Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 

A guerra não acabou           

Todos sabem qual o assunto mais comentado nas últimas semanas (em matéria de cinema): muito justamente, a censura a A Serbian film: Terror sem limites. Eu também vou engrossar o coro dos que se postam contra essa lamentável ocorrência. Não vi o filme, portanto não estarei manipulando leitor algum com uma crítica apaixonada subliminarmente disfarçada de canto pela liberdade. Também não vou me postar de paladino da “democracia” e outros termos fascistóides, pois é justamente contra esses argumentos dogmáticos que me posiciono. 

Há muita coisa que me incomoda nessa história. Vou por itens. 

1)                 Ninguém que condenou/julgou/execrou o filme sequer assistiu a ele. Nenhum dos digníssimos políticos ou operadores do direito, que esbravejaram raivosos contra o “conteúdo” da fita. Eu gostaria de citar o nome de cada um desses senhores, mas eles são tão poderosos e infames que inventariam também de me cercear esta parca reclamação, se a vissem, e eu que não desejo tomar um processo por birra dessas pessoinhas. Mas nem preciso estender este ponto: não existe nada mais imbecil do que criticar algo sem saber do que se trata.

2)                 As pessoas insistem em confundir “mostrar” com “elogiar”. Se o filme tem pedofilia, incesto, necrofilia e o escambau, oras, em que parte do papo isso é necessariamente fazer apologia a tais ações? Ou “incentivá-las”, como se tem divulgado por aí? Que lógica torpe, horrenda. Então todas as narrativas sobre crimes, mortes, estupros e violências de todo tipo são elogiosas a essas atrocidades? Que perversas as mentes que veem os filmes pensando em usá-los como pretexto para praticar esses crimes, alegando que “o filme deu o exemplo”.

3)                 O comodismo de crucificar a “arte rápida” que é o cinema. A literatura pode ser a mais underground e extrema possível, mas é o cinema que é perseguido, pois é só ele que chega até esses boçais de tesoura na mão. E eles não conseguem entender que existem filmes de crítica, filmes melancólicos, filmes de todo tipo — pois querem, é evidente, que tudo seja uma pasteurizada novelinha feliz que não critique as podridões e mazelas sociais, situações de que esses crápulas se beneficiam.

4)                 Essa crença (ou antes alegação) que o filme vai ser imitado pelos espectadores só não é mais absurda que mentirosa. Ou hipocrisia das grossas (o que acaba sendo o mesmo). Custa nada fazer um rebuliço todo em torno de um filme independente sérvio, com seu “baixo alcance”, quando o Anticristo de Lars von Trier passou alegremente (e com ótima crítica) pelas salas brasileiras, sem ninguém ouvir falar de alguma espectadora que decidiu mutilar seu clitóris porque viu na tela do cinema e se sentiu compelida a copiar. É questão de influência, máfia, jogos de interesse.

5)                 Os defensores da “moral”, da “família” e “cidadãos de bem” em geral tiveram em A serbian film um farto material para destilarem seus preconceitos e ignorâncias, e não me admiraria que isso desviasse qualquer possível mérito do filme (ou análise mais séria, também para criticar negativamente), a exemplo do que aconteceu com obras como Pretty baby, hoje tido por muitos como bibelô pedofílico, e Showgirls, considerado um softcore melodramático de baixa categoria. 

Eu só espero que não ocorra o que acontece com Amor, estranho amor, filme marginalizado pela fama ridícula que criaram na última década (a saber: o “filme pornô” ou “de sacanagem” de uma apresentadora) e censurado covardemente por uma de suas intérpretes. Mas tanta propaganda talvez acabe é beneficiando A serbian film. Veremos.

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Filme-Farol

Por Daniel Salomão Roque

À Meia-Noite Levarei sua Alma
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1964.
 

Em algum momento na segunda metade da década de 60, minha avó, então aspirante a atriz e mãe de duas adolescentes, participou de um teste com José Mojica Marins, e de lá saiu surpreendida – o barbudo de unhas compridas, quem diria, era um gentleman

Seu espanto, embora carregasse uma boa dose de inocência, era plenamente compreensível: três filmes, um programa de televisão, um gibi bimestral, além de muito carisma e publicidade, haviam conferido ao personagem Zé do Caixão uma popularidade inacreditável. As platéias, hipnotizadas pela figura exótica do coveiro, tomavam a ilusão por realidade e logo trataram de fundir criador e criatura num único ser. Mojica, muito espertamente, capitalizava a histeria coletiva mediante aparições midiáticas e processos seletivos pra lá de bizarros, onde os rapazes eram eletrocutados e insetos peçonhentos transitavam pelos corpos seminus das mulheres. 

