Nossa Canção

Germano Mathias


Por Matheus Trunk

Historicamente, a produção cultural da cidade de São Paulo sempre foi tratada pela intelectualidade brasileira como algo menor. No campo literário, autores como Marcos Rey, Henrique Matteucci e Lourenço Diaféria sempre foram subestimados pela classe universitária. No campo musical, existem diversos artistas que não ganharam o devido reconhecimento.

Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini são os compositores mais conhecidos e lembrados do samba de São Paulo. Nomes como Noite Ilustrada, Mauricy Moura e Jorge Costa sempre foram subestimados. O sambista Germano Mathias é outro artista que pertence a esse time.

O Marlon Brando do Pari fez muito sucesso no final dos anos 1950 e início dos 60. Inventivo, ele aprendeu a cantar nas rodas dos engraxates das praças Clóvis Bevilácqua, Sé e República. O primeiro contrato profissional de Germano, feito na Rádio Tupi de São Paulo, o considerava “cantor e executante de instrumentos exóticos”.

O escritor e pesquisador Caio Silveira Ramos é autor de Sambexplícito- as Vidas Desvairadas de Germano Mathias, (2009), biografia oficial do sambista. Ele considera o artista paulistano uma figura transgressora para os anos 50. “Em seu período inicial no Brasil, a televisão era muito séria, sisuda. O Germano era um artista diferente pra época pela personalidade dele. Ele chegava nos programas de TV e pulava na platéia, dava pirueta”, explica. A popularidade do Catedrático do Samba era tanta que ele acabou participando de dois longas-metragens no período.

Em 1959, Germano fez sua estreia no cinema na comédia Quem Roubou Meu Samba? de José Carlos Burle. Produção da Cinelândia Filmes, esta chanchada trata do polêmico tema dos direitos autorais. O filme é baseado numa peça do dramaturgo Silveira Sampaio e o elenco é encabeçado por Ankito, Maria Vidal, Aurélio Teixeira e Catalano. O cantor aparece em uma cena ao lado de Ankito e canta a canção Figurão, faixa do disco Em Continência do Samba.

No mesmo ano, Mathias participou da fita O Preço da Vitória, de Osvaldo Sampaio, um dos primeiros filmes nacionais a tratar do futebol. O argumento é sobre um jovem (o galã Maurício Morey) que sonha em ser um jogador bem sucedido e famoso. No entanto, ele encontrará uma série de dificuldades até se firmar na profissão. Germano Mathias participa de uma antológica cena ao lado do cantor Nerino Silva, em que reproduz uma roda de engraxates da Praça da Sé, região central de São Paulo. Na mesma cena, o sambista aparece cantando o sucesso Lata de Graxa. “Na verdade, O Preço da Vitória não é um grande filme. A película vale mais por ter a presença dos jogadores que tinham sido campeões mundiais na Suécia”, avalia Silveira Ramos.

Conhecido popularmente como Mandusca, Barra Funda, e Marlon Brando do Pari, Germano Mathias teve altos e baixos em sua carreira. “A grande influência dele foi o cantor Caco Velho. No entanto, ele é um artista bastante diferente do Caco. Na minha opinião, ele continua sendo um dos três grandes cantores brasileiros”, opina o cantor e médico Francisco José Bueno Aguiar.

Cantor do asfalto e do concreto de São Paulo, o Catedrático do Samba nem sempre foi bem aceito pela crítica musical. A maioria dos jornalistas cariocas julgou que Germano sempre teve um sotaque muito característico em suas músicas. O crítico José Ramos Tinhorão sempre considerou a canção Minha Nega na Janela preconceituosa. Já Tarik de Souza sempre foi um defensor do sambista. No livro 300 Discos Importantes da Música Brasileira, ele comenta sobre o artista: “Uma espécie de Moreira da Silva paulista, malandro das malocas, de camisa listrada, chapeuzinho enterrado, sapato branco, Germano foi boxeador e bom de pernada”.

Aos 76 anos, o Marlon Brando do Pari continua dando shows e gravando discos. Tive a oportunidade de conversar rapidamente com Germano no ano passado. Muito sério no início da conversa, ele me perguntou: “Mas afinal, você é realmente meu fã?”, eu respondi: “Sim”. Ele deu uma rápida risada e me respondeu: “Olha meu filho, eu não tenho culpa do seu mau gosto”.

Musas do Diniz

Luciana Vendramini

Por Diniz Gonçalves Júnior

luciana é um acorde na rua da memória
matinês e festas que não findam
retina de águas raras
menina mascando um chiclete de menta
bela como o sol dos dias comuns
que rompe na fresta do prédio amarelo

O Que É Cinema Brasileiro?

