cinema pornô estadunidense, modelo para as produções explícitas brasileiras.

Stela é a sobrinha de Tia Noêmia, mulher de meia-idade e adepta declarada do estilo boêmio de levar a vida. Stela é leitora voraz e adora encaixar citações literárias e termos pouco convencionais em conversas casuais, que encantam o seu novo namorado, um filisteu declarado. No entanto, em férias em uma das residências da tia Noêmia, Stela acaba reencontrando o seu verdadeiro amor, Franco, um homem que usa qualquer oportunidade para destilar todo o seu repertório de referências culturais. Exatamente como ela, pois.

Franco está de caso com uma nova atriz, que o castiga de quinze em quinze minutos com sua insaciabilidade sexual. No meio disso tudo, há um casal de lésbicas, um homossexual caricato e um misterioso caçador, que aparece sempre que alguém está em apuros. Tendo esses fatos em mente, e relendo o título do longa, é fácil saber onde isso tudo irá desembocar.

Sexo em Grupo não é tão desavergonhado quanto Variações do Sexo Explícito, outra das produções adultas de Sternheim (em que até cães são convidados para a suruba), mas não larga a safadeza em momento algum. Apesar de cultos e distintos no convívio social, Selma, Franco e seus asseclas são máquinas de acasalamento. Os resquícios da finada pornochanchada ainda respingam em Sexo em Grupo, espalhados em tiradas dúbias, como quando o caçador, com um esgar malandro, deixa claro que “come qualquer coisa”.

Mesmo com toda a libertinagem, não há qualquer sinal de degradação, pelo menos para quem participa do filme: todos estão fodendo, e todos se divertem.

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Cinema Extremo

Por Marcelo Carrard

Beautiful Girl Hunter
Direção: Norifumi Suzuki
Dabide no hoshi: Bishôjo-gari, Japão, 1979.

Dentro da vasta produção japonesa dedicada ao cinema extremo, um nome sempre é lembrado, e não é apenas o de Takashi Miike. Muito antes do mundo se aterrorizar com os clássicos Audition e Ichi the Killer, já estava em ação um dos autores mais fetichistas e transgressores do cinema asiático: Norifumi Suzuki. Suas obras são uma fusão única e hipnótica de beleza, tortura, sangue e devaneios eróticos de rara composição. Suas obsessões estéticas, a tensão cromática de seus filmes, servem como moldura para a “dança” vertiginosa de suas musas. Em filmes magníficos como O Sexo e a Fúria e Convent of the Sacred Beast, vemos os corpos de suas heroínas receberem doses inacreditáveis de uma representação quase surreal do erotismo e da violência, como grandes guerreiras e sensuais assassinas.

Em 1979, porém, Suzuki realizou um dos filmes mais misóginos de todos os tempos: Beautiful Girl Hunter aka Star of David. Se em suas obras anteriores as mulheres se libertavam através do sexo e da violência, nesse, elas são bonecas de carne e osso, a serviço das perversões do jovem protagonista. Enquanto era um menino, ele apenas observava o pai em seus jogos de humilhação e dominação em que cordas imobilizam belas mulheres e a busca do prazer está na dor, na submissão delas, cujo sofrimento parece um combustível para o mestre dominador em seus jogos implacáveis. A beleza das cenas iniciais, na noite chuvosa, diante da lareira, mostram a grande força de Suzuki como esteta. Após anos de aprendizado ao observar o pai, o menino cresce e busca suas vítimas, como um verdadeiro caçador. A suspensão das vítimas em correntes e o banho de sangue do protagonista após o sacrifício da vítima mostram todo o incômodo mesclado com fascínio mórbido que permeia toda a obra de Suzuki. A tortura com os corpos suspensos remetem ao extremo Imprint, de Takashi Miike. As tensões cromáticas e seus contrastes na composição de cada cena aparecem em momentos de pura transgressão, como na que uma inusitada relação de zoofilia acontece entre uma muher e um cão, e na máscara de ferro que parece ser uma estilização da máscara demoníaca de A Máscara do Demônio.

