O Que É Cinema Brasileiro?

Por André Setaro 

  

Walter Hugo Khouri e Odete Lara nos bastidores de Noite Vazia

Qual o fator gerador da nacionalidade de um filme? Creio que seria a produção, a origem do capital, mas a questão é controversa. O que faz de um filme ser brasileiro? Se o capital investido é oriundo do Brasil, o filme é nacional. Mas aí entra outra questão polêmica. Se o capital é brasileiro, mas o diretor e a equipe técnica e, mais importante, a temática abordada, não possuem afinidade com o Brasil? Neste caso, o filme seria ainda brasileiro? 

O caso das co-produções, raras no país, remete para a predominância dos recursos. O resultado, no entanto, é sempre híbrido, e o filme, muitas vezes, torna-se apátrida. Vejam-se os exemplos das obras cinematográficas co-produzidas na Europa nos anos 60 e 70, principalmente as vinculadas aos thrillers e aos westerns-spaghettis. Nestes, havia até três países associados na produção, e os exemplos são numerosos de filmes co-produzidos entre a Itália, a Espanha, e a Alemanha. 

Quando Marcel Camus veio filmar a peça de Vinicius De Morais Orfeu da Conceição, em 1959, o filme que brotou da empreitada, Orfeu negro, foi considerado, por muitos críticos, entre eles o ensaísta baiano Walter da Silveira, um “filme estrangeiro”. É que, apesar de rodado no Rio de Janeiro, com boa parte de seu elenco constituído de atores brasileiros, a produção era de fora, e o diretor, na verdade, aproveitou-se do décor exuberante para dar uma visão estrangeira do onírico e poético texto dramático do célebre Vinicius. 

O que faz um filme ser brasileiro? O ideal seria que tanto o capital investido como a equipe técnica e a temática escolhida tivessem raízes nacionais. Alguém pode contestar que Vidas secas (1964) e Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha, entre tantos outros, não sejam filmes genuinamente brasileiros? 

Na época de seu lançamento, Noite vazia, de Walter Hugo Khoury, foi contestado na sua brasilidade pelos cinemanovistas de plantão e de patrulha. Acusaram Khoury de expressar uma visão burguesa influenciada pelo cinema de Bergman e de Antonioni. Mas não se trata também, ainda que em outro prisma e em outra estética, do drama de homens brasileiros envoltos em seus traumas existenciais? A questão, aqui, é representativa de uma radicalização, de um sectarismo, poder-se-ia dizer, do que é brasileiro em relação a suas raízes verdadeiras – questão, aliás, que me parece bizantina e anacrônica nestes tempos chamados pós-modernos. A filmografia de Walter Hugo Khoury, e de todos os outros que lhe seguiram os passos estéticos e temáticos, é tão brasileira quanto os filmes oriundos dos postulados cinemanovistas (que, por outro lado, tinham também influências alienígenas: neorrealismo italiano, nouvelle vague etc). 

Para problematizar um pouco, recorro da memória em relação a um debate ocorrido para se definir o que seria o filme baiano. Alguns, mais radicais, consideravam que para um filme ser baiano precisaria que o capital fosse totalmente oriundo do estado. Outros, mais abertos, mas, nem por isso, menos sectários, apegaram-se à temática. Acredito, neste caso, que o fator gerador da baianidade de um filme tenha muito a ver com a origem de sua produção. Na ocasião da discussão, citou-se o exemplo de Deus e o diabo na terra do sol. Sobre ser uma obra baiana na sua essência e nas suas raízes, com a equipe técnica formada em sua maioria por gente da terra (exceção de Yoná Magalhães, Waldemar Lima, o fotógrafo, entre poucos), o filme, no entanto, foi produzido inteiramente pela Copacabana (Rio de Janeiro), de Álvaro Barbosa. Não se pode negar, entretanto, que Deus e o diabo na terra do sol seja um filme baiano, enquanto que há casos nos quais, realmente, a questão é mais polêmica. Cidade Baixa e Quincas Berro D’Água, ambos de Sérgio Machado, aproveitam, apenas, o décor soteropolitano, mas são obras financiadas por produtores sulinos (Walter Salles, primeiro caso, a Globo, Quincas). Não poderiam, em minha opinião, constar de um catálogo que porventura fosse inserir uma filmografia genuinamente baiana. 

O Brasil, pulverizado por vários tipos de culturas regionais, não é, portanto, um monolito cultural. Brasileiros são todos os filmes que, obedecendo a alguns critérios, como os já citados, espelhem as ambigüidades, as contradições, as maneiras de ser do homem que habita o nosso território. O cinema é, em consequência, um corolário de uma cultura rica e multifacetada, desde os filmes de Mazzaropi, as chanchadas, as diatribes da Boca do Lixo, o cinema underground ou marginal, o Cinema Novo, as pornochanchadas, as películas da Vera Cruz, a obra de Humberto Mauro etc. Algumas fases do cinema nacional foram desprezadas, por contrariedade de uma crítica ideológica, mas que estão, nos tempos atuais, sendo resgatadas (como a efervescência pornochanchadística e o chamado cinema popular pornoerótico) por investigações de uma nova crítica, a exemplo das análises de Andrea Ormond feitas em site do espaço virtual (Estranho Encontro). 

