O Que É Cinema Brasileiro?

ÁGUAS DE MAURO

 

 (paródia de Carlos Alberto Mattos)

 

É sol, é terra, é o Glauber falando
É o dinheiro pouco, é o Dib filmando
É o riso da Leila, é a praia, é o sal
É a noite, o espantalho, Aruanda, Arraial
É a Velha a Fiar, é a Terra Estrangeira
Uirá, Candeias, é o Nelson Pereira
É A Ostra e o Vento, Denoy de Oliveira
É O Segredo da Múmia, é também Grande Feira
É o Limite do Mário, é o Tarcísio Meira
É a briga, é O Grão, é o Tonico Pereira
É a Carmen posando, Edgar caprichando
Nas águas de Mauro, é Oscarito brincando
É Otelo, é Lewgoy, é a chanchada matreira
Camerinha na mão, filme na cachoeira
É A Grande Cidade, é Cidade de Deus
É o Cabra Marcado, é Fernanda, é Matheus
É o Bandido Rogério, é o Anjo Bressane
A mão do Barreto, Total ou Gullane 
É um grito, é uma greve, é uma luta, é um luto
É a Jordana editando, é o Cosme e o charuto
É a tropa, é trepada, é a Dira atuando
É o palhaço Didi, é Eliana cantando
É a Ilha das Flores, é o Porto das Caixas
É a garrafa de cana, Estrada da Cachaça
É o projeto no pitching, é a luz na favela
É a equipe formada, é a tela, é a tela
Força nesse edital, verba da Petrobras
Fundo setorial, quem dá mais, quem dá mais?
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Pereio comendo a Dama do Lotação
É um saci, Curumim, é Bigode, é Lulu
É a Bete Balanço, Cacá, Lerfa Mu
São as águas de Mauro inundando o sertão
É a gentil Dona Flor semeando tesão
É sol, é terra, é O Fim do sem Fim
É o close na Xuxa, é o Satã do Karim
É um padre, é uma moça, é um Bravo Guerreiro
É O Canto do Mar, é o punhal cangaceiro
São as águas de Mauro inundando o sertão
É o céu se abrindo pro Moleque Tião
sol, terra, fim, carrinho
corta, monta, lança, jeitinho
Cao, Walter, Tata, Dahl,
Manga, Silvio, Brant, Joel
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Iracema posando no meu coração

Carlos Alberto Mattos é pequisador, escritor, jornalista, crítico de cinema e editor do blog Rastros de Carmattos.

Musas do Diniz

Renata Sayuri

 

Por Diniz Gonçalves Junior

 
olhos em elipse
meias-luas inquietas
em rota de rebentação
clarabela, menina de
gestos de esfinge,
dança esguia , poetisa ,
transborda palavras
por todos os poros

Credito foto: Silvio Bonadia

Nossa Canção

“Dedos de Deus”, o luar de Carlos Reichenbach

 Por Gabriel Martins

“Sua alma é uma paisagem seleta
Onde vão mascarados e “bergamasques”*
Tocando alaúde e dançando e quase
Tristes por trás dos fantásticos disfarces” 

(tradução livre de estrofe do poema Clair de Lune, de Paul Verlaine) 

Existem algumas cenas que para além do seu poder cinematográfico, emocionante, referencial, são cenas que nos marcam por trazer em si um projeto estético que é uma ideia de mundo, um espelhamento da vida no cinema com toda potência que esta arte é capaz de exprimir. Tais cenas são eternas, etéreas e importantes de serem experimentadas. Elas movem, pois são instrumentos que tem corpo próprios, obras-primas que nos elevam enquanto seres humanos munidos de sensibilidade. 

Uma dessas cenas, para mim, está em Alma Corsária, filme poderoso de Carlão Reichenbach. O momento em questão é Dedos de Deus, “segmento” do filme passado na Pastelaria Espiritual. 

  1. Os dedos de Deus 

O intertítulo abre a cena com estes dizeres: “Dedos de Deus – para Cesário Verde”. Vemos então, iluminado por uma luz que preza a indiscrição (luz pontual, no ícone), um pianista-estivador com uma camisa colada, não um fraque ou um terno, que aparece no bar como um sujeito ordinário e comum – ele quase sintetiza em si uma possível imagem do universo popular brasileiro. Há um piano Fritz Dobbert. O silêncio é entrecortado pelos passos do instrumentista. Ele senta, estala os dedos – um som alto, cômico, mas de anunciação – e começa a destilar Clair de Lune, uma Debussy volátil, poema. A partir daquele momento, a câmera sai dos dedos (de Deus?) e os personagens do filme estão em volta do piano, observando aquele momento sublime. Uma natureza azul, o clair de lune, entra em cena. 

       1.    O homem de músculos 

Do lado de fora da pastelaria há um homem, um fisiculturista, iluminado por uma luz quente. Quase como um Sandow, de Edison, ele é um comentário cinematográfico que para além de um elemento cômico genial, transcende a cena pela maneira como se coloca nela, parte integrante enquanto imagem, mesmo que não clássico-narrativamente-causal. E é neste símbolo, nesta ideia de exibicionismo, que este momento ocupa um lugar que, infelizmente, muito raramente o cinema brasileiro visita. Como no segmento de Edison supracitado, como no primeiro cinema, existe uma ideia de curiosidade com o filmado, uma ideia de imersão no campo do não racional, no campo do espírito das imagens, da transfiguração e representação do mundo. Ao inserir este elemento, Carlão parece nos entregar a liberdade para ver a cena, nos pedir o dom de ver com olhos livres, ver a imagem como algo vivo. Este momento, do prazer de exibir, da imagem literalmente forte, pauta o que virá a seguir. Do tableau, vamos a: 