Uma espécie de insert sem a glamourização das demais cenas do filme aparece no registro quase documental de um violento estupro que beira a transgressora estética Snuff. A sequência inacreditável da mulher exposta e livre no alto de um prédio é a maior representação da misoginia do filme, inesperada e genial. Existe outro filme misógino ao extremo, também do Japão, intitulado All The Woman are Whores, ou seja, Todas as mulheres são putas, que é um absurdo, mas o filme de Suzuki não fica atrás. Mesmo com essa jornada extrema pelo sombrio olhar misógino de um assassino, poucos cineastas conseguiram filmar as mulheres com o estilo e a autoria de Norifumi Suzuki.

Linha de Passe

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Linha de Passe
Direção: Walter Salles & Daniela Thomas
Brasil, 2008.

Por Filipe Chamy

Em Linha de passe, uma idéia já no início dá o tom do filme: a contraposição de um culto e de um jogo de futebol. Ao longo do filme, esses elementos se misturam, outros são adicionados e as dosagens se alteram, não permitindo separação entre os eventos: o esporte vira uma religião quando o espectador sofre realmente com as partidas, e a religião vira um esporte quando o fiel quer reverter o placar de sua existência.

Mas não é só de bola e igreja que vivem os personagens de Linha de passe, vivem problemas cotidianos de todo tipo, como falta de afeto, complicações românticas, dúvidas até existencialistas. A modéstia financeira não impede a complexidade dos dramas, e por isso o filme de Walter Salles e Daniella Thomas consegue se destacar mais que seus colegas de tema (essa “exploração da miséria” tão comum no cinema brasileiro), porque não se apóia em arquétipos morais para estruturar as ações de seus personagens: todos podem errar ou acertar, pobres ou ricos, e ninguém é inteiramente bom ou ruim — assim como um jogo de futebol, em Linha de passe só tomamos conhecimento do resultado de tudo ao final do segundo tempo, e, mesmo assim, não podemos ficar certos de sua justiça; mas é só um jogo, não?

O filme é dividido em pequenos núcleos que basicamente testemunham os acontecimentos recentes na vida dos rebentos de uma empregada doméstica, grávida mais uma vez. Cada criança ou jovem tem suas preocupações e necessidades, e apesar de filmes episódicos padecerem habitualmente de uma irregularidade que impede um bom acabamento da obra como unidade, Linha de passe acerta justamente ao dividir essas histórias, que são ligadas naturalmente, porque não é honesto tratar uma família tão heterogênea como um só ser pensante, como se todos tivessem os mesmos interesses e obstáculos. Na verdade, Linha de passe é futebolístico até nesse tratamento: o técnico (o casal cineasta) não poderia querer que só um jogador (ator) tocasse na bola (o próprio filme), como é bem lembrado por um personagem no começo da fita.

Mas se Linha de passe não é uma partida vergonhosa, tampouco será lembrado como um jogo memorável, pois suas virtudes esgotam-se quase que inteiramente na sinceridade dos intérpretes, mas seus defeitos começam quando o filme é embalado como um produto artesanal, como quem espiona à distância um animal na floresta e diz, passando o binóculo a um amigo: “veja só que espécime curioso!”. Então acabam fracassando os esforços na tentativa de dar dimensão a certos tropeços dos personagens, pois o espírito que paira é sempre o do observador acostumado com a falta de perspectiva de quem é diferente dele. Por exemplo, quando certo personagem se envolve com o crime, o olhar condescendente parece ainda mais cínico do que seria se fosse um olhar de reprovação. Parece que vem embutido um comentário: “ele se voltou para a marginalidade, mas vivendo naquelas condições ele não tinha mesmo outra opção”. Fica um fantasma de conformismo, quando o que se quer fingir que se diz é justamente o contrário; aí o filme deixa de ser humanista e se torna uma narrativa algo descontrolada, pois quer afirmar o que a imagem do cinema nega.

