Musas Eternas

 Aldine Müller: Um Convite ao Prazer…

 

Por Leonardo “Leo Radd” Freitas

  

Em se tratando dessa excelente atriz e um patrimônio do nosso cinema, foi impossível resistir ao trocadilho que dá título a esta matéria comemorativa. Pois além da beleza convidativa da atriz, sempre que ouço o nome dela a primeira imagem que me vem à mente é a clássica cena do filme Convite ao Prazer (de Walter Hugo Khouri – 1980), em que ela seduz os dois personagens principais numa cadeira de dentista. É a primeira cena erótica do filme e da mesma forma que os personagens, o espectador também é imediatamente seduzido pelo seu olhar magnético e hipnotizante… o que por si só já seria justificativa suficiente para o nome do filme. 

Foi a primeira vez que vi essa atriz na tela (quando esse filme foi exibido no SBT nos anos 80), já que eu era proibido de entrar no cinema pra assistir esses filmes devido à minha parca idade na época. O jeito era se virar com o que passava na TV mesmo, pois até a metade dos anos 80 o vídeo-cassete ainda não estava tão popularizado a ponto de chegar a todos os lares. Só depois de finalmente poder comprar um aparelho desses é que  a coisa mudou de figura e eu fui atrás de várias pornochanchadas que me eram vetadas até então. E pude rever em todo seu esplendor essa cena de Convite ao Prazer na íntegra em VHS e sem os cortes brutais da TV. 

A partir daí fui atrás de outros filmes da Aldine, já que uma das minhas maiores prioridades ao ter acesso aos filmes em VHS era rever o Convite (filme que me tornou um grande fã dessa atriz até hoje). A questão agora era outra: por onde começar? Eram tantos filmes disponíveis com a proliferação e explosão do VHS que a gente ficava bem perdido na época sempre que entrava numa locadora. E pra piorar, não tínhamos a internet pra pesquisar a filmografia das atrizes. Então, num belo dia, passeando pela locadora me deparo com um filme que trazia a Aldine nua na capa: A Fêmea do Mar (de 1981). 

É óbvio que para um adolescente em plena descoberta dos prazeres da vida e das curvas do corpo feminino, uma capa trazendo uma bela atriz pelada na praia seria um chamariz irresistível. Era como se todos os outros filmes na estante desaparecessem e ficasse apenas eu ali sozinho com a caixinha do filme na minha frente. Ao chegar em casa e botar a fita no aparelho… tive uma bela e estranha surpresa: a Aldine continuava linda, mas parecia outra pessoa com personalidade completamente diferente daquela que eu conhecia na tela. Enquanto em Convite ao Prazer ela era sedutora e decidida, em A Fêmea do Mar ela parecia mais frágil e delicada (quase uma menininha ingênua), mas não menos sedutora e enigmática. No filme, ela se envolve com um marinheiro inescrupuloso, que também tem um caso com a mãe dela (e quase acaba traçando também o irmão dela – que era apaixonado pela própria irmã), gerando uma espiral de amores doentios e impossíveis, que, é claro, acabam em tragédia, como não poderia deixar de ser diante de tanta euforia sexual e paixões proibidas. Foi aí que eu vi logo de cara a versatilidade dessa grande atriz, já que em apenas dois filmes bastante distintos entre si, ela interpretou de forma brilhante duas personagens tão opostas e ao mesmo tempo tão sedutoras e sensuais.         

A essa altura, Aldine já figurava no topo da minha lista de atrizes favoritas do nosso delicioso cinema nacional. E eu ficava atento à cada nova aparição dela nos filmes que eu assistia em VHS ou na TV (várias emissoras exibiam filmes brasileiros entre os anos 80 e início dos 90: SBT, Manchete, Guaíba, Band, etc). Entre alguns clássicos em que a atriz apareceu em papéis principais ou secundários (porém marcantes), cito e recomendo os seguintes: O Segredo das Massagistas (Antonio B, Thomé – 1977), 19 Mulheres e 1 Homem (de David Cardoso – 1977), O Prisioneiro do Sexo (outra obra-prima do mestre Walter Hugo Khouri – 1978), A Força dos Sentidos (de Jean Garrett – 1978), Uma Cama para 7 Noivas (Raffaele Rossi e José Vedovato – 1979),  Bem-Dotado – O Homem de Itu (José Miziara – 1979), Força Estranha (Pedro Mawashe – 1980), Bacanal (Antonio Meliande – 1980), O Império do Desejo (Carlos Reichenbach – 1981), Noite (Gilberto Loureiro – 1985), e Schock – Diversão Diabólica ( Jair Correia – 1986). 

Mas o melhor de todos os filmes de Aldine Müller eu ainda estava por assistir: A Mulher que Inventou o Amor (de Jean Garret – 1979). Demorei alguns bons anos até ter acesso à essa maravilha da Boca, pois apesar de já conhecer a fama desse filme, nunca o encontrei nas locadoras de vídeo e nunca passou na TV (que eu saiba). Somente há poucos anos (graças à internet), achei essa obra-prima disponível e pude constatar que era muito melhor e mais surpreendente do que eu sempre imaginei que fosse. No filme, Aldine está no auge de sua beleza e demonstra todo o seu talento em um complexo papel que alterna as diversas facetas da personalidade da personagem central. No filme ela é uma mulher obcecada com a ideia de casar, mas acaba perdendo a virgindade num açougue, e, a partir daí, cai na vida da prostituição, tornando-se famosa como a “Rainha dos Gemidos” (por gemer como ninguém durante as tórridas cenas de sexo do filme). Com belíssimas imagens e uma trama consistente que ruma pra uma tragédia grega clássica, esse filme reúne o melhor do lado sedutor de Aldine, que transborda sexualidade tanto no papel da mocinha frágil e ingênua, quanto no papel de uma prostituta forte e determinada que é uma verdadeira predadora sexual. 

Nascida em Portugal em 1953, Aldine Müller veio para o Brasil ainda na infância, onde morou no Rio Grande do Sul até se mudar pra São Paulo, aos 18 anos, e iniciando sua carreira de atriz e modelo. Com a queda e redução no ritmo de produção das pornochanchadas nos anos 80 (graças à proliferação do cinema pornô de sexo explícito), a atriz migra pra TV, onde se destaca em novelas (Sassaricando – 1987) entre outros programas da Rede Globo (Escolinha do Professor Raimundo), SBT e Record. Também foi capa da Playboy (onde fez pelo menos dois ensaios nos anos 80) e Sexy (para  qual posou em 2000). Ainda em atividade no teatro, Aldine também se dedica à causas e campanhas sociais, o que só demonstra o quanto essa atriz é uma estrela de 1ª  grandeza e merecedora do aplauso e admiração de seus fãs.   

 

Leonardo “Leo Radd” Freitas é autor do blog Submundo HQ (http://submundo-hq.blogspot.com/)

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