Teria minha avó se submetido a isso? Os pormenores do teste nunca foram revelados a mim, em parte pela injustificada vergonha que ela sente ao relembrar esse trecho de sua vida. De uma coisa, porém, tenho a mais absoluta certeza: naquele mesmo dia, uma perplexidade ainda mais avassaladora a teria atingido caso profetizasse que, três décadas mais tarde, um dos seus sete netos teria a vida revolucionada por aquele homem. 

Lembro-me muito bem da primeira ocasião em que de fato travei contato com a figura de Zé do Caixão: foi em 1995, aos nove anos de idade, manuseando um fascículo da coleção 1000 que Fizeram 100 Anos de Cinema, lançada pela revista Istoé em comemoração ao centenário da primeira projeção de imagens em movimento. Até então, só o que sabia a seu respeito era o que me falavam os adultos e, a julgar pelas asneiras que saíam de suas bocas, Zé do Caixão era uma espécie de exu, lenda urbana ou entidade folclórica sobrenatural. Passados trinta anos, a linha que separava criador e personagem ainda era tênue – foi um susto saber que, de certo modo, ambos existiam. 

O episódio, contudo, não bastou para despertar em mim a curiosidade pela obra de Mojica. Durante toda a infância e metade da adolescência, os quadrinhos foram minha única paixão. Diante da enorme diversidade de traços e palavras proporcionada pelos gibis, os filmes me pareciam monótonos, anódinos e inofensivos – pelo menos aqueles que meu pai trazia da videolocadora, os quais eu, ingenuamente, julgava serem os únicos que o mundo havia produzido. 

Porém, beirando os quinze anos de idade, algo dentro de mim havia mudado. O simples ato de ler gibis já não me satisfazia; agora eu também queria saber de onde surgiam aquelas histórias, o contexto em que se desenvolviam, quem eram os artistas responsáveis pela sua criação. Foi então que ganhei de presente A História das Histórias em Quadrinhos, um livro do Álvaro de Moya que, a despeito de sua superficialidade, despertou-me para as muitas conexões entre as HQs e o cinema, sendo, portanto, uma obra de extrema importância para minha formação: lá, soube da existência de Welles, Ford, Eisenstein, Resnais, Godard e Fellini, só para citar alguns nomes. O volume também fazia uma rápida menção à revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão, que trazia o personagem como anfitrião de histórias macabras roteirizadas por Lucchetti e desenhadas por Nico Rosso.   

Nascia ali meu interesse pelo cinema. De uma forma ou outra, os filmes me pareciam essenciais para o pleno entendimento da linguagem dos quadrinhos; Mojica, por sua vez, era a um só tempo cineasta e, como eu tinha acabado de descobrir, personagem de HQs, tendo sido, por esse motivo, escolhido por mim como pontapé inicial das minhas aventuras pelo universo cinematográfico. No final de semana seguinte, juntei meus poucos trocados e varri a Avenida Paulista, a Rua Augusta e o centro velho de São Paulo em busca de seus filmes. Foi uma tarefa árdua: a coleção da Cinemagia havia sido lançada há pouco tempo, mas ainda não tínhamos DVD player em casa, e as antigas edições em VHS eram bastante raras. Com as pernas cansadas, as costas transpirando e os dedos escurecidos pelo pó de dezenas de prateleiras, eu estava prestes a desistir. Eis que, abruptamente, nos cantos de uma lojinha qualquer, apareceu diante de mim uma velha fita em cuja lombada se lia, em letras garrafais: À Meia-Noite Levarei sua Alma

Desnecessário dizer que o filme rompia com tudo o que eu já havia assistido antes. À Meia-Noite Levarei sua Alma era uma obra movida pelo choque, descontinuidade e invenção, aparentemente editada dentro de um açougue. Seus cortes eram bruscos; os close-ups, extremos; os planos, ora longos, ora curtos; os ângulos, sempre insólitos. Em termos estéticos, eu só encontrava precedentes nos gibis da EC Comics, que, a julgar pelo prólogo, no qual uma bruxa amaldiçoa a platéia, também eram lidos por Mojica. Ainda assim, a semelhança era vaga, difusa; não apenas por se tratar de outra mídia, de um suporte distinto, mas sobretudo pela originalidade da fita, uma jóia rara onde a cultura pop se cruzava com a metalinguagem, o folclore brasileiro, a crítica social e alguns sentimentos anti-religiosos que carrego desde pequeno. 