De qualquer modo, Linha de passe é bem filmado e não compromete as intenções “bom mocísticas” com que foi elaborado. É um filme bem superior ao que o “bom gosto” cinematográfico brasileiro vem legando, e nesse sentido é um pouco como a mãe interpretada por Sandra Corveloni: pode negligenciar um pouco seus filhos (ou os espectadores), mas não nega suas boas intenções, e, assim como ela, tem consciência de que não age corretamente às vezes, seja fumando na gestação (a mãe), seja acusando o público de um problema social de que se afasta (o filme) — às vezes a partida é injusta mesmo.

Um Craque Chamado Divino

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Um Craque Chamado Divino
Direção: Penna Filho
Brasil, 2006.

Por Matheus Trunk

Nas décadas de 60 e 70, o futebol era muito diferente de hoje. Felizmente, as assessorias de imprensa, os empresários e as equipes de marketing esportivo não existiam. Por outro lado, todos os times detinham um ídolo que tinha grande identificação com a equipe. No caso do Palmeiras, o jogador mais marcante foi Ademir da Guia, que ficou conhecido pelo apelido de Divino.

Em 17 anos de clube, ele colecionou títulos e se tornou o maior jogador da história do time alviverde. O filme Um Craque Chamado Divino (2006) narra toda a trajetória de vida desse grande craque da bola. O diretor Penna Filho fez a opção de contar a história do atleta tendo como base a biografia escrita pelo maestro e pesquisador Kléber Mazziero de Souza (Divino: A Vida e a Arte de Ademir da Guia).

O documentário aborda todas as facetas do grande ídolo do Parque Antártica. Sua infância, o início de carreira no Bangu, a chegada no Palmeiras, a consagração. Vendo o filme também é possível entender a face humana de Ademir. Em toda sua trajetória, o craque sempre foi uma pessoa extremamente modesta, humilde e de poucas palavras. Espécie de Paulinho da Viola palmeirense, Da Guia nunca teve seu talento reconhecido na seleção brasileira. O filme também aborda o assunto.

Entre os entrevistados, estão companheiros de longa data no Palmeiras como Dudu, César e Leivinha. Todos contam histórias saborosas sobre o amigo. Jogadores de times adversários como Gérson, Pedro Rocha e Sócrates dão outro ângulo sobre Ademir. Cronistas esportivos como Juca Kfouri e Juarez Soares também prestam preciosos depoimentos. Mas o grande entrevistado do filme é o mestre da locução esportiva Fiori Giglioti (1928-2006). Em um dos momentos mais emocionantes do documentário, ele ressalta: “Eu nunca vi o Ademir da Guia jogar mal. O Pelé eu cheguei a ver. Mas o Ademir nunca”.

Alguns aspectos negativos do filme são as poucas cenas de arquivo. Em um país sem memória como o Brasil, isso infelizmente acaba acontecendo. Mas nada que prejudique a apreciação deste singelo documentário.

Todo o palmeirense tem como obrigação moral ver pelo menos uma vez Um Craque Chamado Divino. Corintianos, são-paulinos e demais torcedores que gostam de futebol e de boas histórias também não irão se arrepender de ver este filme.

O Casamento de Romeu e Julieta

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

O Casamento de Romeu e Julieta
Direção: Fábio Barreto
Brasil, 2004.

Por Leandro Caraça, especialmente para a Zingu!*

Não basta vontade e um tema interessante para se criar uma boa comédia. O filme tem lá seus momentos, muito graças a Marco Ricca e a Luiz Gustavo, mas no geral tropeça nas próprias pernas e sai de campo com bola e tudo. Bruno Barreto, cineasta de quatro ou cinco filmes de qualidade em quase quarenta anos de carreira, se atira na comédia de costumes (como havia tentado no passado em Romance de Empregada e Bossa Nova) baseado do livro Palmeiras, um Caso de Amor, de Mário Prata.

