Rádio Pirata

Dossiê Ewerton de  Castro

Rádio Pirata
Direção Lael Rodrigues
Brasil, 1987.

Por Adilson Marcelino

Lael Rodrigues é nome de expressão no cinema brasileiro com seus filmes de rock para jovens. Nessa praia dirigiu três: Bete Balanço (1984) – o mais bem sucedido de todos; Rock Estrela (1985); e esse Rádio Pirata.

A bem da verdade, ainda que Brasil de Cazuza abra os créditos, Lobão esteja na trilha, e Marina Lima esteja de carne e osso cantando Pseudo Blues, Rádio Pirata tem trama mais adulta, já que trata de corrupção no país– o tal Brasil cantado por Cazuza.

O filme fala sobre espionagem industrial envolvendo o ramo de computação e interesses e jogatinas escusos entre uma empresa brasileira de informática e uma multinacional. Quando Carlos (Ewerton de Castro) descobre o rolo e decide se denuncia ou não, sua vida passa a correr perigo.  Mas quando seu destino se torna carta marcada, somente Bravo (Jayme Periard), seu subordinado que descobrira a falcatrua junto com ele, é que poderá fazer alguma coisa. Bravo usará então uma rádio pirata para fazer as denúncias, contando com a ajuda de Alice (Lidia Brondi), uma paixão fulminante que conhece em uma noite chuvosa.

Rádio Pirata é um equívoco. Falar de corrupção em meio à asa delta e romance desandou de vez nas mãos de Rodrigues, que co-assina o roteiro com Yoya Wurch. Uma pena, pois Lael domina bem a cena de Bete Balanço, mas aqui nem parece ser o mesmo diretor – e o péssimo roteiro faz o filme afundar ainda mais. Provavelmente, pela ambição do tema espinhoso e nada juvenil como nos seus filmes anteriores.

O único destaque do filme é presença ensolarada de Lidia Brondi, que ainda que defenda personagem inverossímil – como, aliás, é também o de Periard e de toda a forma como a trama é conduzida -, mata nossa saudade de ver nas telas uma das ninfetas mais desejadas do país e que abandonou a carreira cedo demais em 1990, com apenas 30 anos.

Patriamada

Dossiê Ewerton de Castro



Patriamada
Direção: Tizuka Yamasaki
Brasil, 1985.

Por Cid Nader

Patriamada, de Tizuka Yamazaki, poderia ser definido como um compilado que carrega em si muito do que é o cinema na concepção – e no modo de concretizá-lo – da diretora. Filme que investiga um momento de forma quase jornalística (coisa que a motiva desde Gaijin, quando retratou de forma quase investigativa os primórdios de seus ancestrais em terras brasileiras), e que tenta manter seus elos de ligação com a fluidez possível de ser obtida na execução ficcional/dramática. Nessa representação de seu cinema recriada em métodos repetidos, aqui também reside um mal que faz com que  suas obras acabem por residir em locais não muito nobres quando se pensa nelas de modo mais crítico: apesar de ser sempre interessante quando executa o lado documental de seus trabalhos, realmente não é muito feliz na maneira que conduz suas tramas na questão das artes encenadas e  interpretadas, já costuradas na edição. Seus filmes sofrem demais por equívocos de montagem e liberdade exagerada aos modelos de interpretação de seus atores: há desníveis interpretativos estonteantes que acabam comprometendo os que fazem bem sua parte, sendo que isso seria ao menos  contornável com uma mão mais rigorosa ou consciência do que deveria ser utilizado, e em quais instantes.

