Senhora

Dossiê Gerardo Vietri

Senhora
Direção: Geraldo Vietri
Brasil, 1976.

Por Vlademir Lazo Correa

Uma das críticas mais duras que se faz ao cinema brasileiro mais recente é a influência da televisão na confecção de alguns filmes, a assimilação de uma estética das novelas de TV no estilo do que é visto nas telas do cinema. A prática, entretanto, não é nova. Nos anos setenta, com a explosão das telenovelas da Globo entre o grande público, muitas de nossas realizações cinematográficas se refugiavam a um teor menos ou mais excessivamente televisivo. O Descarte (1974), de Anselmo Duarte, e produzido pelo casal Tarcisio Meira e Glória Menezes, ainda que com lampejos do talento cinematográfico do diretor, parecia bem mais uma novela das oito. Já Senhora tem cara de novela das seis da tarde.

Nada contra se voltar para um público popular no mercado das salas de cinema, porém o filme de Geraldo Vietri é pouco feliz porque o seu problema parece ser anterior mesmo à questão acima levantada, ao adaptar o romance de José de Alencar para as telas. Um autor há muito fora de moda, mas sempre de presença constante e obrigatória nos currículos escolares, e cujas diversas versões cinematográficas jamais se elevaram acima do pouco interesse das platéias contemporâneas por suas obras (não apenas Senhora, mas também Iracema, O Guarani duas vezes, Guerra dos Mascates e O Tronco do Ipê foram levados para tela grande, sempre com pouco ou nenhum êxito).

Na tentativa de conquistar um vasto público habituado a folhetins, o filme de Vietri é o encontro do folhetim literário de um século anterior com a estética dos folhetins televisivos de sua época. Compila fragmentos do romance e cenas da narrativa costurados pela narração em off da personagem central, encarregada de orientar o espectador naquilo que a imagem nem sempre dá conta. O aparecimento do avô de Aurélia e a revelação da falsa viuvez de sua mãe é muito mais verbalizado pelas palavras da protagonista do que visto na tela. Daí que ficamos sabendo que Aurélia foi reconhecida pelo avô paterno e com a sua morte herda a fortuna que lhe deixou, deixando de ser uma moça pobre e sem berço.

Senhora, o livro e o filme, mostra casamentos e relacionamentos amorosos como parte de jogos de interesse financeiros e transações econômicas. Aurélia pede ao seu tutor que a ajude a desmanchar o compromisso de casamento de uma outra moça, Adelaide, com um recém-chegado ao Rio de Janeiro, Fernando Seixas, um caça-dotes de boas relações no Império, mas de origem simples, com quem Aurélia deseja se reencontrar. Vietri também utiliza na estrutura de seu filme alguns dos flashbacks do romance de Alencar, da mesma forma que por vezes sobrepõe a história de Aurélia com a de Adelaide, por vezes dividindo a atenção entre ambas as personagens.

Em todo o caso, Vietri tenta fazer cinema em meio a profundidade de papelão dos personagens e sua narrativa folhetinesco-televisiva, com alguns movimentos de câmera bem insinuantes, como se procurasse um refúgio de eventuais acusações de que o que estivesse fazendo era mesmo televisão. Há um plano de uma carruagem por uma estrada sob o céu vermelho de uma noite escura que parece tirado diretamente de alguma sequência de E o Vento Levou, e aqui e ali é possível se impressionar com alguma de suas tomadas. Ainda assim, é pouco, muito pouco, e o resultado final não foi suficiente para marcar época.

Sexo, Sua Única Arma

Dossiê Geraldo Vietri

Sexo, Sua Única Arma
Direção: Geraldo Vietri
Brasil, 1981

Por Adilson Marcelino

Em Sexo, Sua Única Arma, Selma Egrei protagoniza seu segundo filme com o cineasta e novelista Geraldo Vietri – é o último filme dele.

Na trama, ela é Marta, uma mulher que chega como hóspede um tanto indesejada na casa de uma família e bota a vida de todos de perna para o ar.

O filme começa com Marta em viagem de trem, em bela abertura ao som de canção-fetiche de Vietri. Ela é esperada na estação por Humberto, Serafim Gonzales, e aí ficamos sabendo que ela é cega. As informações são colocadas aos poucos, pois durante um bom tempo da narrativa não se sabe porque ela chegou àquela casa.

A família de Humberto é formada ainda por sua esposa Angelina – Leonor Lambertini, que desde o início demonstra claramente seu desgosto com a chegada da hóspede. Angelina comanda a família com mão de ferro e gosta de humilhar a nora Judite – Geórgia Gomide e seu neto, por ambos serem judeus. Há ainda outra nora, Anita – Arlete Montenegro, que vive com o marido e o filho adolescente Bruno – Douglas Mazolla. Tem também Tiago – Ewerton de Castro, filho do casal que se tornou padre.

Já no primeiro instante, Marta começa a seduzir todos os homens da casa, que ficam impactados com sua beleza e seu ar de mistério. Nem mesmo padre Tiago consegue fugir dos assédios de Marta, e é com o desenrolar da trama que vamos descobrindo a verdadeira identidade dela e seus reais motivos em estar na casa daquela família.

Em Sexo, Sua Única Arma, Geraldo Vietri une mais uma vez Selma Egrei e Ewerton de Castro, mas aqui sem atingir o ótimo resultado do filme anterior em que estiveram sob a batura do diretor, Adultério por Amor (1978).

A personagem de Selma Egrei é um misto do Terence Stamp de Teorema (1968), do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, que como um anjo chega em meio a uma família burguesa e seduz a todos, desestruturando cada um de uma maneira diferente.