Por Antonio Leão da Silva Neto

Alguém com certeza fez essa pergunta à Afonso Segreto em 1898, talvez no dia 19 de junho, ou talvez ainda a bordo do navio Brèsil, quando este acionava seu equipamento recém- adquirido na França dos irmãos Lumière para tomar imagens da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro.

112 anos depois, essa pergunta ainda está no ar. Mas vejamos: o que é Cinema Brasileiro pra quem não vê filmes brasileiros há muitos anos? pra quem nunca viu?, pra quem critica sem saber?, pra quem achincalha sem conhecer?. Para esses, com certeza o cinema brasileiro não é nada, não vale nada e nunca será nada, haja visto que ouvimos até hoje, décadas depois, que o Cinema Brasileiro é só mulher pelada, sexo e sacanagem.

Pra essas pessoas e para todas aquelas que duvidam de sua própria capacidade, ou que aplaudem enlatados importados, permitindo a evasão de milhões de dólares que seguem mensalmente para as majors americanas eu digo: O Cinema Brasileiro é paixão, fé, capacidade, talento, adrenalina e obstinação. Mas hoje nos falta o principal: o reconhecimento do público. Produzimos filmes de excelente qualidade, que não fica nada a dever a nenhum cinema do mundo, mas quase ninguém os vê, pois eles percorrem os festivais, privilegiando uma pequena e seleta parte do público, depois vão esquentar as prateleiras das distribuidoras, aguardando uma janela, entre um filme e outro estrangeiro. E nesse quesito, os números não mentem.

Há algum tempo, aliás, pouco tempo atrás, três filmes estrangeiros dominavam 97% das 2200 salas brasileiras. Podemos e devemos mudar esse quadro através de uma forte ação governamental que possibilite que nossos filmes cheguem às telas, inclusive através de campanhas em todas as mídias, incentivando o brasileiro a ver filme brasileiro. Uma nova cultura deve ser fomentada.

Será que nosso passado não nos recomenda? Os primeiros passos com verdadeiros desbravadores como Segreto, Silvino Santos, Leal, Rossi, Cappelaro, Botelho, Bonfioli, etc; o pioneirismo da Cinédia de Adhemar Gonzaga dos anos 1930/40; a popularidade da Atlântida e o glamour da Vera-Cruz dos 50; o experimentalismo do cinema novo e do cinema da boca de São Paulo nos 60; a pornochanchada dos 70; e, finalmente, a retomada a partir dos 90? Seria correto e justo desmerecer o talento de Humberto Mauro? Carlos Manga?, Anselmo Duarte? Nelson Pereira dos Santos? José Mojica Marins? Carlos Diegues? Glauber Rocha? Walter Salles? Carlos Reichenbach? Walter Hugo Khouri? Fernando Meirelles? e tantos e tantos outros?

A aventura de se fazer cinema no Brasil requer muitas qualidades de quem o pretende, não é uma tarefa fácil nem para qualquer um.

A aventura de se fazer cinema no Brasil requer sacrifícios pessoais e financeiros. Muitos cineastas pagam dívidas de seus filmes por décadas e por vezes morrem sem ver a obra pronta, raramente enriquecem.

Então… há de se respeitar quem faz, quem realiza, quem tem a preocupação de mostrar a nossa realidade, nossa brasilidade nas telas e não nos impingir goela abaixo outras realidades que não nos dizem respeito.

Enfim, ao povo o que é do povo, cinema futebol e cachaça. Essa explosiva combinação nos leva a conclusão que, retornando à pergunta inicial, o cinema brasileiro hoje poderia ser representado por uma arvore frondosa e baixa, cheia de grandes galhos carregados de frutos doces e macios, à espera de alguém que por eles se interessem e os queiram degustar.

Antonio Leão da Silva Neto é pesquisador cinematográfico e autor dos livros Dicionário Astros e Estrelas do Cinema Brasileiro, Dicionário de Filmes Brasileiros- Longa-metragem, Dicionário de Filmes Brasileiros – Curta e Média-metragem, Ary Fernandes, sua Fascinante História, e Miguel Borges, um Lobisomem sai da Sombra.

Reflexos em Película

Referência nem sempre é reverência

Por Filipe Chamy

Com a cultura cinematográfica atual bastante voltada para a cinefilia, temos visto cada vez mais presentemente uma cultura de verdadeiros experts em filmes, sujeitos apaixonados, vidrados, obcecados com certas obras, diretores, intérpretes, técnicos. Se por um lado isso é muito positivo e demonstra de alguma maneira a importância que o cinema tem na vida dessas pessoas, o outro gume da faca é bem menos atraente.

A lembrança da cinefilia sempre faz pensar em Truffaut, Tarantino, Bogdanovich, Scorsese, o que seria um ponto a favor dessa situação. Mas há também gente que aproveita essa capa para se disfarçar e parir mediocridades a torto e a direito, tentando lucrar com isso e fugir da confissão de sua falta de importância, talento ou competência.