        2.     Os sonhos de cinema 

Embriagados pela música, os habitantes daquele bar iniciam pequenas imersões pessoais. Em super-8 a imagem-memória, a imagem-vontade, a imagem-desejo de cada personagem – é belo como a cena consegue fazer coexistir o humor latente na montagem com um sentimento belíssimo de transcendência através da arte. Fora da pastelaria, o fisiculturista continua sua performance. Dentro da pastelaria, o pianista-estivador, Debussy e as pessoas. Nos sonhos de cinema que Carlão nos entrega, ele vai até seu personagem principal. É um movimento visual incrível, em que nos aproximamos lentamente do protagonista Rivaldo e de Anésia, sua paixão. A câmera faz um sutil movimento para a esquerda olhando para Anésia e no mesmo momento volta para Rivaldo, que irá sonhar. E sua fabulação não é uma memória super-8, mas uma memória-personagem, um beijo durante uma viagem com a garota. Em poucos momentos, um filme brasileiro conseguiu somar de maneira tão sublime, em imagem, a ternura com um personagem. Quando voltamos de seu devaneio, afastamos de Rivaldo, e Anésia já não está mais ao seu lado. Ela está indo embora, e resta olhá-la ir. Música cessa. Um bêbado sonha atrasado em super-8, já sem música. Imagem de um martelo de força, “FIESTA!!”. E caem na festa. 

         3.     A descoberta da poesia 

Perguntei para Carlão o porquê de dedicar esta cena ao poeta português Cesário Verde. Me disse que o ponto de partida de Alma Corsária era a sintonia poética entre Augusto dos Anjos e o português, poetas de tempos e grupos sociais diferentes, mas que trazem em si um interesse artístico similar, características que seriam em parte homólogas aos personagens centrais do filme. A cena em questão seria dentro da obra, nas palavras do próprio Carlão, o desejo de dialogar o erudito e o popular, o realismo e a fantasia, o sublime na dança dos loucos. É onde os personagens se descobrem poetas. 

Em alguns momentos tivemos, hoje pouco temos, o cinema brasileiro enquanto uma “descoberta da poesia”. Descoberta, no sentido de retirar todo e qualquer tipo de véu que cobre ou tenta disfarçar, e deixar o belo se construir no risco. “Alma Corsária” é único, e esta preciosa cena ainda mais. Um luar incrível de se observar.
 

*não encontrei uma tradução fiel à palavra “bergamasque” que parece ser uma referência no poema a um estilo de dança rústico aparentemente surgido na Itália.

Gabriel Martins é cineasta, diretor do curta Filme de Sábado, co-diretor do curta Contagem, e co-diretor do longa Estado de Sítio. É também crítico da revista eletrônica Filmes Polvo.

Musas Eternas

 Aldine Müller: Um Convite ao Prazer…

 

Por Leonardo “Leo Radd” Freitas

  

Em se tratando dessa excelente atriz e um patrimônio do nosso cinema, foi impossível resistir ao trocadilho que dá título a esta matéria comemorativa. Pois além da beleza convidativa da atriz, sempre que ouço o nome dela a primeira imagem que me vem à mente é a clássica cena do filme Convite ao Prazer (de Walter Hugo Khouri – 1980), em que ela seduz os dois personagens principais numa cadeira de dentista. É a primeira cena erótica do filme e da mesma forma que os personagens, o espectador também é imediatamente seduzido pelo seu olhar magnético e hipnotizante… o que por si só já seria justificativa suficiente para o nome do filme. 

Foi a primeira vez que vi essa atriz na tela (quando esse filme foi exibido no SBT nos anos 80), já que eu era proibido de entrar no cinema pra assistir esses filmes devido à minha parca idade na época. O jeito era se virar com o que passava na TV mesmo, pois até a metade dos anos 80 o vídeo-cassete ainda não estava tão popularizado a ponto de chegar a todos os lares. Só depois de finalmente poder comprar um aparelho desses é que  a coisa mudou de figura e eu fui atrás de várias pornochanchadas que me eram vetadas até então. E pude rever em todo seu esplendor essa cena de Convite ao Prazer na íntegra em VHS e sem os cortes brutais da TV. 

A partir daí fui atrás de outros filmes da Aldine, já que uma das minhas maiores prioridades ao ter acesso aos filmes em VHS era rever o Convite (filme que me tornou um grande fã dessa atriz até hoje). A questão agora era outra: por onde começar? Eram tantos filmes disponíveis com a proliferação e explosão do VHS que a gente ficava bem perdido na época sempre que entrava numa locadora. E pra piorar, não tínhamos a internet pra pesquisar a filmografia das atrizes. Então, num belo dia, passeando pela locadora me deparo com um filme que trazia a Aldine nua na capa: A Fêmea do Mar (de 1981). 