Aqui, em Sexo, Sua Única Arma, os motivos são bem diferentes, mas é impossível não se lembrar da trama de Pasolini, nesse argumento e roteiro assinado por Geraldo Vietri – novamente, Vietri desempenha inúmeras funções, como sempre foi sua marca nas novelas da Tupi que dirigiu. Em Sexo, Sua Única Arma, ele está a frente do argumento, roteiro, direção, montagem e direção musical.

No filme, mais uma vez o cineasta conta com seus parceiros habituais: a produção é de Cassiando Esteves, e a fotografia é de Anthonio B. Thomé.

Selma Egrei, Ewerton de Castro, Serafim Gonzales e Leonor Lambertini estão, como sempre, muito bem dirigidos por Vietri. Mas o grande destaque do elenco é sem dúvida Arlete Montenegro, que tem aqui uma de suas melhores interpretações no cinema, como a magoada e rejeitada Anita.

Se a direção de atores é ótima, o mesmo não pode ser dito do roteiro, um tanto apressado na condução da trama, e também uma mão um tanto pesada de Vietri na condução do filme como um todo. Talento extraordinário que ele possuía, como pode ser visto nos dois filmes imediatamente anteriores, o maravilhoso e surpreendente Os Imorais (1979), e Adultério Por Amor (1978).

Tiradentes – O Mártir da Independência

Dossiê Geraldo Vietri

Tiradentes, O Mártir da Independência
Direção: Geraldo Vietri
Brazil, 1977.

Por William Alves

Ao menos três vezes durante o filme, o jovem Joaquim José da Silva Xavier interrompe imediatamente o que está fazendo para libertar pássaros enjaulados. Na mais triunfal dessas ocorrências, o diretor Geraldo Vietri enquadra um céu esplendorosamente azul, que abriga toda a liberdade recém-conquistada pelas aves, enquanto o menino Tiradentes, sem qualquer mostra de constrangimento, brada “Viva a Liberdade!”. Em todos os cento e cinco minutos do longa de 1977, o condutor da inconfidência mineira não possui uma mácula sequer no caráter.

Seja por expressar a admiração do diretor pela lenda, seja para respeitar a identidade bibliográfica que serviu de base ao filme, o Tiradentes de Vietri rivalizaria com o próprio São Francisco de Assis no ofício de ser gente boa. Toda a sua bem aventurança é inteiramente contraposta pela índole vil dos outros personagens principais, que, com esperanças de se salvarem da forca, não tardam em se voltar, em grupo, contra Tiradentes. A vida do inconfidente é explorada de forma lacônica: o garoto que tem como hobby libertar aves se transmuta direto no alferes austero com aspirações anarquistas.

O filme ainda encontra algumas saídas cômicas, como os escravos que fogem dos equipamentos odontológicos assustadores empunhados por Joaquim José (o verdadeiro nome de Tiradentes) e seu tio, mesmo que isso signifique conviver com dores lancinantes de longo prazo. Joaquim José nutre especial apreço pelos escravos, e Vietri se empolga justamente nessas generosidades, como na cena em que o revolucionário recusa sexualmente uma escrava que quer lhe retribuir um favor.

Logo, Tiradentes, O Mártir da Independência parece ter, como único motivo de existência, a canonização de Joaquim José. Mesmo com toda essa adoração, um dos méritos do filme é ainda encontrar espaço para incluir o contexto histórico. Dedica especial atenção ao desprezo português em relação aos latino-americanos, explicitado sem subterfúgios pelos europeus. Ainda sim, a abordagem essencialmente chapa-branca incomoda, remetendo a “clássicos” bíblicos modorrentos, como Rei dos Reis, de Nicholas Ray. Lançado no auge da repressão militar, Tiradentes pode ter sido uma tentativa de contribuição de Vietri para impingir fé aos combalidos brasileiros.

Filmografia

Dossiê Geraldo Vietri

 

FILMOGRAFIA


Custa Pouco a Felicidade, 1952
Dorinha na Soçaite, 1957
Imitando o Sol, 1964
Quatro Brasileiros em Paris, 1965
O Pequeno Mundo de Marcos, 1968
Diabólicos Herdeiros, 1971
A Primeira Viagem, 1972
Senhora, 1976
Tiradentes – O Mártir da Independência, 1977
Que Estranha Forma de Amar, 1978
Adultério Por Amor, 1978
Os Imorais, 1979
Sexo, Sua Única Arma, 1979

Carta ao Leitor

Nesta edição 43 da Zingu! apresentamos um dossiê de um artista popular que é, para variar, injustiçado pela memória nacional: o grande Geraldo Vietri. Um dos principais nomes da renovação da telenovela brasileira, Vietri fez história com sua abordagem do cotidiano repleto de personagens de carne e osso, desses que a gente identifica nas ruas e totalmente críveis, em marcos televisivos como Antonio Maria, Nino O Italianinho, A Fábrica, Vitória Bonelli, Meu Rico Português e João Brasileiro, o Bom Baiano.

De temperamento às vezes explosivo, mas também marcado pela doçura, generosidade e humor, esse paulistano nascido em 1930 foi sinônimo da TV Tupi, emissora pioneira que marcou época com suas novelas e programas, e que, ainda hoje, serve de modelo para muitas produções que estão por aí.