Desde que se começou a estudar mais seriamente o cinema, alguns filmes ou cineastas foram apontados como padrão de qualidade. À parte o discutível “dogma” gerado com essas supostas unanimidades, não há como não compreender a desonestidade de um projeto cuja essência é recriar algum pedaço dessas obras “incontestáveis”, amparando-se no sucesso dos outros para alcançar com isso suas próprias recompensas (quase sempre, financeiras). Quer dizer, o cinema deixando de ser uma paixão para virar um filão.

Esse almanaque de citações é tão desagradável como inútil, pois qual é a graça de uma comédia como Todo Mundo em Pânico, pautada na assunção que o espectador conheça de cor e salteado os filmes ali satirizados? A graça é supostamente essa, apenas: releiturar de maneira engraçadinha passagens ou diálogos famosos de filmes que de alguma maneira tocaram o público ou permaneceram no seu imaginário por um tempo suficiente para que compreendam as referências amontoadas. Caso o espectador não tenha visto o filme satirizado, bem, problema dele. O filme aí não basta, ele precisa de um complemento anterior à projeção; o público deve ter uma “bagagem” de filmes vistos, de referências conhecidas, entender do que estão zombando. Mas isso é pouco para tornar um filme bom, e toda franquia como essa já nasce datada e com vida útil reduzida. O que não é um grande problema, pelo menos no caso que citei, pois a série Todo Mundo em Pânico é repulsiva.

Talvez o nome mais aclamado dessa tendência seja Mel Brooks. Esse senhor há décadas se propõe a satirizar filmes conhecidos, alegadamente avacalhando com sua seriedade, mas em realidade aproveitando-se de seus méritos para conseguir faturar com eles. Quando o Leslie Nielsen de Drácula – Morto, mas Feliz levanta-se rígido do caixão e bate com a cabeça, essa piada só é realmente entendida por quem já viu o mítico Nosferatu de Murnau. Quem não viu pode achar engraçado, mas o intuito é “homenagear” a famosa atuação de Max Schreck, coisa que E. Elias Merhige fez com muito mais propriedade em A Sombra do Vampiro. Mel Brooks faz isso em praticamente todos os seus filmes, esse humor satírico que resume-se a recriar uma situação já vista e revista em outras obras. É uma espécie de Casseta e Planeta cinematográfico, com resultados bastante assemelhados, até.

Mesmo se com boa intenção, parece que pouca gente percebe o quanto essa mania de querer reverenciar (ou mais propriamente referenciar) seus filmes do coração é nociva ao cinema, pelo menos do jeito como é praticada. Parece que os filmes mais populares das últimas décadas foram aqueles que repetiram uma cena de um filme famoso, que citaram a música de uma trilha conhecida, que trouxeram um ator repetindo um papel que o tornou célebre. Almodóvar, por exemplo, chegou ao auge da dispensabilidade com seu medíocre Abraços Partidos, em que há uma cena com títulos e mais títulos de filmes de que ele gosta, como se isso servisse a algo que não a uma exibição fútil de seus gostos.

Ao invés de citarem tanto, poderiam se preocupar em fazer filmes dignos de citação.

O Furo

Dossiê José Miziara

O Furo
Direção: José Miziara
Brasil, 1976.

Por Adilson Marcelino

“Das atrizes que trabalhei, a melhor foi Nádia Lippi, e exatamente no primeiro filme que dirigi que foi o episódio O Furo, do longa Ninguém Segura essas Mulheres. Foi a atriz que consegui o melhor resultado com a direção e eu duvido que exista no cinema nacional outro trabalho melhor dela do que o desse filme”. Assim se pronunciou o cineasta José Miziara sobre Nádia Lippi, quando ela foi homenageada na coluna Inventário Grandes Musas da Boca, aqui na Zingu!

Antes de estourar nacionalmente com Bem Dotado – O Homem de Itu, Miziara realizou esse Ninguém Segura essas Mulheres, filme em episódios produzido pelos Estúdios Silvio Santos. O filme fez boa bilheteria e carimbou o passaporte do cineasta para dirigir seu primeiro longa, O Bem Dotado, já que aqui dirigiu apenas o segmento O Furo – ainda que tenha assinado o roteiro de todas as quatro histórias do filme.

Ninguém Segura Essas Mulheres é formado pelos episódios Marido que Volta deve Avisar, dirigido por Anselmo Duarte; Desencontro, dirigido por Harry Zalkowistch; Pastéis para uma Mulata, dirigido por Jece Valadão; e O Furo, de Miziara. Para cada um deles, a produção escalou deusas de diferentes linhagens: respectivamente, Vera Gimenez, Betty Saddy, Aizita Nascimento e Nádia Lippi.