Mas, afinal de contas, como classificá-lo? Eu não sabia e, dez anos depois, continuo sem saber. Trata-se, sem a menor sombra de dúvidas, de uma narrativa pertencente ao gênero terror; todavia, seu teor visceral e instintivo foge a qualquer tentativa de rotulação – ele é sangue, suor, transgressão e criatividade… para mim, isso basta. Mais do que o primeiro filme brasileiro a chamar minha atenção, À Meia-Noite Levarei sua Alma foi a obra que fez de mim um cinéfilo. Naquele fatídico sábado, ao terminar de assisti-lo, percebi que a idéia de se conhecer o cinema para entender melhor os quadrinhos era, na realidade, completamente estúpida: a linguagem cinematográfica era fascinante por si mesma, e a prova disso estava bem ali, dentro do meu videocassete.

Musas Eternas

MAE WEST

 

Por Edu Jancz 

Sensual, irreverente, dona do seu destino 

Nenhum compêndio comprova, mas, provavelmente, a palavra Musa – estilo Perua – começou a ser esculpida no dia 17 de agosto de 1893. 

Nascia Mary Jane, filha de Matilda e John. Para os íntimos: Mae West. E foram muitos os íntimos. 

Desde pequena,  Mary “torceu o pepino” e mudou o texto original. Chamada pelos pais e amigos de May, deixou claro que o correto era Mae. E explicou: o “Y” é para baixo e o “E” é para cima. 

Esse dia marcou a vinda daquela que seria chamada “a mulher mais sexy do século”. A mulher que daria “o pontapé inicial” para a emancipação feminina, no campo social,  pessoal e principalmente sexual. 

O pai de Mae, John, tinha sido lutador de boxe e sempre levava sua pequena garota ao ginásio onde seus amigos treinavam. Dizem que foi já a partir daí, que  Mae  West  passou a se interessar por homens musculosos. 

Com sete anos, a mãe de Mae inscreveu a filha num concurso de canto. Mae recebeu a letra da música que ia cantar, não gostou de algumas palavras, trocou o texto e ganhou vários prêmios. 

Desde pequena,  Mae  freqüentou e atuou no vaudeville (teatro de revista)  A malícia estava no ar e nos textos, e a adolescente Mae sentiu que estava em casa.  Mae viajava muito, tinha problemas com os pais. Fácil de resolver, pensou: casou com Frank Wallace, um ator da companhia, ele com 17 anos. 

Com irreverência e descontração fora dos padrões da época, Mae fazia grande sucesso no vaudeville. Além de interpretar papéis “apimentados”, sempre explorando a sensualidade e o sarcasmo, ela criava esquetes só para ela e escrevia  todas as suas falas, sempre com forte conteúdo erótico. Em 1911, faturava 350 dólares por semana. Mae sempre “tomou o futuro” em suas mãos , buscando a carreira que pretendia ter, além de uma imagem marcante que aperfeiçoava espetáculo a espetáculo. 

SEX 

O impressionante sucesso no vaudeville não bastava. Mae queria mais. Sempre mais. Ela escreveu sua primeira peça, quebrando mais um tabu, pois esse universo – a dramaturgia –era dominada por homens. A peça era sobre uma prostituta de “coração mole”, chamada Marge L´amour. Mae usou um pseudônimo: Jane Mast. O primeiro nome sugerido para a peça: O Albatroz.

Albatroz? Nem pensar. A peça vai se chamar SEX,  decretou Mae. 

Vamos nos situar. O ano é 1926. A palavra SEX numa tinha aparecido impressa em local público. Pior foi quando Mae exigiu que SEX enfeitasse a entrada do teatro com um letreiro luminoso. Os proprietários, claro, negaram. 

Entre a platéia que lotou o teatro, muitos policiais. Assim que as cortinas baixaram, Mae foi presa. Passou 10 dias na cadeia. Dizem que sempre jantava com os guarda. Ao sair, teve que pagar multa de 500 dólares por “corromper a moral dos jovens”. 