Há, portanto, uma série de elementos a considerar: a produção, a temática, o oportunismo para o aproveitamento do décor, do cenário, de sua cultura etc.

Reflexos em Película

Making a living

 

Por Filipe Chamy

O título da coluna desta edição foi emprestado de um curta de Charles Chaplin e quer dizer algo como: “ganhando seu dinheirinho”, sobrevivendo, se virando.

Desde o começo de suas etapas de produção, o cinema é a mais cara das artes. Sempre é necessário juntar técnicos, atores, conseguir locações, estabelecer prazos, metas, desenvolver tal e tal resultado em tal e tal tempo, fazer tudo esquematizado, ver datas, montar o filme, distribuí-lo etc. Nessa conversa, um mar de dinheiro se esvai. Aí chegamos ao ponto: como não perder dinheiro com essa aventura?

Não é preciso ter um poder de observação apurado para perceber que o único jeito de fazer isso compensar é justamente fazer um filme que atraia bilheteria e pague seus custos e ainda, se possível — e isso quase sempre é esperado —, dê lucro. Mas como fazer isso sem parecer um vendido, sem fazer filmes toscos comprados ou mesmo sem querer fazer trabalhos tão mecânicos como geralmente o são naqueles cinemas industriais tão impessoais como dispensáveis?

A resposta está numa poderosa arma humana: a engenhosidade. Se é sabido que o cinema é assim, não há por que lutar contra a correnteza; mas por que não fazer também sua parte mesmo “dentro” do sistema? Por que não, à parte, paralelamente, desenvolver um cinema autoral, sincero, que abra novas possibilidades na arte, mesmo sem esperar lucrar ou sobreviver com isso?

As pessoas inteligentes já se deram conta disso. Por exemplo, Michael Haneke fez uma americaníssima refilmagem plano-a-plano de seu Funny Games, e por que razão? Simples: não é segredo a ninguém que o público ianque consumidor de cinema é extremamente comodista e tem preguiça de ler legendas; então, como a ordem do dia é regravar os filmes europeus e asiáticos na língua inglesa, Haneke adianta-se e entrega ele próprio o fatal remake de sua obra. Consegue com isso uma certa divulgação, também pelo elenco (Naomi Watts, atriz sempre digna e bastante popular na maioria dos círculos, é a protagonista da vez), e uma projeção que lhe dá liberdade e apoio de quem antes achava seu cinema intrincado, metafísico, intelectual em demasia. Fica tão popular que seu último filme, A Fita Branca, leva Cannes e arrasta um caminhão de críticas favoráveis e prêmios pelo caminho. O que isso representa? O cinema de Haneke não mudou, mas ele entendeu que certas concessões são necessárias para sua carreira não ser prejudicada.

Outro exemplo clássico é Gérard Depardieu. Esse formidável ator é o que se chama um sujeito prático. Ele sabe que para poder embarcar de cabeça em projetos pessoais como Meu Tio da América, Loulou e Les Temps qui Changent, tem que juntar capital e fundos com coisas esquisitas como 102 Dálmatas, O Homem da Máscara de Ferro e Bogus – Meu Amigo Secreto, que certamente não representam o ápice de suas intenções artísticas. Depardieu entende que é preciso ceder, é preciso sobreviver com dignidade, arranjar dinheiro mesmo que “sujo” e assim fazer os sonhos voarem alto, livres de empecilhos materiais.

No oriente, as coisas também não mudam. O exemplo mais notório é obviamente Takashi Miike. Que é conhecido por trabalhos perturbadores como Odishon, Visitor Q e Imprint, mas que tem em sua prolífica filmografia dezenas de filmes feitos sob encomenda, extremamente convencionais e desinteressantes, mas que lhe garantem o público pagante e conseqüentemente o patrocínio para seus próximos filmes. Isso não é se vender. É fazer como Chaplin, que não à toa retomo agora: Carlitos fez inúmeros curtas boçais no começo de sua carreira, para preparar o terreno para a genialidade que o dinheiro já não podia ameaçar de podar. “Making a living” é isso: uma concessão para a liberdade.

Cinema Extremo

Por Marcelo Carrard

NEKROMANTIK 2
Direção Jorg Buttgereit.
Alemanha, 1991.

Em uma das primeiras edições da Zingu!, fiz um modesto texto sobre o filme NEKROMANTIK, de Jorg Buttgereit, observando sua crueza e seus extremos ao encenar um tema maldito de maneira gráfica: a Necrofilia. Oculto nas entrelinhas da literatura gótica, esse tema delicado permeia o Cinema de Horror desde seus primórdios, em filmes clássicos como NOSFERATU, de F W Murnau. O amor e o desejo entre vivos e mortos, a escatologia e o grotesco estão representados de diferentes maneiras nas artes plásticas, na literatura e no cinema. Dentro do ciclo de filmes de Gore Extremo, realizados na Alemanha dos anos 1980, um diretor se difere dos outros ao demonstrar fortes traços de autoria: Jorg Buttgereit.