Geraldo Vietri fez da Tupi sua vida, como três atrizes-fetiches de sua obra e entrevistadas pela Zingu! – Arlete Montenegro, Elisabeth Hartmann e Márcia Maria – testemunharam aqui. Talvez um caso único em seu metiê, Vietri não só escrevia suas tramas, como também dirigia e editava. Uma verdadeira loucura, pois, mesmo levando-se em conta as diferenças que norteiam as novelas atuais, basta constatar que todas elas têm um verdadeiro batalhão de gente por trás de cada uma, seja escrevendo, dirigindo ou editando. Já Vietri fazia quase todas sozinho, pois tinha , inclusive, ciúmes delas.

Geraldo Vietri gostava de trabalhar com um elenco fixo, e morria de ciúmes dele também, como nossas entrevistadas contam. Nele figuravam nomes como Tony Ramos, Márcia Maria, Paulo Figueiredo, Arelete Montenegro, Elisabeth Hartmann, Jonas Mello, Etty, Fraser, Chico de Assis, Marcos Plonka e Flamínio Fávero.

Muitos que compunham essa família Vietri ele levou também para os filmes que escreveu e dirigiu. Com 13 longas no currículo, mas boa parte deles sem possibilidade de acesso, Vietri dirigiu desde filme oficial como Tiradentes – O Mártir da Independência, e adaptação formal de José de Alencar em Senhora, até leitura surpreendente da homossexualidade em Os Imorais. Isso sem falar na sacudida no que pode haver debaixo do tapete das famílias de classe média em filmes como Adultério Por Amor e Sexo, Sua Única Arma. Todos esses cinco filmes – de um total de 13 – estão comentados aqui nessa edição 43. A Zingu! entrevistou também algumas das atrizes-símbolos de sua obra, Arlete Montenegro, Elisabeth Hartmann e Márcia Maria; e colheu depoimento de um ator fundamental na carreira dele, Paulo Figueiredo, e do pesquisador de altíssima estirpe Nilson Xavier, fundador do essencial site Teledramaturgia.

Além do dossiê Geraldo Vietri, esta edição apresenta o especial O Carnaval no Cinema Brasileiro. Ok, sabemos que estamos em plena quaresma, para os católicos. Mas como nem o cinema e tampouco a Zingu! estão condicionados a isso, esticamos a folia por aqui com a seleção de oito filmes em que a festa popular está no centro da ação ou como pano de fundo.

Como não poderia deixar de ser também, temos as colunas tradicionais e as mais ou menos recém-criadas, com muito conteúdo interessante e redatores e colaboradores idem.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Depoimento: Nilson Xavier

Dossiê Geraldo Vietri

 

Por  Nilson Xavier

Geraldo Vietri tem uma grande importância para a história da teledramaturgia brasileira.

Em plenos anos 60, quando estava em voga um formato latino e melodramático de teledramaturgia, que nada tinha a ver com a realidade brasileira, Vietri foi um dos primeiros a se preocupar em trazer o cotidiano e a nossa realidade para a telenovela. Concebeu, escreveu e dirigiu sucessos e novelas memoráveis na Tupi.

Tinha uma linha de trabalho própria e formou e foi mestre de artistas hoje consagrados como Aracy Balabanian, Juca de Oliveira, Tony Ramos, Denis Carvalho, Paulo Figueiredo e outros.

Grande homem de televisão!

Grande mestre!

Nilson Xavier é autor do Almanaque da Telenovela Brasileira e criador do site www.teledramaturgia.com.br

Expediente

EDITOR-CHEFE: Adilson Marcelino

CONSELHO EDITORIAL: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo Correa

REDATORES: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Diniz Gonçalves Júnior, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Marcelo Carrard, Matheus Trunk, Sergio Andrade, Vlademir Lazo Correa e William Alves

REDATORES CONVIDADOS: Heitor Augusto, Mariana Mól, Nísio Teixeira, Sérgio Alpendre

CONVIDADOS ESPECIAIS:  Arlete Montenegro, Elisabeth Hartmann, Márcia Maria, Paulo Figueiredo, Nilson Xavier

CONTATO: revistazingu@gmail.com

Adilson Marcelino tem paixão pelo cinema nacional em geral e acredita piamente na máxima atribuída a Paulo Emílio Salles Gomes, de que o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor estrangeiro. Chamado por um grupo de jornalistas como o Super Adilson do Cinema Brasileiro, é graduado em Letras e em Jornalismo. Trabalha com cinema desde 1991: foi bilheteiro, gerente, assessor de imprensa, programador, redator e apresentador de programa de rádio. É pesquisador, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro – premiado com o troféu Quepe do Comodoro, outorgado pelo Carlão Reichenbach -, e do blog Insensatez. É o atual Editor-Chefe da Zingu!

Andrea Ormond é formada em Letras e Direito pela PUC-Rio, escritora, pesquisadora e crítica de cinema. Mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro, exclusivamente sobre cinema brasileiro. Colaboradora nas revistas Zingu!, Rolling Stone, Filme Cultura, Cinética e Freakium.

Diniz Gonçalves Júnior é paulistano e poeta. Tem trabalhos publicados na Cult, no Suplemento Literário de Minas Gerais, naArtéria, na Nóisgrande, na Sígnica, em O Casulo, na Zunái, na Germina, na Paradoxo, no Mnemocine, no Jornal de Poesia, na Freakpedia, e no Weblivros. Autor do livro Decalques (2008).

Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte.

