Amor Estranho Amor

Dossiê de Aniversário: O Autor  – Walter Hugo Khouri 

Amor Estranho Amor
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1982.

Viagem ao princípio de um mundo pessoal

Por Marcelo Miranda

Se você apenas conhece Amor Estranho Amor como “aquele em que a Xuxa aparece pelada”, já passou da hora de se desinfetar dessa verdadeira praga que assola este filme tão especial e de maturidade na carreira de Walter Hugo Khouri. Da tela emana uma força magnética, um estado de transe, um mergulho intimista na mente de um personagem que tateia em busca não apenas de suas memórias, mas de si mesmo enquanto representação imagética, sonora e sensorial. Da ambientação vem algo fantasmagórico, naquele casarão de escadas gigantes, longos corredores e quartos cujas paredes quase literalmente têm ouvidos.

E há os olhares. Amor Estranho Amor é, acima de qualquer outro aspecto, um filme sobre o olhar – o olhar perscrutador, o olhar desconfiado, sedutor, provocador, angustiado, curioso. Os olhos azuis de um jovem Hugo (interpretado pelo garoto Marcelo Ribeiro) exploram cada linha geométrica da casa e do corpo das mulheres com quem se encontra e se esfrega. Num misto de desbravamento e descoberta, o menino não sabe até onde poderá ir nem faz ideia do que o espreita – quando, na verdade, é ele quem espreita, ainda que pareça não ter consciência de sua própria capacidade e poder de vislumbrar os acontecimentos da casa e atrair para si as principais atenções.

Sempre alguém olha em Amor Estranho Amor. Na sua obviedade, essa afirmação ganha contornos estéticos na elaborada encenação de Khouri, na dança de olhos que ele perpetra, na montagem cuidadosamente planejada para provocar no espectador o desconcerto de quem não sabe exatamente o que deveria ou não ser visto. É um filme também de ações incompletas, de faltas, de lacunas, de gestos interrompidos. Ninguém consegue efetivamente “estar por inteiro” no filme, ora porque outros interrompem os movimentos (sejam as primeiras e frustradas seduções de Hugo pelas personagens de Matilde Mastrangi e Xuxa, seja a ação política evidenciada na subtrama de Tarcísio Meira e que envolve o golpe de Estado de Getúlio Vargas em 1937), ora porque há impossibilidades menos plausíveis e concretas a sondarem as ações em cena.

Como o professor Isak Borg do Morangos Silvestres de Bergman, o velho Hugo (vivido por um sóbrio Walter Forster) visualiza e divide espaço (inclusive num mesmo plano) com suas memórias e seu passado. Vemos o que sua mente projeta a nós, algo que nos incapacita de acreditar plenamente na concretude da narrativa. Apesar de não se moldar como fragmentário, o filme parece estar o tempo todo em suspenso, levitando pelo espaço e pelo cenário, inserindo os corpos dos atores no quadro como se eles fossem elementos pictóricos de uma obra em movimento que vai sendo contornada a cada novo minuto. A imagem quase sempre é enquadrada de um ponto específico e frontal da situação apresentada para depois ser reenquadrada sob a visão limitada de Hugo, dependente das brechas e frestas que a casa lhe permite espiar à medida que ele vai explorando as aparentes e infinitas possibilidades das entranhas locais. Esses constantes reenquadramentos permitem que a imagem, antes objetiva e de viés mais psicanalítico (portanto, mais gélida e fria), seja reconfigurada e tornada mais poética e menos dependente de um entendimento pleno dos fatos – e justamente neste ponto estará o limite entre a memória de Hugo e os acontecimentos em si.

Amor Estranho Amor foi uma espécie de súmula edipiana da trajetória de Khouri – ou, mais especialmente, da persona cinematográfica que ele criou ao longo de 30 anos de carreira. Seja ou não autobiográfico (o nome do protagonista ser Hugo definitivamente não é mera coincidência, assim como o fato de que o próprio cineasta tinha 8 anos de idade na época em que o filme se ambienta – quase exatamente como o personagem), este trabalho tem a relevância de nos carregar numa viagem intimista e excitante como se fôssemos nós mesmos os pilotos, como se aquelas pseudo-memórias fossem as nossas, como se Hugo contivesse uma parte do espectador. Encontrar a si mesmo, para Khouri, era o motivo maior de um sincero sorriso.

*Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo (Belo Horizonte – MG) e da revista eletrônicas Filmes Polvo (www.filmespolvo.com.br)

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