No filme, o romance entre Romeu (Ricca) e Julieta (Luana Piovani) ganha ares de humor por causa da opção futebolística de cada um. Ele, um corintiano de coração, sofredor. Ela, uma palmeirense apaixonada, criada pelo pai fanático (Gustavo) para torcer pelo time desde criancinha. Para que o relacionamento possa ir em frente, Romeu precisa cometer o impensável. Fingir-se de palmeirense, cantar o hino do arqui-rival e se tornar sócio de carteirinha da agremiação. São essas poucas sequências que conseguem fazer rir, num filme que segue em passos previsíveis até o final.

Alguns clichês são bem trabalhados, como a broxada de Romeu devido ao símbolo do Palmeiras na cama de Julieta, só que o filme perde tempo com situações repetidas e choradeira mal colocada. Também seria interessante se Bruno Barreto abandonasse um pouco a sua visão carioca da zona sul quando fosse focalizar a cidade de São Paulo e os torcedores do Corinthians e do Palmeiras. Sair um pouco dos condomínios de luxo e clínicas especializadas e meter a cara nas ruas, nos bares, nas calçadas.

Outra cisma minha, é puramente machista. Perdoem-me as mulheres, mas não tenho como me conter. Luana Piovani, linda e loira, tem talento inversamente proporcional ao seu gênio forte. Mel Lisboa, a eterna Anita, no papel da namorada do filho de Romeu, é uma personagem que aterrissa de pára-quedas em todas as cenas em que aparece. As duas não sabem atuar e não tiram a roupa. Para que vieram, então? O Casamento de Romeu e Julieta é uma comédia popular de certa forma elitista – se a família de Julieta fosse corintiana, acredito que o pai seria Washington Olivetto – e que cria expectativas quase nunca cumpridas. É uma hora e meia de chutões pra frente, com poucas jogadas levando perigo à pequena área.

*Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.

Pelé Eterno

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Pelé Eterno
Direção: Aníbal Massaini Neto
Brasil, 2004.

Por Vlademir Lazo Correa

Não é a primeira vez que Edson Arantes do Nascimento foi contemplado num documentário com um amplo material sobre sua carreira futebolística. Além de suas malfadadas investidas em filmes de ficção (Fuga Para a Vitória, Os Trombadinhas, etc.), o grande craque já havia sido tema de Isto é Pelé, que Eduardo Escorel dirigira nos anos setenta, com texto do cronista Paulo Mendes Campos e supervisão de Luis Carlos Barreto. Com material de arquivo do Canal 100 e da Globo, mostrando mais de cem gols, Isto é Pelé foi durante muitos anos uma das fitas mais procuradas no mercado nacional de vídeo e campeão de vendas no auge do videocassete.

O tempo passou e o antigo filme de Escorel foi sendo esquecido, como se o seu material estivesse defasado e urgisse a necessidade de um outro que ocupasse o lugar de filme oficialesco sobre o rei do futebol em nossa época que exige por demais excessos de informações e imagens icônicas. É a forma com que Pelé Eterno se apresenta por inteiro. Ainda que a maior parte carreira do jogador tenha se desenrolado num período em que o videotape ainda engatinhava, o trabalho do cineasta Aníbal Massaini Neto foi o de coletar todo e qualquer material imagético mais relevante em torno de Pelé dentro das quatro linhas.

O resultado é uma verdadeira orgia de gols e lances sensacionais do ex-atleta do Santos e da Seleção Brasileira, costurados numa narrativa didática disposta a cumprir a tarefa de ilustrar a trajetória completa de Pelé. Nada contra, desde que o documentário não se entregasse com vontade férrea à opção de reforçar o mito em torno da figura do homem e jogador, como se o desejo fosse o de agradar não tanto aos espectadores, mas sobretudo ao próprio Pelé. O homem é colocado num pedestal, quase que divinizado, o que resulta em uma simples exposição da sua vida e carreira, com a narração em off explicando o que na maioria das vezes está diretamente exposto nas fotos históricas e fragmentos fílmicos do homenageado, modificando muito do material de arquivo com o uso de computadores, para torná-lo mais palatável às platéias modernas.