Gabriel Carneiro é um pretenso jornalista e crítico de cinema, mais pretenso ainda pesquisador. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, o que gosta mesmo é de assistir filmes e ponderar sobre eles. Como iniciação científica, pesquisou a filmografia de Guilherme de Almeida Prado. Já escreveu no portal Cinema com Rapadura, e manteve por três anos e meio o blog Os Intocáveis. Rascunhou em alguns outros lugares. Atualmente, também escreve no Cinequanon e na Revista de CINEMA. Adora resmungar, e adora as feminices das mulheres que o rodeiam – é fato, a falta da simples presença feminina o deixa deprimido. A cada dia sua admiração por filmes de baixo orçamento aumenta – tanto que fez um TCC sobre a ficção científica de 1950-64 e planeja fazer um filme de terror. Foi editor-chefe da Zingu! entre maio de 2009 e dezembro de 2010. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial da revista.

Marcelo Carrard é jornalista e crítico de cinema. Autor da tese de mestrado: O Cozinheiro, O Ladrão, Sua mulher e o Amante – Peter Greenaway e Os Caminhos da Fábula Neobarroca, colaborou no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib. Nesse livro, foi o responsável pelas entrevistas com os diretores José Joffily, Silvio Back e Neville de Almeida. Doutorado em cinema pela Unicamp. Grande conhecedor de cinema oriental, europeu e mesmo brasileiro, ministra cursos e workshops. Manteve o blog Mondo Paura, premiado no troféu Quepe do Comodoro. Carrard é também crítico do site Boca do Inferno, o maior em português dedicado ao Cinema Fantástico. Muito sincero e honesto, o que lhe causa grandes problemas frente os pseudointelectuais de esquerda que pensam que escrevem na “Cahiers du Cinema”. Assina a coluna Cinema Extremo, dedicado a filmes feitos fora da linguagem comum.

Matheus Trunk é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi editor-chefe da Zingu! entre outubro de 2006 e abril de 2009. Trabalhou na revista Transporte Mundial, no jornal Nippo-Brasil e no jornal Metro ABC. Atualmente é assessor de imprensa. Fanático por cinema brasileiro, música popular e pela Sociedade Esportiva Palmeiras, é editor do blog Violão, Sardinha e Pão.

Sergio Andrade é bibliotecário e cinéfilo dos mais atuantes. É fã de cinema extremo, mas também de grandes diretores. Em matéria de cinema brasileiro também é grande entendido, sendo fã de carteirinha do saudoso crítico Rubem Biáfora. Mantém uma relação de amor com a Cinemateca Brasileira, por ter trabalhado lá nos arquivos da entidade. Mantém os blogs Kinocrazy e Indicação do Biáfora.

Vlademir Lazo Correa é gaúcho de nascimento e tem como única qualidade inquestionável nessa vida o fato de ser torcedor fanático do Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Escritor sem obra e atleta cujo único esporte é o jogo de xadrez, é apaixonado por antiguidades das mais diversas, dedicando-se a colecionar discos de vinil que ninguém mais quer e livros velhos de sebos empoeirados que quase ninguém lê. Desde que se conhece por gente aprecia o cinema em suas mais diferentes formas, vertentes e direções ao ponto de estar se convertendo em um museu de imagens e só prestar nesse mundo para assistir filmes e, ocasionalmente, escrever sobre eles. Foi colunista do site Armadilha Poética e mantém (só não sabe até quando) o blog O Olhar Implícito.

William Alves, 24 anos, é belorizontino e eterno postulante a jornalista, estudante de Comunicação Social na capital mineira. Ele acredita em um tipo de crítica cinematográfica mais simples e objetiva, largando de lado todas as citações desnecessárias e a cânones literários. Queria ter visto os Stones em 68 e pegado a Ava Gardner em 46. É fã de westerns, futebol inglês e da Rockstar Games. Tem um blog que ninguém lê, o Lazarus Threw the Party. Aprecia especialmente o cinema marginalizado de Sganzerla e Bressane, embora não deixe de olhar com carinho a filmografia do Nelson Pereira dos Santos. Já largou uma porção de maus hábitos, mas o Marlboro vermelho continua

Um Mestre do Cotidiano

Dossiê Geraldo Vietri

 

Por Adilson Marcelino

Quando fez Dancin´ Days (1978/79), Gilberto Braga fez sucesso estrondoso de ponta a ponta no país ao estrear no nobre e disputadíssimo horário da novela das oito. Mas ficou esgotado e ao ser escalado para um novo trabalho solicitou ao Boni, então o manda-chuva da Globo, um colaborador para dividir a novela. Boni concordou e disse que não tinha oferecido antes porque ninguém solicitava, mas que achava que era realmente uma tarefa hercúlea para se fazer sozinho. Quem não gostou nada da história foi Janete Clair, a rainha do horário na Globo da época, que reclamou com Gilberto, “Como assim, dividir sua novela com outra pessoa?”. Bom, o resultado é que Água Viva, a novela seguinte, teve a colaboração de Manoel Carlos, e foi outro grande sucesso. Quem conta essa história é o próprio Braga em entrevistas.

Janete Clair não aceitava essa história de dividir parceria, que achava absurda, e só fez isso ao final da vida, em Eu Prometo (1983/84), com a iniciante Glória Perez. Agora, se pensarmos nessas duas formas de trabalhar, sozinho ou em parceria, o espanto fica maior ainda quando se pensa em Geraldo Vietri. Sim, porque o veterano autor não só escrevia suas novelas, como também dirigia e editava. Pode uma coisa dessa? Pode, pois esteve à frente de dezenas de novelas, algumas delas revolucionárias.

