Nossa Canção

Por Sergio Alpendre

Quando o Adilson me pediu para escrever um texto sobre alguma música, ou alguma trilha, ou algo parecido, dentro de um filme brasileiro, topei na hora, achando que a tarefa seria fácil. Não aprendo nunca, pois já tive tarefas parecidas, e elas nunca foram fáceis. O desafio, no entanto, é estimulante.

De início pensei em alguma pornochanchada. Trapeze, Grand Funk Railroad, Focus, Emerson, Lake & Palmer, Led Zeppelin e outros baluartes do classic rock já balançaram trepadas e malandragens geniais na Boca do Lixo. E eu gosto de rock, afinal. Seria a escolha perfeita. Mas qual trilha? De que filme? Essa Gostosa Brincadeira a Dois? Bonitas e Gostosas? A Menina e o Estuprador? Algum do Carlão?

Pensava em alternativas, e sempre me voltava à mente o recente Cabra Cega, de Toni Venturi. Menos pelo filme do que pela música clássica de Sérgio Sampaio, “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, testemunho perfeito daqueles anos de chumbo da ditadura militar brasileira, e na maneira como ela entra em cena, com o personagem angustiado vivido por Leonardo Medeiros em um terraço do prédio em que está escondido. Decidi escolher essa música então, em homenagem a “aquele que disse”.

Sérgio Sampaio era também um angustiado. Artista único, gênio mal compreendido, velho bandido segundo ele próprio, demorou a ter seu talento reverenciado pelo cinema brasileiro (pelo menos até onde posso lembrar). Esse hino embalou corações que não tinham nada a ver com a luta contra a repressão, e marcou o período em que o Brasil era governado por Emílio Garrastazu Médici, considerado o período mais duro da ditadura.

“Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou”

Essa é a estrofe inicial da música mais famosa de Sérgio Sampaio. Talvez seja a estrofe mais indicativa de sua posição: um artista popular considerado alienado ou simplesmente alguém que, por ser humano em demasia, tem medo do confronto? A dúvida está presente nessa letra poética, mas o fato é que a música ficou marcada para essa geração como um símbolo de tempos instáveis.

Em Cabra Cega, filme que nem sempre é feliz na radiografia desse período, Toni Venturi acertou ao colocar “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” na trilha. Provoca a imediata lembrança naqueles que viveram a época e ouviam a canção pelas estações de rádio, e um saudosismo fantasioso para aqueles que eram muito novos, ou nem eram nascidos, mas que adotaram Sérgio Sampaio para adornar suas cabeceiras.

Sampaio era um gênio, mas foi Raul Seixas, seu grande amigo, que mereceu o estrelato. O mundo nunca foi mesmo justo.

Sérgio Alpendre é crítico de cinema, editor do blog Chip Hazard, redator da Folha de S. Paulo (Guia livros, discos, filmes), do UOL, e da Foco.

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