A Ilha

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

AIlha

A Ilha
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1963.

Por Gabriel Carneiro

Quinto longa daquele que se tornaria um dos maiores cineastas brasileiros da história, A Ilha é o último filme da primeira fase de Walter Hugo Khouri. Nele, ainda estão estampados uma maior aproximação com o cinema americano de gênero – no caso, uma mistura de aventura com filme de pirata -, o flerte com um ambiente não urbano – aqui, o litorâneo; em outros, o rural – e uma menor preocupação com o existencial, ainda que o aspecto psicológico seja soberano. Isso, aos poucos, em sua carreira, iria se transformando e chegaria ao Khouri que se tornou mais conhecido: ambientes urbanos, personagens de almas esvaziadas e motivados pelo desejo, fortes confrontos existenciais, erotismo latente, etc, características que seriam mais fortes a partir de Noite Vazia (1964), possivelmente sua maior obra-prima.

AIlha1-300x201Mas, apesar dos apesares, A Ilha, este filme quase esquecido, não está tão distante do que Khouri fez de mais famoso. O longa, que teve grande e cara produção, contando com recriação de uma praia nos estúdios da Vera Cruz para cenas noturnas, narra a história de um grupo de ricaços que viaja para uma ilha semi-deserta onde acreditam estar enterrado o tesouro de um pirata do século XVIII. O que inicialmente era um jogo fútil se transforma numa caçada sem escrúpulos. O que poderia ser um simples filme de trapaças é, para Khouri, um objeto de observação quase antropológica, dando aos personagens uma incrível liberdade de movimentação. As derivações de análise psicológica vêm de maneira quase natural frente aos personagens tão bem delineados. Em determinados momentos, quando presos na ilha, lembra inclusive alguns recortes de O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel.

Khouri também ficou famoso pelo retrato da classe média, fazendo afronta ao Cinema Novo da época, pelo qual foi considerado alienado. Em A Ilha, talvez um de seus longas mais críticos, fundamenta-se numa classe mais abastada – que também estaria presente na maioria de seus filmes. Para Khouri, o que interessa é mostrar o quão podre e degenerada são essas pessoas, não pela condição social, mas pela forma como se vangloriam de uma condição que lhes é inerente, subjugando a todos ao seu redor. Os ricos do filme são, em sua maioria, herdeiros, sem propósito na vida, desprovidos de sentimentos, cuja vivência é um jogo de superioridade. Achar primeiro o tesouro menos dizia sobre o valor financeiro e mais em relação a uma necessidade de se expor, de sentir-se superior – e, aí, suprindo uma necessidade do ego. O próprio erotismo latente de toda sua obra – fator muito forte, mas nunca vulgar, que lhe deu a pecha de ‘cineasta pornô’ indevidamente – é uma condição existencial, é a forma de igualar o ser humano ao seu básico instintivo.

Os trabalhos de Khouri sempre tiveram diversas camadas. Para apreciá-los, parece-me, não se pode ficar apenas na superfície, na primeira camada, pois são muito banais. É diferente do típico cinemão, em que isso pode bastar ao espectador. Khouri é um cineasta a ser perseguido, adentrado, revisto. Somado tudo isso à sua perfeição formal – A Ilha conta com Rudolf Icsey na fotografia, Pierino Massenzi na direção de arte, Máximo Barro na edição e Rogério Duprat na trilha musical –, só pode se confirmar uma coisa: poucos filmaram como Walter Hugo Khouri.

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