A diferença crucial entre os três primeiros segmentos e o episódio dirigido por Miziara é que eles são comédias rasgadas e o último um drama tocante. Se nos primeiros, Dennis Carvalho, Milton Moraes e Tony Ramos são os astros, em O Furo quem faz par com Nádia é Jece Valadão, em mais uma composição de personagem característica de sua carreira, ainda que aqui em um perfil mais sensível e romântico, apesar das conseqüências de sua história.

Em O Furo, Nádia Lippi é Dalva, moça típica do interior que é flagrada pelos pais em amasso com o namorado – o próprio Miziara fazendo uma participação – e é expulsa de casa. Sem lenço e sem documento – é menor de idade -, desembarca em São Paulo com destino direto para a antiga arte de rodar bolsinha no asfalto. E é em uma dessa noites de viração que conhece Lúcio – Jece Valadão -, um guarda noturno que a deixa se esconder em seu trabalho quando a polícia baixa no pedaço e leva outras prostitutas em cana.

O jeito simples de Dalva conquista Lucio, e ali naquela noite mesmo ele a leva para casa em que mora na periferia. Ao acordar, ele não a vê ao seu lado na apertada cama, instintivamente corre para ver se sua carteira não havia sido surripiada, mas é surpreendido com a atitude da moça, que lhe traz o café no leito. Depois de passar manhã e tarde juntos, Lúcio faz o convite derradeiro: “ eu sou sozinho, você também. Quer morar aqui comigo? O que eu ganho é pouco, mas se você fizer o serviço de casa, dá para a gente viver junto”. Dalva se emociona, mal acredita no convite, mas aceita logo que percebe que ele fala sério. Lúcio, porém, faz um aviso: se você se interessar por outro homem não tem problema, me avisa e vai embora. Eu só não aceito ser traído.

E assim o casal leva a vida com dificuldade, mas feliz. Até que um simples detalhe sela o destino trágico dos dois – O tiro que ele desfere nela, já vemos desde o início da narrativa, com ela balbuciando “por que? por que?”. Mas o motivo só saberemos durante o desenrolar da história.

Ninguém Segura Essas Mulheres foi a primeira e única investida dos Estudios Silvio Santos no cinema naquela época, já que o Homem do Baú priorizou seu canal de TV. Mas essa produção foi especial, além do mérito do filme, por revelar o talento de José Miziara como roteirista e cineasta, que a partir daí construiria uma das mais bem-sucedidas trajetórias no cinema popular.

Meus Homens, Meus Amores

Dossiê José Miziara

Meus Homens Meus Amores
Direção: José Miziara
Brasil, 1978.

Por Adilson Marcelino

Em Meus Homens, Meus Amores, José Miziara reúne a cantora Rosemmary e a atriz Silvia Salgado como as protagonistas Miriam e Ana. Elas moram no mesmo prédio, são vizinhas de portas, e vez ou outra se encontram no elevador, onde sempre disfarçam o que sentem em conversas banais. Aparentemente, elas não têm nada a ver uma com a outra, a não ser o fato de que são estudantes em uma universidade. Porém, há mais semelhanças entre elas do que ambas possam supor.

Miriam é uma jovem reprimida pelo forte moralismo da mãe, Bárbara Fázio, que se sente ofendida até com propaganda de preservativo. O canal de vazão que encontra para seus desejos eróticos é a pintura, nas quais invariavelmente pinta imagens associadas pela mãe a monstros. Vestida de blusa de manga comprida, saia para baixo do joelho e botas a cobrir o resto da perna, seu jeito de vestir causa deboche nos colegas de faculdade, todos eles doidos para botar as mãos na beldade. Mas é para o personagem de John Herbert, um amigo da família, que ela vai abrir guarda, sem saber que seu ato não só irá causar a repulsa de sua mãe, que se afastará dela definitivamente, como também mudará totalmente sua vida.

Já Ana é casada com Peter, Roberto Maya, um empresário ciumento e escroto que não a deixa trabalhar e a afasta cada vez mais de seus amigos e amigas. Dentre eles está o personagem de João Signorelli, um antigo namorado que tenta reconquistar a amada. Sufocada pela possessividade, agressividade e maus tratos do marido, Ana se sente cada vez mais angustiada e insatisfeita, estado que chega ao auge quando o vê com uma amante. Vivendo em estado crescente de tensão, solidão e opressão, Ana protagonizará ato que irá mudar também sua vida.

Miriam e Ana, até então duas mulheres que tinham na condição de vizinhas o único elo que as ligavam, vivenciarão momentos de clímax que reservará para elas o mesmo destino. Mesmo que, ainda assim, quando se encontrarem mais uma última vez no elevador, pequenas mentiras e dissimulações sobre o que realmente estão vivendo voltarão a dar o tom em suas conversas.

