Inventário Grandes Musas da Boca

Célia Olga Benvenutti

 

Por Adilson Marcelino

Com poucos filmes no currículo, mas com atuações arrebatadoras, Célia Olga Benvenutti é uma das musas da Boca do Lixo.

Célia Olga Benvenutti começou a carreira no teatro – fez a EAD – Escola de Arte Dramática;. Durante os anos 1970 e 1980 também atua em novelas na Record, Cultura e SBT, respectivamente, Pingo de Gente (1971), de Raimundo Lopes; Vento do Mar Aberto; (1981), de Mário Prata; Jogo do Amor (1985), de Azis Bajur. Mas é no cinema que seu talento vai explodir nas telas.

O primeiro filme, A Virgem, foi dirigido por Dionísio Azevedo, em 1973. O filme é protagonizado por Nádia Lippi, que também faz sua estreia nas telas. Ela é Lenita, uma jovem que tem sua virgindade disputada no palitinho pelo namorado, interpretado por kadu Moliterno, e seus amigos.

O filme reúne uma turma de amigos que praticam os ideais de liberdade e de amor livre, conceito personificado no modo de vida dos rapazes e suas namoradas. No elenco, Nuno Leal Maia, Alexandre Rodovani e Tony Tornado, e as beldades Nadir Fernandes, Miriam Mayo e Célia Olga Benvenutti.

A interpretação luminosa de Célia Olga carimba seu passaporte para o maior papel de sua carreira, o de Lilian M. em Liliam M.: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach.

Cultuado filme de Carlão, Liliam M. ficou anos anos longe do público, até que a Lume lançou o filme na Coleção Cinema Marginal, um dos maiores acontecimentos cinematográficos dos últimos anos em termos de resgate de memória.

Incensado por gerações de críticos e de cinéfilos pelo domínio de cena de Reichenbach, que mistura vários gêneros em seu filme, Lilian M.: Relatório Confidencial possibilitou á Célia Olga Benvenutti mostrar todo o seu talento, já que é a protagonista absoluta. Na trama ela é um dona de casa que abandona o lar, o marido lavrador e os filhos para seguir um mascate, mas depois de um acidente se vê sozinha em São Paulo, onde se envolve com outros homens.

Lilian M: Relatório Confidencial fez sensação no Festival de Rotterdam, na Holanda, carimbando também a descoberta internacional do cinema de Carlos Reichenbach – o filme foi exibido também na França e na Bélgica.

Liliam M. faturou ainda o prêmio APCA de Melhor Roteiro em 1975; o Prêmio Especial de Realização – Prêmio Governador do Estado de São Paulo 1975.

Em entrevista à mítica Revista Cinema Em Close-up, bíblia dos cinéfilos dos anos 1970, Carlos Reichenbach contou que tinha abandonado o argumento de Lilian M durante anos. Quando retomou, escreveu o roteiro pensando em Joana Fomm, mas não pode contar com a atriz, que à época das filmagens estava grávida. Desestimulado, pois o filme requeria uma grande atriz, já que o filme gira em torno da personagem, pensou em abandonar novamente o projeto quando um amigo indicou o nome de Célia Olga Benvenutti. O resultado é um tour de force da atriz, neste que é um verdadeiro cult.

O que parecia ser a consagração definitiva da atriz nas telas não se confirmou, pois Célia Olga atua somente em mais três filmes, todos eles realizados na década de 80.

Por que as Mulheres Devoram os Machos é uma produção paulista de 1980, dirigida por Allan Pek, em três espisódios, reunindo as beldades Vera Gimenez, Ana Maria Kreisler e Célia Olga.

O Gosto do Pecado reúne alguns dos nomes mais talentosos da Boca do Lixo: Cládio Cunha na direção; Inácio Araújo na assistência de direção; Carlos Reichenbach na fotografia e na câmera; Cunha, Araújo e Jean Garret no roteiro. No filme, Célia Olga Benvenutti é uma das clientes do protagonista, o advogado Julio Garcia, interpretado por Jardel Mello.

E Por fim, Célia Olga Benvenutti atua em As Meninas de Madame Laura, único filme dirigido pelo produtor mineiro radicado na Boca, Ciro Carpentieri.