Especificamente em Patriamada. Se tivesse de resumir a importância e fulgurância (sim!) que o filme entrega por um trecho somente de seu todo, não teria como não citar o grande instante em que os eventos ocorrem na Candelária lotada por um milhão de pessoas pedindo as “Diretas Já”, sob o impacto emotivo da canção de Milton Nascimento preenchendo os espaços sonoros: encenado, em momentos pelas presenças de Buza Ferraz (Goiás) ou Débora Bloch (Lina) registrando tudo nas funções de cineasta e repórter (respectivamente); em outro, com Walmor Chagas (o empresário de mente aberta, Rocha Queirós) soberano e dominador da cena, caminhando na direção do prédio de sua empresa; além dos registros factuais de um trecho de discurso do então sindicalista e presidente do PT, Lula, ou um depoimento de Leonel Brizolla (mais vários artistas e alguns outros políticos). Vale dizer que a música de Milton (Canção da América) representou uma espécie de hino daqueles momentos de mudanças, que foi estendido durante ao processo de convalescência e morte de Tancredo Neves (presidente escolhido, pelo colégio eleitoral, como o primeiro civil após o término consensual da ditadura militar).

Há evidente caráter sociológico/político dominando as ações da direção, e um “sensível olhar forte” antropológico, também, sobre as pessoas que vagavam por aqueles momentos tão nacionais. Ao optar pelo metacinema para executar esses procedimentos, que são a linha forte da costura, Tizuka merece seu quinhão de reconhecimento: pois adorna com mais signos da arte esse seu pendor forte observacional – são bonitas as cenas reais daqueles momentos, captadas pelas lentes da diretora, mas tendo no meio do caminho de seus focos a câmera e os mecanismos “manuseados” por Goiás e sua equipe. E resulta muito interessante a obtenção de depoimentos dos envolvidos, in loco, pelo microfone da jornalista Lina. A diretora real imprime ritmo e cinema nos momentos em que não se esperaria necessariamente tal atenção.

Porém, a ficção do trabalho é ruim, recheada dos conhecidos problemas que costumam infestar a sua obra: apesar de tecnicamente se dar bem com a boa utilização da câmera na mão, a montagem (como até citado antes) é precária e faz parecer que algumas partes não pertencem ao mesmo corpo. Apesar de Ewerton de Castro (Antônio Queirós, direitista, filho e assessor do empresário esquerdista) criar bem seu personagem, o destino maniqueísta imaginado para ele ressuscita a má percepção de Tizuka quanto à utilização de meios tons (ou tons de passagem), criando abismos dramáticos imperdoáveis. E várias situações na parcela ficcional também acabam por sofrer da falta dessas nuances na mistura. Esses pulos de beira de abismo para outra beira abismo, constantes, emperram o filme e impedem a cooptação ideal. Pior: voltam a impor aquele conhecido ar de artificialidade que faz desconfiar da capacidade dela. Isso tudo, aliado a um sensível “datamento” (coisa só perceptível pela distância temporal do nascimento da obra), talvez represente o modo de pensamento estético da diretora.

Duvidosas também são algumas maneiras pensadas para homenagear ou elevar nosso cinema: um discurso um tanto inocente já no momento de uma discussão inicial entre Goiás e sua ex-mulher, que retoma abruptamente de suas mãos um livro de Glauber Rocha; ou quando o mesmo, já próximo do final, vocifera um “merda”, questionando quem iria patrocinar seu filme – o “Patriamada” – se o país está invadido por seriados enlatados e cinema estrangeiro.

De todo modo há a volta a 1984 (com todos os personagens de então: Fernando Henrique, Montoro, Ulysses Guimarães, Dante de Oliveira, Tancredo Neves, Paulo Maluf, Milton Nascimento… – além dos dois citados no início) e o clima raro de então.

Cid Nader, editor do site Cinequanon (www.cinequanon.art.br).

Inventário Grandes Musas da Boca

Monique Lafond

Por Adilson Marcelino

Para abrir o Inventário Grandes Musas da Boca ano 2012, nada melhor que escalar um deusa para ninguém botar defeito: Monique Lafond.

Monique Lafond nasceu no Rio de janeiro em 09 de fevereiro de 1954.

Bailarina, começou a carreira artística os 11 anos no teatro em Música Divina Música, uma versão para o sucesso A Noviça Rebelde.

Nascia aí aquela que seria uma das maiores musas, sobretudo do cinema brasileiro.

Logo depois vem a estreia no cinema em Até que o Casamento nos Separe (1968), de Flávio Tambellini.