Quais? Antonio Maria (1968/69) e Nino, O Italianinho (1969/70), que co-escreveu com Walter Negrão e também dirigiu na Tupi. A partir daí, Vietri tornou-se, para muitos, quem melhor escrevia sobre o cotidiano e criava tipos que se encontrava facilmente nas ruas. Aqui mesmo nas entrevistas para a Zingu!, as atrizes Arlete Montenegro, Elisabeth Hartmann e Márcia Maria ressaltam esse domínio do autor. Geraldo Vietri assinou também outros momentos luminosos na Tupi, como A Fábrica (1971/72) e Vitória Bonelli (1972/73), que escreveu e dirigiu sozinho – essa última é destacada como obra-prima pelo fabuloso site Teledramaturgia, de Nilson Xavier. E para quem assistiu Berta Zemmel lutando para manter sua família unida, com filhos que tinham nomes bíblicos – Tiago –Tony Ramos, Mateus – Carlos Alberto Ricelli, Lucas – Flamíneo Fávero. E Verônica – Anamaria Dias – não resta nenhuma dúvida de que esse foi realmente um momento especial na nossa teledramaturgia.

Fiel a seu elenco, foi em grande parte graças ao talento de Geraldo Vietri que muitos atores e atrizes se destacaram na telinha. E eles são muitos: Sérgio Cardoso, Juca de Oliveira, Aracy Balabanian, Dina Lisboa, Laura Cardoso, Geórgia Gomide, Arlete Montenegro, Márcia Maria, Jonas Mello, Etty Fraser, Chico de Assis, Tony Ramos, Paulo Figueiredo, Anamaria Dias, Marcos Plonka, Flamínio Fávero.

Em sua carreira cinematográfica, também foi fiel ao seu elenco da televisão. Daí reservou protagonistas ou personagens destacados para atores e atrizes como Adriano Reys e Elaine Cristina, e grande parte de nomes aqui já elencados.

Infelizmente, boa parte da sua obra no cinema está indisponível há tempos, e cada vez que o Canal Brasil resgata um título dá quase vontade de acender uma vela em agradecimento. Cinco desses filmes, que foram lançados em VHS ou que estão sendo exibidos no Canal Brasil, fazem parte desse dossiê de resgate e homenagem a Geraldo Vietri: Senhora (1976); Tiradentes – O Mártir da Independência (1977); Adultério Por Amor (1978); Os Imorais (1979); e Sexo, Sua Única Arma (1979).

Rezamos de pés juntos para que seus outros oitos títulos sejam resgatados, para que sua obra na telona seja conhecida em sua totalidade. Pois se no cinema, Geraldo Vietri tivesse realizado apenas Os Imorais, seu nome já estaria garantido em caixa alta na história do cinema brasileiro. Poucas vezes, naqueles anos 1970, a temática homossexual recebeu tratamento tão interessante e respeitoso como nesse filme. E vamos combinar que para a época, e mesmo para os dias de hoje, não é pouco.

Geraldo Vietri nasceu em São Paulo, em 1930. É um dos mais importantes autores de telenovelas, sendo responsável por boa parte de popularidade que o gênero alcançou no país.

Começou a carreira no cinema, escrevendo e dirigindo Custa Pouco a Felicidade, em 1952. Para as telas esteve à frente de 13 títulos, mas foi na televisão que alcançou sucesso extraordinário e se tornou sinônimo de novelas com forte acento de gente como a gente, retratando o cotidiano como poucos, e um dos destaques da TV Tupi.

Geraldo Vietri faleceu em 1º de agosto de 1996.

Salve PARA SEMPRE Geraldo Vietri!

Estrelas de Vietri – Márcia Maria

Dossiê Geraldo Vietri

Entrevista:  Márcia Maria

Por Adilson Marcelino

Nesta entrevista à Zingu!, Márcia Maria já vai logo dizendo sobre Geraldo Vietri: “foi o homem da minha vida”. Realmente, Vietri reservou para a estrela pelo menos duas grandes protagonistas de suas novelas que fizeram muito sucesso na TV Tupi: Meu Rico Português e João Brasileiro, o Bom Baiano. Em ambas, fez par romântico com Jonas Mello. Nos dicionários de cinema consta também que a atriz atuou em um dos filmes que ele dirigiu, Que Estranha Forma de Amar, mas ela não se lembra. Márcia Maria fez questão de registrar sua indignação pelo descaso e esquecimento da memória de Geraldo Vietri pelas emissoras. Tudo isso aqui, nesta entrevista exclusiva para a Zingu!

Zingu!: O Vietri foi muito importante para sua carreira, não é?

Márcia Maria: Ele foi o homem da minha vida! Porque sei lá, ele me curtiu muito. Ele foi o diretor da minha vida

Z: Como era trabalhar com o Vietri? Porque uma característica forte é que ele cuidava de tudo, escrevia, dirigia…

MM: Ele fazia tudo.

Z: E como era o dia-a-dia no trabalho?

MM: Olha, as outras pessoas achavam que ele era irritante, que ele era nervoso. Ele xingava mesmo, falava o que tinha vontade, não respeitava ator, não queria nem saber. Tudo para fazer aquele trabalho bonito. Agora, ele não me xingava. Uma vez o Fulvio Stefanini disse assim “ah Vietri, você briga com todo mundo, xinga todo mundo, mas com a Márcia Maria não”. E ele disse “E eu sou louco! De repente ela se manda, porque essa mulher, sabe-se lá” rsrs.

Então ele era assim. Eu fiquei doente uma vez e toda noite, após a gravação, ele vinha ao meu apartamento atormentar minha cozinheira “Margarida, quero ver o macarrão que a senhora fez para ela” rsrs. Daí ela dizia “hoje ela não quis macarrão não”, e ele “ela não tem que querer, só macarrão para curar essa moçar” rsrs.