Mae pagou com um sorriso nos lábios. Finalmente, sabia: tinha encontrado o caminho, a face e o espírito da verdadeira Mae West. 

SEX deu buchicho, trouxe dinheiro extra para a propaganda da peça e fez de Mae uma personalidade. 

Sem perder um minuto,  Mae “colocou mais lenha na fogueira”. Aproveitando a fama (de sensual, mulher de vários amantes) que trazia de suas interpretações no vaudeville, gravou discos com músicas de cabaré. A esperta e talentosa Mae ronronava como uma “gata mansa”, e público ouvia e sentia que ela  “tinha vivido tudo o que cantava”. 

DIAMOND LIL 

Sempre disposta a se superar,  Mae West escreveu em 1928 a peça que tornou-se a sua marca registrada: Diamond Lil. A ação se passava em 1890, num bairro pobre de Nova York e contava a história de uma “bem sucedida” mulher de negócios. Lil tinha, também, um coração de ouro e muitos diamantes presenteados por seus admiradores. Qualquer semelhança com SEX, ou com a própria Mae, não era mera coincidência. 

Em Diamond Lil, produzida por Mae, ela cunhou uma das suas famosas frases: “Venha me visitar uma hora dessas.” 

Com Diamond Lil, finalmente,  Mae chegou à Broadway. A peça foi encenada 176 vezes. Fez turnês por vários estados e permaneceu em cartaz nos próximos 30 anos. 

Com o sucesso, assédio dos fãs e da imprensa, a vida sexual de Mae sempre foi um “prato” disputado com ardor. Disseram que ela era amante de um gangster;  que em sua cama passou o músico Duke Ellington. Ele, negro. Ela, branquela.  Discreta, discretíssima em relação à sua vida pessoal, Mae calou a boca de uma imprensa afoita e preconceituosa dizendo: “Não sou um símbolo sexual. Sou uma personalidade sexual.” 

O CINEMA 

Era um sonho, mas Mãe esnobou por bom tempo o cinema sonoro. Ao primeiro convite da poderosa Paramount, ela disse um  cínico: “Vou pensar”.

No ano de 1932, a Paramount lhe recebeu de braços abertos. Em seu primeiro filme, Night After Night acontece outro dos  célebres diálogos de Mae . Quando a sua personagem, uma garota de programa,  chega ao hotel onde está hospedada, a recepcionista vê as jóias que ela exibe e exclama: “Deus, belos diamantes!”. Ao que, imediatamente, Mae responde: “Deus não teve nada a ver com isso”. 

Outro momento delirante. Uma amiga de profissão pergunta a Mae: “Você acredita em amor à primeira vista?”. E Mae: “Não sei, mas economiza muito tempo.” 

Na tela, além de liberal, sensual e sempre independente, Mae parecia um mulherão. Na verdade, tinha 1,52m de altura, que ela, como boa perua, compensava com um salto de 18 cm. 

Os dois primeiros filmes de Mae  – Night After Night e Uma Mulher para Três (She Done Him Wrong) fizeram tanto sucesso que salvaram a Paramount da falência. No terceiro filme, Nunca Fui Santa (I’m no Angel) ela voltou a trabalhar com o galã Cary Grant. 

Contam as fofocas que indo de carro para o set de filmagem, Mae pediu que o motorista parasse o carro imediatamente. E perguntou: “Quem é aquele homem? Aquele bonitão? É um homem assim que eu quero no meu próximo filme.” Assim nasceu a carreira cinematográfica de Cary Grant. Circularam boatos de um caso entre os dois…e  Mae sempre “na dela”. 

Com o sucesso dos seus filmes: homens e mulheres a adoravam. Diziam: ela representa na tela o que acontece na realidade, no dia-a-dia, no coração e nos sonhos dos seus fãs.  Mae chegou ao maior salário da época para uma estrela de cinema: 300 mil dólares por filme. 

PERSONALIDADE SEXUAL 

Definida pelo escritor F. Scott Fitgerald como uma mulher com “infinita alegria de viver”, Mae West tornou-se um símbolo da emancipação sexual das mulheres. Segundo ela, uma mulher podia ter o mesmo apetite sexual de um homem. E garantia: isto é totalmente natural. Mais: que ela – ou qualquer outra mulher – podia viver um romance fora do casamento sem ser condenada por isso. E sugeria que, as vezes, a mulher podia e devia tomar a iniciativa. Isso em 1935. Mae não era mole, não! 