A crueza de seu primeiro NEKROMANTIK deve-se muito à falta de recursos da produção, que tem como grandes méritos seus efeitos especiais, as enigmáticas sequências do coelho sendo escalpelado e a inversão dessa sequência  durante o brutal ato de autoflagelação. 

Das possíveis leituras sobre a parte final de NEKROMANTIK, podemos perceber algumas alegorias religiosas subvertidas ao extremo, como a ressurreição e o sacrifício/martírio que o protagonista realiza de maneira delirante. Já no segundo filme, temos uma radical inversão do ponto de vista, pois agora o desejo mórbido e a obsessão são guiados pelos atos de uma protagonista feminina. 

NEKROMANTIK 2 já é uma produção feita após a queda do Muro de Berlim, ao contrário do primeiro filme. Temos nessa questão da queda do muro uma possível conexão com o clássico POSSESSÃO, do mestre Andrzej Zulawski, em que a morte, o desejo mórbido e a loucura são trabalhados também de maneira alegórica. 

NEKROMANTIK 2 tem um roteiro muito mais elaborado que o primeiro,   além da produção ser melhor acabada, com boa fotografia e uma construção mais profunda das personagens. O grande conflito agora é o da protagonista feminina, que divide seu desejo entre um amante vivo, que lhe proporciona uma vida normal e regrada, e o corpo decomposto de seu amante morto, que lhe garante a realização de seu oculto desejo mórbido. Esse conflito é o principal alicerce do filme, que na opinião de muitos críticos e fãs do Cinema Extremo é bem superior ao primeiro filme, embora eu, particularmente, seja um grande fã da subversão hardcore do primeiro filme. 

As alegorias religiosas estão presentes nesse segundo filme em sequências perturbadoras como a do manuseio e mutilação do cadáver ao som estilizado de um tema musical sacro. A maneira como a protagonista consegue finalmente resolver o seu dilema amoroso, é, com certeza, o grande momento desse segundo filme, como se tudo que o espectador assistiu fosse apenas uma preparação para essa sequência específica, seguida de um epílogo perturbador e ambíguo, que nada deve aos melhores momentos de Fassbinder e suas releituras muito particulares do melodrama. A dicotomia vida/morte e suas reproduções imagéticas nos dois filmes reforçam ainda mais as influências dos Aktionists de Viena, que, décadas antes, fizeram experimentos teatrais e audiovisuais extremos, usando o corpo como suporte de performances que envolviam escatologia e mutilação. Embora seja um exercício complicado de tolerância, o ideal é assistir os dois NEKROMANTIK em seguida, algo complicado até para fãs tarimbados do Cinema Extremo, mas para os que conseguirem tal feito, a recompensa será a impressão inesquecível de uma obra devastadora que raras vezes o Cinema já ousou mostrar.

Filme-Farol

Osso, Amor e Papagaios

Por Sergio Andrade

O amigo Adilson Marcelino, agora na função de editor-chefe da Zingu!, me arrumou um belo problema ao me convidar para inaugurar essa nova coluna da revista.

Como escolher apenas um filme-farol brasileiro entre tantos que iluminaram nossa vida?

Depois de muito pensar, decidi escrever sobre algum filme que vi na infância e que ficou na memória afetiva. Como já escrevi aqui sobre Uma Pulga na Balança (no dossiê dedicado à Vera Cruz), o escolhido foi Osso, Amor e Papagaios.

Baseado num conto de Lima Barreto, A Nova Califórnia, o filme marcou a estreia na direção de Carlos Alberto de Souza Barros (Dois na Lona, Um Marido Contagiante) e César Memolo Jr. (depois produtor de O Predileto, As Filhas do Fogo,Ato de Violência etc.). O roteiro também ficou a cargo deles.

No começo lembra O Bem Amado, de Dias Gomes (que seria escrito depois): o prefeito da pequena Acanguera promove uma festa pelos 10 anos sem nenhuma morte na cidade. O cemitério está abandonado. Mas pouco antes do início da festa, chega notícia que o coveiro morreu. A partir daí a cidade passa a contar com mais de 70 óbitos em menos de um mês. A chegada de um sujeito estranho irá provocar desconfiança nos habitantes.

O que teria me encantado tanto nesse filme? Certamente o fato de os atores falarem nossa língua e as placas dos comércios estarem escritas em português, mas também a qualidade técnica (fotografia de Chick Fowle, música de Claudio Santoro, som de Ernest Hack). A sátira política com personagens típicos de cidades do interior: o prefeito populista em briga constante com o farmacêutico líder da oposição e fanático pela Revolução Francesa; o gordíssimo delegado que passa a maior parte do tempo empinando pipa com a garotada enquanto sua fogosa esposa o trai com o único policial da delegacia; o químico meio maluco que diz possuir a fórmula para transformar ossos em ouro; a filha do prefeito apaixonada pelo filho do farmacêutico; o intelectual da cidade soltando frases pomposas a todo instante; o dono do bar meio bêbado e sua esposa briguenta. Interpretados por um excelente grupo de atores com os quais só mais tarde eu iria me familiarizar: Jayme Costa, Modesto de Souza, Wilson Grey, Ruth de Souza, Renato Consorte, Maria Dilnah, Mario Alimari, etc.