É óbvio que para um adolescente em plena descoberta dos prazeres da vida e das curvas do corpo feminino, uma capa trazendo uma bela atriz pelada na praia seria um chamariz irresistível. Era como se todos os outros filmes na estante desaparecessem e ficasse apenas eu ali sozinho com a caixinha do filme na minha frente. Ao chegar em casa e botar a fita no aparelho… tive uma bela e estranha surpresa: a Aldine continuava linda, mas parecia outra pessoa com personalidade completamente diferente daquela que eu conhecia na tela. Enquanto em Convite ao Prazer ela era sedutora e decidida, em A Fêmea do Mar ela parecia mais frágil e delicada (quase uma menininha ingênua), mas não menos sedutora e enigmática. No filme, ela se envolve com um marinheiro inescrupuloso, que também tem um caso com a mãe dela (e quase acaba traçando também o irmão dela – que era apaixonado pela própria irmã), gerando uma espiral de amores doentios e impossíveis, que, é claro, acabam em tragédia, como não poderia deixar de ser diante de tanta euforia sexual e paixões proibidas. Foi aí que eu vi logo de cara a versatilidade dessa grande atriz, já que em apenas dois filmes bastante distintos entre si, ela interpretou de forma brilhante duas personagens tão opostas e ao mesmo tempo tão sedutoras e sensuais.         

A essa altura, Aldine já figurava no topo da minha lista de atrizes favoritas do nosso delicioso cinema nacional. E eu ficava atento à cada nova aparição dela nos filmes que eu assistia em VHS ou na TV (várias emissoras exibiam filmes brasileiros entre os anos 80 e início dos 90: SBT, Manchete, Guaíba, Band, etc). Entre alguns clássicos em que a atriz apareceu em papéis principais ou secundários (porém marcantes), cito e recomendo os seguintes: O Segredo das Massagistas (Antonio B, Thomé – 1977), 19 Mulheres e 1 Homem (de David Cardoso – 1977), O Prisioneiro do Sexo (outra obra-prima do mestre Walter Hugo Khouri – 1978), A Força dos Sentidos (de Jean Garrett – 1978), Uma Cama para 7 Noivas (Raffaele Rossi e José Vedovato – 1979),  Bem-Dotado – O Homem de Itu (José Miziara – 1979), Força Estranha (Pedro Mawashe – 1980), Bacanal (Antonio Meliande – 1980), O Império do Desejo (Carlos Reichenbach – 1981), Noite (Gilberto Loureiro – 1985), e Schock – Diversão Diabólica ( Jair Correia – 1986). 

Mas o melhor de todos os filmes de Aldine Müller eu ainda estava por assistir: A Mulher que Inventou o Amor (de Jean Garret – 1979). Demorei alguns bons anos até ter acesso à essa maravilha da Boca, pois apesar de já conhecer a fama desse filme, nunca o encontrei nas locadoras de vídeo e nunca passou na TV (que eu saiba). Somente há poucos anos (graças à internet), achei essa obra-prima disponível e pude constatar que era muito melhor e mais surpreendente do que eu sempre imaginei que fosse. No filme, Aldine está no auge de sua beleza e demonstra todo o seu talento em um complexo papel que alterna as diversas facetas da personalidade da personagem central. No filme ela é uma mulher obcecada com a ideia de casar, mas acaba perdendo a virgindade num açougue, e, a partir daí, cai na vida da prostituição, tornando-se famosa como a “Rainha dos Gemidos” (por gemer como ninguém durante as tórridas cenas de sexo do filme). Com belíssimas imagens e uma trama consistente que ruma pra uma tragédia grega clássica, esse filme reúne o melhor do lado sedutor de Aldine, que transborda sexualidade tanto no papel da mocinha frágil e ingênua, quanto no papel de uma prostituta forte e determinada que é uma verdadeira predadora sexual. 

Nascida em Portugal em 1953, Aldine Müller veio para o Brasil ainda na infância, onde morou no Rio Grande do Sul até se mudar pra São Paulo, aos 18 anos, e iniciando sua carreira de atriz e modelo. Com a queda e redução no ritmo de produção das pornochanchadas nos anos 80 (graças à proliferação do cinema pornô de sexo explícito), a atriz migra pra TV, onde se destaca em novelas (Sassaricando – 1987) entre outros programas da Rede Globo (Escolinha do Professor Raimundo), SBT e Record. Também foi capa da Playboy (onde fez pelo menos dois ensaios nos anos 80) e Sexy (para  qual posou em 2000). Ainda em atividade no teatro, Aldine também se dedica à causas e campanhas sociais, o que só demonstra o quanto essa atriz é uma estrela de 1ª  grandeza e merecedora do aplauso e admiração de seus fãs.   

 

Leonardo “Leo Radd” Freitas é autor do blog Submundo HQ (http://submundo-hq.blogspot.com/)

Inventário Grandes Musas da Boca

… no cinema de Walter Hugo Khouri

Por Adilson Marcelino

Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khouri, foi produzido por Aníbal Massaini Neto, personagem importante da Boca do Lixo – produtor e diretor. Mas foi na virada dos anos 70 para os 80, que Khouri dirigiu dois filmes essencialmente ligados à Boca e com a cara da Boca: O Prisioneiro do Sexo (1979) e Convite ao Prazer (1982), ambos produzidos pelo mítico Antonio Pólo Galante.

Como se sabe, Walter Hugo Khouri é o cineasta que filmou as mais belas atrizes do cinema brasileiro, e isso desde o início da carreira. Desde sempre, marcaram presença em seus filmes verdadeiras deusas, e, dentre elas, várias que se tornariam musas amadas da Boca do Lixo, como Elizabeth Hartmann – A ilha (1963), e a saudosa Marlene França – falecida no dia 23 de setembro – em Fronteiras do Inferno (1959), e outras que “nasceriam” já nos domínios da Boca, como Helena Ramos – Convite ao Prazer – e Vera Fischer – Amor Estranho Amor, Amor Voraz (1984), e Forever (1991).

A coluna Inventário Grandes Musas da Boca faz uma homenagem à presença dessas deusas na obra Khouriana.