A CENSURA E A VOLTA AO TEATRO 

Se o público adorava os diálogos apimentados sempre escritos por Mae em seus filmes,  , os censoras da época a detestavam. E dá-lhe “tesoura”, em nome da moral e dos bons costumes. 

Mae era de “pavio curto”. Voltou para o teatro. 

Em 1954 expandiu suas atividades. Escreveu e encenou uma peça que revolucionou o padrão de espetáculos tão freqüentes na cidade de Las Vegas. Misturando diálogos cheios de malícia, Mae se cercou de uma dúzia de homens musculosos, tipo Mister América, vestindo sumários calções, praticamente seminus.  A peça – definiu Mae – era um convite explícito para que as mulheres da platéia pudessem “comer os rapazes com os olhos”, tal qual os homens faziam com as mulheres que se apresentavam em Vegas. Mae and her Adonis! bateu recordes de bilheteria. E rendeu mais um diálogo memorável. 

Na peça, cercada de uma dúzia de homens musculosos, ela vira para um que está chegando e diz: Como vai, alto, moreno e musculoso? Ao que ele responde: Oh, srta. West, vou vestir o meu roupão. E ela ensina: Não se preocupe, um pouco de propaganda é sempre bom. 

Mae estava de novo “em alta”. Com seus deliciosos e invejados 61 anos de idade. 

PREOCUPADA COM A ATUAÇÃO 

A curiosidade de público e imprensa sobre os muitos casos de amor de Mae – nunca expostos por ela publicamente – levou até uma amiga de Mae a questionar: “É verdade que você teve casos com todos aqueles homens da peça em Las Vegas?”. Ao que Mae, com aquele olhar malandro, sedutor e sempre dúbio, respondeu: “Tem coisas, garota, que nunca se perguntam a uma dama.” 

Freqüentemente convidada para programas de rádio ou TV, Mae recebeu um entrevistador de TV em seu apartamento. Era a primeira vez que abriria ao público um pouco de sua intimidade.  O apresentador e seu câmera não pouparam detalhes do apartamento onde Mae morava, bem próximo dos estúdios da Paramount. Era o apartamento típico de uma Musa Perua:  superdecorado, cor bege predominando – para realçar a figura de Mãe, que adorava roupas escuras – ,  piano de cauda,  quadros relativamente  famosos e uma cama à Luis XV, com um enorme espelho no teto. O cioso repórter perguntou do espelho. Ao que, Mae respondeu: “Gosto sempre de ver como estou me saindo”. 

Esse programa nunca foi ao ar. 

Durante sua vida, carreira no teatro, cinema e showbiz, Mae West cunhou frases e diálogos que revelaram sua deliciosa personalidade. Algumas que separei: 

– Qual é a sua altura?
– Dois metros e dezoito, respondeu o caubói.
– Vamos deixar os dois metros pra lá e tratar destes dezoito centímetros.
 

– “Claro que meu amante pode confiar em mim. Eu disse a ele que centenas já confiaram.”

“Ama o teu próximo – se ele for alto,moreno e bonitão, será muito mais fácil.”

“Uma mulher só precisa de quatro animais na vida:uma raposa no armário, um tigre na cama, um Jaguar na garagem e um burro para pagar tudo isso.” 

Isso é uma arma em seu bolso ou você está feliz por me ver. 

Já estive em mais colos do que um guardanapo. 

Encontrei homens que não sabiam como beijar. Sempre achei tempo para ensiná-los. 

“Entre dois pecados, eu escolho um que eu ainda não cometi” 

“Garotas boas vão para o céu, as más vão para todo lugar” 

“Eu mesma escrevi a história. É sobre uma menina que perdeu a reputação e jamais sentiu falta”.

 

Filmografia de Mae West 

Night After Night
She Done Him Wrong
I’m no Angel
Belle of the Nineties
Goin’ to Town
Klondie Annie
Go West Youg Man
Every Day’s a Holiday
My Little Chickadee
The Heat’s On
Myra Breckinridge
Sextette 

 

O Que É Cinema Brasileiro?

Por Rafael Ciccarini 

  

Aparentemente simples, a questão proposta pela Zingu! acaba nos colocando em maus lençóis. O que é cinema brasileiro? De saída, é impressionante como, no Brasil, muitos parecem ter, na ponta da língua, toda sorte de diagnósticos para “salvá-lo”. Como se estivesse sempre doente, cambaleante, como se fosse invariavelmente algo incompleto, deslocado, insuficiente.  