 

Filmografia


 A Virgem (1973), de Dionísio de Azevedo
 Lilian M.: Relatório Confidencia (1974/75)l, de Carlos Reichenbach
 Por que as Mulheres Devoram os Machos (1980), de José Alexandre
 O Gosto do Pecado (1980), de Cláudio Cunha
 As Meninas de Madame Laura (1981), de Ciro Carpentieri Filho

 

Musas Eternas

Odete Lara

Por Donny Correia

“A primeira vez que vi Odete…”

Mulheres são eternos mistérios, sabemos. No entanto, quando cercadas pelo quadrilátero da tela de cinema, em primeiro plano, ou num acintoso close-up, seus mistérios podem contribuir tanto para a ascensão, quanto para a queda do mito que as permeiam, caso não tenham o timing para usarem de seus predicados.

Não é o caso desta figura que pairou as películas brasileiras por quase 40 anos e deixou sua marca de musa intocável e inacessível aos deleites mundanos dos homens (e certamente de umas tantas outras mulheres).

A primeira vez que vi Odete Lara, eu não tinha mais do que uns 13 ou 14 anos. Uma cena muito bem filmada para os padrões da época. Tratava-se de um plongé da atriz, que, de braços abertos, balançava o cabelo com bastante charme e cantava uma canção triste de amor. Esta cena em questão fora pinçada de um dos últimos filmes realizados pela Atlântida, para o documentário sobre a produtora, realizado por Carlos Manga em 1973 (Assim Era a Atlântida). À época do filme pinçado, Odete estava apenas começando no cinema, mas já trazia bagagem da TV.

Hoje, refletindo sobre ela para escrever estas linhas, percebo que na minha avidez como colecionador do cinema nacional desde muito cedo, ela foi a figura feminina mais marcante, mesmo quando colocada ao lado de ícones mais apelativos como Norma Bengell, Lyris Castellani, Leila Diniz e tantas outras que despontaram nos primórdios dos sex-symbols nacionais.

Explico: Odete Lara, nascida Odete Righi, em 17 de abril de 1929, em São Paulo, construiu ao longo de tantos papéis a imagem mítica da mulher intocável, mesmo quando interpretando personagens tão mundanos e palpáveis, como D. Guigi em Boca de Ouro (1963), de Nelson Pereira dos Santos. Não sei dizer onde exatamente reside esta aura, mas consigo identificar pelo menos três papéis de filmes tão distintos, que se complementam para consolidá-la no hall das Deusas.

Em 1957, Odete estrela Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte em sua estréia como diretor. Personagem dos mais usais para uma mulher de sua beleza, num filme um tanto quanto comum, para a bagagem do diretor. Interpretando um papel homônimo, ela é a namorada no vilão, colocada por este crápula manipulador vivido por Aurélio Teixeira na vida do herói da fita (o próprio Anselmo, claro!) para tentá-lo e manipulá-lo usando para isso os mais baixos golpes de sedução, de maneira que consiga se apossar do dinheiro que ele irá ganhar num programa de TV. Com a ruína do plano maligno, Odete se vê sem o vilão (agora preso), sem o dinheiro (que de fato ficou com nosso herói), e sem o herói (redimido nos braços da mocinha, que sempre amou). No entanto vai embora carregando consigo um ar de incólume, inabalável pela ingenuidade do mundo daqueles dias e do enredo feito à medida do espectador chanchadeiro. NOTA: O número musical cantado no filme por Odete é desnecessário, já que sua sensual voz grave não serve para cantar meras marchinhas de letra fácil e pegajoza. Se toca Anselmo!

Em Noite Vazia, obra-prima de Walter Hugo Khouri, aquela mulher assolada pelas tramas redondinhas a que a vida nas chanchadas esta submetida (leia-se: o bem sempre vence o mal), ressurge na terrível São Paulo de 1964 na pele de Regina, agora prostituta de luxo que, junto de Norma Bengell vivendo Mara, cai nas garras de dois típicos misóginos (Mário Benvenutti e Gabriele Tinti) em busca de farras intermináveis. Aqui Odete é a mulher que se tornou fria pela falta de oportunidades melhores, que é pragmática no exercício de suas funções, ao contrário de sua frágil amiga. Em seu papel, Odete não titubeia em deixar claro que negócios são negócios e que homem nenhum a passa para trás. Nevermore!. Nem mesmo uma possível transa lésbica para deleite de seus clientes a faz sair deste corporativismo da carne. Infelizmente para nós, espectadores, a cena não se consuma porque a amiga, Mara, refuga na hora H. Mas tudo bem! Khouri não nos daria mais que seus belos olhos e boca bem desenhada insinuando um ato sexual muito bem enquadrado. Aliás, é aí que a personalidade intocável de Odete aflora. Ao contrário de Norma Bengell, Odete Lara nunca é mostrada com os seios nus, ou em planos abertos quando despida. Sobre isso recai a ânsia de queremos desvendar esta atriz-personagem tão instigante congelada pelos percalços da vida (agora real até de mais) numa cidade cada vez mais vertical e vertiginosa. Queremos tocá-la com olhar atento, mas o corvo diz: Nevermore!