Marlene França (2) – Fronteiras do Inferno (1959)

Lola Brah – Fronteiras do Inferno (1959)

Elizabeth Hartmann – A Ilha (1963)

Lisa Negri – Noite Vazia (1964)

Marisa Woodward – Noite Vazia (1964)

Inês Kanaut – As Amorosas (1968)

Glaucia Maria – As Amorosas (1968)

Rossana Ghessa (3) – O Palácio dos Anjos (1970), Convite ao Prazer (1980)

Elza de Castro – O Palácio dos Anjos (1970)

Kate Hansen (4) – As Deusas (1972), O Desejo (1975), Eros, O Deus do Amor (1981)

Selma Egrei (5) – O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), As Filhas do Fogo (1978), Eros, ODeus do Amor (1981)

Monique Lafond (6) – Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987), As Feras (1996)

Aldine Muller (7) – Paixão e Sombras (1977), O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980)

Misaki Tanaka (8) – Paixão e Sombras (1977), O Prisioneiro do Sexo (1979), Eros, O Deus do Amor (1981)

Liza Vieira – Paixão e Sombras (1977)

Maria Rosa – As Filhas do Fogo (1978),  O Prisioneiro do Sexo (1979)

Rosina Malbouisson – As Filhas do Fogo (1978)

Karim Rodrigues – As Filhas do Fogo (1978)

Sandra Bréa (9) – O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1981)

Kate Lyra (10) – O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981)

Nicole Puzzi (11) – O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987)

Mara Husemann – O Prisioneiro do Sexo (1979), Amor Estranho Amor (1982)

Novani Novakoski (12) – O Prisioneiro do Sexo (1979)

Suely Aoki – O Prisioneiro do Sexo (1979), Eros, O Deus do Amor (1981)

Helena Ramos (13) – Convite ao Prazer (1980)

Patrícia Scalvi  (14)- Convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981)

Alvamar Taddei  (15) – convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981)

Rita de Cássia  – Convite ao Prazer (1980), Amor Estranho Amor (1982)

Shirley Steck – Convite ao Prazer (1980)

Tamuska – Convite ao Prazer (1980)

Christiane Torloni – Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987)

Vera Fischer (1) – Amor Estranho Amor (1982), Amor Voraz (1984), Forever (1991)

Íriz Bruzzi – Amor Estranho Amor (1982)

Sandra Graffi (16)- Amor Estranho Amor (1982)

Vanessa Alves – Amor Estranho Amor (1982)

Carmen Angélica – Amor Estranho Amor (1982)

Elys Cardoso – Amor Estranho Amor (1982)

Reneé Casemart – Amor Estranho Amor (1982)

Márcia Fraga – Amor Estranho Amor (1982)

Rosângela Gomes – Amor Estranho Amor (1982)

Kátia Spencer – Amor Estranho Amor (1982)

Matilde Mastrangi (17) – Amor Estranho Amor (1982)

Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 

A guerra não acabou           

Todos sabem qual o assunto mais comentado nas últimas semanas (em matéria de cinema): muito justamente, a censura a A Serbian film: Terror sem limites. Eu também vou engrossar o coro dos que se postam contra essa lamentável ocorrência. Não vi o filme, portanto não estarei manipulando leitor algum com uma crítica apaixonada subliminarmente disfarçada de canto pela liberdade. Também não vou me postar de paladino da “democracia” e outros termos fascistóides, pois é justamente contra esses argumentos dogmáticos que me posiciono. 

Há muita coisa que me incomoda nessa história. Vou por itens. 

1)                 Ninguém que condenou/julgou/execrou o filme sequer assistiu a ele. Nenhum dos digníssimos políticos ou operadores do direito, que esbravejaram raivosos contra o “conteúdo” da fita. Eu gostaria de citar o nome de cada um desses senhores, mas eles são tão poderosos e infames que inventariam também de me cercear esta parca reclamação, se a vissem, e eu que não desejo tomar um processo por birra dessas pessoinhas. Mas nem preciso estender este ponto: não existe nada mais imbecil do que criticar algo sem saber do que se trata.

2)                 As pessoas insistem em confundir “mostrar” com “elogiar”. Se o filme tem pedofilia, incesto, necrofilia e o escambau, oras, em que parte do papo isso é necessariamente fazer apologia a tais ações? Ou “incentivá-las”, como se tem divulgado por aí? Que lógica torpe, horrenda. Então todas as narrativas sobre crimes, mortes, estupros e violências de todo tipo são elogiosas a essas atrocidades? Que perversas as mentes que veem os filmes pensando em usá-los como pretexto para praticar esses crimes, alegando que “o filme deu o exemplo”.

3)                 O comodismo de crucificar a “arte rápida” que é o cinema. A literatura pode ser a mais underground e extrema possível, mas é o cinema que é perseguido, pois é só ele que chega até esses boçais de tesoura na mão. E eles não conseguem entender que existem filmes de crítica, filmes melancólicos, filmes de todo tipo — pois querem, é evidente, que tudo seja uma pasteurizada novelinha feliz que não critique as podridões e mazelas sociais, situações de que esses crápulas se beneficiam.

4)                 Essa crença (ou antes alegação) que o filme vai ser imitado pelos espectadores só não é mais absurda que mentirosa. Ou hipocrisia das grossas (o que acaba sendo o mesmo). Custa nada fazer um rebuliço todo em torno de um filme independente sérvio, com seu “baixo alcance”, quando o Anticristo de Lars von Trier passou alegremente (e com ótima crítica) pelas salas brasileiras, sem ninguém ouvir falar de alguma espectadora que decidiu mutilar seu clitóris porque viu na tela do cinema e se sentiu compelida a copiar. É questão de influência, máfia, jogos de interesse.

