Sexo dos Anormais

Dossiê Alfredo Sterheim


O Sexo do Anormais
Direçao: Alfredo Sternheim
Brasil, 1984

Por Edu Jancz

Fui um daqueles felizardos que assistiram a Sexo dos Anormais em tela grande. No cinema, com a força e a magia do cinema refletindo o pensamento do seu realizador, Alfredo Sternheim.

Revi, com prazer, o magnífico o corpo de Sandra Midori , para “modelar” esse breve comentário. Sandra, um misto de oriental com ocidental, que sempre me encantou. E de quem sempre fui – confesso – “macaco de auditório”.

Em Sexo dos Anormais, Sandra faz o papel de uma mulher liberal e de muito bem com a vida. Sem culpa. Feliz ou em busca da felicidade temperada com prazer e mais prazer. Ao mesmo tempo em que é desejada, ela deseja e se envolve com todos os parceiros que naquele momento a vida lhe oferece. Ver Sandra Midori responder com seu corpo magnífico (incluindo aqui, sem dúvida, aquela língua incandescente) a beijos carinhosos e penetrações vigorosas é um prazer impar.

O personagem de Sandra é um dos três pilares que sustenta essa narrativa sobre sexo que o diretor batizou de Sexo dos Anormais. Mas que em verdade, na postura do seu realizador, é um sexo normal, gostoso, com espaço para a diversidade – o personagem de Cláudia Wonder – para o excesso – ou doença – ou semvergonhice – ou apenas porque não ir ao limite até se descobrir – personagem de Silvia Dumont.

Claudia Wonder. Se participasse de algum dos BBBs da vida, em pleno século XXI, seria uma grande atração, um mistério do tipo “como alguém pode viver em paz tendo um “funcional”, seios poderosos e gostar de… Em Sexo dos Anormais isso não acontece. E olhem que o filme é de 1984. Faz um tempinho. Um bom tempinho que o diretor Alfredo Sternheim e o seu cinema defendiam liberdade, igualdade e fraternidade para todos. Simples, não?

É um dos poucos filmes da Boca, de sexo explícito, aonde você vê, sem censura, cortes bruscos ou “chacotas”, dois homens fazendo sexo com total liberdade – momento em que o personagem de Claudia fala do seu maior amor de juventude. A cena é mostrada com muita naturalidade. Vemos, ao mesmo tempo – num rito de igualdade – um homem tendo e dando prazer ao seu parceiro.

Ninfomaníaca. É a classificação, aparentemente científica, para a “fome de sexo” que a personagem vivida por Silvia Dumont sente. É o terceiro elo do nosso tripé. Em terapia – Silvia fala de suas transas. E o filme as mostra com detalhes. Sem falso moralismo. De parceiro a parceiro, de gozo em gozo… mas, ela não está satisfeita. E deseja mais e mais sexo na tentativa de se aceitar e ser feliz. É auxiliada pelo terapeuta Daniel, mesmo ele lutando contra o preconceito de sua esposa – que grotescamente (e com ciúmes) não quer que ele trate de uma paciente ninfomaníaca.

Quem conhece os filmes de Alfredo Sternheim, sabe que ele seria incapaz de condenar um personagem hétero ou homo apenas pelo seu desejo de viver intensamente e ser feliz. Como realizador, Alfredo mostra o enunciado, reflete a opinião legal e social sobre o tema e registra a sua postura. Em Sexo dos Anormais, esse olhar – essa opinião – mais uma vez está presente. Aqui reforçada pela idéia de que uma das porta de saída para intermináveis crises pode ser o bom e velho amor.

Tensão e Desejo

Dossiê Alfredo Sternheim

Tensão e Desejo
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1983

Por Vlademir Lazo

Quem Matou Leda?

A cena de abertura, pré-créditos, sintetiza a relação fracassada de Julia (Sandra Graffi), a personagem central de Tensão e Desejo, com seu namorado engenheiro, o romance cujo fim é selado com uma briga e o rompimento aparentemente definitivo. É uma introdução muito rápida, parte da economia narrativa de Alfredo Sternheim como cineasta, ele se retirando pela porta do apartamento e o choro da personagem feminina, uma forma escolhida pelo diretor para nos jogar no mundo de Julia, a qual passaremos a acompanhar dali em diante. Flashbacks mais adiante explicitarão o passado amoroso da personagem.