Há um prazer especial em se depreciar o cinema brasileiro. Sofisticada, culta e conhecedora do que há de melhor nas cinematografias mundiais, nossa elite cultural é sempre implacável em cravar verdades incontestáveis acerca de nossa óbvia inferioridade cinematográfica. Cinema Novo? Impostor, chato, elitista, excessivamente politizado. Chanchada? Popularesca, formulaica, ingênua, alienada. Cinema Marginal? Mal feito, avacalhado, pretensioso.  Mojica, trash. Pornochanchada? Mas o cinema brasileiro não é só  putaria? Mas não apenas mostrava favela e sertão?  E Candeias? Quem? 

Se a Embrafilme era tão e somente uma estatal corrupta e inoperante, tanto pior era a Boca, com filmes tão precários e apelativos, de tanto mau gosto. Desse jeito, nem pensar em Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Se ao menos aprendêssemos com os argentinos… quem sabe não estaríamos jogando tanto dinheiro fora, afinal, esse cinema que está aí é feito com dinheiro do meu bolso, diz nosso ultrajado contribuinte. Quando teremos de fato uma indústria cinematogáfica? Hã? A Vera Cruz? Claro que conheço. Só um segundinho… (e dá-lhe google fervendo). 

Como sabemos, não é preciso que sequer se veja os filmes ou se conheça minimamente o cinema brasileiro de ontem ou de hoje para que se possa operar o deleite da mediocridade travestida de sofisticação, da colonização mais tacanha disfarçada de cosmopolitismo. Adianta dizer que não há cinematografia no mundo que não tenha apoio (direto ou indireto) do Estado? Ou que dos cem filmes que fazemos por ano atualmente sequer um terço deles (se muito) tratam de “favela” e “sertão”?  É o caso aqui de entrarmos na questão da distribuição e exibição? Creio que não. 

Pois então, sem saber me posicionar entre as diversas formas de responder a pergunta proposital e inteligentemente traiçoeira desta distinta publicação, resolvi devolvê-la a nós todos em forma de provocação: não seria mais humilde, mais correto, mais maduro e mais inteligente se assumíssemos nossas dificuldades ao invés de encontrarmos falso repouso na mediocridade? Não é hora de sairmos da posição do que cobra para o que é cobrado? Quem sabe, talvez, atacamos dessa maneira nosso cinema porque, de alguma maneira, ainda não fomos capazes de compreendê-lo? Se não sabemos, afinal, o que é o cinema brasileiro, porque não vamos descobri-lo? 

  

Rafael Ciccarini é professor, crítico de cinema e editor do site Filmes Polvo.

Inventário Grandes Musas da Boca

Nydia de Paula

 

Por Adilson Marcelino

Ainda que a produção da Boca do Lixo, em São Paulo, seja infinitamente maior, também no Rio de Janeiro o cinema popular fez história revelando talentos atrás e a frente das câmeras. Daí, era comum deusas que circulavam pelas duas geografias terem se tornado musas dos dois pedaços. Como a carioca Nydia de Paula.

Nydia de Paula nasceu em 28 de agosto de 1949, em  Lages do Muriaé, Rio de Janeiro – em outra fonte consta que foi em cidade vizinha.

A carreira artística começou por acaso, quando descoberta nas praias cariocas, tornando-se manequim. Um dos desfiles foi no Programa Flávio Cavalcanti, quando venceu o concurso A Garota da Capa, da Revista Cruzeiro – mas já antes dela já causou furor na capa de Fatos e Fotos.

Essa carreira de modelo fotográfico faria de Nydia de Paula uma das mulheres mais desejadas do país, pois ilustrou inúmeros calendários daqueles gigantes da Pirelli que enfeitavam dez entre dez oficinas mecânicas espalhadas pelo país e faziam a alegria dos marmanjos, além de se tornar objeto marcante do imaginário popular brasileiro.

A estreia no cinema foi em Missão: Matar, em 1972, produção carioca dirigida por Alberto Pieralisi. E é no Rio de Janeiro que Nydia de Paula vai rodar seus primeiros filmes: Tormento: A Sombra de Um Sorriso (1972), de Ozen Sermet; e Um Virgem na Praça (1973), de Roberto Machado.