Fábula sobre a ambição humana, Osso, Amor e Papagaios foi um dos filmes que abriu meus olhos para a existência do cinema brasileiro. Um filme-farol.

Nossa Canção

Germano Mathias


Por Matheus Trunk

Historicamente, a produção cultural da cidade de São Paulo sempre foi tratada pela intelectualidade brasileira como algo menor. No campo literário, autores como Marcos Rey, Henrique Matteucci e Lourenço Diaféria sempre foram subestimados pela classe universitária. No campo musical, existem diversos artistas que não ganharam o devido reconhecimento.

Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini são os compositores mais conhecidos e lembrados do samba de São Paulo. Nomes como Noite Ilustrada, Mauricy Moura e Jorge Costa sempre foram subestimados. O sambista Germano Mathias é outro artista que pertence a esse time.

O Marlon Brando do Pari fez muito sucesso no final dos anos 1950 e início dos 60. Inventivo, ele aprendeu a cantar nas rodas dos engraxates das praças Clóvis Bevilácqua, Sé e República. O primeiro contrato profissional de Germano, feito na Rádio Tupi de São Paulo, o considerava “cantor e executante de instrumentos exóticos”.

O escritor e pesquisador Caio Silveira Ramos é autor de Sambexplícito- as Vidas Desvairadas de Germano Mathias, (2009), biografia oficial do sambista. Ele considera o artista paulistano uma figura transgressora para os anos 50. “Em seu período inicial no Brasil, a televisão era muito séria, sisuda. O Germano era um artista diferente pra época pela personalidade dele. Ele chegava nos programas de TV e pulava na platéia, dava pirueta”, explica. A popularidade do Catedrático do Samba era tanta que ele acabou participando de dois longas-metragens no período.

Em 1959, Germano fez sua estreia no cinema na comédia Quem Roubou Meu Samba? de José Carlos Burle. Produção da Cinelândia Filmes, esta chanchada trata do polêmico tema dos direitos autorais. O filme é baseado numa peça do dramaturgo Silveira Sampaio e o elenco é encabeçado por Ankito, Maria Vidal, Aurélio Teixeira e Catalano. O cantor aparece em uma cena ao lado de Ankito e canta a canção Figurão, faixa do disco Em Continência do Samba.

No mesmo ano, Mathias participou da fita O Preço da Vitória, de Osvaldo Sampaio, um dos primeiros filmes nacionais a tratar do futebol. O argumento é sobre um jovem (o galã Maurício Morey) que sonha em ser um jogador bem sucedido e famoso. No entanto, ele encontrará uma série de dificuldades até se firmar na profissão. Germano Mathias participa de uma antológica cena ao lado do cantor Nerino Silva, em que reproduz uma roda de engraxates da Praça da Sé, região central de São Paulo. Na mesma cena, o sambista aparece cantando o sucesso Lata de Graxa. “Na verdade, O Preço da Vitória não é um grande filme. A película vale mais por ter a presença dos jogadores que tinham sido campeões mundiais na Suécia”, avalia Silveira Ramos.

Conhecido popularmente como Mandusca, Barra Funda, e Marlon Brando do Pari, Germano Mathias teve altos e baixos em sua carreira. “A grande influência dele foi o cantor Caco Velho. No entanto, ele é um artista bastante diferente do Caco. Na minha opinião, ele continua sendo um dos três grandes cantores brasileiros”, opina o cantor e médico Francisco José Bueno Aguiar.

Cantor do asfalto e do concreto de São Paulo, o Catedrático do Samba nem sempre foi bem aceito pela crítica musical. A maioria dos jornalistas cariocas julgou que Germano sempre teve um sotaque muito característico em suas músicas. O crítico José Ramos Tinhorão sempre considerou a canção Minha Nega na Janela preconceituosa. Já Tarik de Souza sempre foi um defensor do sambista. No livro 300 Discos Importantes da Música Brasileira, ele comenta sobre o artista: “Uma espécie de Moreira da Silva paulista, malandro das malocas, de camisa listrada, chapeuzinho enterrado, sapato branco, Germano foi boxeador e bom de pernada”.

Aos 76 anos, o Marlon Brando do Pari continua dando shows e gravando discos. Tive a oportunidade de conversar rapidamente com Germano no ano passado. Muito sério no início da conversa, ele me perguntou: “Mas afinal, você é realmente meu fã?”, eu respondi: “Sim”. Ele deu uma rápida risada e me respondeu: “Olha meu filho, eu não tenho culpa do seu mau gosto”.