Tentando esquecer a relação interrompida, Julia se muda para uma cidade do litoral paulista, seguindo a clássica situação de uma personagem chegar a um meio isolado, calmo e distante e afetar a rotina de todos. Jovem professora, é o centro das atenções de um jornalista agitador por quem se apaixona, da loucura de um político casado e infeliz e dos desejos de Celina, a diretora da escola. O elenco, além de Sandra Graffi, conta ainda com Luiz Carlos Braga, Zilda Mayo e Meire Vieira ─ esta em uma de suas últimas participações no cinema, no papel de Leda, a esposa morta do político local.

Tensão e Desejo recebeu a classificação de fita policial, por conta de um assassinato no decorrer de sua trama e em torno do qual se desenvolve ao Julia ser acusada pelo crime e tendo que provar sua inocência. Entretanto, o filme carece de elementos típicos para ser tido como um filme do gênero (algo que outro diretor da Boca, Jean Garret, soube trabalhar bem melhor). Sternheim parece mais interessado em desenvolver as relações entre os personagens do que em propriamente contar uma historinha policial, evocando em cores o universo amoral dos film noir (com a devassidão por trás do moralismo, o que parece ser uma das obsessões mais recorrentes na obra do cineasta), o que talvez corresponda a uma intensa cinefilia do seu realizador (conhecedor profundo do cinema americano clássico, especialmente por seu trabalho como crítico).

Seu filme pode ser tido como algo próximo de um thriller erótico (subgênero inaugurado na mesma época pelo hollywoodiano Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan), com os recursos mais pobres e modestos da Boca do Lixo, já em franca decaída no ano de sua realização (1982) pela concorrência com os filmes pornôs que invadiam as telas de cinema e tomavam de assalto as locadoras com a proliferação do videocassete no Brasil. Tensão e Desejo, nesse sentido, é um filme de resistência (que se manteria mesmo nos filmes seguintes do diretor, os de sexo explícito), porque oferece o erotismo desejado pelo público aproveitando uma demanda do mercado, porém insiste nos desvios e digressões de Sternheim, desejoso sobretudo de fazer cinema, ainda que com resultados desiguais e acertos e erros dentro do mesmo filme. Há alguns diálogos fracos, uma ou outra explicação psicanalítica na boca de personagens, excessos de músicas clássicas que por vezes soam deslocadas, mas também imagens trabalhadas com grande cuidado (como a do sonho erótico no campo, de notável beleza plástica, no que ajuda a fotografia do ex-assistente de câmera Luiz Antônio Oliveira) e um clima mórbido que auxilia na construção do filme.

Filmado na cidade praiana de Mongaguá (onde o filme anterior do cineasta, Brisas do Amor, também foi rodado), Tensão e Desejo é também um presente de Sternheim para a sua atriz principal, Sandra Graffi, uma das musas mais tardias da Boca do Lixo, mas que apareceu em tempo de marcar o imaginário dos fãs do cinema paulista da época. Sua presença, em um papel principal (e não coadjuvante ou apenas de interesse amoroso dos personagens masculinos como em outros filmes nos quais apareceu), corresponde à altura a escalação, com sua compleição angelical e safada, inocente e sedutora, e de cabelos louros, que ilumina o filme, que enriquece o seu interesse. Ela é o centro de todo Tensão e Desejo.

Variações do Sexo Explícito

Dossiê Alfredo Sternheim

Variações do Sexo Explícito
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1984

Por William Alves

Mesmo com a tremendamente improvável possibilidade de alguém começar a assistir Variações do Sexo Explícito sem saber muito bem do que se trata, a genitália masculina que pinta na tela com menos de dois minutos de filme – devidamente degustada por uma boca lasciva que entende bastante do riscado – já é suficiente para dissipar qualquer incerteza. Para os iniciados, o nome do produtor Juan Bajon, que surge nos créditos poucos segundos depois, trata de limar qualquer dúvida que por ventura tenha existido: é putaria, e daquelas bem caprichadas.

Variações do Sexo Explícito é de 1984, período em que variados cineastas da Boca do Lixo tiveram que ceder ao apelo do cinema pornô para continuar filmando. Alfredo Sternheim, que fora assistente de Walter Hugo Khouri e por ele bastante influenciado cinematograficamente, havia dirigido, entre outros, Paixão na Praia e Lucíola, o Anjo Pecador. Embora contenham uma boa dose de luxúria, ambos são quase peças infantis ao lado do despudorado longa-metragem de 1984. A julgar pelo pôster do filme e pelo conteúdo da fita, essa adaptação não foi problema algum para Sternheim.

