Violência na Carne – Texto 1

Dossiê Alfredo Sternheim

Violência na Carne
Direção: Alfredo Sterheim
Brasil, 1980

Por Andrea Ormond

Tateando o início da decadência cinematográfica na Boca do Lixo, Violência na Carne (1980), de Alfredo Sternheim, traz uma razão de ser parecida com a de outros filmes lançados na mesma onda. Grunhidos, pêlos, cenas quase ginecológicas, um tico de nada para o achado irreversível do explícito.

Entressafra dos 1980, achava-se que aquele seria um entreato, coisa breve. O sexo faturaria uns cobres, garantiria o acesso a obras “autorais”, livres na forma e no conteúdo. A pressão dos produtores era uma constante, fato inegável, mas em nada se comparou ao que surgiu em seguida, no apogeu de zoófilos, anões e outras traquitanas.

Sternheim havia dirigido recentemente A Herança dos Devassos (1979). Loucuras no financiamento – binacional, Brasil-Argentina –, alucinações da vedete borderline, Sandra Bréa. Em Corpo Devasso (1980) – acreditem, o adjetivo “devasso” era campeão – aborda a homossexualidade masculina: tabu em que a Dacar, de David Cardoso, ousou mexer e provincianamente esquecer. O galã geralmente o omite no rol das nonchalances corajosas do passado.

Com essas duas fitas vizinhas na biografia, Sternheim chega ao Violência na Carne. Guerrilheiro cândido (Tércio), cáften (Paulão) e assaltante (Jorge) fogem de penitenciária desconhecida. Armas em punho, isolam um grupo de artistas em um bangalô, na beira da praia. Tudo deve durar até o dia seguinte, porque Tércio declama no look condoreiro: “É que amanhã, 500 metros daqui, um barco estará nos levando para outro país. Para a liberdade total. Adeus, prisões. Adeus, medo. Adeus, sonhos. Adeus… pátria amada.”

Entre as prisioneiras, Letícia Simmons (Helena Ramos). Oportunidade rara de se conferir Helena Ramos com a voz que Deus lhe deu – via de regra, sofria na dublagem.

A começar pelo nome, Letícia Simmons tem fôlego de starlet americana do time de Darryl Zanuck. Atriz, “não sabe quando atua ou quando fala a sério”, vive em depressão. Uma Gene Tierney que poderia nadar até o meio do lago em Amar Foi Minha Ruína, mas prefere as encucações de Malu Mulher, debatendo sobre o amor. Sabem como é, o amor. O verdadeiro amor. Tudo é consumismo e “o que que é estou fazendo na rua com essas pessoas”, poderia assobiar, imitando a canção de Evinha.

Letícia recebe um alento de Tércio. Apaixonam-se. Ali mesmo no cativeiro, psicologismo que o roteiro mal consegue descrever, mas que acontece. Libertação. Libertação para ambos, cansados do mundo hipócrita, sem perspectivas. E a toda hora, dá-lhe Letícia falando sobre o amor.

O assassinato de Tércio por Letícia, o suicídio de Letícia: por um verdadeiro amor, para fugirem do sofrimento, para alcançarem a paz. Estratégia que teria outra dimensão e acerto se houvesse credibilidade no namoro dos dois. Algo que evanesce e não atinge o alvo. Semelhante a assistirmos a um presidiário com marca de sol (Jorge), revelada no skinny dipping pelas redondezas.

Sternheim demonstra cuidados ocasionais na composição, como no pequeno prólogo. Paulo, Jorge e Tércio queimam um carro encharcado de gasolina. As chamas, a fumaça subindo para o céu, promessa de uma escuridão anterior, fatalismo para o que vai ser contado.

Violência na Carne amarra, inseguro, um enredo que aponta para a tal violência e para a tal da carne, sem resultados convincentes do cinema de um e de outro gênero. A violência carece da montagem – fria, de Jair Garcia Duarte, parceiro de Juan Bajon –; carece da engenharia dos planos – convencionais, previsíveis.

A carne segue o mesmo princípio. Estupros que dão bocejos no público acostumado aos exploitations hardcore que começavam a estalar nos poeiras. Os arroubos podem ter provocado algum calor, mas a curiosidade permanece no quesito – este sim interessante, de novo – da intimidade dos casais gay e lésbico. Tratada com a naturalidade necessária, soma uns pontos no polaróide em que todo filme acaba se transformando, no cair do tempo.

Carinhos, ciúmes, postura protetora de uma com outra – Sandra e Ana. Dançarino (Fábio) orgulhoso da carreira do protetor (Renato, Luiz Carlos Braga). Mimos afins, nuances de cotidiano e que na hora de o bicho pegar fogo não somem, continuam. Seria cômodo para o diretor colocar apenas as meninas sendo atormentadas pelos agressores. Encaixa, porém, a curra em Fábio, a pegação de Sandra e Ana ordenada por Paulo, o voyeurismo que sai às claras, varrido do tapete.

O problema é que a deixa para entrar no desfiladeiro é jogada fora por um excesso de didatismo – “estes sustos, estes pesadelos, ocorrem devido a um sentimento de culpa. Intimamente você ainda não aceitou a nossa relação.” Piora muito, mas muito mesmo, na atuação precária dos atores, resguardada sempre a figura de Luiz Carlos Braga – por sinal, apaixonado por David Cardoso em As Seis Mulheres de Adão.

Ao invés do escracho que reina em Adão ou de uma ofensiva corporal bombástica e teorizável, Violência na Carne tenta se levar na dureza, filosofando como a estudante de sociologia da USP. E o que seria crível ou encantamento, ganha um contorno metódico, cambaleante, impedindo a fluência que poderia tê-lo salvado.

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