Reflexos em Película

Making a living

 

Por Filipe Chamy

O título da coluna desta edição foi emprestado de um curta de Charles Chaplin e quer dizer algo como: “ganhando seu dinheirinho”, sobrevivendo, se virando.

Desde o começo de suas etapas de produção, o cinema é a mais cara das artes. Sempre é necessário juntar técnicos, atores, conseguir locações, estabelecer prazos, metas, desenvolver tal e tal resultado em tal e tal tempo, fazer tudo esquematizado, ver datas, montar o filme, distribuí-lo etc. Nessa conversa, um mar de dinheiro se esvai. Aí chegamos ao ponto: como não perder dinheiro com essa aventura?

Não é preciso ter um poder de observação apurado para perceber que o único jeito de fazer isso compensar é justamente fazer um filme que atraia bilheteria e pague seus custos e ainda, se possível — e isso quase sempre é esperado —, dê lucro. Mas como fazer isso sem parecer um vendido, sem fazer filmes toscos comprados ou mesmo sem querer fazer trabalhos tão mecânicos como geralmente o são naqueles cinemas industriais tão impessoais como dispensáveis?

A resposta está numa poderosa arma humana: a engenhosidade. Se é sabido que o cinema é assim, não há por que lutar contra a correnteza; mas por que não fazer também sua parte mesmo “dentro” do sistema? Por que não, à parte, paralelamente, desenvolver um cinema autoral, sincero, que abra novas possibilidades na arte, mesmo sem esperar lucrar ou sobreviver com isso?

As pessoas inteligentes já se deram conta disso. Por exemplo, Michael Haneke fez uma americaníssima refilmagem plano-a-plano de seu Funny Games, e por que razão? Simples: não é segredo a ninguém que o público ianque consumidor de cinema é extremamente comodista e tem preguiça de ler legendas; então, como a ordem do dia é regravar os filmes europeus e asiáticos na língua inglesa, Haneke adianta-se e entrega ele próprio o fatal remake de sua obra. Consegue com isso uma certa divulgação, também pelo elenco (Naomi Watts, atriz sempre digna e bastante popular na maioria dos círculos, é a protagonista da vez), e uma projeção que lhe dá liberdade e apoio de quem antes achava seu cinema intrincado, metafísico, intelectual em demasia. Fica tão popular que seu último filme, A Fita Branca, leva Cannes e arrasta um caminhão de críticas favoráveis e prêmios pelo caminho. O que isso representa? O cinema de Haneke não mudou, mas ele entendeu que certas concessões são necessárias para sua carreira não ser prejudicada.

Outro exemplo clássico é Gérard Depardieu. Esse formidável ator é o que se chama um sujeito prático. Ele sabe que para poder embarcar de cabeça em projetos pessoais como Meu Tio da América, Loulou e Les Temps qui Changent, tem que juntar capital e fundos com coisas esquisitas como 102 Dálmatas, O Homem da Máscara de Ferro e Bogus – Meu Amigo Secreto, que certamente não representam o ápice de suas intenções artísticas. Depardieu entende que é preciso ceder, é preciso sobreviver com dignidade, arranjar dinheiro mesmo que “sujo” e assim fazer os sonhos voarem alto, livres de empecilhos materiais.

No oriente, as coisas também não mudam. O exemplo mais notório é obviamente Takashi Miike. Que é conhecido por trabalhos perturbadores como Odishon, Visitor Q e Imprint, mas que tem em sua prolífica filmografia dezenas de filmes feitos sob encomenda, extremamente convencionais e desinteressantes, mas que lhe garantem o público pagante e conseqüentemente o patrocínio para seus próximos filmes. Isso não é se vender. É fazer como Chaplin, que não à toa retomo agora: Carlitos fez inúmeros curtas boçais no começo de sua carreira, para preparar o terreno para a genialidade que o dinheiro já não podia ameaçar de podar. “Making a living” é isso: uma concessão para a liberdade.

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