Eis aqui um “pornô com história”, subgênero (digamos assim) tão odiado pelos pervertidos de plantão. De fato, o pretexto para que todos os personagens se comam é uma aventura metalingüística, em que uma equipe de filmagem se refugia em uma fazenda remota para finalizar mais um das empreitadas do produtor e diretor Linhares, esse um ás das orgias filmadas. Entre a trupe, constam Lili, a pornstar, um tanto lerda, que é expulsa de casa após ser estuprada. Otto Fasbunder (!), astro arrogante, e Liana Navarro, a erudita parceira de Linhares na confecção dos longas. A estrela (concedam-me mais uma licença poética, por favor) é Celeste Vieira, mulher ninfomaníaca que sente falta do marido, Nelson, e começa a repensar sobre os avanços de um jovem ator, Jorge, que, aparentemente, sabe mais sobre Celeste do que ela mesma.

São 80 minutos de copulação em todas as suas formas, permeados pelo clima de bom humor das produções do período. Tem a bichinha que se horroriza (e se entrega) na hora em que é obrigado a fazer sexo oral em uma atriz, as traquinagens de Fassbunder, que insiste em ejacular dentro das moças (“imagina um filho nosso, que bonito seria”) e a solidão tragicômica de Liana, uma lésbica em busca de um novo amor, após ser devidamente corneada em sua própria residência. E dá-lhe boquetes e fluidos corporais, focados em close durante todo o filme. Ah, um cachorro também marca presença.

Como os personagens passam quase todo o filme trepando, a trilha sonora ocupa a maior parte da sonoplastia. Portanto, não vão faltar momentos onde as mulheres recebem uma bem servida quantidade de sêmen no rosto ao som de O Lago dos Cines.

Para quem é fã de cinema pornô e de mulheres brasileiras oitentistas, de pequenos seios, largos quadris e safadeza ímpar – e de Tchaikovsky, por que não? -, o banquete é garantido.

Violência na Carne – Texto 1

Dossiê Alfredo Sternheim

Violência na Carne
Direção: Alfredo Sterheim
Brasil, 1980

Por Andrea Ormond

Tateando o início da decadência cinematográfica na Boca do Lixo, Violência na Carne (1980), de Alfredo Sternheim, traz uma razão de ser parecida com a de outros filmes lançados na mesma onda. Grunhidos, pêlos, cenas quase ginecológicas, um tico de nada para o achado irreversível do explícito.

Entressafra dos 1980, achava-se que aquele seria um entreato, coisa breve. O sexo faturaria uns cobres, garantiria o acesso a obras “autorais”, livres na forma e no conteúdo. A pressão dos produtores era uma constante, fato inegável, mas em nada se comparou ao que surgiu em seguida, no apogeu de zoófilos, anões e outras traquitanas.

Sternheim havia dirigido recentemente A Herança dos Devassos (1979). Loucuras no financiamento – binacional, Brasil-Argentina –, alucinações da vedete borderline, Sandra Bréa. Em Corpo Devasso (1980) – acreditem, o adjetivo “devasso” era campeão – aborda a homossexualidade masculina: tabu em que a Dacar, de David Cardoso, ousou mexer e provincianamente esquecer. O galã geralmente o omite no rol das nonchalances corajosas do passado.

Com essas duas fitas vizinhas na biografia, Sternheim chega ao Violência na Carne. Guerrilheiro cândido (Tércio), cáften (Paulão) e assaltante (Jorge) fogem de penitenciária desconhecida. Armas em punho, isolam um grupo de artistas em um bangalô, na beira da praia. Tudo deve durar até o dia seguinte, porque Tércio declama no look condoreiro: “É que amanhã, 500 metros daqui, um barco estará nos levando para outro país. Para a liberdade total. Adeus, prisões. Adeus, medo. Adeus, sonhos. Adeus… pátria amada.”

Entre as prisioneiras, Letícia Simmons (Helena Ramos). Oportunidade rara de se conferir Helena Ramos com a voz que Deus lhe deu – via de regra, sofria na dublagem.

A começar pelo nome, Letícia Simmons tem fôlego de starlet americana do time de Darryl Zanuck. Atriz, “não sabe quando atua ou quando fala a sério”, vive em depressão. Uma Gene Tierney que poderia nadar até o meio do lago em Amar Foi Minha Ruína, mas prefere as encucações de Malu Mulher, debatendo sobre o amor. Sabem como é, o amor. O verdadeiro amor. Tudo é consumismo e “o que que é estou fazendo na rua com essas pessoas”, poderia assobiar, imitando a canção de Evinha.