Se primeiro a vida era ingênua e depois dura demais, em O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), dirigido por Glauber Rocha (também mito, porém alocado num outro departamento do panteão do cinema), a vida se torna sonho, pesadelo, delírio, êxtase, arquétipo, miragem, e todos os outros adjetivos que possam remeter ao “inusitado” e que o leitor sinta-se impelido a usar.

A mulher antes lançada ao acaso de suas poucas oportunidades, que precisava dispor da sedução, e que depois se tornou prostituta de pedra quente e macia, agora se torna Laura. “Odete Regina Laura” é a síntese da imagem de Odete Lara, que encarna a esposa oportunista de um coronel cego, velho e mesquinho (Joffre Soares), “rei” num vilarejo do sertão baiano. Esta Laura é o último estágio da personagem intocável que envolve Odete Lara. Seu “trem para as estrelas”. Nunca sabemos, ao longo do filme, se o que vemos é uma simples mulher desgostosa com a vida, ávida por beber até o último gole de sua própria beleza e juventude ao lado de Hugo Carvana, que aqui vive o secretário do coronel, ou um fantasma que nos surge a todo momento como a fonte de um prazer do qual jamais desfrutaremos.

É nesse papel polifônico que Odete consolida sua imagem de beleza inalcançável ao mundano, ao toque terreno de mãos poluídas pelo cotidiano medíocre. Com Laura, Odete Lara paira para fora da tela e vem acariciar atormentada nossos traumas e nossas consternações diante do mundo real onde fomos aprisionados. Sentimos sua carícia terrível (e por que não dizer mórbida?) em nossas retinas. Odete Lara já não pertence ao reino do palpável. Desperta a lascívia dos homens mesmo depois de morta no fim do filme. O anjo nasceu! NOTA: Se marchinhas não combinam com a voz de Odete, o mesmo não se pode dizer da letra de Carinhoso, deslizando doce por seus lábios afora, a certa altura da estória. Carvana, cala a boca e deixa o anjo cantar!

Outras mulheres passaram pela pele de Odete Lara, mas esta trinca que escolhi traduz a imagem que ficou na minha memória. Começo, meio e fim.

Odete Lara retirou-se de cena antes que o tempo e a TV de massa corroessem sua deidade, para se isolar no campo, como se este mundo não tivesse o direito de dizê-la sua. Nem mesmo o constrangedor roteiro (roteiro?) escrito e dirigido (se é que se pode dizer assim) por Ana Maria Magalhães em 2002, sob o título de Lara, supostamente sua cinebiografia, conseguiu trazê-la ao chão que nós, ínfimos e mortais cinéfilos, habitamos.

Quanto dura um mito?

Eternamente, se ele souber surgir no momento certo… e souber desaparecer quando vir que já espalhou sua magia.

Donny Correia, 1980, é paulista. Poeta e cineasta, publicou O eco do espelho (2005) e Balletmanco (2009). Teve seu curta-metragem Totem (2010) selecionado para a 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. É graduado em Letras – tradutor e intérprete, e pós-graduando pelo Instituto de Artes da UNESP e pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Atualmente, é gerente geral da Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.

Musas do Diniz

Tammy di Calafiori

 

Por Diniz Gonçalves Junior

 

 

retina tingida de mar
levita leve na tela
lábio carmim morde
maçã molhada
delírio dos meninos
de sonhos embalsamados

Reflexos em Película

As últimas sessões de cinema

Por Filipe Chamy

Há algumas semanas, o assunto mais discutido entre os cinéfilos paulistanos não era nenhum filme, diretor ou coisa do tipo, mas sim o fechamento de um cinema bastante tradicional, o Belas Artes. Organizaram passeatas, divulgaram via internet movimentos de protesto, petições pedindo o tombamento do edifício e outras mil medidas para segurar a vida do edifício.