Musas do Diniz

Luciana Vendramini

Por Diniz Gonçalves Júnior

luciana é um acorde na rua da memória
matinês e festas que não findam
retina de águas raras
menina mascando um chiclete de menta
bela como o sol dos dias comuns
que rompe na fresta do prédio amarelo

O Que É Cinema Brasileiro?

Por Antonio Leão da Silva Neto

Alguém com certeza fez essa pergunta à Afonso Segreto em 1898, talvez no dia 19 de junho, ou talvez ainda a bordo do navio Brèsil, quando este acionava seu equipamento recém- adquirido na França dos irmãos Lumière para tomar imagens da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro.

112 anos depois, essa pergunta ainda está no ar. Mas vejamos: o que é Cinema Brasileiro pra quem não vê filmes brasileiros há muitos anos? pra quem nunca viu?, pra quem critica sem saber?, pra quem achincalha sem conhecer?. Para esses, com certeza o cinema brasileiro não é nada, não vale nada e nunca será nada, haja visto que ouvimos até hoje, décadas depois, que o Cinema Brasileiro é só mulher pelada, sexo e sacanagem.

Pra essas pessoas e para todas aquelas que duvidam de sua própria capacidade, ou que aplaudem enlatados importados, permitindo a evasão de milhões de dólares que seguem mensalmente para as majors americanas eu digo: O Cinema Brasileiro é paixão, fé, capacidade, talento, adrenalina e obstinação. Mas hoje nos falta o principal: o reconhecimento do público. Produzimos filmes de excelente qualidade, que não fica nada a dever a nenhum cinema do mundo, mas quase ninguém os vê, pois eles percorrem os festivais, privilegiando uma pequena e seleta parte do público, depois vão esquentar as prateleiras das distribuidoras, aguardando uma janela, entre um filme e outro estrangeiro. E nesse quesito, os números não mentem.

Há algum tempo, aliás, pouco tempo atrás, três filmes estrangeiros dominavam 97% das 2200 salas brasileiras. Podemos e devemos mudar esse quadro através de uma forte ação governamental que possibilite que nossos filmes cheguem às telas, inclusive através de campanhas em todas as mídias, incentivando o brasileiro a ver filme brasileiro. Uma nova cultura deve ser fomentada.

Será que nosso passado não nos recomenda? Os primeiros passos com verdadeiros desbravadores como Segreto, Silvino Santos, Leal, Rossi, Cappelaro, Botelho, Bonfioli, etc; o pioneirismo da Cinédia de Adhemar Gonzaga dos anos 1930/40; a popularidade da Atlântida e o glamour da Vera-Cruz dos 50; o experimentalismo do cinema novo e do cinema da boca de São Paulo nos 60; a pornochanchada dos 70; e, finalmente, a retomada a partir dos 90? Seria correto e justo desmerecer o talento de Humberto Mauro? Carlos Manga?, Anselmo Duarte? Nelson Pereira dos Santos? José Mojica Marins? Carlos Diegues? Glauber Rocha? Walter Salles? Carlos Reichenbach? Walter Hugo Khouri? Fernando Meirelles? e tantos e tantos outros?

A aventura de se fazer cinema no Brasil requer muitas qualidades de quem o pretende, não é uma tarefa fácil nem para qualquer um.

A aventura de se fazer cinema no Brasil requer sacrifícios pessoais e financeiros. Muitos cineastas pagam dívidas de seus filmes por décadas e por vezes morrem sem ver a obra pronta, raramente enriquecem.

Então… há de se respeitar quem faz, quem realiza, quem tem a preocupação de mostrar a nossa realidade, nossa brasilidade nas telas e não nos impingir goela abaixo outras realidades que não nos dizem respeito.

Enfim, ao povo o que é do povo, cinema futebol e cachaça. Essa explosiva combinação nos leva a conclusão que, retornando à pergunta inicial, o cinema brasileiro hoje poderia ser representado por uma arvore frondosa e baixa, cheia de grandes galhos carregados de frutos doces e macios, à espera de alguém que por eles se interessem e os queiram degustar.

Antonio Leão da Silva Neto é pesquisador cinematográfico e autor dos livros Dicionário Astros e Estrelas do Cinema Brasileiro, Dicionário de Filmes Brasileiros- Longa-metragem, Dicionário de Filmes Brasileiros – Curta e Média-metragem, Ary Fernandes, sua Fascinante História, e Miguel Borges, um Lobisomem sai da Sombra.

Reflexos em Película

Referência nem sempre é reverência

Por Filipe Chamy

Com a cultura cinematográfica atual bastante voltada para a cinefilia, temos visto cada vez mais presentemente uma cultura de verdadeiros experts em filmes, sujeitos apaixonados, vidrados, obcecados com certas obras, diretores, intérpretes, técnicos. Se por um lado isso é muito positivo e demonstra de alguma maneira a importância que o cinema tem na vida dessas pessoas, o outro gume da faca é bem menos atraente.