Durante sua carreira, Monique fará muitos trabalhos no teatro e na televisão – Fogo Sobre Terra (1974) e Coração Alado (1980) foram algumas novelas. Mas é o cinema que se revelará o habitat natural da atriz, que tem no currículo mais de 50 filmes. Posou também para publicações que fizeram a festa dos marmanjos, como Playboy e Ele Ela.

Monique Lafond vai dividir sua carreira entre o Rio de Janeiro – a maior parte dos trabalhos – e São Paulo. E suas atuações na Boca do Lixo vão lhe reservar lugar garantido como uma de suas musas mais amadas.

O currículo da atriz é impressionante, pois atuou com diretores de diferentes correntes.

Um capitulo especial em sua vida é o encontro com a trupe de Os Trapalhões, atuando em quatro filmes do quarteto: Bonga, O Vagabundo (1971), de Victor Lima; Aladim e a Lâmpada Maravilhosa (1973), de J.B. Tanko; Robin Hood – O Trapalhão da Floresta (1974), de J.B.Tanko; Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão (1977), de J.B.Tanko; além de participações na TV.

Outro capítulo especial na carreira da atriz é mais um encontro, dessa vez com Jece Valadão, produtor e protagonista, e Antonio Calmon, diretor, de Eu Matei Lúcio Flávio (1979), em que dá vida à personagem Margarida Maria, sua maior atuação no cinema.

E, claro, o maior de todos foi seu posto garantido como uma das musas de destaque do cinema de Walter Hugo Khouri, com quem atuou em Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987), As Feras (1995/2001).

Monique Lafond tem atuações importantes também em filmes de cineastas como Carlos Hugo Christensen, Nelson Pereira dos Santos, David Neves e Tereza Trautman – impossível na registrar sua participação como uma guerrilheira que morre de amores por Alba Valéria no grande sucesso Giselle (1980), e o pioneiro na questão de amor e sexual das lésbicas como protagonista em Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio.

Já propriamente na Boca do Lixo, que lhe reservou posto de musa, a atriz atuou sob a lente de Carlos Coimbra – Independência ou Morte (1972), Os Campeões (1982); J. Marreco – Emanuelle Tropical (1977); Roberto Mauro – Um Menino, Uma Mulher (1980); Antonio Meliande – Prazeres Permitidos (1981), Tudo na Cama (1983); Jair Correia e Hélio Porto – Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor (1982).

Vale destacar a versão brasileira para o sucesso francês Emanuelle, em que Monque arrasa levando homens e mulheres para a cama; e Retrato Falado de Uma Mulher sem Pudor, em que faz a modelo fotográfica Paula, uma mulher independente e liberada que é assassinada na banheira.

Filmografia

– Até que o Casamento nos Separe, 1968, Flávio Tambellini
– Um Uísque Antes, Um Cigarro Depois, 1969, Flávio Tambellini
– Ascensão e Queda de um Paquera, 1970, Victor di Mello
– Bonga, o Vagabundo, 1971, Victor Lima
– Salve-se quem puder, 1972, J. B. Tanko
–  Os Machões, 1972, Reginaldo Farias;
–  Independência ou Morte, 1972, Carlos Coimbra
–  As Moças Daquela Hora, 1973, Paulo Porto
–  Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, 1973, J. B. Tanko
–  Robin Hood, O Trapalhão da Floresta, 1974, J. B. Tanko
– Motel, 1974, Alcino Diniz
– Enigma para Demônios, 1975, Carlos Hugo Christensen
– Ipanema, Adeus, 1975, Paulo Roberto Martins
– Com Um Grilo na Cama, 1975, Gilvan Pereira
– Ladrão de Bagdá, 1976, Victor Lima
– O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, 1977, de J. B. Tanko
–  O Pequeno Polegar contra o Dragão Vermelho, 1977, de Victor Lima
– Paixão e Sombras, 1977, Walter Hugo Khouri
– Emanuelle Tropical, 1977, de J. Marreco
– Eu Matei Lúcio Flávio, 1979, Antonio Calmon
– Amante Latino, 1979, Pedro Carlos Róvai
– Um Menino, Uma Mulher, 1980, Roberto Mauro
– Prazeres Permitidos, 1981, Antonio Meliande
– Eros, O Deus do Amor, 1981, Walter Hugo Khouri
– A Mulher Sensual, 1981, Antonio Calmon
– Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor, 1982, Jair Correia e Hélio Porto
– Luz Del Fuego, 1982, David Neves
– O Fuscão Preto, 1982, Jeremias Moreira Filho
– Os Campeões, 1982, Carlos Coimbra
– Giselle, 1983, Victor di Mello
– Tudo na Cama, 1983, Antonio Melliande
– Amor Maldito, 1984, Adélia Sampaio
– Memórias do Cárcere, 1984, Nelson Pereira dos Santos
– Fulaninha, 1986, David Neves
– Sonhos de Menina Moça, 1986, Teresa Trautman
– Leila Diniz, 1987, Luiz Carlos Lacerda
– Eu, 1987, Walter Hugo Khouri
– O Diabo na Cama, 1988, Michele Massimo Tarantini
– Não Quero Falar Sobre Isso Agora, 1991, Mauro Farias
– As Feras, 1995/2011, Walter Hugo Khouri
– Lara, 2002, Ana Maria Magalhães