O Vietri era muito inteligente, ele fazia coisas maravilhosas . Foi uma pena a Tupi não ter feito um grande prêmio com o nome de Geraldo Vietri, porque as novelas dele, se passarem hoje, todo mundo assiste. Que coisa né?

Z: Levando-se em conta que há tanta falta de bons autores hoje…

MM: Tão carente… Tem o Lauro Cezar Muniz… Mas também não é todo que mundo que aguenta escrever vinte horas por dia o tempo todo, né? Tem bons escritores, mas poucos.

Agora, o Vietri faz uma falta louca, louca, louca. E ele tinha um estilo, sabe? Ele me fazia trabalhar no dia de natal, passando mal, eu trabalhava e pronto. Rsrs

Ele era um amor de pessoa, era engraçado, era cômico. Quando ele queria atormentar alguém, ele fazia através da comicidade. Ele era o máximo.

Foi um absurdo a Tupi não ter feito, ou mesmo a Globo não ter feito uma homenagem imensa ao Geraldo Vietri.

Z: Ele gostava de juntar você e o Jonas Mello como par romântico nas novelas dele, não é?

MM: Sim, ele gostava do Jonas, ele gostava de mim. Quando eu cheguei na Tupi, eu tinha vindo da Record, eu acho, e aí achava que eu ia comer o pão que o diabo amassou. Quando ele mandou me escalar, no primeiro dia da reunião da novela dele, eu fiquei bem muda, rezando, porque eu pensei “esse homem vai acabar comigo” rsrs.

Aí ele disse “vamos começar pela primeira cena porque eu quero ver como você se comporta”. A gente decorava na hora, né? Là pelas sete horas da noite a gente começou a gravar. Eu fiquei pensando como faria aquela personagem. Ele ficava lá falando, falando, falando, e eu fiquei pensando. Daí resolvi fazê-la bem triste, muito humilhada. Fiz a cena chorando, mas sem dramaticidade, só com as lágrimas rolando, um tanto fria. Porque a personagem estava humilhada, tinha sido tirada da família dela, da mãe, dos irmãos. Eu achei que ninguém estava prestando a mínima atenção, mas ele estava. Daí ele mandou rasgar o resto das minhas cenas, porque ele ia escrever diretamente para mim. Ele escreveu para mim. Só depois de dois meses é que eu fui me tocar que ele escrevia para mim.

Z: A gente percebia isso porque você foi estrela das novelas dele.

MM. Sim. Uma vez foi muito engraçado, era a cena final da novela e ela terminava com um grande beijo entre mim e o Jonas Melo. Ele me beijava e eu dava um tapa na cara dele. O povo era muito gozador, então ficou o elenco inteiro no estúdio assistindo. Eu fiquei tão nervosa que assim que o Jonas me beijou eu dei três tapas na cara dele. Dei o primeiro, dei o segundo e dei o terceiro.

Aí eu disse “Ai Jonas, me desculpe, eu estava com medo de errar”. E aí ele respondeu “Só vou te dizer uma coisa, eu tenho um pivô aqui, e se você fazer esse pivô cair, o pau come” rsrs. E o Vietri lá “vamos fazer de novo…” Porque ele adorava isso. Aí dessa vez eu bati de levinho. E o Vietri “bateu levinho demais… o povo não acredita” rsrs. Quando acabou eu estava aos prantos de nervosa.

Z: E no cinema, como era?

MM: No cinema? Não me lembro não.

Z: Mas você não fez o Que Estranha Forma de Amar? Eu não conheço o filme, mas consta seu nome na ficha técnica.

MM: Não me lembro não. Olha, mas eu fiz tanta coisa. E que engraçado, eu não gostava de fazer cinema.

Z: Mesmo? Mas você fez filmes que eu gosto muito. Fez As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) e As Amantes de Um Homem Proibido (1982), ambos do José Miziara. Fez o Cio – Uma Verdadeira História de Amor (1971), do Fauzi Mansur.

MM: Sim, me lembro. Mas é porque eu trabalhava muito e minha vida particular estava muito confusa na época, porque durante esse tempo morreu toda a minha família e eu fiquei meio confusa.

Z: Muito obrigado pela entrevista.

MM: Por nada. Só preciso dizer mais uma vez que eu acho um absurdo as TVs não fazerem uma grande homenagem ao Vietri.

Estrelas de Vietri – Elisabeth Hartmann

Dossiê Geraldo Vietri

Entrevista: Elisabeth Hartmann

Por Adilson Marcelino

 

Elisabeth Hartman era presença certa nas produções de Geraldo Vietri. E isso valia tanto para a TV com também para o cinema. Na telinha, fez sensação em Meu Rico Português como uma alemã que adota um garoto negro e enfrenta o preconceito dos vizinhos. Já no cinema, atuou em alguns filmes, dentre eles Os Imorais, um dos mais belos filmes dos anos 1970, além de surpreendente visão sobre a homossexualidade. Nesta entrevista exclusiva à Zingu!, ela fala sobre o encontro com o mestre, seus ataques de ciúme, o temperamento forte e os gestos de solidariedade, e também a amargura no final da vida.

Zingu!: Como você conheceu o Geraldo Vietri?

Elisabeth Hartmann: Então, eu conheci o Geraldo Vietri em 1964, quando eu fazia teatro no Teatro Popular do Sesi. Eu fui à TV Tupi para me colocar à disposição, mas eu falei com o Cassiano Gabus Mendes primeiro, e eu fui convidada realmente para fazer uma novela. Foi uma novela que o Geraldo Vietri dirigia que chamava A Outra (1965), que era escrita pelo George Walter Durst. Foi um relacionamento assim simpático. Era um papel muito pequeno, mas ele era uma pessoa muito generosa, então mesmo quando eu não estava no capitulo, ele me fazia entrar nem que fosse para abrir uma porta, fechar uma porta, nessa base. E houve assim uma aproximação simpática, eu diria.