A lembrança da cinefilia sempre faz pensar em Truffaut, Tarantino, Bogdanovich, Scorsese, o que seria um ponto a favor dessa situação. Mas há também gente que aproveita essa capa para se disfarçar e parir mediocridades a torto e a direito, tentando lucrar com isso e fugir da confissão de sua falta de importância, talento ou competência.

Desde que se começou a estudar mais seriamente o cinema, alguns filmes ou cineastas foram apontados como padrão de qualidade. À parte o discutível “dogma” gerado com essas supostas unanimidades, não há como não compreender a desonestidade de um projeto cuja essência é recriar algum pedaço dessas obras “incontestáveis”, amparando-se no sucesso dos outros para alcançar com isso suas próprias recompensas (quase sempre, financeiras). Quer dizer, o cinema deixando de ser uma paixão para virar um filão.

Esse almanaque de citações é tão desagradável como inútil, pois qual é a graça de uma comédia como Todo Mundo em Pânico, pautada na assunção que o espectador conheça de cor e salteado os filmes ali satirizados? A graça é supostamente essa, apenas: releiturar de maneira engraçadinha passagens ou diálogos famosos de filmes que de alguma maneira tocaram o público ou permaneceram no seu imaginário por um tempo suficiente para que compreendam as referências amontoadas. Caso o espectador não tenha visto o filme satirizado, bem, problema dele. O filme aí não basta, ele precisa de um complemento anterior à projeção; o público deve ter uma “bagagem” de filmes vistos, de referências conhecidas, entender do que estão zombando. Mas isso é pouco para tornar um filme bom, e toda franquia como essa já nasce datada e com vida útil reduzida. O que não é um grande problema, pelo menos no caso que citei, pois a série Todo Mundo em Pânico é repulsiva.

Talvez o nome mais aclamado dessa tendência seja Mel Brooks. Esse senhor há décadas se propõe a satirizar filmes conhecidos, alegadamente avacalhando com sua seriedade, mas em realidade aproveitando-se de seus méritos para conseguir faturar com eles. Quando o Leslie Nielsen de Drácula – Morto, mas Feliz levanta-se rígido do caixão e bate com a cabeça, essa piada só é realmente entendida por quem já viu o mítico Nosferatu de Murnau. Quem não viu pode achar engraçado, mas o intuito é “homenagear” a famosa atuação de Max Schreck, coisa que E. Elias Merhige fez com muito mais propriedade em A Sombra do Vampiro. Mel Brooks faz isso em praticamente todos os seus filmes, esse humor satírico que resume-se a recriar uma situação já vista e revista em outras obras. É uma espécie de Casseta e Planeta cinematográfico, com resultados bastante assemelhados, até.

Mesmo se com boa intenção, parece que pouca gente percebe o quanto essa mania de querer reverenciar (ou mais propriamente referenciar) seus filmes do coração é nociva ao cinema, pelo menos do jeito como é praticada. Parece que os filmes mais populares das últimas décadas foram aqueles que repetiram uma cena de um filme famoso, que citaram a música de uma trilha conhecida, que trouxeram um ator repetindo um papel que o tornou célebre. Almodóvar, por exemplo, chegou ao auge da dispensabilidade com seu medíocre Abraços Partidos, em que há uma cena com títulos e mais títulos de filmes de que ele gosta, como se isso servisse a algo que não a uma exibição fútil de seus gostos.

Ao invés de citarem tanto, poderiam se preocupar em fazer filmes dignos de citação.

Musas Eternas

Helena Ramos

Por Leo Pyrata

Querida Revista Zingu,

Durante algum tempo matutei sobre como faria este texto. Provavelmente o excesso de cerimônias tem duas causas quase incontornáveis. Primeiro porque a Zingu é a revista que atiçou, amplificou e aprofundou minha paixão por um certo cinema brasileiro e a possibilidade de contribuir falando da Helena Ramos é um privilégio mas ao mesmo tempo me coloca numa situação ingrata. Porque verdade seja dita, nada que eu escreva vai mexer mais o leitor que a própria presença graciosa de Helena Ramos na tela.

Existem razões que são mais fortes que meu discernimento de reconhecer minha incapacidade de abraçar tarefas que vão além dos meus limites. O privilégio de escrever sobre Helena Ramos me parecia, num primeiro momento, uma oportunidade de prestar reverencia para a Rainha da Boca e tentar retribuir de alguma forma com a revista que despertou meu amor pelo cinema da boca. Existe na obviedade da escolha do nome de Helena Ramos uma fixação que é mais forte que o medo de estar apenas sublinhando tudo que já foi dito.

Infelizmente, não tenho nada de novo para compartilhar sobre Helena Ramos. De sua presença intensa no cinema brasileiro pude assistir um pouco menos da metade dos filmes e é a partir deles que tentarei me aproximar verbalizando minhas impressões. E no fundo tenho certeza que preciso falar de como suas escleróticas me rasgam por dentro (por mais que isso pareça estranho). Um triangulo das bermudas que se completa com o branco dos dentes que escapa da boca entreaberta da Rainha da boca dos sonhos. Esfinge indecifrável de rosto-enigma que não se esgota em palavras, e é maior que adjetivos produzindo fé na presença da estrela em cena. O cinema sensibilizado nos lábios de Helena em êxtase, um gozo com verdade no olhar. Imagem que guardei no peito e que me trouxe tantas outras.