Um galã, um ator, um cineasta

Especial John Herbert


Por Adilson Marcelino

John Herbert, por desejo da família, até tentou: formou-se em direito.  Mas o talento para a carreira artística falou mais alto, para alegria de todos nós e do teatro, do cinema e da televisão.

Herbert é descendente de família alemã, o avô, nascido em Hamburgo, veio para o Brasil, em 1889, casando com uma brasileira, que por sua vez vinha de família de origens francesa e alemã; já seu pai nasceu no Brasil e a mãe na Alemanha.

John Herbert nasceu no dia 17 de maio de 1929.

Esportista, praticava natação desde criança, recebendo troféus e medalhas. A descoberta do teatro foi no tempo do colégio, mas a carreira de ator demoraria ainda, quando no final dos anos 1940 torna-se um dos primeiros atores do Teatro de Arena, em São Paulo.

Durante toda sua carreira, John Herbert vai subir ao palco inúmeras vezes, atuando em espetáculos importantes de autores e diretores idem.

Outro veículo importante será a televisão, desde os anos 50, quando formará para com Eva Wilma, com quem ficará casado durante cerca de 20 anos, na pioneira sitcom Alô Doçura, passando depois para as novelas. A primeira será Prisioneiro de um Sonho (1964/65), de Roberto Freire, atuando depois em muitas outras como o marco Beto Rockfeller (1968/69), de Bráulio Pedroso – que fundou a moderna novela brasileira, Aritana (1979), de Ivani Ribeiro, As Gaivotas (1979), de Jorge de Andrade, e várias de Cassiano Gabus Mendes, como Plumas e Paetês (1980/81), Ti-Ti-Ti (1985/86) e Que Rei Sou Eu? (1989). A última foi Cabocla (2004), de Benedito Rui Barbosa.

O cinema é um capítulo todo especial na carreia de John Herbert, desempenhando as funções de ator, diretor e produtor.

A estreia foi na Vera Cruz, onde atuou em dois filmes de Luciano Salce: Uma Pulga na Balança (1952), e Floradas na Serra (1953). Começa aí uma carreira extensa, com 60 filmes no currículo – ver Filmografia.

A trajetória de John Herbert no cinema é tão importante que ele percorre todas as fases do cinema brasileiro a partir de então: Vera Cruz, Chanchadas, Cinema Novo, Cinema Marginal, Cangaço, Cinema Popular, Pornochanchada, Cinema dos anos 80, Retomada.

E mais que isso, além de ator, Herbert se torna também produtor e cineasta, tendo dirigido cinco filmes: Cartão de Crédito – episódio de Cada um dá o que tem; O Noivo – episódio de Já não se faz amor como antigamente; Ariella; Tessa, a Gata; Primeiro de Abril – episódio de Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez!.

John Herbert faleceu no dia 26 de janeiro de 2011. Portanto, já um ano sem o seu talento, que, felizmente, está eternizado nas telas.