Evitar que se repita a história de Cinema Paradiso é sem dúvida nobre, mas por que não houve essa comoção toda quando os cinemas também clássicos Top Cine e Gemini fecharam suas portas na mesma São Paulo tão “engajada”? Parece que há um certo estardalhaço em torno não de um cinema, mas de um determinado modo de vida.

Pois vejamos: o Belas Artes era conhecido principalmente por sua peculiar ideia de fazer um “Noitão”, evento em que filmes eram exibidos de madrugada, seguidos por confraternizações, cafés da manhã e todo tipo de entrosamento. Mas eu pergunto: e o cinema? Não sou radical e nem extremista, mas na verdade o que isso representa enquanto uma experiência de cinefilia? Isso está mais para uma festa, um encontro social, e aí não dá para entender bem por que milhares de pessoas se dizem carentes agora que o cinema fechou, já que filmes eram o que menos lhes interessava.

Tempos atrás, a Zingu! fez um Dossiê Marabá, sobre o destino desse célebre cinema e sua luta para ressuscitar repaginado como um multiplex. Se parece triste que um espaço de tradição cinematográfica vire uma vitrine de blockbusters, não dá muito para se surpreender: o público valoriza cada vez mais a experiência de se reunir ou festejar ou mesmo simplesmente sair do que a experiência propriamente dita de ir a um cinema, sentar-se e ficar durante duas horas imerso em mundos tão diferentes do seu.

O caso Marabá é bem sintomático do que vai acontecer em breve, com todos os filmes menos “espetaculosos” resumidos em um gueto, e cinemas, de rua ou de shoppings, exibindo apenas essas fitas em que os sentidos físicos do espectador são postos à prova. E o cinema, enquanto espaço, cada vez mais perderá a condição de “templo” e virará uma boate, um local para se divertir com os amigos, parque urbano onde os filmes a serem exibidos serão o brinde (ou a sobremesa, nunca o prato principal).

Então quando vemos esse debate todo sobre o Belas Artes é preciso que se perceba que o cinema é a última coisa que se discute. Ninguém quer saber dos filmes, ninguém se importa com eles. Porque outros cinemas fecharam e fecharão porque o público os abandonou, mesmo com boa programação, preço, acesso. O caso do Belas Artes não é para ser louvado como uma guerrilha de resistência, mas como uma tentativa de manter um estilo de comportamento que nada tem a ver com filmes ou cinema.

Nos últimos dias desse cinema, comportamentos dos mais diversos foram observados: pessoas se acotovelavam em grandes filas para assistir às últimas sessões especiais programadas pela casa para a exibição de filmes clássicos; gente se lamentava na bombonière — outro sinal de que cinema era só uma moldura desse quadro — sobre o iminente fim daquele espaço; ambulantes e outros particulares graciosos resolveram ganhar os seus cobres vendendo improvisados souvenirs, camisetas estilo “estive no Belas Artes em seu fechamento e lembrei de você”.

Mas são essas mesmas pessoas que dia após dia deixam a Cinemateca às moscas, não prestigiam as mostras e retrospectivas dos centros culturais e resumem sua experiência de ver filmes à televisão e aos “baixamentos” de mil coisas virtuais. Então é hora de tentar reverter a coisa e fazer do fim do Belas Artes um caminho de esperança para a cinefilia.

Nossa Canção

Romance, de Sérgio Bianchi

Por Heitor Augusto

A primeira música num filme a grudar na minha cabeça e resistir em me abandonar é Perseguição & O Sertão Vai Virar Mar, que Sérgio Ricardo escreveu para as imagens de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Quando criança, me sentia nas costas de um cavalo disparando tiros inocentes de uma velha espingarda dentro de um faroeste.

Um menino aventureiro que não sabia o que tiros causavam nas pessoas, muito menos entendia quem era o tal do Corisco, o que significava “mais fortes são os poderes do povo!” ou entendia bulhufas de narrativa alegórica. Mas um apaixonado pelo violão rasgado, a voz desavergonhada do cantor e as imagens do filme. Tudo junto a despertar um primitivo sentimento aventureiro. Adoraria descrever por horas todos os sentimentos que esta canção me despertou quando criança e ainda desperta agora já adulto. Mas, para esta coluna Nossa Canção, prefiro atirar no escuro e falar de uma trilha que não anda de boca em boca com tanta frequência. Por isso, a opção pelo trabalho do Grupo Chance para o Romance que Sergio Bianchi fez em 1988.

