Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 

A guerra não acabou           

Todos sabem qual o assunto mais comentado nas últimas semanas (em matéria de cinema): muito justamente, a censura a A Serbian film: Terror sem limites. Eu também vou engrossar o coro dos que se postam contra essa lamentável ocorrência. Não vi o filme, portanto não estarei manipulando leitor algum com uma crítica apaixonada subliminarmente disfarçada de canto pela liberdade. Também não vou me postar de paladino da “democracia” e outros termos fascistóides, pois é justamente contra esses argumentos dogmáticos que me posiciono. 

Há muita coisa que me incomoda nessa história. Vou por itens. 

1)                 Ninguém que condenou/julgou/execrou o filme sequer assistiu a ele. Nenhum dos digníssimos políticos ou operadores do direito, que esbravejaram raivosos contra o “conteúdo” da fita. Eu gostaria de citar o nome de cada um desses senhores, mas eles são tão poderosos e infames que inventariam também de me cercear esta parca reclamação, se a vissem, e eu que não desejo tomar um processo por birra dessas pessoinhas. Mas nem preciso estender este ponto: não existe nada mais imbecil do que criticar algo sem saber do que se trata.

2)                 As pessoas insistem em confundir “mostrar” com “elogiar”. Se o filme tem pedofilia, incesto, necrofilia e o escambau, oras, em que parte do papo isso é necessariamente fazer apologia a tais ações? Ou “incentivá-las”, como se tem divulgado por aí? Que lógica torpe, horrenda. Então todas as narrativas sobre crimes, mortes, estupros e violências de todo tipo são elogiosas a essas atrocidades? Que perversas as mentes que veem os filmes pensando em usá-los como pretexto para praticar esses crimes, alegando que “o filme deu o exemplo”.

3)                 O comodismo de crucificar a “arte rápida” que é o cinema. A literatura pode ser a mais underground e extrema possível, mas é o cinema que é perseguido, pois é só ele que chega até esses boçais de tesoura na mão. E eles não conseguem entender que existem filmes de crítica, filmes melancólicos, filmes de todo tipo — pois querem, é evidente, que tudo seja uma pasteurizada novelinha feliz que não critique as podridões e mazelas sociais, situações de que esses crápulas se beneficiam.

4)                 Essa crença (ou antes alegação) que o filme vai ser imitado pelos espectadores só não é mais absurda que mentirosa. Ou hipocrisia das grossas (o que acaba sendo o mesmo). Custa nada fazer um rebuliço todo em torno de um filme independente sérvio, com seu “baixo alcance”, quando o Anticristo de Lars von Trier passou alegremente (e com ótima crítica) pelas salas brasileiras, sem ninguém ouvir falar de alguma espectadora que decidiu mutilar seu clitóris porque viu na tela do cinema e se sentiu compelida a copiar. É questão de influência, máfia, jogos de interesse.

5)                 Os defensores da “moral”, da “família” e “cidadãos de bem” em geral tiveram em A serbian film um farto material para destilarem seus preconceitos e ignorâncias, e não me admiraria que isso desviasse qualquer possível mérito do filme (ou análise mais séria, também para criticar negativamente), a exemplo do que aconteceu com obras como Pretty baby, hoje tido por muitos como bibelô pedofílico, e Showgirls, considerado um softcore melodramático de baixa categoria. 

Eu só espero que não ocorra o que acontece com Amor, estranho amor, filme marginalizado pela fama ridícula que criaram na última década (a saber: o “filme pornô” ou “de sacanagem” de uma apresentadora) e censurado covardemente por uma de suas intérpretes. Mas tanta propaganda talvez acabe é beneficiando A serbian film. Veremos.

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