O Quarto

Dossiê Ewerton de Castro

O Quarto
Direção: Rubem Biáfora
Brasil, 1968.

Por Adilson Marcelino

Ewerton de Castro estreou no cinema em O Quarto, de Rubem Biáfora.

Nada mal, não? Afinal, O Quarto é filme acachapante e que só faz crescer a cada revisão.

A trama dá lugar para o GRANDE Sérgio Hingst brilhar de ponta a ponta como Martinho, um pobre diabo que vive sendo explorado e humilhado pelos colegas de repartição. Ele sente raiva, mas é incapaz de revidar, engolindo em seco os desaforos diários.

Martinho divide seus dias e suas noites em cotidiano marcado pelo trabalho, o pingado pelas manhãs e o rabo de galo à noite. Faz também caminhadas noturnas, sempre em busca de prostitutas, com as quais quer mais beijos e abraços que sexo, radiografia perfeita de suas carências afetivas.

Resta-lhe ainda, nesta vida ordinária, o quarto, onde relembra suas penas e se apequena em seu anti-Repouso do Guerreiro.

Essa crônica de destino anunciado sofre uma reviravolta quando conhece uma ricaça, Giédre Valeika, despertando uma coragem insuspeita e fazendo emergir nele os mesmos sentimentos/comportamentos de quem sempre o subjugou.

O Quarto é mesmo um jóia. Poucas vezes se viu casamento tão perfeito entre roteiro, direção e escalação de seu protagonista – e há ainda a fotografia de Rudolph Icsey e a câmera de Pio Zamuner.

Biáfora craque da pena em suas críticas, estava mesmo inspirado quando escreveu essa história. “você quis tomar champanhe e eu quis beber pinga”, é um dos diálogos certeiros e cruéis desse grande filme que é O Quarto.

Em elenco, que conta ainda com Pedro Stepanenko, Francisco Curcio, Berta Zemel, Lélia Abramo e Pedro Paulo Hatheyer, Ewerton de Castro é o funcionário da repartição que está em experiência, e por isso submisso a todos – inclusive de Martinho, que em cena emblemática de seu caráter, vinga-se em Ewerton o que sofre na mão de seus chefes.

Filmografia

 

Diretor

Viúvas Precisam de Consolo, 1979

Ator

O Jeca e a Freira, Amácio Mazzaropi, 1967
O Quarto, Rubem Biáfora, 1968
As Armas, Astolfo Araujo, 1969
Sentinelas do Espaço, Ary Fernandes, 1969
As Gatinhas, Astolfo Araujo, 1970
Paixão na Praia, Alfredo Sternheim, 1971
Anjo Loiro, Alfredo Sternheim, 1973
Último Êxtase, Walter Hugo Khouri, 1973
A Noite do Desejo, Fauzi Mansur, 1973
As Delícias da Vida, Maurício Rittner, 1973
O Poderoso Machão, Roberto Mauro, 1974
Cada um dá o que tem – episódio Uma Grande Vocação, Silvio de Abreu, 1975
A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral, Fauzi Mansur, 1976
À Flor da Pele, Francisco Ramalho Jr., 1976
Sabendo Usar Não vai Faltar – episódio Joãozinho, Francisco Ramalho Jr., 1976
O Estripador de Mulheres, Juan Bajon, 1978
Na Violência do Sexo, Antonio Bonacim Thomé, 1978
Adultério Por Amor, Geraldo Vietri, 1978
Os Rapazes da Difícil Vida Fácil, José Miziara, 1979
Alguém, Julio Xavier da Silveira, 1980
A Noite das Depravadas, Juan Bajon, 1981
Sexo, Sua Única Arma, Geraldo Vietri, 1981
O Médium, Paulo Figueiredo, 1983
Patriamada, Tizuka Yamasaki, 1985
Rádio Pirata, Lael Rodrigues, 1987
Kuarup, Ruy Guerra, 1989
Uma Escola Atrapalhada, Del Rangel, 1990
Caminho dos Sonhos, Lucas Amberg, 1998
O Príncipe, Ugo Giorgetti, 2002
Maria, Mãe do Filho de Deus, Moacyr Goes, 2003