Depois o tempo passou, eu não fiz mais nada lá na Tupi, estava fazendo outras coisas, teatro, cinema. Aí eu me encontrei com o Cassiano e falei do meu desejo de fazer televisão também. O Cassiano me disse: vamos conversar com o Geraldo Vietri, porque ele vai escrever uma novela. Aí eu acho que já era 1968, 69, por aí. O Cassiano falou com o Geraldo e depois mandou que eu falasse com ele.

Ele foi extremamente simpático, porque quando me viu, eu fiquei um pouco constrangida. Chamava ele de senhor, dizia “gostaria de fazer uma novela do senhor”. E ele disse: “Eu gosto muito de você como pessoa e como atriz”. Eu me senti comovida, e, ao mesmo tempo, mais segura. Ele me pediu que voltasse daí a um mês, pois ia esvrever uma novela nova. Depois de um mês eu voltei e eu estava escalada. Foi para a novela Nino O Italianinho (1969/70), uma novela que a gente fez durante 14 meses. Ou seja, um ano e dois meses, que é um período bastante longo, de convivência praticamente diária. Porque naquela época a gente não gravava por cenário, a gente gravava o capitulo inteiro, de cabo a rabo. E o relacionamento foi logo simpático.

O Vietri era uma pessoa de temperamento que eu não diria nem difícil, mas também nem fácil. Porque de vez em quando ele se exaltava muito com alguma coisa errada, ou mesmo com algum ator que ele achava que não tinha correspondido à expectativa dele, ou tinha feito alguma indisciplina. Mas eu nunca tive problema com ele, a gente sempre se relacionou muito bem, ele sempre me respeitou, nunca brigou comigo. Ele nunca gritou comigo, o que foi muito bom, porque eu sou tipo de pessoa que não diria malcriada, não vou dizer que eu não sou uma pessoa malcriada, porque eu também sou. Mas se alguém grita comigo parece que dá um bloqueio na minha cabeça e eu não consigo raciocinar mais. Parece que ele percebeu isso, logo de cara, então ele nunca gritou comigo. E quando ele se exaltava com alguém e eu estava por perto, eu sentia que ele ficava constrangido por eu ter presenciado um desses ataques dele. Depois ele vinha conversar comigo e eu chamava atenção dele. Era muito engraçado o nosso relacionamento.

Aí o Nino, O Italianinho foi essa novela a longo prazo, e dali para diante eu fiz várias novelas dele. E o processo começou a ser o seguinte: quando ele gostava de um ator ou atriz, quando ele começava a escrever uma nova novela, ele já escrevia direcionado para aquele ator e atriz. E assim foi comigo, eu fiz várias novelas dele. Meu Rico Português, que foi uma novela de muito sucesso na época, em que eu fazia o papel de uma alemã. Ele fez isso porque eu falava muito da minha mãe, que era uma senhora alemã que veio ao Brasil para se casar. Então ele desenvolveu esse trabalho

O Vietri era uma pessoa assim. Muito talentoso, muito intuitivo. E extremamente atento ao cotidiano. Então quando acontecia alguma coisa, ele trazia isso para a novela. Se bem que naquele época era um pouco mais difícil, porque a censura era mais austera. Mas o que ele podia trazer para a novela ele trazia, então a novela ficava sempre uma coisa atual, porque as coisas aconteciam e eram retratadas ali. Personagens que ele colhia na vizinhança, seus relacionamentos, as coisas eram muito verdadeiras.

Z: o que era uma marca dele…

EH: A isso se atribui o sucesso das novelas deles. Eu fiz também uma novela chamada A Fábrica, que foi interessante. O Bom Baiano (João Brasileiro, O Bom Baiano – 1978), que foi bem legal, se passava numa pensão. Depois ele dirigiu uma série de teatros na tupi e eu participei desses teatros lá na Tupi. Era uma peça inteira que era apresentada sábados à noite. A gente gravava durante a semana e passava aos sábados. Foi uma coisa a curto prazo.

Z: E o cinema?

EH: Ele fazia cinema também, eu fiz vários filmes com o Geraldo Vietri. Mas eu devo dizer que ele não foi muito bem sucedido no cinema. Ou então, digamos assim, a obra cinematográfica dele não foi muito bem acolhida, não foi muito bem recebida. Embora eu, particularmente, achava que alguns filmes eram até muito bons. Senhora era um bom filme, Os Imorais era um bom filme. Os Herdeiros Diabólicos também foi um filme interessante.

Mas acima de tudo, o que eu quero dizer, não só a respeito da obra do Geraldo Vietri, mas sobre ele como pessoa., é que ele era uma pessoa tão especial, e diferente mesmo. Apesar dele ter, de vez em quando ,esses ataques de raiva, ele depois se arrependia, mandava flores, mandava bombons para as pessoas.