Não posso afirmar que é o melhor filme do Bianchi, mas é certamente sua obra que mais me emociona. A desesperança dos dois personagens que perdem o rumo após a morte de um intelectual de esquerda mitológico – Antônio César – contamina as estranhas. As músicas, ou melhor, comentários musicais, que o Grupo Chance fez para o filme criam uma atmosfera de labirinto, uma falta de rumo que invariavelmente vai levar à desilusão. Representação perfeita da prisão humana por meio da música.

Num filme de um cineasta tão direto e duro, os comentários musicais colocam mais espaços de indefinição, ruídos, perguntas e dores, elementos que contrastam com a câmera-faca de Bianchi, roubando o título de João Luiz Vieira no livro sobre o cineasta lançado em 2004.

Romance começa com Antônio Cesar, o morto, denunciado, por meio de imagens de arquivo, a miséria brasileira e os poderes constituídos, num discurso muito duro. Em seguida, uma sequência de seu enterro com personagens comentando – e Bianchi, invisível, satirizando por trás deles – o quão importante o militante era para a esquerda. Logo após, novamente uma afirmação retumbante do morto de presença tão viva.

Enquanto essas cenas remetem a ideias palpáveis, a música de cantos agudos e confusos do Grupo Chance nos coloca em outro registro. É tudo tão literal mesmo? Quem é de fato este Antônio César cheio de frases polêmicas? Por que se armou este circo em torno da morte do intelectual? E essa mulher com cara de aproveitadora que está ao seu lado na entrevista? Questões que os comentários musicais ajudam a instigar.

Após essa abertura, a mesma mulher – que descobriremos ser uma das companheiras de Antônio Cesar – está vestida de preto com a mão mergulhada em tinta preta. Frente a uma parede branca, traça linhas descoordenadas ao som de sintetizadores e distorções. Linda sequência! Fernanda (mais à frente saberemos seu nome) está sem rumo num filme que decreta a falência dos ideais de libertação sexual dos anos 1960 e 70. Mais do que isso: Romance olha para o Brasil de 1988 e decreta a falência do próprio país.

Desesperançoso em cada take, o filme ainda encontra espaço para fazer seu comentário mais poderoso: a falta de liberdade que a Aids trouxe, especialmente aos gays. Numa sequência absolutamente cadavérica, André (Hugo Della Santa) – que também fora companheiro de Antônio Carlos – anda pela escuridão da cidade à procura de sexo rápido e fugaz com o primeiro estranho que lhe atrair.

Mas ele não pode: Antônio Cesar morreu de Aids numa época que predominava a ignorância acerca da doença. André pode estar contaminado também e seria imprudente arriscar (triste curiosidade: Hugo Della Santa morreu no ano do lançamento do filme por causa da… Aids!). Ele vive uma dupla prisão: a de esconder publicamente a homossexualidade e de não poder extravasar seu desejo nem no mais obscuro canto da cidade. Como ser humano, ele está falido, como quase todos os personagens de Romance.

Nesses momentos, Bianchi captura racionalmente o espírito desiludido de uma época, enquanto os comentários musicais do Grupo Chance se encarregam de penetrar no fundo do peito e rasgá-lo sem dó, nos invadindo de uma tristeza absoluta.

Heitor Augusto é repórter e crítico de cinema. Atualmente, colabora com o Cineclick, no qual faz cobertura dos principais festivais no Brasil, escreve sobre os lançamentos do circuito e mantém a coluna mensal Clássico do DVD. Mantém, desde 2008, o blog Urso de Lata. Colaborou para a Agência Carta Maior e Revista de CINEMA.

O Que É Cinema Brasileiro?

Por Daniel Caetano

 

A pergunta parece fácil, mas não é. Brasileiro é o sujeito que nasce no Brasil ou adquire cidadania, mas o que define a cidadania de um filme? Os atores, a locação, o diretor-autor, a empresa produtora ou a fonte de financiamento? Não sei, juro que não sei, mas não queria deixar a questão sem resposta. E olha que só falei do adjetivo. O que é cinema, então é uma pergunta cada vez mais difícil de responder com dados objetivos, embora tanta gente tenha convicção de saber. Talvez cinema seja como o jazz segundo o Louis Armstrong: se você precisa perguntar, nunca vai saber. Não sei se eu vou saber responder, mas tudo bem, porque não costumo perguntar.

