Amor Voraz

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri 

 

Amor Voraz
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1984.

Por Ailton Monteiro

Quem está acostumado com as obras de Walter Hugo Khouri vistas pela ótica masculina, especialmente os filmes mais eróticos protagonizados pelo personagem Marcelo, deve estranhar um pouco esta obra que a princípio lembra bastante Persona, de Ingmar Bergman. Temos uma personagem com problemas de depressão (Vera Fischer) e uma psicóloga pronta para auxiliá-la com métodos alternativos (Lucinha Lins), aproveitando o lugar onde ela passa os dias, com muito verde, rios e cachoeiras.

Depois da saída de cena de Lucinha Lins, o filme passa a ganhar outros contornos. Vemos, então, que Amor Voraz (1984) é uma obra de caráter fantástico, como outros dois filmes do diretor, O Anjo da Noite (1975) e As Filhas do Fogo (1978). Acentuando o clima de mistério está o habitual colaborador de Khouri, o músico Rogério Duprat.

A história gira em torno do aparecimento de um homem nu (Marcelo Picchi), que não fala uma palavra, mas que se comunica por telepatia com Ana, a mulher que o acolhe na casa. As outras mulheres, que já tratavam Ana com remédios prescritos, acham que ela está cada vez mais louca quando ela começa a dizer que o sujeito veio de outro planeta e conta detalhes de sua viagem a Terra.

Amor Voraz envolve o espectador com sua atmosfera de mistério e com seu andamento lento, mas hipnotizante, dom que poucos cineastas brasileiros tiveram ou têm. O erotismo é deixado um pouco de lado em prol de algo transcendental. Não que o sexo esteja ausente do filme. Khouri parece nos dizer que há algo mais importante do que o sexo, mas que nós, humanos, ainda não estamos preparados para nos desapegar dos prazeres carnais.

A própria personagem de Vera Fischer, quando começa a se tornar possessiva em relação ao estranho, perde o dom de entender a sua mente. Bianca Byington, com seus belos e expressivos olhos, confere com perfeição à personagem Júlia um ar de sensualidade e até de maldade.

Curiosamente, este é o filme de Khouri em que homem não tem voz. O único homem que aparece em Amor Voraz é o alienígena misterioso, mas este não fala uma palavra. Há outros homens em papéis muito pequenos, mas eles são rapidamente esquecidos. Enquanto isso, há uma casa povoada por três mulheres diferentes, que pensam no homem como um objeto para realizar seus prazeres ou descarregar suas frustrações e carências afetivas. Juntam-se às três a personagem de Lucinha Lins e a de Cornélia Herr.

Talvez a falha do filme esteja apenas em seu final, quando tenta se aproximar da narrativa de obras de ficção científica americanas ou inglesas. Ainda assim, difícil imaginar outro desfecho para o enredo, podendo-se dizer que Amor Voraz é um filme especial de Khouri. Em muitos sentidos.

 

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