5)                 Os defensores da “moral”, da “família” e “cidadãos de bem” em geral tiveram em A serbian film um farto material para destilarem seus preconceitos e ignorâncias, e não me admiraria que isso desviasse qualquer possível mérito do filme (ou análise mais séria, também para criticar negativamente), a exemplo do que aconteceu com obras como Pretty baby, hoje tido por muitos como bibelô pedofílico, e Showgirls, considerado um softcore melodramático de baixa categoria. 

Eu só espero que não ocorra o que acontece com Amor, estranho amor, filme marginalizado pela fama ridícula que criaram na última década (a saber: o “filme pornô” ou “de sacanagem” de uma apresentadora) e censurado covardemente por uma de suas intérpretes. Mas tanta propaganda talvez acabe é beneficiando A serbian film. Veremos.

Filme-Farol

Por Daniel Salomão Roque

À Meia-Noite Levarei sua Alma
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1964.
 

Em algum momento na segunda metade da década de 60, minha avó, então aspirante a atriz e mãe de duas adolescentes, participou de um teste com José Mojica Marins, e de lá saiu surpreendida – o barbudo de unhas compridas, quem diria, era um gentleman

Seu espanto, embora carregasse uma boa dose de inocência, era plenamente compreensível: três filmes, um programa de televisão, um gibi bimestral, além de muito carisma e publicidade, haviam conferido ao personagem Zé do Caixão uma popularidade inacreditável. As platéias, hipnotizadas pela figura exótica do coveiro, tomavam a ilusão por realidade e logo trataram de fundir criador e criatura num único ser. Mojica, muito espertamente, capitalizava a histeria coletiva mediante aparições midiáticas e processos seletivos pra lá de bizarros, onde os rapazes eram eletrocutados e insetos peçonhentos transitavam pelos corpos seminus das mulheres. 

Teria minha avó se submetido a isso? Os pormenores do teste nunca foram revelados a mim, em parte pela injustificada vergonha que ela sente ao relembrar esse trecho de sua vida. De uma coisa, porém, tenho a mais absoluta certeza: naquele mesmo dia, uma perplexidade ainda mais avassaladora a teria atingido caso profetizasse que, três décadas mais tarde, um dos seus sete netos teria a vida revolucionada por aquele homem. 

Lembro-me muito bem da primeira ocasião em que de fato travei contato com a figura de Zé do Caixão: foi em 1995, aos nove anos de idade, manuseando um fascículo da coleção 1000 que Fizeram 100 Anos de Cinema, lançada pela revista Istoé em comemoração ao centenário da primeira projeção de imagens em movimento. Até então, só o que sabia a seu respeito era o que me falavam os adultos e, a julgar pelas asneiras que saíam de suas bocas, Zé do Caixão era uma espécie de exu, lenda urbana ou entidade folclórica sobrenatural. Passados trinta anos, a linha que separava criador e personagem ainda era tênue – foi um susto saber que, de certo modo, ambos existiam. 

O episódio, contudo, não bastou para despertar em mim a curiosidade pela obra de Mojica. Durante toda a infância e metade da adolescência, os quadrinhos foram minha única paixão. Diante da enorme diversidade de traços e palavras proporcionada pelos gibis, os filmes me pareciam monótonos, anódinos e inofensivos – pelo menos aqueles que meu pai trazia da videolocadora, os quais eu, ingenuamente, julgava serem os únicos que o mundo havia produzido. 

Porém, beirando os quinze anos de idade, algo dentro de mim havia mudado. O simples ato de ler gibis já não me satisfazia; agora eu também queria saber de onde surgiam aquelas histórias, o contexto em que se desenvolviam, quem eram os artistas responsáveis pela sua criação. Foi então que ganhei de presente A História das Histórias em Quadrinhos, um livro do Álvaro de Moya que, a despeito de sua superficialidade, despertou-me para as muitas conexões entre as HQs e o cinema, sendo, portanto, uma obra de extrema importância para minha formação: lá, soube da existência de Welles, Ford, Eisenstein, Resnais, Godard e Fellini, só para citar alguns nomes. O volume também fazia uma rápida menção à revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão, que trazia o personagem como anfitrião de histórias macabras roteirizadas por Lucchetti e desenhadas por Nico Rosso.   

Nascia ali meu interesse pelo cinema. De uma forma ou outra, os filmes me pareciam essenciais para o pleno entendimento da linguagem dos quadrinhos; Mojica, por sua vez, era a um só tempo cineasta e, como eu tinha acabado de descobrir, personagem de HQs, tendo sido, por esse motivo, escolhido por mim como pontapé inicial das minhas aventuras pelo universo cinematográfico. No final de semana seguinte, juntei meus poucos trocados e varri a Avenida Paulista, a Rua Augusta e o centro velho de São Paulo em busca de seus filmes. Foi uma tarefa árdua: a coleção da Cinemagia havia sido lançada há pouco tempo, mas ainda não tínhamos DVD player em casa, e as antigas edições em VHS eram bastante raras. Com as pernas cansadas, as costas transpirando e os dedos escurecidos pelo pó de dezenas de prateleiras, eu estava prestes a desistir. Eis que, abruptamente, nos cantos de uma lojinha qualquer, apareceu diante de mim uma velha fita em cuja lombada se lia, em letras garrafais: À Meia-Noite Levarei sua Alma