Meus Homens, Meus Amores está situado nos primeiros filmes de José Miziara, período marcado por dois grandes sucessos: O Bem-Dotado – O Homem de Itu (1978) e Embalos Alucinantes – A Troca de Casais (1979) – ambos estrelados por Nuno Leal Maia. A estreia do cineasta foi com Ninguém Segura Essas Mulheres (1976), filme de episódios em que assinou o roteiro e dirigiu o segmento O Furo – protagonizado por Jece Valadão e Nádia Lippi.

Com Meus Homens, Meus Amores, Miziara dá seqüência à abordagem sobre o universo feminino que havia iniciado com O Furo e que estará presente em outros filmes que fará a seguir, como Mulheres do Cais (1979) e As Intimidades de Analu e Fernanda (1980).

Em Meus Homens, Meus Amores, ele já demonstra pulso na direção, como havia feito nos dois filmes anteriores, o que lhe garantirá um lugar especial no cinema popular da Boca Lixo e de grande aceitação por parte do público. No elenco, Rosemmary está linda e bem como atriz, mas quem rouba a cena mesmo é Silvia Salgado, linda e perfeita como a amargurada Ana. Além delas há as boas presenças de John Herbert e Arlete Montenegro, e raríssima participação da atriz Susy Camacho no cinema.

Filmografia

 
– O Furo -Ninguém Segura Essas Mulheres ( 1976)
– O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978)
– Meus Homens, Meus Amores (1978)
– Embalos Alucinantes (1979)
– Nos Tempos da Vaselina (1979)
– Mulheres do Cais (1979)
– Os Rapazes da Difícil Vida Fácil (1979)
-As Intimidades de Analu e Fernanda (1980)
– Como Faturar a Mulher do Próximo (1981)
– Pecado Horizontal (1982)
– As Amantes de um Homem Proibido (1982)
– Mulher… Sexo Veneno (1984)
– Deliciosas Sacanagens (1985)
– Sem Vaselina (1985)
– Rabo I (1985)
– A Quebra-Galho Sexual (1986)
– O Oscar do Sexo Explícito (1986)

Musas Eternas

Helena Ramos

Por Leo Pyrata

Querida Revista Zingu,

Durante algum tempo matutei sobre como faria este texto. Provavelmente o excesso de cerimônias tem duas causas quase incontornáveis. Primeiro porque a Zingu é a revista que atiçou, amplificou e aprofundou minha paixão por um certo cinema brasileiro e a possibilidade de contribuir falando da Helena Ramos é um privilégio mas ao mesmo tempo me coloca numa situação ingrata. Porque verdade seja dita, nada que eu escreva vai mexer mais o leitor que a própria presença graciosa de Helena Ramos na tela.

Existem razões que são mais fortes que meu discernimento de reconhecer minha incapacidade de abraçar tarefas que vão além dos meus limites. O privilégio de escrever sobre Helena Ramos me parecia, num primeiro momento, uma oportunidade de prestar reverencia para a Rainha da Boca e tentar retribuir de alguma forma com a revista que despertou meu amor pelo cinema da boca. Existe na obviedade da escolha do nome de Helena Ramos uma fixação que é mais forte que o medo de estar apenas sublinhando tudo que já foi dito.

Infelizmente, não tenho nada de novo para compartilhar sobre Helena Ramos. De sua presença intensa no cinema brasileiro pude assistir um pouco menos da metade dos filmes e é a partir deles que tentarei me aproximar verbalizando minhas impressões. E no fundo tenho certeza que preciso falar de como suas escleróticas me rasgam por dentro (por mais que isso pareça estranho). Um triangulo das bermudas que se completa com o branco dos dentes que escapa da boca entreaberta da Rainha da boca dos sonhos. Esfinge indecifrável de rosto-enigma que não se esgota em palavras, e é maior que adjetivos produzindo fé na presença da estrela em cena. O cinema sensibilizado nos lábios de Helena em êxtase, um gozo com verdade no olhar. Imagem que guardei no peito e que me trouxe tantas outras.

Possuído pelo pecado de me embriagar com a polifonia de personagens que passearam pelas minhas retinas vivas nas paginas do seu rosto. Algumas vezes com outras vozes, tons de pele, cortes e cortes de cabelo. Em cada história que o corpo de Helena banha o cinema é uma cachoeira bendita. Bendita seja, sereia cangaceira erótica deitada nua nas pedras rindo e avexada ao pagar o primeiro peitinho. Bendita seja como Ana dando um caldo no Bacalhau. Como Dóris que eu queria colocar na minha monark barra forte e preparar o melhor estrogonofe de camarão para picá-la como inseto do amor. Ou Maria com quem enfrentaria o bando de Azulão, ou Alice para ser bem tratado como Jumbo.