O principal atrativo e cereja do bolo do filme de Massaini é a recriação daquele que o próprio Pele considera o mais belo entre os mais de mil e duzentos gols que marcou na carreira, num jogo entre Santos e Juventus, de 1959. Como não existem passagens filmadas desse gol, o documentário mostra depoimentos de atletas que participaram daquela partida, numa edição rápida com cada um deles descrevendo de memória um pedaço do lendário gol, que finalmente é recriado com o uso de computadores, com três balões de Pelé passando pelos zagueiros e o goleiro até fulminar as redes. Demais, ao mesmo tempo em que conta a biografia de Pelé, o documentário prossegue com a exibição de centenas de lances e gols (especialmente os das Copas do Mundo de 1958 e 1970), quase como se fosse uma edição esticada de um dos quadros de O Gol – O Grande Momento do Futebol, da TV Bandeirantes.

Trata-se de reiterar uma homenagem bem-intencionada a uma grande figura futebolística já devidamente explorada nos últimos cinqüenta anos. Ao público, resta deleitar-se (pelo menos os aficionados do esporte) com a revisão do futebol maravilhoso praticado pelo célebre jogador.

Boleiros

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Boleiros – Era uma Vez o Futebol
Direção: Ugo Giorgetti
Brasil, 1996.

Por Matheus Trunk

Boleiros não é um filme qualquer sobre futebol. Trata-se de um dos únicos longas-metragens nacionais a falar dos bastidores do esporte e do lado menos glorioso da modalidade. O enredo gira em torno de um grupo de ex-profissionais do futebol que se reúnem em um bar de São Paulo para conversarem sobre o assunto.

Toda vez que um caso é contado, a ação do filme se desloca para a história que está sendo contada. O ex-atleta que está em sérias dificuldades financeiras, o juiz corrupto, o craque que atravessa uma má fase e tem que apelar para um pai de santo, são alguns dos episódios mostrados na película.

O esporte é um tema recorrente da obra do cineasta paulista Ugo Giorgetti. Um de seus primeiros trabalhos foi um documentário abordando a carreira e as lutas do boxeador bicampeão mundial Eder Jofre (Quebrando a Cara, feito entre 1977 e 86). Infelizmente, esse filme nunca entrou no circuito comercial.

Outra característica do cinema de Giorgetti é ele ser um verdadeiro cronista de São Paulo. Todas as películas do realizador tratam da cidade com um olhar crítico e carinhoso. Ele dirige da mesma maneira que o escritor Marcos Rey escrevia suas crônicas sobre a capital paulista. Este espírito paulistano está presente em cada fotograma de Boleiros.

O elenco é outro ponto a ser destacado. Giorgetti é um cineasta que conhece profundamente a sétima arte e que sabe aproveitar bem seus atores. Lima Duarte, Otávio Augusto, Aldo Bueno e Adriano Stuart estão muito bem no filme. Mas o espectador mais atencioso poderá visualizar grandes atores em papéis pequenos como os comediantes Borges de Barros, Gibe e mesmo o cantor Sílvio César. Ex-jogadores como Zé Maria e Luis Carlos Galter também fazem participações especiais.

Um ex-jogador costuma dizer que nunca havia conhecido tanto sobre si mesmo e sobre o ser humano como num campo de futebol. Esse longa-metragem é um trabalho dedicado a esses homens e seu universo: um olhar crítico e ao mesmo carinhoso sobre os boleiros.

Barbosa

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

barbosa

Barbosa
Direção Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Brasil, 1988.