Nesta época, um dos destaques em solo carioca é no interessante filme do ator e diretor Paulo Porto, As Moças Daquela Hora (1973), em que jovens vivenciam situações adversas que acabam carimbando seus passaportes para o território de uma cafetina.

A estreia de Nydia de Paula nos domínios da Boca do Lixo se dá em Como Evitar o Desquite (1973), dirigido por Konstantin Tkaczenko. Protagonizado por Roberto Bataglin e pela musa Suely Fernandes, o filme tem na trama as desavenças de um casal às voltas com a infidelidade. A atriz marca presença como a chefe da Olho por Olho, uma agência de investigações,  em que o maridão bate á porta para tentar resolver seu caso.

Nydia de Paula passa então a circular entre a produção carioca e paulista. No Rio de Janeiro atua nos filmes Os Mansos (1973), em episódio de Braz Chediak; Um Varão Entre as Mulheres (1974), de Victor di Mello; o ótimo Ainda Agarro Esta Vizinha (1974), de Pedro Carlos Róvai; Costinha e o King Mong (1977), de Alcino Diniz; O Homem de Seis Milhões de Cruzeiros Contra as Panteras (1975/78), de Luis Antonio Piá.

Já na Boca do Lixo, Nydia de Paula brilha em vários filmes, alcançando o posto de musa amada e desejada.

Em Trote dos Sádicos (1974), uma produção da Servicine dirigida por Aldir Mendes, Nydia integra a turma de veteranos que barbariza os calouros em uma universidade com trotes que vão ficando cada vez mais violentos. Já em O Supermanso (1974), encontra o cinema do grande Ary Fernandes, que já realizara a série cult O Vigilante Rodoviário e mais alguns outros tantos longas.

Nydia de Paula é um chamariz tão grande de público, que em O Sexualista (1975), de Egydio Eccio, faz apenas uma participação fazendo um strip tease, mas isso não a impede de ter destaque no cartaz do filme protagonizado por Agildo Ribeiro, Rogéria e pela musa Nadyr Fernandes.

E é o ator e cineasta Egydio Eccio que reserva um de seus melhores papéis para a atriz em O Leito da Mulher Amada (1975).

O filme em episódios Cada Um Dá o Que Tem (1975) reúne os talentos dos cineastas Adriano Stuart, John Herbert e Sílvio de Abreu nesta produção de Aníbal Massaíni Neto.

Nydia, que está belíssima, atua em Uma Grande Vocação, de Silvio de Abreu. Na trama, Ewerton de Castro está a caminho do seminário, mas antes passa um final de semana na casa de parentes. O que ele não imaginava é que cairá em um verdadeiro covil, onde circulam deusas como Suzana Gonçalves, Meiry Vieira, Matilde Mastrangi, Tânia Caldas e a própria Nydia, a priminha com quem brincava de médico quando criança e que agora abraçará sua bíblia para tentar se afastar da tentação.

1979 marca os últimos filmes de Nydia de Paula, dessa vez em títulos de dois dos mais importantes cineastas da Boca, os veteranos Carlos Coimbra e José Miziara.

Com Carlos Coimbra, Nydia atua no épico O Caçador de Esmeraldas, filme produzido por Aníbal Massaini Neto sobre a bandeira de Fernão Dias Paes Leme, interpretado por Joffre Soares. Aqui, Nydia é uma índia capturada e alçada ao posto de amante de José Dias, o filho bastardo de Fernão, interpretado por Roberto Bonfim.

Já com Miziara, faz pequena,  mas marcante participação em Nos Tempos da Vaselina, como a garota do pôster que povoa as fantasias de João Carlos Barroso, que se alivia em uma bananeira, em uma divertida associação com os delírios que atriz provocou em muita gente com seus calendários sensuais.

 

Filmografia

Missão: Matar, 1972, Alberto Pieralisi
Tormento: A Sombra de Um Sorriso, 1972, de Ozen Sermet
Um Virgem na Praça, 1973, de Roberto Machado
As Moças Daquela Hora, 1973, de Paulo Porto
Como Evitar o Desquite, 1973, de Konstantin Tkaczenko
Os Mansos, 1973, em episódio de Braz Chediak
Um Varão Entre as Mulheres, 1974, de Victor di Mello
Ainda Agarro Esta Vizinha, 1974, de Pedro Carlos Róvai
Trote de Sádicos (1974), de Aldir Mendes
O Supermanso, 1974, de Ary Fernandes
O Sexualista, 1975, de Egydio Èccio
O Leito da Mulher Amada, 1975, de Egydio Éccio
Cada Um Dá o Que Tem, 1975, em episódio de Sílvio de Abreu
Costinha e o King Mong, 1977, de Alcino Diniz
O Homem de Seis Milhões de Cruzeiros Contra as Panteras, 1975/78, de Luis Antonio Piá
O Caçador de Esmeraldas, 1979, de Carlos Coimbra
Nos Tempos da Vaselina, 1979, de José Miziara