Filmografia

 

Assistente de Direção

A Moça do Quarto 13, Ricardo Cunha, 1959

 

Diretor

Cada um dá o que tem – episódio Cartão de Crédito, 1975
Já não se faz amor como antigamente – episódio O Noivo, 1976
Ariella, 1980
Tessa, a Gata, 1982
Os Bons tempos voltaram: vamos gozar outra vez! – episódio Primeiro de Abril, 1984

Ator

Uma Pulga na Balança, Luciano Salce, 1952
Floradas na Serra, Luciano Salce, 1953
O Petróleo é Nosso, Watson Macedo, 1954
A Outra Face do Homem, J.B.Tanko, 1954
Matar ou Correr, Carlos Manga, 1954
Se a Cidade Contasse, Tito Batini, 1954
Dioguinho, Carlos Coimbra, 1957
Rio Fantasia, Watson Macedo, 1957
A Grande Vedete, Watson Macedo, 1958
Alegria de Viver, Watson Macedo, 1958
Escravos do Amor das Amazonas, Curt Siodmak, 1958
E o Espetáculo Continua, Cajado Filho e Carlos Manga, 1958
A Moça do Quarto 13, Richard Cunha, 1959
Maria 38, Watson Macedo, 1959
Assassinato em Copacabana, Eurídes Ramos, 1961
Por um Céu de Liberdade, Luiz Barros, 1961
Copacabana Palace, Steno, 1962
Gimba, Presidente dos Valentes, Flávio Rangel, 1963
Convite ao Pecado, Horst Haechler, 1964
Mulher Satânica, Alfons Stummer, 1964
Toda Donzela tem um pai que é uma fera, Roberto Faria, 1966
As Cariocas – episódio de Fernando de Barros, 1966
O Caso dos Irmãos Naves, Luís Sérgio Person, 1966
Bebel, a Garota Propaganda, Maurice Capovilla, 1967
O Cangaceiro Sanguinário, Osvaldo Oliveira, 1967
Helga e seus Homens, Roland Cämmerer, 1968
Corisco, o Diabo Loiro, Carlos Coimbra, 1969
Em Cada Coração um Punhal, Sebastião de Souza e João Batista de Andrade, 1969
Compasso de Espera, Antunes Filho, 1969
Palácio dos Anjos, Walter Hugo Khouri, 1970
A Arte de Amar Bem, Fernando de Barros, 1970
Cleo e Daniel, Roberto Freire, 1970
O Capitão Bandeira Contra o Doutor Moura Brasil, Antonio Calmon, 1971
A Santa Donzela, Flávio Portho, 1973
A Superfêmea, Aníbal Massaini Neto, 1973
As Delícias da Vida, Mauricio Rittner, 1973
Cada um dá o que tem – episódio Cartão de Crédito, John Herbert, 1975
O Sexo Mora ao Lado, Ody Fraga, 1976
O Quarto da Viúva, Sebastião de Souza, 1976
Já não se faz amor como antigamente – episódio O Noivo, John Herbert, 1976
O Bem-Dotado – O Homem de Itu, José Miziara, 1978
Meus Homens, Meus Amores, José Miziara, 1978
O Caçador de Esmeraldas, Carlos Coimbra, 1979
O Inseto do Amor, Fauzi Mansur, 1979
O Torturador, Antonio Calmon, 1979
Ariella, John Herbert, 1980
Bacanal, Antonio Meliande, 1981
Tessa, a Gata, John Herbert, 1982
Amor de Perversão, Alfredo Sternheim, 1982
Retrato Falado de uma Mulher sem Pudor, Hélio Porto, 1983
Deu Veado na Cabeça, J.B. Rodrigues, 1983
Made in Brazil, Renato Pitta, 1983
Jeitosa, um Assunto Muito Particular, Nello de Rossi, 1983
Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez! – episódio Primeiro de Abril, John Herbert, 1984
As Aventuras de Mário Fofoca, Adriano Stuart, 1984
As Sete Vampiras, Ivan Cardoso, 1986
A Menina do Lado. Alberto Salvá, 1986
Forever, Walter Hugo Khouri, 1990
A Hora Mágica, Guilherme de Almeida Prado, 1998

A Filha de Madame Betina

Especial Jece Valadão Cineasta

A Filha de Madame Betina
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1973.