Desnecessário dizer que o filme rompia com tudo o que eu já havia assistido antes. À Meia-Noite Levarei sua Alma era uma obra movida pelo choque, descontinuidade e invenção, aparentemente editada dentro de um açougue. Seus cortes eram bruscos; os close-ups, extremos; os planos, ora longos, ora curtos; os ângulos, sempre insólitos. Em termos estéticos, eu só encontrava precedentes nos gibis da EC Comics, que, a julgar pelo prólogo, no qual uma bruxa amaldiçoa a platéia, também eram lidos por Mojica. Ainda assim, a semelhança era vaga, difusa; não apenas por se tratar de outra mídia, de um suporte distinto, mas sobretudo pela originalidade da fita, uma jóia rara onde a cultura pop se cruzava com a metalinguagem, o folclore brasileiro, a crítica social e alguns sentimentos anti-religiosos que carrego desde pequeno. 

Mas, afinal de contas, como classificá-lo? Eu não sabia e, dez anos depois, continuo sem saber. Trata-se, sem a menor sombra de dúvidas, de uma narrativa pertencente ao gênero terror; todavia, seu teor visceral e instintivo foge a qualquer tentativa de rotulação – ele é sangue, suor, transgressão e criatividade… para mim, isso basta. Mais do que o primeiro filme brasileiro a chamar minha atenção, À Meia-Noite Levarei sua Alma foi a obra que fez de mim um cinéfilo. Naquele fatídico sábado, ao terminar de assisti-lo, percebi que a idéia de se conhecer o cinema para entender melhor os quadrinhos era, na realidade, completamente estúpida: a linguagem cinematográfica era fascinante por si mesma, e a prova disso estava bem ali, dentro do meu videocassete.

Musas Eternas

MAE WEST

 

Por Edu Jancz 

Sensual, irreverente, dona do seu destino 

Nenhum compêndio comprova, mas, provavelmente, a palavra Musa – estilo Perua – começou a ser esculpida no dia 17 de agosto de 1893. 

Nascia Mary Jane, filha de Matilda e John. Para os íntimos: Mae West. E foram muitos os íntimos. 

Desde pequena,  Mary “torceu o pepino” e mudou o texto original. Chamada pelos pais e amigos de May, deixou claro que o correto era Mae. E explicou: o “Y” é para baixo e o “E” é para cima. 

Esse dia marcou a vinda daquela que seria chamada “a mulher mais sexy do século”. A mulher que daria “o pontapé inicial” para a emancipação feminina, no campo social,  pessoal e principalmente sexual. 

O pai de Mae, John, tinha sido lutador de boxe e sempre levava sua pequena garota ao ginásio onde seus amigos treinavam. Dizem que foi já a partir daí, que  Mae  West  passou a se interessar por homens musculosos. 

Com sete anos, a mãe de Mae inscreveu a filha num concurso de canto. Mae recebeu a letra da música que ia cantar, não gostou de algumas palavras, trocou o texto e ganhou vários prêmios. 

Desde pequena,  Mae  freqüentou e atuou no vaudeville (teatro de revista)  A malícia estava no ar e nos textos, e a adolescente Mae sentiu que estava em casa.  Mae viajava muito, tinha problemas com os pais. Fácil de resolver, pensou: casou com Frank Wallace, um ator da companhia, ele com 17 anos. 

Com irreverência e descontração fora dos padrões da época, Mae fazia grande sucesso no vaudeville. Além de interpretar papéis “apimentados”, sempre explorando a sensualidade e o sarcasmo, ela criava esquetes só para ela e escrevia  todas as suas falas, sempre com forte conteúdo erótico. Em 1911, faturava 350 dólares por semana. Mae sempre “tomou o futuro” em suas mãos , buscando a carreira que pretendia ter, além de uma imagem marcante que aperfeiçoava espetáculo a espetáculo. 

SEX 

O impressionante sucesso no vaudeville não bastava. Mae queria mais. Sempre mais. Ela escreveu sua primeira peça, quebrando mais um tabu, pois esse universo – a dramaturgia –era dominada por homens. A peça era sobre uma prostituta de “coração mole”, chamada Marge L´amour. Mae usou um pseudônimo: Jane Mast. O primeiro nome sugerido para a peça: O Albatroz.

Albatroz? Nem pensar. A peça vai se chamar SEX,  decretou Mae. 

Vamos nos situar. O ano é 1926. A palavra SEX numa tinha aparecido impressa em local público. Pior foi quando Mae exigiu que SEX enfeitasse a entrada do teatro com um letreiro luminoso. Os proprietários, claro, negaram. 

Entre a platéia que lotou o teatro, muitos policiais. Assim que as cortinas baixaram, Mae foi presa. Passou 10 dias na cadeia. Dizem que sempre jantava com os guarda. Ao sair, teve que pagar multa de 500 dólares por “corromper a moral dos jovens”. 

Mae pagou com um sorriso nos lábios. Finalmente, sabia: tinha encontrado o caminho, a face e o espírito da verdadeira Mae West. 

SEX deu buchicho, trouxe dinheiro extra para a propaganda da peça e fez de Mae uma personalidade. 

Sem perder um minuto,  Mae “colocou mais lenha na fogueira”. Aproveitando a fama (de sensual, mulher de vários amantes) que trazia de suas interpretações no vaudeville, gravou discos com músicas de cabaré. A esperta e talentosa Mae ronronava como uma “gata mansa”, e público ouvia e sentia que ela  “tinha vivido tudo o que cantava”. 