O Vietri era uma pessoa extremamente generosa. Quando ele via uma pessoa em dificuldade, ele fazia questão de ajudar. Às vezes anonimamente,outras vezes não. Eu acho até que ele foi muito explorado nesse sentido. E sendo um homem inteligente, eu não sei até que ponto ele percebia que estava sendo explorado, e permitia isso. Porque achava que a pessoa tinha a necessidade de ser socorrida naquele momento, ou então, às vezes, era uma falsa necessidade. Mas ele estava lá, era generoso, adorava presentear os atores. Era uma pessoa muito especial

A vida do Geraldo Vietri era aquela TV Tupi, era impressionante. Para ele, aquilo era a casa dele. Apesar do grande respeito e amor que ele tinha pela mãe, pela irmã, pela família, a motivação maior da vida dele era a TV Tupi. E ai daquele que falasse alguma coisa a respeito da emissora que ele não gostasse. Ele ficava enfurecido mesmo. Ele passava a vida dele lá dentro, porque ele não só escrevia, como também dirigia e editava. Ele passava horas lá dentro, ele tinha a sala dele lá. Então acontecia aquelas coisas. Quando a novela começava tinha 20 capítulos escritos, mas daí, depois, pelo excesso de trabalho dele, os capítulos iam se esgotando. Então várias vezes eu recebia telefonema na minha casa, tipo 10, 11 horas da noite, com ele dizendo que alguém ia passar na minha casa para me levar o capitulo do outro dia. Então eu ficava esperando até 1, 3 da manhã, esperando a parte do capitulo chegar, que era em geral imenso. E ficava decorando, né? Ele chegou a fazer capítulo assim, da gente chegar na emissora e não ter capitulo nenhum. Daí ele improvisar o capitulo inteiro.

Então não era fácil para a gente, mas era uma escola. Quer dizer, quem não aprendeu fazer televisão com o Geraldo Vietri, não ia aprender a fazer nunca mais. Porque eram momentos muito especiais.

Z: E com o fechamento da Tupi?

EH: Quando a Tupi começou a entrar em falência, ele foi trabalhar na TV Globo. Recebeu um convite para fazer Olhai os Lírios do Campo (1980), uma adaptação do livro do Érico Verissimo. Foi ele que me levou para o Globo, porque na época eu tinha uma certa resistência, estava fazendo muito cinema e não estava muito interessada em ir para a televisão naquele momento. Só que ele insistiu tanto que eu fui.

Era uma novela muito bonita, muito interessante. Mas, infelizmente, ele se desentendeu com o Herval Rossano. Porque o Herval tinha o sistema dele de dirigir, que era da cena 1, passava para a cena 15, e depois para a 22. O Vietri não admitia isso, então ele ficou muito incomodado. E tinha o fato de algumas cenas serem cortadas. Aí então os dois se desentenderam, e a novela que fazia sucesso e deveria ser esticada, foi abreviada por causa desses desentendimentos.

Depois disso eu tenho a impressão que ele escreveu alguma coisa para a TV Bandeirantes, mas que também acabou não dando muito certo. Eu não sei, mas aí a gente acabou se perdendo um pouco de vista, porque eu fiquei algum tempo no Rio de Janeiro e ele nem gostou muito disso. Quando terminou Os Lírios do Campo, eu fui convidada para fazer outra novela, e nesse tempo o Vietri era muito ciumento, extremamente ciumento. Ele queria que aquele elenco fosse só dele, e que aqueles amigos fosse amigos só dele. Mas era difícil porque a vida não é assim, né? Então houve um período que a gente ficou um pouco distante. Teve também umas conversas no meio disso, foi um pouco desagradável. Mas depois a gente se reencontrou.

Ah sim, fiz também Floradas na Serra (1981), na TV Cultura, que foi uma adaptação dele. Já tinha sido feito o filme, mas é um romance e ele fez essa adaptação para uma minissérie. A gente gravou lá em Campos do Jordão e foi um trabalho muito bonito, a TV Cultura, inclusive, reprisou pouco tempo atrás.

Então eu acho assim. O Geraldo Vietri era uma pessoa de imenso talento, ele foi uma escola para a televisão. Eu tenho a impressão que tem alguns autores que ainda hoje se baseiam um pouco no que ele fazia. O próprio Silvio de Abreu confessou isso uma vez, dizendo que o Geraldo Vietri foi pra ele uma grande escola.

Eu acho que no final de tudo houve um certo descaso com a figura dele, e ele ficou muito magoado. Porque das últimas vezes em que nos estivemos juntos, ele já estava bastante doente. Eeu fiquei muito penalizada de ver um homem assim, diria que massacrado pela vida. Amargurado, triste, solitário. Porque, infelizmente, nessa profissão também é assim, se você está fazendo sucesso você tem muitos amigos, mas no momento em que você não está fazendo esse sucesso, onde estão esses amigos?

Então o Geraldo Vietri foi essa pessoa assim

Eu tenho muita saudade dele, porque ele também tinha um lado muito engraçado. Ele tinha um humor assim curioso, meio sarcástico. Ele também debochava da gente, mas com muita graça, nada ofensivo.

Além de eu ter feito tantos trabalhos com ele, nós ficamos muito amigos. A gente saia para jantar, a gente dava muita risada. Às vezes ele me chamava atenção como pessoa, numa boa, né? Foi um relacionamento muito intenso na minha vida, como atriz e como pessoa.

Esse foi o Geraldo Vietri. Que eu acho que é uma pessoa, um autor, que hoje em dia é esquecido. Às vezes eu vejo entrevista de algumas pessoas na televisão que tiveram seu estrelato criado pelo próprio Vietri, e que nem fazem referência a isso. Então eu acho isso um pouco triste, mas, de um certo modo, faz parte da vida.

É isso que teu tenho pra falar do Geraldo Veitri. Essa saudade, esse respeito pelo obra dele. Grande figura. Eu acho que a televisão ainda deve muito a ele. Se não uma lembrança, uma homenagem muito respeitosa. É isso.