 

Nossa Canção

Por Adilson Marcelino

ADamadoA

Todo o pecado de uma Dama

No Brasil costuma-se confundir talk show com programa jornalístico e compositor de música popular com filósofo. No primeiro exemplo estão aí nomes como Jô Soares, e no segundo craques dos versos como Chico Buarque. Jô Soares não é jornalista, e aqui não vai nenhuma defesa de reserva de mercado, assim como Chico Buarque não é filósofo.

Mas temos tantos compositores geniais, de ontem e de hoje, donos de alguns versos parecem mesmo maiores que a vida. Letras de músicas como Último Desejo, de Noel Rosa, e As Rosas Não Falam, de Cartola, parecem mesmo frutos da mais alta filosofia.

Nesse time de craques, Caetano Veloso, que politicamente anda cada vez mais chato,  é danado para compor esses versos derradeiros.  Alguns exemplos? “De perto ninguém é normal”; “meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”; “da feia fumaça que sobe apagando as estrelas”; “todo mundo quer saber com quem você se deita, nada pode prosperar”.

ADamado2-150x146O que dizer então de “a gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo”? Nu, é mesmo genial! Além de fazer espelho com o  Luis  Buñuel  de Esse Obscuro Objeto do Desejo – aliás, os títulos do gênio são um assombro, né?: O Anjo Exterminador; A Bela da Tarde; O Discreto Charme da Burguesia -, o verso cai como uma luva para a Solange de Sônia Braga em A Dama do Lotação.

Sim, estou falando de Pecado Original, a canção-tema que apresenta os letreiros de A Dama do Lotação (1978), de Neville D´Almeida, e de cara apresenta a trama em altíssimo estilo. Como se sabe, o filme é uma adaptação de umas das histórias de A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues. E também como quase todo mundo já sabe, conta as andanças de Solange, que depois de uma noite de núpcias violenta com o maridão Nuno Leal Maia, que não aguentou mais segurar o tesão e praticamente estupra a esposa, passa a rejeitar o moço e sai, em vingança, todos os dias para trepar com quem aparece pela frente – sobretudo motoristas e passageiros, já que com seu vestido vermelho torna-se a tal Dama do Lotação do título.

A Dama do Lotação é ponto alto na carreira do interessante Neville D´Almeida, que quando começou a fazer remakes ou novas adaptações, como gosta de dizer – Matou a Família e Foi ao Cinema (1991) e Navalha na Carne (1997), sucumbiu feio. Dizem que vai refilmar sua Dama, e tremo só de pensar.

Pecado Original é daquelas músicas que grudam como chiclete, mas não como as de refrão fácil que a gente cantarola mesmo sem querer. O chiclete aqui é outro, é no imaginário, pois para quem é fã absoluto do filme como eu sou – muitos não gostam, como nosso redator Gabriel Carneiro – fica quase impossível ouvi-la sem já se lembrar do filme todo.

São muitos os versos e estrofes maravilhosos:

 Todo mundo, todos os segundos do minuto/ Vivem a eternidade da maçã /
Tempo da serpente nossa irmã /  Sonho de ter uma vida sã.

Todo beijo, todo medo / Todo corpo em movimento / Está cheio de inferno e céu /
Todo santo, todo canto /Todo pranto, todo manto /Está cheio de inferno e céu /
O que fazer com o que DEUS nos deu? /O que foi que nos aconteceu?.

Todo homem, todo lobisomem / Sabe a imensidão da fome / Que tem de viver /
Todo homem sabe que essa fome / É mesmo grande / Até maior que o medo de morrer /
Mas a gente nunca sabe mesmo / Que que quer uma mulher.

Também como se sabe, A Dama do Lotação arrastou uma multidão para os cinemas e confirmou Sônia Braga como um dos maiores sexy simbols que o Brasil já produziu.

E com certeza, Pecado Original foi a trilha perfeita.