DIAMOND LIL 

Sempre disposta a se superar,  Mae West escreveu em 1928 a peça que tornou-se a sua marca registrada: Diamond Lil. A ação se passava em 1890, num bairro pobre de Nova York e contava a história de uma “bem sucedida” mulher de negócios. Lil tinha, também, um coração de ouro e muitos diamantes presenteados por seus admiradores. Qualquer semelhança com SEX, ou com a própria Mae, não era mera coincidência. 

Em Diamond Lil, produzida por Mae, ela cunhou uma das suas famosas frases: “Venha me visitar uma hora dessas.” 

Com Diamond Lil, finalmente,  Mae chegou à Broadway. A peça foi encenada 176 vezes. Fez turnês por vários estados e permaneceu em cartaz nos próximos 30 anos. 

Com o sucesso, assédio dos fãs e da imprensa, a vida sexual de Mae sempre foi um “prato” disputado com ardor. Disseram que ela era amante de um gangster;  que em sua cama passou o músico Duke Ellington. Ele, negro. Ela, branquela.  Discreta, discretíssima em relação à sua vida pessoal, Mae calou a boca de uma imprensa afoita e preconceituosa dizendo: “Não sou um símbolo sexual. Sou uma personalidade sexual.” 

O CINEMA 

Era um sonho, mas Mãe esnobou por bom tempo o cinema sonoro. Ao primeiro convite da poderosa Paramount, ela disse um  cínico: “Vou pensar”.

No ano de 1932, a Paramount lhe recebeu de braços abertos. Em seu primeiro filme, Night After Night acontece outro dos  célebres diálogos de Mae . Quando a sua personagem, uma garota de programa,  chega ao hotel onde está hospedada, a recepcionista vê as jóias que ela exibe e exclama: “Deus, belos diamantes!”. Ao que, imediatamente, Mae responde: “Deus não teve nada a ver com isso”. 

Outro momento delirante. Uma amiga de profissão pergunta a Mae: “Você acredita em amor à primeira vista?”. E Mae: “Não sei, mas economiza muito tempo.” 

Na tela, além de liberal, sensual e sempre independente, Mae parecia um mulherão. Na verdade, tinha 1,52m de altura, que ela, como boa perua, compensava com um salto de 18 cm. 

Os dois primeiros filmes de Mae  – Night After Night e Uma Mulher para Três (She Done Him Wrong) fizeram tanto sucesso que salvaram a Paramount da falência. No terceiro filme, Nunca Fui Santa (I’m no Angel) ela voltou a trabalhar com o galã Cary Grant. 

Contam as fofocas que indo de carro para o set de filmagem, Mae pediu que o motorista parasse o carro imediatamente. E perguntou: “Quem é aquele homem? Aquele bonitão? É um homem assim que eu quero no meu próximo filme.” Assim nasceu a carreira cinematográfica de Cary Grant. Circularam boatos de um caso entre os dois…e  Mae sempre “na dela”. 

Com o sucesso dos seus filmes: homens e mulheres a adoravam. Diziam: ela representa na tela o que acontece na realidade, no dia-a-dia, no coração e nos sonhos dos seus fãs.  Mae chegou ao maior salário da época para uma estrela de cinema: 300 mil dólares por filme. 

PERSONALIDADE SEXUAL 

Definida pelo escritor F. Scott Fitgerald como uma mulher com “infinita alegria de viver”, Mae West tornou-se um símbolo da emancipação sexual das mulheres. Segundo ela, uma mulher podia ter o mesmo apetite sexual de um homem. E garantia: isto é totalmente natural. Mais: que ela – ou qualquer outra mulher – podia viver um romance fora do casamento sem ser condenada por isso. E sugeria que, as vezes, a mulher podia e devia tomar a iniciativa. Isso em 1935. Mae não era mole, não! 

A CENSURA E A VOLTA AO TEATRO 

Se o público adorava os diálogos apimentados sempre escritos por Mae em seus filmes,  , os censoras da época a detestavam. E dá-lhe “tesoura”, em nome da moral e dos bons costumes. 

Mae era de “pavio curto”. Voltou para o teatro. 

Em 1954 expandiu suas atividades. Escreveu e encenou uma peça que revolucionou o padrão de espetáculos tão freqüentes na cidade de Las Vegas. Misturando diálogos cheios de malícia, Mae se cercou de uma dúzia de homens musculosos, tipo Mister América, vestindo sumários calções, praticamente seminus.  A peça – definiu Mae – era um convite explícito para que as mulheres da platéia pudessem “comer os rapazes com os olhos”, tal qual os homens faziam com as mulheres que se apresentavam em Vegas. Mae and her Adonis! bateu recordes de bilheteria. E rendeu mais um diálogo memorável. 

Na peça, cercada de uma dúzia de homens musculosos, ela vira para um que está chegando e diz: Como vai, alto, moreno e musculoso? Ao que ele responde: Oh, srta. West, vou vestir o meu roupão. E ela ensina: Não se preocupe, um pouco de propaganda é sempre bom. 

Mae estava de novo “em alta”. Com seus deliciosos e invejados 61 anos de idade. 

PREOCUPADA COM A ATUAÇÃO 

A curiosidade de público e imprensa sobre os muitos casos de amor de Mae – nunca expostos por ela publicamente – levou até uma amiga de Mae a questionar: “É verdade que você teve casos com todos aqueles homens da peça em Las Vegas?”. Ao que Mae, com aquele olhar malandro, sedutor e sempre dúbio, respondeu: “Tem coisas, garota, que nunca se perguntam a uma dama.” 