Letícia recebe um alento de Tércio. Apaixonam-se. Ali mesmo no cativeiro, psicologismo que o roteiro mal consegue descrever, mas que acontece. Libertação. Libertação para ambos, cansados do mundo hipócrita, sem perspectivas. E a toda hora, dá-lhe Letícia falando sobre o amor.

O assassinato de Tércio por Letícia, o suicídio de Letícia: por um verdadeiro amor, para fugirem do sofrimento, para alcançarem a paz. Estratégia que teria outra dimensão e acerto se houvesse credibilidade no namoro dos dois. Algo que evanesce e não atinge o alvo. Semelhante a assistirmos a um presidiário com marca de sol (Jorge), revelada no skinny dipping pelas redondezas.

Sternheim demonstra cuidados ocasionais na composição, como no pequeno prólogo. Paulo, Jorge e Tércio queimam um carro encharcado de gasolina. As chamas, a fumaça subindo para o céu, promessa de uma escuridão anterior, fatalismo para o que vai ser contado.

Violência na Carne amarra, inseguro, um enredo que aponta para a tal violência e para a tal da carne, sem resultados convincentes do cinema de um e de outro gênero. A violência carece da montagem – fria, de Jair Garcia Duarte, parceiro de Juan Bajon –; carece da engenharia dos planos – convencionais, previsíveis.

A carne segue o mesmo princípio. Estupros que dão bocejos no público acostumado aos exploitations hardcore que começavam a estalar nos poeiras. Os arroubos podem ter provocado algum calor, mas a curiosidade permanece no quesito – este sim interessante, de novo – da intimidade dos casais gay e lésbico. Tratada com a naturalidade necessária, soma uns pontos no polaróide em que todo filme acaba se transformando, no cair do tempo.

Carinhos, ciúmes, postura protetora de uma com outra – Sandra e Ana. Dançarino (Fábio) orgulhoso da carreira do protetor (Renato, Luiz Carlos Braga). Mimos afins, nuances de cotidiano e que na hora de o bicho pegar fogo não somem, continuam. Seria cômodo para o diretor colocar apenas as meninas sendo atormentadas pelos agressores. Encaixa, porém, a curra em Fábio, a pegação de Sandra e Ana ordenada por Paulo, o voyeurismo que sai às claras, varrido do tapete.

O problema é que a deixa para entrar no desfiladeiro é jogada fora por um excesso de didatismo – “estes sustos, estes pesadelos, ocorrem devido a um sentimento de culpa. Intimamente você ainda não aceitou a nossa relação.” Piora muito, mas muito mesmo, na atuação precária dos atores, resguardada sempre a figura de Luiz Carlos Braga – por sinal, apaixonado por David Cardoso em As Seis Mulheres de Adão.

Ao invés do escracho que reina em Adão ou de uma ofensiva corporal bombástica e teorizável, Violência na Carne tenta se levar na dureza, filosofando como a estudante de sociologia da USP. E o que seria crível ou encantamento, ganha um contorno metódico, cambaleante, impedindo a fluência que poderia tê-lo salvado.

Violência na Carne – Texto 2

Dossiê Alfredo Sternheim

Violência na Carne
Brasil, 1981
Direção: Alfredo Sternheim

Por Marcelo Carrard

Um dos subgêneros mais populares do Cinema Exploitation é o dos Last House Movies, que até já cheguei a comentar aqui na Zingu! na Coluna: Subgêneros Obscuros. Resumindo, esses filmes sempre narram a história de pessoas inocentes que tem a tranqüilidade de seu lar invadida por estranhos, normalmente marginais psicóticos e pervertidos, que aterrorizam suas vítimas em longas sessões de tortura, estupros e afins. Clássicos desse subgênero têm muitos, desde o mais famoso, The Last House on the Left, de Wes Craven, passando pelo italiano As Taras da Sétima Monja, e até pelos brasileiros: Paranóia, de Antônio Calmon, e o explícito Viagem ao Céu da Boca.

Um dos mais populares diretores da Boca do Lixo Paulistana, Alfredo Sternheim criou seu exemplar cinematográfico de um Last House Movie, a produção de 1981: Violência na Carne. Sternheim optou por um roteiro que mescla em doses iguais o drama, com nuances intelectualizadas, mostrando um grupo de atores em um final de semana na praia, com a brutalidade e a sexualidade crua representada na gang de ladrões e assassinos fugitivos que invade a tal casa com os atores. Um detalhe, a figura do líder dos marginais tem um subtexto político acentuado por seu passado subversivo e seu plano de fuga, que se configura no exílio, tendo o mar como ponto de fuga. A conexão entre os vilões e os atores se cria quando surge uma paixão entre o líder subversivo da gang e a sensível personagem de Helena Ramos, que aparece como o grande destaque feminino do elenco.