Por Gabriel Carneiro

Barbosa é uma mistura entre ficção e documentário. O filme de 12 minutos é talvez o melhor curta de seus autores, os gaúchos Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. Nele, a mensagem parece clara: uma pessoa pode ser julgada por toda sua vida devido a um simples ato. Para mostrar a crueldade humana que extravasa certas paixões, tomam como objeto o goleiro da seleção brasileira de 1950, Moacyr Barbosa, considerado a grande razão de o time perder a Copa daquele ano na abertura do Maracanã.

A necessidade de culpar uma pessoa pelo destino de um jogo coletivo, de se arranjar um bode expiatório, sempre esteve em pauta – a comunidade do Orkut “Valeu, Felipe Mello”, criada no dia 2 de julho, já tem mais de 40 mil membros, para ficar num exemplo atual. A genialidade do curta está na profundidade dos assuntos tratados em tão curto tempo. Ao fazer um homem que tenta ainda entender a derrota, quase 40 anos depois, e que o leva a voltar no tempo, para aquele fatídico dia, Furtado e Azevedo tratam da questão da memória, da história, do relacionamento entre pai e filho e da própria imagem, entre outros.

A memória e a história que se constrói em torno dela parecem ser os principais motes da discussão no filme: um homem é condenado por um único ato – Barbosa é lembrado maldosamente pela falha no gol, e nada mais do que fez parece importar. Uma das cenas mais tocantes do filme é quando, numa entrevista com o ex-goleiro, ele relata um episódio, em que, quando foi balconista de uma loja, foi atender uma mulher, que falou para um garoto: “esse é o homem que fez o Brasil chorar”. Em Barbosa, o personagem de Antônio Fagundes volta no tempo justamente para mudar o destino desse homem, tirar a culpa de suas costas. É uma revisão da história, buscando apagar um momento que só foi um desserviço à nação.

Se o apelo emocional do problema de relacionamento entre pai e filho existe para dar maior identificação com o espectador, a dupla de diretores não deixa de apelar para a discussão fílmica da imagem. Ao final, após os créditos, Barbosa, ri, em entrevista: “é difícil ser artista”. O trecho perde o caráter documental e ganha a ficção: afinal, a imagem não é a verdade.

Obs.: O filme pode ser visto aqui.

Os Trapalhões e o Rei do Futebol

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Os Trapalhões e o Rei do Futebol
Direção: Carlos Manga
Brasil, 1986.

Por Leandro Caraça, especialmente para a Zingu!*

Ano da segunda Copa do Mundo realizada no México, 1986 também marcou o encontro entre duas das maiores instituições brasileiras: o quarteto dos Trapalhões e Edson Arantes do Nascimento. Na verdade, são três grandes instituições, uma vez que temos Carlos Manga no comando deste, que é seu último longa metragem até o momento. Em Os Trapalhões e o Rei do Futebol, Cardeal (Didi), Elvis (Dedé), Fumê (Mussum) e Tremoço (Zacarias) são roupeiros do Independência Futebol Clube, time que passa por uma transição de poder, disputada por Dr.Velhaccio (José Lewgoy) e Dr.Barros Barreto (Milton Moraes). A rusga entre os dois cartolas acaba resultando na promoção de Cardeal ao posto de técnico da equipe. Não passará de um joguete político. Se o Independência ganhar os seus jogos, Barreto será favorecido. Se for mal, Velhaccio é quem sairá ganhando. Além dos três companheiros, Didi também terá como aliados o repórter esportivo Nascimento (Pelé) e Aninha, a jovem responsável pela lanchonete da sede do clube, interpretada por Luíza Brunet.

