Cinema Extremo

Por Marcelo Carrard

A Serbian Film
Direção: Srdjan Spasojevic
Sérvia, 2010

É sempre muito prazeroso descobrir, mesmo depois de tantas produções transgressoras e repletas de deslimites estéticos e narrativos que o Cinema Extremo já produziu, que ainda existem obras com um poder devastador de destruição. O ano de 2010 fica marcado na História do Cinema Extremo como o ano em que a Sérvia colocou no topo da lista dos filmes mais chocantes de todos os tempos: A Serbian Film, dirigido por Srdjan Spasojevic. O filme é um mergulho sem retorno aos mais abissais porões da loucura, ousando em remover seus destroços mais aterradores, colocando-os diante do espectador de maneira perturbadora. A trilha-sonora eletrônica pesada de Sky Wokluh já inicia na abertura seu papel de narradora, ao lado da fotografia de tons cada vez mais sombrios onde o sangue terá o papel de tensão cromática de contraste.

A trama gira em torno de um ator pornô que se envolve com produtores aparentemente da indústria convencional de filmes pornográficos, mas que aos poucos se revelam produtores de filmes não muito convencionais. A descida aos infernos do protagonista é lenta, o roteiro parece usar essa lentidão de maneira proposital, pois até quase uma hora de filme somos expostos ao sombrio mundo de uma produtora que parece querer mostrar algo muito diferente aos seus consumidores. Surge uma cena de violência e humilhação de uma atriz, que perturba nosso herói e que nem imagina o que virá pela frente. O filme tem uma “quebra”, que parece ser um despertar para todos, no momento em que é mostrado o polêmico filme onde aparece um misterioso homem, uma mulher e seu bebê recém nascido. A partir desse momento está configurado o pesadelo em que a personagem principal e o espectador estão presos, sem esperanças de redenção, apenas a descida cada vez mais profunda e aterradora ao perturbador mundo do Snuff, do registro real da morte por uma câmera, acrescido do conteúdo da sexualidade mórbida e explícita. O erotismo é substituído por uma atmosfera fria, crua. A sequência brutal de sexo e mutilação extrema é impressionante em seu realismo selvagem e expressionista, e mesmo assim o filme ainda revela outros momentos de puro horror antes de seu final absolutamente niilista chegar.

A parte final, quase sem diálogos, é um teatralizado ritual de sexo, morbidez e um chocante retirar de máscaras que espectaculariza a perversão em um limite que ultrapassa o insuportável. Uma orgia de sangue e mutilação coroa tudo, como em um paganista ritual de vingança. A escuridão dos corredores presentes no filme representa muito bem a trajetória das personagens rumo ao abismo de trevas. O momento em que o protagonista analisa o conteúdo das gravações é sensacional, ainda mais com o auxílio da diegética trilha sonora que realmente é singular, principalmente nessa longa sequência repleta de revelações perturbadoras. O filme tem uma direção muito precisa, um roteiro que sabe como e quando revelar seus segredos, nos colocando diante de um representante do Cinema Extremo que está à altura de clássicos como Cannibal Holocaust, Sweet Movie, Saló, entre outros. As reações contra A Serbian Film são muitas, com direito a protestos de Ligas Católicas, processos contra a exibição do filme em festivais, o que não acontecia há algum tempo. Polêmicas a parte, A Serbian Film é uma obra de arte poderosa, embebida de muita coragem, de muita transgressão, visualmente singular e somente indicada aos mais experientes apreciadores do Cinema Extremo.

 

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