Violência na Carne – Texto 2

Dossiê Alfredo Sternheim

Violência na Carne
Brasil, 1981
Direção: Alfredo Sternheim

Por Marcelo Carrard

Um dos subgêneros mais populares do Cinema Exploitation é o dos Last House Movies, que até já cheguei a comentar aqui na Zingu! na Coluna: Subgêneros Obscuros. Resumindo, esses filmes sempre narram a história de pessoas inocentes que tem a tranqüilidade de seu lar invadida por estranhos, normalmente marginais psicóticos e pervertidos, que aterrorizam suas vítimas em longas sessões de tortura, estupros e afins. Clássicos desse subgênero têm muitos, desde o mais famoso, The Last House on the Left, de Wes Craven, passando pelo italiano As Taras da Sétima Monja, e até pelos brasileiros: Paranóia, de Antônio Calmon, e o explícito Viagem ao Céu da Boca.

Um dos mais populares diretores da Boca do Lixo Paulistana, Alfredo Sternheim criou seu exemplar cinematográfico de um Last House Movie, a produção de 1981: Violência na Carne. Sternheim optou por um roteiro que mescla em doses iguais o drama, com nuances intelectualizadas, mostrando um grupo de atores em um final de semana na praia, com a brutalidade e a sexualidade crua representada na gang de ladrões e assassinos fugitivos que invade a tal casa com os atores. Um detalhe, a figura do líder dos marginais tem um subtexto político acentuado por seu passado subversivo e seu plano de fuga, que se configura no exílio, tendo o mar como ponto de fuga. A conexão entre os vilões e os atores se cria quando surge uma paixão entre o líder subversivo da gang e a sensível personagem de Helena Ramos, que aparece como o grande destaque feminino do elenco.

As cenas de sexo e violência são encenadas de maneira simples, sem grandes maneirismos. A ousadia das cenas de nudez e sexo já antecipam as produções explícitas que Sternheim faria em seguida na Boca do Lixo. Não só as mulheres são as vítimas sexuais da trama, o jovem ator também é alvo do desejo de um dos membros da gang, uma ousadia para a época e para a Boca do Lixo, que sempre teve um tabu com relação às figuras homossexuais, sempre optando pela paródia rasteira em suas representações. Mais uma vez as locações na praia ganham destaque em uma produção da Boca.

Temas “polêmicos” são discutidos no filme, como sexualidade e política. Parece ter havido um desejo de Sternheim em inserir um discurso mais autoral, um texto mais sofisticado, sem esquecer das cenas de nudez e sexo que eram os elementos de maior destaque e interesse do público consumidor desses filmes. A sequência do strip tease, com um achado na trilha sonora, é muito interessante, um desses momentos que o talento de Sternheim se acentua, que podemos observar na longa sequência final. Nudez, sexo e violência gratuitas. O cinema feito na Boca do Lixo tinha um constante flerte com os subgêneros exploitation, e filmes muito interessantes como esse Violência na Carne, um dos melhores exemplos.

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