Por Adilson Marcelino

 

Em 1971, Jece Valadão produziu para Carlos Alberto Pieralisi dirigir o delicioso O Enterro da Cafetina. Comédia de costumes com pitadas de erotismo dirigida com elegância, o filme é adaptado de obra do mestre Marcos Rey, sempre marcada por um olhar inconfundível sobre a classe média carioca. Jece, claro, era o protagonista, que ali rememorava em velório festivo a morte da cafetina vivida por Elza Gomes. Havia ainda espaço para a obsessão dele em se casar com uma virgem, palco perfeito para a entrada de uma sensacional Elizângela, mal saída da adolescência e exalando sensualidade pelos poros.

O belo resultado do filme originou essa continuação, A Filha de Madame Betina, agora com o próprio Jece dirigindo, além de produzir pela sua Magnus Filmes e também assinar o roteiro. Mas infelizmente, dessa vez, as coisas não deram nada certo. Se lá havia ternura, nostalgia e uma fina ironia no olhar sobre os tempos dos velhos prostíbulos cariocas e toda a sua fauna boêmia circundante, aqui sobra apelo fácil, falta de sutileza e personagens e/ou situações mal delineados. Uma pena que Jece Valadão, ator inesquecível e diretor interessante, sobretudo nos filmes policiais, tenha perdido o remo do barco nessa produção.

Em A Filha de Madame Bettina, ele encarna novamente o  publicitário Otávio, às voltas com seus amigos Paulo Fortes, Arthur Costa Filho e Martim Francisco – esse último substituindo Fernando José no mesmo personagem. Todos agora estão empenhados para que Otávio receba a herança que Betina deixou para ele, mas com clausula soberana: para botar a mão na grana, ele terá que se casar com sua filha Margot – Geórgia Quental. A procura da filha misteriosa norteará boa parte da trama, e durante a trajetória Otávio vai se encantar com a não menos misteriosa personagem de Vera Gimenez, que se passará por Margot.

A Filha de Madame Betina foi interditado pela censura na época e teve que abrir mão de seu título original, “A Filha da Cafetina”.

 

 

Carta ao Leitor

A Zingu! chega à 51ª edição com fôlego. Afinal, apresentamos um dossiê e dois especiais, além, claro, das tradicionais colunas.

O dossiê do mês é com o cineasta e montador Jair Correia. Diretor do pioneiro em seu gênero Shock: Diversão Diabólica, Correia dirigiu mais dois longas de ficção: Duas Estranhas Mulheres e Retrato Falado de uma Mulher sem Pudor. O primeiro um tanto desaparecido por aí; já o segundo, acessível, com uma atuação de Monique Lafond no auge da beleza.

E desempenhou outras funções, sobretudo a montagem, em filmes de cineastas como José de Anchieta, Jeremias Moreira Filho e Mauricio de Sousa.

Gabriel Carneiro, redator da Zingu!, fez entrevista com Jair Correia, que repassa sua trajetória e comenta seus trabalhos. Há ainda críticas dos filmes e filmografia.

O primeiro especial é sobre o ator, diretor, produtor e roteirista Jece Valadão. Falecido no dia 26 de novembro de 2006, já são cinco anos sem o talento deste que é capítulo importante da história do cinema brasileiro, pois como ator trafegou por diferentes ciclos e como produtor trouxe para às telas grandes filmes.

O especial Jece Valadão Cineasta focaliza o legado que ele deixou como diretor e é formado por texto introdutório, críticas de 8 filmes e filmografia.

Já o segundo especial é temático: A Aids no Cinema Brasileiro. Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate à Aids, e com esse especial a Zingu! mira foco para produção sobre o tema pelo cinema nacional, dos anos 1980 até os dias de hoje.

O especial é formado por artigo exclusivo do pesquisador Carlos Alberto de Carvalho, Memória e esquecimento da Aids no filme Cazuza, o tempo não para, texto introdutório e críticas de 8 filmes.