Possuído pelo pecado de me embriagar com a polifonia de personagens que passearam pelas minhas retinas vivas nas paginas do seu rosto. Algumas vezes com outras vozes, tons de pele, cortes e cortes de cabelo. Em cada história que o corpo de Helena banha o cinema é uma cachoeira bendita. Bendita seja, sereia cangaceira erótica deitada nua nas pedras rindo e avexada ao pagar o primeiro peitinho. Bendita seja como Ana dando um caldo no Bacalhau. Como Dóris que eu queria colocar na minha monark barra forte e preparar o melhor estrogonofe de camarão para picá-la como inseto do amor. Ou Maria com quem enfrentaria o bando de Azulão, ou Alice para ser bem tratado como Jumbo.

Mulher sensual, protótipo da mulher brasileira, estrela de novela das oito que entre dezenove eu escolhi como objeto e com a mesma fé que Durvalina se despe em Crazy , me ajoelho perante a imagem de Helena . Como beata da FTP badalando os sinos no Palácio de Venus ou jogando capoeira contra o bando de Azulão.

Invejo as lentes que lamberam os olhos indecifráveis, a boca que com a mesma facilidade ilustra do gozo ao riso e a provocação purificando a metonímia tanto as matizes da burguesa frígida e recalcada quanto quando passeia dengosa pela comédia.

Eu poderia passar o resto dos meus dias testemunhando o evangelho fílmico de Helena Ramos, mas sei que basta guardar aquele olhar no coração da minha memória e estarei salvo.

Leo Pyrata é estudante de cinema, ator do curta Contagem – Prêmio de Melhor Direção para Gabriel Martins e Maurílio Martins no Festival de Brasília -, diretor do curta Retrato em Vão, co-diretor do longa Estado de Sítio, e vocalista da banda Grupo Porco de Grindcore Interpretativo.

Inventário Grandes Musas da Boca

Márcia Maria

Por Adilson Marcelino

Na década de 1970, três atrizes dividiam o estrelato na TV Tupi. E se Eva Wilma era a rainha, as princesas eram, com certeza, Elaine Cristina e Márcia Maria. Todas elas levaram seu talento também para o cinema, mas foi Márcia Maria que se tornou uma das amadas musas da Boca do Lixo.

Márcia Maria construiu uma extensa carreira na televisão, onde trabalhou como atriz e apresentadora, e foi estrela em duas importantes emissoras: Record e Tupi. Na primeira, estreou na série Ceará contra 007, de Marcos César, em 1965, e brilhou em novelas como Algemas de Ouro (1969), As Pupilas do Senhor Reitor (1970) e Os Deuses Estão Mortos (1971). Já na Tupi, atuou em novelas importantes como Mulheres de Areia (1973) e Os Inocentes (1974), ambas de Ivani Ribeiro.

Ainda na Tupi foi uma das estrelas preferidas de Geraldo Vietri, sempre fazendo par romântico com Jonas Mello: Meu Rico Português (1975), Os Apóstolos de Judas (1976), João Brasileiro, O Bom Baiano (1978).

Ainda nos primeiros anos de carreira, Márcia Maria estréia no cinema em ousado filme de Fauzi Mansur, Cio – Uma Verdadeira História de Amor, lançado em 1971. Fauzi Mansur foi um dos mais atuantes nomes da Boca do Lixo e dirigiu quase quarenta filmes, mais outros tantos como produtor. Na história, ela é uma moça da alta sociedade que está de casamento marcado com o personagem de Francisco di Franco, um engenheiro da indústria automobilística. No início da trama, em uma de suas escapadas com a amante vivida por Marlene França, ele vê um garoto retirante na estrada e fica fascinado. Tempos depois reencontra o menino Darci como engraxate, vira seu tutor, mas é assolado por paixão fulminante por ele e se debate ante o despertar do desejo homossexual, que não entende muito bem. Essa estranha relação abalará o casal de forma indesviável.

O próximo filme de Márcia Maria viria alguns anos depois, dessa vez dirigida por Sílvio de Abreu, outro nome de sucesso da Boca, que depois se tornaria novelista consagrado. O filme é Gente Que Transa, de 1974, estreia de Abreu como cineasta depois que Carlos Manga desistiu de dirigir a fita. Na trama, uma sátira sobre acirrada disputa entre Luiz Guilherme e Carlos Eduardo, respectivamente Adriano Reys e Carlos Eduardo Dolabella, para ver quem vence uma concessão de TV. Márcia Maria é Denise, a mocinha do filme.