Freqüentemente convidada para programas de rádio ou TV, Mae recebeu um entrevistador de TV em seu apartamento. Era a primeira vez que abriria ao público um pouco de sua intimidade.  O apresentador e seu câmera não pouparam detalhes do apartamento onde Mae morava, bem próximo dos estúdios da Paramount. Era o apartamento típico de uma Musa Perua:  superdecorado, cor bege predominando – para realçar a figura de Mãe, que adorava roupas escuras – ,  piano de cauda,  quadros relativamente  famosos e uma cama à Luis XV, com um enorme espelho no teto. O cioso repórter perguntou do espelho. Ao que, Mae respondeu: “Gosto sempre de ver como estou me saindo”. 

Esse programa nunca foi ao ar. 

Durante sua vida, carreira no teatro, cinema e showbiz, Mae West cunhou frases e diálogos que revelaram sua deliciosa personalidade. Algumas que separei: 

– Qual é a sua altura?
– Dois metros e dezoito, respondeu o caubói.
– Vamos deixar os dois metros pra lá e tratar destes dezoito centímetros.
 

– “Claro que meu amante pode confiar em mim. Eu disse a ele que centenas já confiaram.”

“Ama o teu próximo – se ele for alto,moreno e bonitão, será muito mais fácil.”

“Uma mulher só precisa de quatro animais na vida:uma raposa no armário, um tigre na cama, um Jaguar na garagem e um burro para pagar tudo isso.” 

Isso é uma arma em seu bolso ou você está feliz por me ver. 

Já estive em mais colos do que um guardanapo. 

Encontrei homens que não sabiam como beijar. Sempre achei tempo para ensiná-los. 

“Entre dois pecados, eu escolho um que eu ainda não cometi” 

“Garotas boas vão para o céu, as más vão para todo lugar” 

“Eu mesma escrevi a história. É sobre uma menina que perdeu a reputação e jamais sentiu falta”.

 

Filmografia de Mae West 

Night After Night
She Done Him Wrong
I’m no Angel
Belle of the Nineties
Goin’ to Town
Klondie Annie
Go West Youg Man
Every Day’s a Holiday
My Little Chickadee
The Heat’s On
Myra Breckinridge
Sextette 

 

Musas do Diniz

Anna Ammirati

 

 Por Diniz Gonçalves Junior

o vento levanta a saia entreaberta
pêlos fartos implodem o tecido rendado da calcinha
pedala nos alongados campos de uma vila da itália
roçando o sexo úmido no selim
monella de olhos tímidos e pele porcelana
menina curvilínea que hipnotiza a tela

O Que É Cinema Brasileiro?

Por Rafael Ciccarini 

  

Aparentemente simples, a questão proposta pela Zingu! acaba nos colocando em maus lençóis. O que é cinema brasileiro? De saída, é impressionante como, no Brasil, muitos parecem ter, na ponta da língua, toda sorte de diagnósticos para “salvá-lo”. Como se estivesse sempre doente, cambaleante, como se fosse invariavelmente algo incompleto, deslocado, insuficiente.  

Há um prazer especial em se depreciar o cinema brasileiro. Sofisticada, culta e conhecedora do que há de melhor nas cinematografias mundiais, nossa elite cultural é sempre implacável em cravar verdades incontestáveis acerca de nossa óbvia inferioridade cinematográfica. Cinema Novo? Impostor, chato, elitista, excessivamente politizado. Chanchada? Popularesca, formulaica, ingênua, alienada. Cinema Marginal? Mal feito, avacalhado, pretensioso.  Mojica, trash. Pornochanchada? Mas o cinema brasileiro não é só  putaria? Mas não apenas mostrava favela e sertão?  E Candeias? Quem? 

Se a Embrafilme era tão e somente uma estatal corrupta e inoperante, tanto pior era a Boca, com filmes tão precários e apelativos, de tanto mau gosto. Desse jeito, nem pensar em Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Se ao menos aprendêssemos com os argentinos… quem sabe não estaríamos jogando tanto dinheiro fora, afinal, esse cinema que está aí é feito com dinheiro do meu bolso, diz nosso ultrajado contribuinte. Quando teremos de fato uma indústria cinematogáfica? Hã? A Vera Cruz? Claro que conheço. Só um segundinho… (e dá-lhe google fervendo). 

Como sabemos, não é preciso que sequer se veja os filmes ou se conheça minimamente o cinema brasileiro de ontem ou de hoje para que se possa operar o deleite da mediocridade travestida de sofisticação, da colonização mais tacanha disfarçada de cosmopolitismo. Adianta dizer que não há cinematografia no mundo que não tenha apoio (direto ou indireto) do Estado? Ou que dos cem filmes que fazemos por ano atualmente sequer um terço deles (se muito) tratam de “favela” e “sertão”?  É o caso aqui de entrarmos na questão da distribuição e exibição? Creio que não. 

Pois então, sem saber me posicionar entre as diversas formas de responder a pergunta proposital e inteligentemente traiçoeira desta distinta publicação, resolvi devolvê-la a nós todos em forma de provocação: não seria mais humilde, mais correto, mais maduro e mais inteligente se assumíssemos nossas dificuldades ao invés de encontrarmos falso repouso na mediocridade? Não é hora de sairmos da posição do que cobra para o que é cobrado? Quem sabe, talvez, atacamos dessa maneira nosso cinema porque, de alguma maneira, ainda não fomos capazes de compreendê-lo? Se não sabemos, afinal, o que é o cinema brasileiro, porque não vamos descobri-lo? 

  

Rafael Ciccarini é professor, crítico de cinema e editor do site Filmes Polvo.