E por fim, apresentamos as tradicionais colunas: Uma reflexão sobre liberdade e preconceito; uma resposta do cineasta, crítico e pesquisador Paulo Augusto Gomes; Os Saltimbancos em Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte; e as musas Claudia Magno e Liza Vieira.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

As Aventuras da Turma da Mônica

Dossiê Jair Correia

 

As Aventuras da Turma da Mônica
Direção: Maurício de Sousa
Edição de Som: Jair Correia
Brasil, 1982. 

Por Filipe Chamy 

É bem comum vermos comentários sobre certos filmes comparando-os a histórias em quadrinhos. 

Mas um gibi não tem um ritmo estabelecido, porque eles variam em gêneros, temáticas e mil condicionantes.           

É fácil perceber a diferença entre uma aventura clássica do Tio Patinhas (trama elaborada, desenho detalhista) e uma tira dos Peanuts (cenários simples, diálogos filosóficos), por exemplo. Então não dá mesmo para generalizar a coisa.           

Alguns cineastas, como Federico Fellini, José Mojica Marins e Alain Resnais, nunca esconderam seu fascínio pela “nona arte”, e legaram obras excepcionais onde flertavam com uma estética vinda dessa paixão, uma inspiração evidente mas nem por isso óbvia e formulaica.           

Mas há por vezes casos como o deste As aventuras da turma da Mônica, em que quem assume a chefia do filme que tem por fonte um quadrinho é o próprio quadrinista. Na verdade, faz parte da ambição de Mauricio de Sousa virar uma versão “abrasileirada” de Walt Disney (que, como sabemos, era antes um empresário que um artista). Seus esforços são dignos de consideração, mas falta a ele todo o aparato de que Disney se servia para legar produtos com acabamento perfeito e assombroso: Mauricio não tinha em 1982 uma equipe de animadores tão experiente e talentosa quanto a que Disney possuía quando em 1937 deu à luz o magnífico Branca de Neve e os sete anões, nem tampouco dispunha de grande talento como storyteller, ou narrador — as histórias deste filme são, como de costume nas revistinhas da menina dentuça e seus amigos, histórias simples e repetitivas, nada que pudesse destacar em um filme maravilhas invisíveis nos gibis regulares das bancas. 

De todo modo, apesar da animação “bruta”, As aventuras da turma da Mônica é sem dúvidas um programa agradável. É pautado por esquetes cômicas estreladas pelo próprio Mauricio, tentando, a todo custo, chamar seus personagens para participar deste projeto; todos possuem afazeres mais urgentes, e deixam o velho Sousa na mão para viver suas aventuras — que serão quatro ao todo, indo do cotidiano infantil da turma a ficção científica, passando por um romance insólito e uma trama de decepção com a vida social. 

Todos os problemas apresentados nos segmentos acabam desembocando de maneira um tanto quanto esquisita no final, em que Mauricio se junta às crianças e diz que o filme estava feito, era aquilo; ora, ele passa o tempo todo se lamentando por seu abandono e no final sorri como se já esperasse aquilo de há muito? Nessa falta de naturalidade escorrega boa parte da encenação da farsa: sabemos que é tudo um teatrinho sem grandes pretensões, e revelar o truque do mágico faz a plateia perceber que aquilo nada tem de especial. É um erro de principiante, que Mauricio procurará consertar em suas futuras incursões no cinema e televisão. 

Editando o som dessa história, Jair Correia. Ao contrário de uma HQ, em que há poucos artistas, um filme não se faz com uma equipe tão reduzida. E ainda que o comando-mor seja do patrão Mauricio, é necessário atentar à edição e procurar não quebrar o ritmo com lentidão e aceleramento indevidos, falta de coerência ou qualquer tipo de falha estrutural. Portanto, é preciso uma atenção a esses aspectos estruturais. 

É preciso também encarar a fantasia das coisas com naturalidade. Ainda que as partes live action tentem nos provar o contrário, As aventuras da turma da Mônica é uma animação, e deve ser visto assim. Ou talvez como um gibi sendo folheado rapidamente.