Uma das marcas de Geraldo Vietri era a de trabalhar quase sempre com o mesmo elenco, e isso valia tanto para a televisão como para o cinema. Portanto, nenhuma surpresa em escalar Márcia Maria, uma de suas queridas atrizes, para o filme Que Estranha Forma de Amar, lançado em 1978. Baseado no romance “Iaiá Garcia”, de Machado de Assis, aqui ela é Eulália.

Mas é no encontro com José Miziara, um dos grandes nomes do cinema popular da Boca do Lixo, que Márcia Maria terá a sua disposição os melhores personagens de sua carreira cinematográfica – a atriz foi casada com o ex-cunhado do cineasta. Com Miziara ela fez As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) e As Amantes de um Homem Proibido (1982).

As Intimidades de Analu e Fernanda é um dos melhores filmes de Miziara, em que ele reuniu duas deusas: Helena Ramos e Márcia Maria. Na trama, Helena é Analu, mulher que se sente oprimida pelo marido Gilberto, personagem vivido por Ênio Gonçalves. Cansada de sua vida de casada, que mais parece uma prisão, ela decide se separar, pega suas coisas e cai na estrada. No caminho encontra Fernanda, personagem de Márcia Maria, que gentilmente oferece hospedagem em sua casa. Começa aí um perigoso romance homossexual, já que Fernanda se revelará cada vez mais ciumenta e possessiva. Gilberto descobre o paradeiro de Analu, que por sua vez resolve fugir mais uma vez do marido e da amante. Mas nenhum dos dois vai querer abrir mão tão facilmente de Analu.

Fernanda é um personagem sob medida para Márcia Maria, que empresta toda sua sensualidade elegante e sua carga dramática de atriz. O contraponto com a Analu de Helena Ramos funciona perfeitamente. Há forte acento moralista na construção da personagem Fernanda, em que a homossexualidade é mais uma vez associada ao desequilíbrio emocional e à violência. Mas nada disso tira o brilho do filme, que prende atenção do início ao fim, demonstrando mais uma vez o talento de Miziara.

O outro filme em que Márcia Maria é protagonista é As Amantes de Um Homem Proibido (1982). Nuno Leal Mais é Leandro, o tal homem proibido, e Márcia Maria, Liza Vieira, Regina Tonini e Dirvana Brandão as tais amantes, nesse drama policial. E Nuno é proibido porque fugitivo da polícia depois de sumir de São Paulo com mala de dinheiro roubado de banco e onde matou dois comparsas, inclusive a mulher bandida que amava e que foi usada como escudo. Ele vai parar em Campestre, cidade do interior de Minas Gerais, onde se emprega como caseiro na casa de Márcia Maria, e de quem vira amante.

O roteiro desse As Amantes de Um Homem Proibido, também assinado por Miziara, reserva reviravoltas engenhosas. Márcia Maria está perfeita como Flávia, a dona de um sítio onde passa a maior parte do tempo sozinha, já que o marido, Walter Forster, só aparece nos finais de semana. A forma como se dá a relação de Flávia e Leandro depende, e muito, de bons intérpretes para dar veracidade à história. E aqui, Nuno Leal Maia e Márcia Maria encarnam esse casal na medida certa.

Infelizmente, depois desses dois filmes com José Miziara, Márcia Maria não foi mais escalada para o cinema. O que é uma pena, além de ser completamente incompreensível. De qualquer forma, seu posto de musa jamais será esquecido por todos os amantes do cinema popular.

Pitaco de Matheus Trunk

Márcia Maria! Que alegria eu ter sido lembrado para falar sobre essa grande musa do cinema e da televisão. Vivemos num país sem memória, em que diversas pessoas de real talento são condicionadas a uma espécie de segunda divisão. Esse é o caso da atriz aqui retratada. Posso dizer que a fantástica Márcia Maria foi uma das mais talentosas e sensuais atrizes brasileiras das décadas de 1960 e 70. Fez muitas novelas na saudosa TV Tupi, sempre se destacando entre as suas contemporâneas. Infelizmente, ela fez muito poucos filmes e talvez nunca tenha ganhado um papel a sua altura. Me lembro que fiquei fascinado pela atuação dela no clássico As Intimidades de Analu e Fernanda, do José Miziara. Trata-se de um dos melhores filmes da Boca do Lixo paulista, um pornodrama muito bem feito. O próprio Miziara me falou que seu filme favorito como diretor é mesmo O Pecado Horizontal, mas ele tinha um carinho especial por Intimidades. Outras grandes atrizes que eram muito ativas na Tupi como Arlete Montenegro, Kate Hansen e Wanda Stefânia hoje estão esquecidas. É muito difícil tentar entender o real motivo disso. O melhor é sempre falar e prestigiar essas grandes divas, que, infelizmente, ficaram relegadas a um segundo plano.

 

Filmografia

 . Cio – Uma Verdadeira História de Amor (1971), de Fauzi Mansur
. Gente que Transa (1974), de Sílvio de Abreu
. Que Estranha Forma de Amar (1977), de Geraldo Vietri
. As Intimidades de Analu e Fernanda (1980), de José Miziara
. As Amantes de um Homem Proibido (1978), de José Miziara