Para um filme com futebol no título e Pelé no elenco, Os Trapalhões e o Rei do Futebol demora muito tempo para mostrar cenas desse esporte, o que de fato só acontece dez minutos antes do final. Para complicar um pouco mais, nem pode ser vista entre as melhores produções dos Trapalhões. As piadas são poucas e a trama dá mais atenção às cartolagens do que aos jogos em si. Dá para destacar o primeiro treino comandado por Cardeal, em que os jogadores precisam fugir de cachorros e capturar galinhas (no melhor estilo Rocky Balboa). A sequência musical, regada com samba e mulatas cheias de saúde, é outro ponto alto. Chega até a compensar a horrível trilha sonora de Sergio Saraceni, que parece ter sido composta para jantares em churrascaria e transas em motéis. O filme em si diz a que veio quando Dedé, Mussum, Zacarias e Pelé vão resgatar Aninha, sequestrada por Mauricio do Valle a mando de Velhaccio. Depois do divertido quebra-pau, segue a esperada partida de futebol, com Pelé atuando no gol (?!?) e Didi jogando na linha. Renato Aragão faz a festa, com direito a gol contra, mão na bola, gol de cabeça (depois de bater ele mesmo o escanteio) e até um lindo tento do meio do campo. Isso nem Pelé conseguiu. Ou será que conseguiu? Assistam para descobrir.

*Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.

Onda Nova

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Onda Nova
Direção: Ícaro Martins e José Antonio Garcia
Brasil, 1983.

Por William Alves

Carla Camurati, que nos anos 90 se lançou à direção de longas-metragens com Carlota Joaquina (1995), é uma das protagonistas de Onda Nova. No filme, ela é Rita, uma lindíssima loira de vinte e poucos anos. Ela e suas amigas, todas na mesma faixa etária, acabam de formar o Gaivotas Futebol Clube, time de futebol feminino de São Paulo. A técnica e o apuro futebolístico das garotas são primários, mas o entusiasmo é grande.

O início do filme se assemelha muito a uma pornochanchada setentista. Após a primeira partida encenada no filme, as garotas se esbaldam em variadas relações sexuais, apresentadas com um bom número de minúcias pelas lentes de José Antônio Garcia e Ícaro Martins. Devido ao número elevado de participantes do Gaivotas, ele abrange todo tipo de etnia e orientação sexual e os vestiários e instalações do time são transformadas em espaços propícios ao flerte descarado – e a putaria não rola apenas em âmbito heterossexual.

Onda Nova não traz nenhum tipo de argumento instigante, pois. Trata-se, pura e simplesmente, de uma história sobre o cotidiano de algumas garotas fãs de futebol e os personagens que as rodeiam. Como Neneca, a treinadora do time; Batata e Lili, jogadoras; e Carioca, amigo das meninas e ocasional amante de Rita, interpretada pela já citada Camurati.

Para os fãs de pornochanchada e sexo (quase) explícito em geral, a primeira metade é puro deleite. Temos moças bem apessoadas e desnudas, e situações cômicas em bom número, como os precários jogos disputados pelas mulheres. O problema é que toda essa libertinagem começa a cansar lá pelos cinquenta minutos de filme (e ele dura o dobro disso). Há tempo para as Gaivotas fazerem uma ponta no programa do Chacrinha e participações de craques ilustres do futebol nacional, como Casagrande e Wladimir, ambos ex-jogadores do Corinthians. Casagrande faz uma ponta como um legítimo “boi reprodutor”, quando uma das jogadoras pede, com delicadeza, que ele a deflore.

A presença dos dois jogadores não tem muita razão de ser, sendo utilizados apenas para o sexo casual com as “atletas”, fãs dos boleiros. No meio de tudo ainda há uma breve aparição de Caetano Veloso, que aparece transando (não diga!) com uma garota em um táxi. Onda Nova sofre uma bizarra reviravolta na sua segunda parte, quando é adicionada uma carga de surrealismo sobre a floreada chanchada do início. E é aí que tudo piora ainda mais. As alegres surubas do início se transformam em algo parecido como um pornô existencialista.

Indicado apenas para os fãs de futebol feminino, ou da trinca futebol, mulher e cerveja. Ou para os/as fãs de peitinhos naturais, apenas, já que esses aparecem em quantidades cavalares.