As cenas de sexo e violência são encenadas de maneira simples, sem grandes maneirismos. A ousadia das cenas de nudez e sexo já antecipam as produções explícitas que Sternheim faria em seguida na Boca do Lixo. Não só as mulheres são as vítimas sexuais da trama, o jovem ator também é alvo do desejo de um dos membros da gang, uma ousadia para a época e para a Boca do Lixo, que sempre teve um tabu com relação às figuras homossexuais, sempre optando pela paródia rasteira em suas representações. Mais uma vez as locações na praia ganham destaque em uma produção da Boca.

Temas “polêmicos” são discutidos no filme, como sexualidade e política. Parece ter havido um desejo de Sternheim em inserir um discurso mais autoral, um texto mais sofisticado, sem esquecer das cenas de nudez e sexo que eram os elementos de maior destaque e interesse do público consumidor desses filmes. A sequência do strip tease, com um achado na trilha sonora, é muito interessante, um desses momentos que o talento de Sternheim se acentua, que podemos observar na longa sequência final. Nudez, sexo e violência gratuitas. O cinema feito na Boca do Lixo tinha um constante flerte com os subgêneros exploitation, e filmes muito interessantes como esse Violência na Carne, um dos melhores exemplos.

Um Cineasta de Talento

Dossiê Alfredo Sternheim

Um cineasta de talento

Por Adilson Marcelino

Alfredo Sternheim começou a carreira cinematográfica aos 19 anos como assistente-continuísta de Walter Hugo Khouri em A Ilha (1961/3) e daí não parou mais. Na mesma época dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem Um Recanto Aprazível, um documentário sobre Bertioga, locação do filme, e a colônia de férias do Sesc naquela cidade do litoral paulista – Khouri destacou Sternheim para o trabalho, que tinha de ser feito para o Sesc como forma de pagamento pela hospedagem e do elenco e da equipe na colônia de férias em Bertioga.

Alfredo Sternheim voltaria a trabalhar novamente com Khouri como assistente de direção, dessa vez no clássico Noite Vazia (1964). Mas depois passaria a trabalhar em seus próprios projetos, mesmo porque logo depois de A Ilha, começou a trabalhar no jornal O Estado de São Paulo como crítico, levado pelo mítico Rubem Biáfora – Sternheim escreveu sua primeira crítica em 1863, sobre Cinco Vezes Favela (1962, Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, e Leon Hirszman), e ficou por lá mais de quatro anos.

Os primeiros filmes de Sternheim como diretor são curtas, sendo todos eles documentários: Um Recanto Aprazível (1963); Noturno (1967); Flávio de Carvalho (1968); A Batalha dos Sete Anos (1968); O Ciclo Vera Cruz (1969); Museus de São Paulo (1970); Isei Nansei Sansei (1970) – depois, em meio aos longas, ainda dirigiu Vestígios de um Passado Esplêndido (1979); João Paulo II no Paraná (1980); A Matosul (1989); além do episódio de um longa inacabado, Aquelas Mulheres.

A estreia em longas foi em 1972 com Paixão na Praia, belo filme produzido pela dupla de ouro da Servicine, Alfredo Palácios e Antonio Pólo Galante, e protagonizado por Norma Bengell, Adriano Reys, Ewerton de Castro e Lola Brah. A personagem de Norma foi escrito para Eva Wilma, atriz que o cineasta conheceu e se tornou amigo em A Ilha, mas acabou nas mãos da grande e temperamental atriz com quem trabalhou em outro filme de Khouri, Noite Vazia. Paixão na Praia é filme corajoso, pois tem entrecho político em plena época brava de ditadura militar.

Mas é com o segundo filme que Sternheim encontraria o sucesso, e também muita dor de cabeça com a censura militar: Anjo Loiro (1973). Protagonizado por Vera Fischer e Mário Benvenuti, o filme é uma adaptação de conto de Henrich Mann – que já originara o clássico O Anjo Azul (1930), de Josef Von Sternberg, com Marlene Dietrich. Anjo Loiro é um dos melhores filmes do cineasta, e que ajudou a sedimentar a carreira da deusa Vera Fischer no cinema e no imaginário popular.