Mulher sensual, protótipo da mulher brasileira, estrela de novela das oito que entre dezenove eu escolhi como objeto e com a mesma fé que Durvalina se despe em Crazy , me ajoelho perante a imagem de Helena . Como beata da FTP badalando os sinos no Palácio de Venus ou jogando capoeira contra o bando de Azulão.

Invejo as lentes que lamberam os olhos indecifráveis, a boca que com a mesma facilidade ilustra do gozo ao riso e a provocação purificando a metonímia tanto as matizes da burguesa frígida e recalcada quanto quando passeia dengosa pela comédia.

Eu poderia passar o resto dos meus dias testemunhando o evangelho fílmico de Helena Ramos, mas sei que basta guardar aquele olhar no coração da minha memória e estarei salvo.

Leo Pyrata é estudante de cinema, ator do curta Contagem – Prêmio de Melhor Direção para Gabriel Martins e Maurílio Martins no Festival de Brasília -, diretor do curta Retrato em Vão, co-diretor do longa Estado de Sítio, e vocalista da banda Grupo Porco de Grindcore Interpretativo.

Carta ao Leitor

Zingu! - Prêmio IBAC 2010

2010 foi um ano importantíssimo para a nossa Zingu!

O momento máximo está ilustrado na foto acima do prêmio IBAC 2010, que a Zingu! recebeu na categoria Cinema. Os concorrentes foram de peso – a Coleção Aplauso e o Coletivo Alumbramento -, mas a Zingu! trouxe o caneco para casa, enchendo de alegria todos nós. O parabéns é coletivo – editores, redatores e colaboradores de Norte a Sul que fizeram e fazem a história da revista.

Outro fator importante é a ampla reformulação iniciada pela Zingu! e que resulta no que o nosso distinto público acompanhará a partir desta edição 41:

– Foi montado um Conselho Editorial, formado por Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo, que vai acompanhar o trabalho de edição da revista, sugerindo pautas e ajudando a decidir o que irá ao ar.

– Depois de um tempo com periodicidade irregular, a Zingu! volta às edições mensais.

– Além dos dossiês, especiais e as colunas tradicionais, a Zingu! engordou seu recheio, com a criação de novas colunas e espaço para artigos especiais.

– Durante um bom tempo, a Zingu! contou com o design de Anne Freitas, que gentilmente disponibilizou seu tempo e sua criatividade para deixar a revista nos trinques. Agora, a bola foi passada para Julia Morena, que está trabalhando no layout novo da Zingu!, a ser inaugurado na edição de fevereiro.

– Por fim, registro, com grande felicidade, que a partir deste número sou o novo Editor-Chefe da Zingu!, depois das notáveis trajetórias na função dos amigos Matheus Trunk e Gabriel Carneiro – fundadores da revista e que permanecem como redatores e membros do Conselho.

A primeira vez que participei da Zingu! foi como colaborador em 2008, passando em 2009 para a função de redator e contribuindo com textos para os diferentes conteúdos da Zingu! – dossiês e especiais, além da coluna Inventário Grandes Musas da Boca. Agora, como Editor-Chefe, sei que minha responsabilidade aumenta, mas o amor e a dedicação são os mesmos. Prometo fazer o melhor possível para a nossa Zingu!

Apresentamos a edição 41 que, como dito, permanece com os espaços tradicionais e traz novidades.

O cineasta José Miziara é o dossiê do mês. Notável nome da Boca do Lixo, Miziara é sinônimo de cinema popular de grande aceitação do público, com filmes amados como O Bem Dotado – O Homem de Itu, Embalos Alucinantes – A Troca de Casais, e Pecado Horizontal. Nesse Dossiê, comentamos a filmografia do cineasta desde a estreia com o episódio O Furo, do longa Ninguém Segura Essas Mulheres, até a fase de sexo explícito – dos 17 filmes só ficaram de fora a comédia em episódios Como Faturar a Mulher do Próximo (1981), Mulher… Sexo Veneno, e Deliciosas Sacanagens (1985). Fazem parte ainda do dossiê longa entrevista com o cineasta, que repassa toda a sua trajetória com falas polêmicas sobre alguns personagens da Boca, e também edição consonante da coluna Inventário Grandes Musas da Boca, que homenageia Márcia Maria, uma de suas atrizes preferidas e protagonistas de dois de seus filmes – As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) e As Amantes de Um Homem Proibido (1982).

Ainda nesta edição, temos três colunas novas:

– Nossa Canção – redatores da revista e convidados especiais vão destacar a música nos nossos filmes, seja por uma canção, uma trilha ou mesmo a participação em cena de cantores e compositores em nossos filmes. Na coluna inaugural, Matheus Trunk saúda o sambista Germano Mathias.