Mas há, no entanto, aquela velha história de que é fácil sair do Brasil, difícil é tirar o Brasil da gente. Pois eu estou percebendo isso mais uma vez, já que estou passando uma curta temporada no exterior desde março. A gente é o que é mesmo (e talvez sobretudo) quando escolhe modelos pra imitar. Não tem nada mais brasileiro que todos aqueles filmes que querem parodiar o cinema americano – das chanchadas até os vídeos no youtube, passando pelos filmes dos Trapalhões e vários outros – e se tornam auto-depreciativos. A gente avacalha e se esculhamba, já disse o outro.

Talvez por aí, por essa sensação de esculhambação, a gente possa tatear um pouco mais a resposta. Talvez seja inviável e até doentio querer definir o “cinema brasileiro” como algo que possa ser sintetizado, como uma entidade única que tem uma cara determinada, ao invés de múltiplas facetas irredutíveis e inconciliáveis. Mas o nosso sentimento define a nossa relação, então não podemos deixar essa pista se perder. O que pode indicar essa sensação de avacalhamento que alguns filmes podem nos provocar?

Minha suspeita ainda é a dos velhos culturalistas: acho que essa sensação só acontece porque encontramos alguma identidade (mesmo que seja imaginária e delirante, mesmo que seja mentirosa) com o que estamos vendo. Vergonha alheia só existe quando a gente se sente pertencendo ao universo que nos constrange. Então talvez seja por aí que a gente possa definir, mesmo que seja só como espectador, o que é “cinema brasileiro”. Nós, brasileiros (por nascimento ou por opção), sabemos que ele é aquele cinema (ou seja, aquelas imagens e aquele ritual que consideramos cinema) que pode trazer uma realidade de nós mesmos que não conhecemos ou que preferíamos conseguir negar e esquecer. Ou seja, aquele cinema que sempre pode provocar, de modo súbito, uma identificação direta com o nosso meio e tudo que nele nos constrange.

Ou, nas melhores vezes, cria uma certa emoção por parecer que é por onde temos que ir: como uma representação que apresenta realidades ainda cheias de potência. Talvez seja o desejo de ver isso (mais uma vez) que nos motiva a encarar essas imagens que têm um potencial de desagrado ainda maior do que as que nos são estrangeiras.

Essa tentativa de resposta é tateante e por isso talvez seja pouco assertiva. Bem, mas é uma tentativa. Outras podem ser feitas para uma questão que por definição permanece em aberto, já que tanto o cinema como o Brasil mudam muito com o passar do tempo.

Daniel Caetano é professor, cineasta e crítico.

Cinema Extremo

Por Marcelo Carrard

A Serbian Film
Direção: Srdjan Spasojevic
Sérvia, 2010

É sempre muito prazeroso descobrir, mesmo depois de tantas produções transgressoras e repletas de deslimites estéticos e narrativos que o Cinema Extremo já produziu, que ainda existem obras com um poder devastador de destruição. O ano de 2010 fica marcado na História do Cinema Extremo como o ano em que a Sérvia colocou no topo da lista dos filmes mais chocantes de todos os tempos: A Serbian Film, dirigido por Srdjan Spasojevic. O filme é um mergulho sem retorno aos mais abissais porões da loucura, ousando em remover seus destroços mais aterradores, colocando-os diante do espectador de maneira perturbadora. A trilha-sonora eletrônica pesada de Sky Wokluh já inicia na abertura seu papel de narradora, ao lado da fotografia de tons cada vez mais sombrios onde o sangue terá o papel de tensão cromática de contraste.

A trama gira em torno de um ator pornô que se envolve com produtores aparentemente da indústria convencional de filmes pornográficos, mas que aos poucos se revelam produtores de filmes não muito convencionais. A descida aos infernos do protagonista é lenta, o roteiro parece usar essa lentidão de maneira proposital, pois até quase uma hora de filme somos expostos ao sombrio mundo de uma produtora que parece querer mostrar algo muito diferente aos seus consumidores. Surge uma cena de violência e humilhação de uma atriz, que perturba nosso herói e que nem imagina o que virá pela frente. O filme tem uma “quebra”, que parece ser um despertar para todos, no momento em que é mostrado o polêmico filme onde aparece um misterioso homem, uma mulher e seu bebê recém nascido. A partir desse momento está configurado o pesadelo em que a personagem principal e o espectador estão presos, sem esperanças de redenção, apenas a descida cada vez mais profunda e aterradora ao perturbador mundo do Snuff, do registro real da morte por uma câmera, acrescido do conteúdo da sexualidade mórbida e explícita. O erotismo é substituído por uma atmosfera fria, crua. A sequência brutal de sexo e mutilação extrema é impressionante em seu realismo selvagem e expressionista, e mesmo assim o filme ainda revela outros momentos de puro horror antes de seu final absolutamente niilista chegar.

