As Cariocas – segundo episódio

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri 

 
As Cariocas (segundo episódio)
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1966. 

Por Daniel Salomão Roque

Um escritor, uma cidade e as mulheres que nela vivem. Estes são os eixos a ligar três cineastas absolutamente díspares em torno de uma mesma produção – As Cariocas, um dos muitos filmes episódicos a serem produzidos na década de 60, época em que os realizadores, sobretudo os europeus, se encantaram com este formato que, de certa forma, parecia traduzir para o cinema a lógica das antologias literárias: um tema e pequenos enredos autônomos que se desenvolvem como contos ou crônicas em película.

O escritor é Sergio Porto, ou melhor, Stanislaw Ponte Preta; a cidade, como o próprio título indica, o Rio de Janeiro. Como muitos filmes do tipo, As Cariocas sofre de uma irregularidade que é, ao mesmo tempo, sua força e fraqueza. Cada um de seus três episódios constitui um prisma por onde o legado do autor sofre determinado tipo de refração, de acordo com o cineasta que o dirige: o de Walter Hugo Khouri talvez seja o mais característico deles, e o impacto que provoca é ainda maior quando levamos em conta sua inserção entre a engessada comédia de erros de Fernando de Barros e a sátira metalingüística de Roberto Santos – que, separados por um enorme abismo estético e qualitativo, estão ainda assim unidos pelo viés cômico, coisa que está longe de constar entre as preocupações de Khouri. Para ele, só o que importa é seguir Jacqueline Myrna, por onde quer que ela esteja – se espreguiçando na cama, tomando o café da manhã, se bronzeando na praia, visitando a pensão do noivo, deitando-se com o amante, observando as vitrines de um antiquário, zanzando a esmo pela rua – e fazer de sua rotina a nossa melancolia. 

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