– Filme-Farol – redatores da revista e convidados especiais falarão daqueles filmes que foram faróis em suas vidas. O Filme-Farol aqui é entendido não como marco na história do cinema, mas como filme do coração. Sérgio Andrade abre a série com Osso, Amor e Papagaios, de Carlos Alberto de Souza Barros.

– O Que É Cinema Brasileiro? – aqui, pesquisadores e críticos convidados vão responder essa pergunta, que tanto quiproquó costuma gerar nas discussões e que nos ajudará a lançar luzes sobre o tema. O primeiro convidado é o pesquisador Antonio Leão da Silva Neto, autor dos obrigatórios Dicionários de Longas, Curtas e Médias, e de Astros e Estrelas do Cinema Brasileiro.

No Artigo, abrimos espaço para nossos hermanos argentinos. Nosso colaborador Alejandro Sainz de Vicuña, do Rio de Janeiro, apresenta um texto comparativo de fôlego entre o filme argentino Nove Rainhas, de Fabián Bielinsky, e seu remake americano 171, de Gregory Jacobs.

E há, claro, as colunas tradicionais Cinema Extremo, Subgêneros Obscuros, Reflexos em Película, Musas Eternas e Musas do Diniz, que nesta edição nos traz NEKROMANTIK 2, de Jorg Buttgereit, o Mondo de Prosperi & Jacopetti, o terreno controverso das citações em Referência nem Sempre é Reverência, e a beleza das musas Helena Ramos e Luciana Vendramini.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Inventário Grandes Musas da Boca

Márcia Maria

Por Adilson Marcelino

Na década de 1970, três atrizes dividiam o estrelato na TV Tupi. E se Eva Wilma era a rainha, as princesas eram, com certeza, Elaine Cristina e Márcia Maria. Todas elas levaram seu talento também para o cinema, mas foi Márcia Maria que se tornou uma das amadas musas da Boca do Lixo.

Márcia Maria construiu uma extensa carreira na televisão, onde trabalhou como atriz e apresentadora, e foi estrela em duas importantes emissoras: Record e Tupi. Na primeira, estreou na série Ceará contra 007, de Marcos César, em 1965, e brilhou em novelas como Algemas de Ouro (1969), As Pupilas do Senhor Reitor (1970) e Os Deuses Estão Mortos (1971). Já na Tupi, atuou em novelas importantes como Mulheres de Areia (1973) e Os Inocentes (1974), ambas de Ivani Ribeiro.

Ainda na Tupi foi uma das estrelas preferidas de Geraldo Vietri, sempre fazendo par romântico com Jonas Mello: Meu Rico Português (1975), Os Apóstolos de Judas (1976), João Brasileiro, O Bom Baiano (1978).

Ainda nos primeiros anos de carreira, Márcia Maria estréia no cinema em ousado filme de Fauzi Mansur, Cio – Uma Verdadeira História de Amor, lançado em 1971. Fauzi Mansur foi um dos mais atuantes nomes da Boca do Lixo e dirigiu quase quarenta filmes, mais outros tantos como produtor. Na história, ela é uma moça da alta sociedade que está de casamento marcado com o personagem de Francisco di Franco, um engenheiro da indústria automobilística. No início da trama, em uma de suas escapadas com a amante vivida por Marlene França, ele vê um garoto retirante na estrada e fica fascinado. Tempos depois reencontra o menino Darci como engraxate, vira seu tutor, mas é assolado por paixão fulminante por ele e se debate ante o despertar do desejo homossexual, que não entende muito bem. Essa estranha relação abalará o casal de forma indesviável.

O próximo filme de Márcia Maria viria alguns anos depois, dessa vez dirigida por Sílvio de Abreu, outro nome de sucesso da Boca, que depois se tornaria novelista consagrado. O filme é Gente Que Transa, de 1974, estreia de Abreu como cineasta depois que Carlos Manga desistiu de dirigir a fita. Na trama, uma sátira sobre acirrada disputa entre Luiz Guilherme e Carlos Eduardo, respectivamente Adriano Reys e Carlos Eduardo Dolabella, para ver quem vence uma concessão de TV. Márcia Maria é Denise, a mocinha do filme.

Uma das marcas de Geraldo Vietri era a de trabalhar quase sempre com o mesmo elenco, e isso valia tanto para a televisão como para o cinema. Portanto, nenhuma surpresa em escalar Márcia Maria, uma de suas queridas atrizes, para o filme Que Estranha Forma de Amar, lançado em 1978. Baseado no romance “Iaiá Garcia”, de Machado de Assis, aqui ela é Eulália.

