As Deusas

Dossiê de Aniverário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

As Deusas
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1972.

Por Celso Sabadin

Muitos dos elementos típicos da obra de Walter Hugo Khouri podem ser encontrados em seu filme As Deusas, de 1972. Entre eles, sedução, culpa, a liberação através da exploração dos limites da sexualidade, elegância narrativa. Apenas três atores e uma locação são suficientes para envolver o espectador numa trama de mistério, suspense e erotismo.

Ângela (Lilian Lemmertz) é uma mulher atormentada por sérios problemas psicológicos. Não importa, para o filme, quais sejam eles. Importa, sim, que sua perturbação mental afeta diretamente seu marido Paulo (Mário Benvenutti), que não sabe como proceder diante das crises de angústia da esposa. Ao mesmo tempo, ele se sente culpado por não ter a capacidade de, na qualidade de homem-provedor, fazer com que o casamento seja forte o suficiente para superar a suposta esquizofrenia de Ângela. Paradoxalmente, porém, a loucura da esposa fascina o marido.

O terceiro vértice do triângulo será completado por Ana (Kate Hansen), a psiquiatra de Ângela, que se julga igualmente incompetente em curar sua paciente. Destes medos e inseguranças nascerá uma crescente relação de desejos que envolverá os protagonistas numa rede de sedução. 

Como sempre, são marcantes a elegância e o refinamento da direção de Khouri, em todos os sentidos. Desde o mais simples adereço de decoração, até a precisão dos enquadramentos, passando pela fluidez dos movimentos de câmera. Logo nos primeiros instantes, Khouri nos brinda com raros planos de uma São Paulo absolutamente vazia, rasgada por um carro que corre em busca da solidão. Solidão que pontuará todo o filme, belamente fotografado por Rudolf Icsey, aqui auxiliado por um jovem Antonio Meliande em início de carreira.

Explorando as dicotomias morena/loura, claro/escuro, realidade/desejo, Khouri filma suas atrizes no esplendor de suas belezas, e banqueteia a plateia com closes generosos de Lilian (então aos 35 anos) e a jovem Kate, aos 20 anos, aqui em seu segundo papel no cinema, logo após sua breve participação em Maridos em Férias.

Rogério Duprat compõe uma trilha sonora tensa, densa e enigmática – por vezes melancólica – que acaba se tornando elemento de fundamental importância no próprio desenvolvimento narrativo do filme. E conduz com temas clássicos e jazzísticos o lento balé da sedução que envolverá os personagens. São pedaços filosóficos de cinema, tão tipicamente “khourianos”, aqui unidos pelo eficiente ritmo da montagem de Silvio Renoldi, premiado pela APCA como melhor montador por este filme. 

É um filme de olhares, de silêncios e longos planos, onde a evocação de libertários tempos passados ganha espaço através de músicas e fotos antigas. 

Não por acaso, a luxuosa mansão onde tudo acontece se chama “Anima” (alma) e acaba funcionando praticamente como um quarto personagem dentro de As Deusas, 11º longa metragem de Walter Hugo Khouri.

Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema.

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