A parte final, quase sem diálogos, é um teatralizado ritual de sexo, morbidez e um chocante retirar de máscaras que espectaculariza a perversão em um limite que ultrapassa o insuportável. Uma orgia de sangue e mutilação coroa tudo, como em um paganista ritual de vingança. A escuridão dos corredores presentes no filme representa muito bem a trajetória das personagens rumo ao abismo de trevas. O momento em que o protagonista analisa o conteúdo das gravações é sensacional, ainda mais com o auxílio da diegética trilha sonora que realmente é singular, principalmente nessa longa sequência repleta de revelações perturbadoras. O filme tem uma direção muito precisa, um roteiro que sabe como e quando revelar seus segredos, nos colocando diante de um representante do Cinema Extremo que está à altura de clássicos como Cannibal Holocaust, Sweet Movie, Saló, entre outros. As reações contra A Serbian Film são muitas, com direito a protestos de Ligas Católicas, processos contra a exibição do filme em festivais, o que não acontecia há algum tempo. Polêmicas a parte, A Serbian Film é uma obra de arte poderosa, embebida de muita coragem, de muita transgressão, visualmente singular e somente indicada aos mais experientes apreciadores do Cinema Extremo.

 

Filme-Farol

Por Gabriel Carneiro

NoiteVazia_Cartaz

Noite Vazia
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1964.

Fico abismado toda vez que vejo Noite Vazia, do excelente Walter Hugo Khouri. É uma sensação, penso, muito adequada ao filme, que propõe justamente discutir o enorme abismo entre as pessoas. No longa, dois homens, casados, saem na noite paulistana, à procura de diversão e mulheres. Passeiam de bar em bar, até que, num restaurante japonês, encontram duas prostitutas de luxo encantadoras. Levam-nas para um apartamento que tem como único propósito servir de aposento para as fugidas.

Noite-Vazia2-300x222O que Khouri faz brilhantemente no filme é investigar o tédio e a banalidade na classe média, média alta, paulistana. Mas não faz isso de modo condenatório, sua investigação é muito mais existencial, buscando mais que o retrato, e sim o entendimento desse mundo. São bon vivants, boêmios, desiludidos com suas próprias condições inertes e desinteressadas frente ao mundo. Por isso tão atual, é um sentimento que dificilmente abandona o ser humano, uma vez jogado num turbilhão de futilidades, de necessidades não necessárias.

Muito se diz sobre as influências de Antonioni e Bergman em seu cinema, e, de fato, são evidentes, especialmente em Noite Vazia. Mas não se pode dizer que seu cinema é uma tentativa de imitação. Khouri transpõe perfeitamente um sentimento presente nos filmes dos mestres europeus à realidade de São Paulo – toda a noite paulistana dos anos 1960 está lá, jogada na cara do espectador. É a busca para se encontrar, filosoficamente, existencialmente.

Tais características são muito evidentes no personagem do italiano Gabriele Tinti, que se angustia com sua existência de tamanha maneira, que não consegue mais desfrutar de nada na vida. Mas a busca pela compreensão o faz realizar toda uma sorte de ações que despreza internamente – mas ele sabe que não deve parar, se não definha. O mais curioso é que são ações que se repetem à exaustão. O mesmo pode se dizer da prostituta de Norma Bengell. Ela também tem muita dificuldade de se aceitar como ser humano – e não como prostituta, porque Khouri jamais demonstraria tal preconceito -, mas não consegue sair da rotina que sempre a puxa para esse redemoinho. São diferentes de Mário Benvenutti e Odete Lara no filme, que se aceitam como são, muito mais práticos, que só querem uma distração para continuar a existirem. Bengell e Tinti querem sair daquele abismo, mas não conseguem, enfadam-se e continuam na mesma coisa – quase como num eterno ciclo de tentar entender questões primordiais: quem sou, onde estou para onde vou.