Mas é no encontro com José Miziara, um dos grandes nomes do cinema popular da Boca do Lixo, que Márcia Maria terá a sua disposição os melhores personagens de sua carreira cinematográfica – a atriz foi casada com o ex-cunhado do cineasta. Com Miziara ela fez As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) e As Amantes de um Homem Proibido (1982).

As Intimidades de Analu e Fernanda é um dos melhores filmes de Miziara, em que ele reuniu duas deusas: Helena Ramos e Márcia Maria. Na trama, Helena é Analu, mulher que se sente oprimida pelo marido Gilberto, personagem vivido por Ênio Gonçalves. Cansada de sua vida de casada, que mais parece uma prisão, ela decide se separar, pega suas coisas e cai na estrada. No caminho encontra Fernanda, personagem de Márcia Maria, que gentilmente oferece hospedagem em sua casa. Começa aí um perigoso romance homossexual, já que Fernanda se revelará cada vez mais ciumenta e possessiva. Gilberto descobre o paradeiro de Analu, que por sua vez resolve fugir mais uma vez do marido e da amante. Mas nenhum dos dois vai querer abrir mão tão facilmente de Analu.

Fernanda é um personagem sob medida para Márcia Maria, que empresta toda sua sensualidade elegante e sua carga dramática de atriz. O contraponto com a Analu de Helena Ramos funciona perfeitamente. Há forte acento moralista na construção da personagem Fernanda, em que a homossexualidade é mais uma vez associada ao desequilíbrio emocional e à violência. Mas nada disso tira o brilho do filme, que prende atenção do início ao fim, demonstrando mais uma vez o talento de Miziara.

O outro filme em que Márcia Maria é protagonista é As Amantes de Um Homem Proibido (1982). Nuno Leal Mais é Leandro, o tal homem proibido, e Márcia Maria, Liza Vieira, Regina Tonini e Dirvana Brandão as tais amantes, nesse drama policial. E Nuno é proibido porque fugitivo da polícia depois de sumir de São Paulo com mala de dinheiro roubado de banco e onde matou dois comparsas, inclusive a mulher bandida que amava e que foi usada como escudo. Ele vai parar em Campestre, cidade do interior de Minas Gerais, onde se emprega como caseiro na casa de Márcia Maria, e de quem vira amante.

O roteiro desse As Amantes de Um Homem Proibido, também assinado por Miziara, reserva reviravoltas engenhosas. Márcia Maria está perfeita como Flávia, a dona de um sítio onde passa a maior parte do tempo sozinha, já que o marido, Walter Forster, só aparece nos finais de semana. A forma como se dá a relação de Flávia e Leandro depende, e muito, de bons intérpretes para dar veracidade à história. E aqui, Nuno Leal Maia e Márcia Maria encarnam esse casal na medida certa.

Infelizmente, depois desses dois filmes com José Miziara, Márcia Maria não foi mais escalada para o cinema. O que é uma pena, além de ser completamente incompreensível. De qualquer forma, seu posto de musa jamais será esquecido por todos os amantes do cinema popular.

Pitaco de Matheus Trunk

Márcia Maria! Que alegria eu ter sido lembrado para falar sobre essa grande musa do cinema e da televisão. Vivemos num país sem memória, em que diversas pessoas de real talento são condicionadas a uma espécie de segunda divisão. Esse é o caso da atriz aqui retratada. Posso dizer que a fantástica Márcia Maria foi uma das mais talentosas e sensuais atrizes brasileiras das décadas de 1960 e 70. Fez muitas novelas na saudosa TV Tupi, sempre se destacando entre as suas contemporâneas. Infelizmente, ela fez muito poucos filmes e talvez nunca tenha ganhado um papel a sua altura. Me lembro que fiquei fascinado pela atuação dela no clássico As Intimidades de Analu e Fernanda, do José Miziara. Trata-se de um dos melhores filmes da Boca do Lixo paulista, um pornodrama muito bem feito. O próprio Miziara me falou que seu filme favorito como diretor é mesmo O Pecado Horizontal, mas ele tinha um carinho especial por Intimidades. Outras grandes atrizes que eram muito ativas na Tupi como Arlete Montenegro, Kate Hansen e Wanda Stefânia hoje estão esquecidas. É muito difícil tentar entender o real motivo disso. O melhor é sempre falar e prestigiar essas grandes divas, que, infelizmente, ficaram relegadas a um segundo plano.

 

Filmografia

 . Cio – Uma Verdadeira História de Amor (1971), de Fauzi Mansur
. Gente que Transa (1974), de Sílvio de Abreu
. Que Estranha Forma de Amar (1977), de Geraldo Vietri
. As Intimidades de Analu e Fernanda (1980), de José Miziara
. As Amantes de um Homem Proibido (1978), de José Miziara