A partir daí, Alfredo Sternheim vai dirigir um longa atrás do outro, com a invejável marca de 26 filmes, sendo um deles um episódio – Gatas no Cio, de Sacanagem (1981), e 13 de sexo explícito. Corajosamente, nessa fase explícita Alfredo Sternheim assinou sem próprio nome, diferente de muitos colegas que adotaram pseudônimo, e por isso enfrentando ataques e descaso de boa parte da crítica. É dessa fase também sua associação com o produtor e cineasta Juan Bajon, que com sua Galápalos Produções Cinematográficas produziu quase todos os filmes de Sternheim nessa fase – como Alfredo, Bajon também não seu escondeu atrás de pseudônimo.

Alfredo Sternheim tem no currículo ainda outros grandes filmes como Pureza Probida (1974), Mulher Desejada (1978), A Herança dos Devassos (1979, co-direção de César Cabral), Violência na Carne (1980), Amor de Perversão (1982), Brisas do Amor (1982), Tensão e Desejo (1983), O Sexo dos Anormais (1984), Sexo Doido (1986) e Corpos Quentes (1987).

Tem também a produção histórica Lucíola, O Anjo Pecador, bancada por Palácios e Galante – representou o Brasil no IV Festival de Teerã -, e a ousada produção da Dacar, de David Cardoso, Corpo Devasso (1980), com um David sem pudor de atuar em cenas de sexo homossexual.

Assim como Walter Hugo Khouri e Carlos Reichenbach, Alfredo Sternheim também reservou ótimos personagens femininos para seus filmes. E como eles escalou verdadeiras deusas da Boca do Lixo. O cineasta fez protagonistas de suas tramas, musas como Vera Fischer, Rossana Ghessa, Kate Hansen, Sandra Bréa, Elisabeth Hartman, Neide Ribeiro, Helena Ramos, Alvamar Taddei, Sandra Graffi, Sandra Midori, Sandra Morelli e Ludmila Batalov.

Mas a galeria de musas não para por aí, pois trabalhou também com Ivete Bonfá, Marlene França, Claudette Joubert, Patricia Scalvi, Meiry Vieira, Sônia Garcia, Nádia Destro, Aldine Muller, Noelle Pine, Tássia Camargo, Lígia de Paula, Maria Stela Splendore, Zilda Mayo, Zélia Diniz, Aryadne de Lima, Gisa Della Mare, Silvia Dumont, Débora Muniz, Márcia Ferro.

No elenco masculino, trabalhou com os dois maiores galãs do cinema dos anos 1970, David Cardoso e Carlo Mossy, além da parceria habitual com o ótimo Luiz Carlos Braga.

Depois da derrocada da Boca do Lixo, Alfredo Sternheim abandonou a carreira de cineasta, mas não abandonou o universo do cinema, atuando como crítico em várias publicações.

Filmografia

Dossiê Alfredo Sternheim

 

 

FILMOGRAFIA

Curtas:

Um Recanto Aprazível, 1963
Noturno, 1967
Flávio de Carvalho, 1968
A Batalha dos Sete Anos, 1968
O Ciclo Vera Cruz, 1969
Alberto Cavalcanti, 1969
Museus de São Paulo, 1970
Isei Nissei Sansei, 1970
Vestígios de um Passado Esplêndido, 1979
João Paulo II no Paraná, 1980
A Matosul, 1989

Episódio de um longa inacabado:

Aquelas Mulheres, 1973

Longas:

Paixão na Praia, 1972
Anjo Loiro, 1973
Pureza Proibida, 1974
Lucíola, O Anjo Pecador, 1975
Mulher Desejada, 1978
A Herança dos Devassos, 1979
Corpo Devasso, 1980
Violência na Carne, 1980
As Prostitutas do Dr. Alberto, 1981
Gatas no Cio – episódio do longa Sacanagem, 1981
Amor de Perversão, 1982
Brisas do Amor, 1982
Tensão e Desejo, 1983
Sexo em Grupo, 1983
Variações do Sexo Explícito, 1984
Sexo dos Anormais, 1984
Sexo Livre, 1985
Borboletas e Garanhões, 1985
Orgia Familiar, 1985
Comando Explícito, 1986
Sexo em Festa, 1986
Sexo Doido, 1986
Fêmeas que Topam Tudo, 1987
Orgasmo Louco, 1987
Corpos Quentes, 1987
Garotas Sacanas, 1988