Para tal, Khouri se permite o tempo da contemplação, de observar os personagens, olhar para eles e apreender os gestos e olhares. É um tempo atmosférico, acima de tudo, deixando aNoiteVazia3-300x145 cargo do espectador a compreensão das situações. O mesmo pode se dizer da belíssima fotografia de Rudolph Icsey, que abusa de planos detalhes buscando a aproximação ao personagem.

Sobre a escolha – Tal fator continua me extasiando e foi o que me ganhou quando o vi pela primeira, aos 16 anos, época em que praticamente só via cinemão americano. Havia pedido para meu pai locar alguns filmes, e como não tinha todos – e havia uma promoção para 5 filmes -, meu pai pegou Noite Vazia. Já conhecia o Khouri de nome, mas não havia visto nada dele. Há uma cena em que o personagem de Mário Benvenutti passa mais de dois minutos folheando algumas revistas Fatos & Fotos. Achei aquela cena tão forte, tão poética, não só por sintetizar todo o personagem, mas porque são mais de dois minutos de uma atividade banal, filmados de maneira muito interessante. Para quem só via filmão americano, aquilo era um absurdo, uma reiteração de tempo desnecessário – mas não, lá havia um fascínio.

Por assim ser, Noite Vazia não só me abriu para o cinema do Khouri, mas como foi também uma das portas de entrada para o cinema brasileiro e de outras nacionalidades, que buscam um outro tempo de observação.

Musas do Diniz

Ana Paula Tabalipa

Por Diniz Gonçalves Júnior

 

retina esmeralda e pele de laca
boca de veludo cor de romã
minérios ocultos no véu da teia-tela
solta nos ventos de menta que rompem a manhã

Nossa Canção

Por Sergio Alpendre

Quando o Adilson me pediu para escrever um texto sobre alguma música, ou alguma trilha, ou algo parecido, dentro de um filme brasileiro, topei na hora, achando que a tarefa seria fácil. Não aprendo nunca, pois já tive tarefas parecidas, e elas nunca foram fáceis. O desafio, no entanto, é estimulante.

De início pensei em alguma pornochanchada. Trapeze, Grand Funk Railroad, Focus, Emerson, Lake & Palmer, Led Zeppelin e outros baluartes do classic rock já balançaram trepadas e malandragens geniais na Boca do Lixo. E eu gosto de rock, afinal. Seria a escolha perfeita. Mas qual trilha? De que filme? Essa Gostosa Brincadeira a Dois? Bonitas e Gostosas? A Menina e o Estuprador? Algum do Carlão?

Pensava em alternativas, e sempre me voltava à mente o recente Cabra Cega, de Toni Venturi. Menos pelo filme do que pela música clássica de Sérgio Sampaio, “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, testemunho perfeito daqueles anos de chumbo da ditadura militar brasileira, e na maneira como ela entra em cena, com o personagem angustiado vivido por Leonardo Medeiros em um terraço do prédio em que está escondido. Decidi escolher essa música então, em homenagem a “aquele que disse”.

Sérgio Sampaio era também um angustiado. Artista único, gênio mal compreendido, velho bandido segundo ele próprio, demorou a ter seu talento reverenciado pelo cinema brasileiro (pelo menos até onde posso lembrar). Esse hino embalou corações que não tinham nada a ver com a luta contra a repressão, e marcou o período em que o Brasil era governado por Emílio Garrastazu Médici, considerado o período mais duro da ditadura.

“Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou”

Essa é a estrofe inicial da música mais famosa de Sérgio Sampaio. Talvez seja a estrofe mais indicativa de sua posição: um artista popular considerado alienado ou simplesmente alguém que, por ser humano em demasia, tem medo do confronto? A dúvida está presente nessa letra poética, mas o fato é que a música ficou marcada para essa geração como um símbolo de tempos instáveis.

Em Cabra Cega, filme que nem sempre é feliz na radiografia desse período, Toni Venturi acertou ao colocar “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” na trilha. Provoca a imediata lembrança naqueles que viveram a época e ouviam a canção pelas estações de rádio, e um saudosismo fantasioso para aqueles que eram muito novos, ou nem eram nascidos, mas que adotaram Sérgio Sampaio para adornar suas cabeceiras.

Sampaio era um gênio, mas foi Raul Seixas, seu grande amigo, que mereceu o estrelato. O mundo nunca foi mesmo justo.

Sérgio Alpendre é crítico de cinema, editor do blog Chip Hazard, redator da Folha de S. Paulo (Guia livros, discos, filmes), do UOL, e da Foco.