Filme-Farol

Por Edu Jancz

Janela da Alma
Direção João Jardim e Walter Carvalho
Brasil, 2001.

Janela da Alma é um dos documentários mais premiados e importantes do cinema brasileiro recente. Poético, lúdico e surpreendente, o filme reúne depoimentos de celebridades como o prêmio Nobel José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o diretor alemão Wim Wenders, o fotógrafo cego Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sachs,  a atriz Marieta Severo  entre outros 14 entrevistados. Os depoimentos são revelações pessoais e inesperadas sobre vários aspectos relativos a visão; o uso de óculos e suas implicações sobre a personalidade; o significado de VER OU NÃO VER em um mundo saturado de imagens; e até a importância das EMOÇÕES como elemento transformador da realidade – SE É QUE ELA É A MESMA PARA TODOS.

Janela da Alma é uma aula instigante com pistas para o autoconhecimento e os caminhos que levam à percepção da IMAGEM, da SOCIEDADE, do nosso COTIDIANO, da nossa FAMÍLIA, de NÓS! Ou não!

Janela da Alma começa com a tela escura. Sem luz. Acendem um fósforo: luz. Imagem. Gravetos pegando fogo. Um giro no anel da objetiva e o fogo vira outra imagem, algo gráfico, que parece fogo, mas agora é outra imagem. A mesma imagem pode ter leituras diferentes e significados diferentes dependendo do ponto de vista, da luz, da objetiva e do repertório de quem olha.

Quem dá vida e luz a Janela da Alma são os depoentes. Reflexões magníficas, intrigantes, simples, algumas aparentemente ingênuas. Outras viris e cáusticas, como a do escritor José Saramago:” E se nós fôssemos todos cegos?  Mas nós somos realmente cegos? Cegos da nossa razão, cegos da nossa sensibilidade, cegos daquilo que faz de nós não um ser funcional da relação humana, mas o contrário, um ser agressivo, um ser violento, isso é o que nós somos… E o espetáculo que o mundo nos oferece é precisamente esse: um mundo de desigualdades, um mundo de sofrimento, sem justificação… é claro, com explicação, mas não tem justificação.”

Podemos em algum momento não concordar com Saramago?

Como seria importante para nós da área jornalística e de comunicações refletir sobre outra reflexão dele, também no filme: “Vivemos todos num Luna Park audiovisual. Onde os sons se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós, mais ou menos creio,  vamos cada vez mais nos sentir perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios.  E em segundo lugar, perdidos na relação com o mundo.”

Janela da Alma não traz respostas prontas. Somente pistas. Instiga. Provoca. Como um farol ilumina caminhos. Agrega esforços e reflexões para que o espectador, a partir da sua realidade, perceba o mundo que o cerca. E descubra que ele é, quer queira quer não, uma metamorfose ambulante!

Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

  

Filmes dublados – Veja-os ou deixe-os

  

Agora que o novo Planeta dos macacos estreou, parece fora de dúvida a tendência das fitas mais “populares” do momento: aportar com número de cópias dubladas superior ao de cópias legendadas. Ou pior: cópia legendada alguma. 

Esse fenômeno não é exatamente recente, mas ultimamente tem dado maiores dores de cabeça ao público que ainda resiste a esse tipo de adaptação (eu, inclusive). A questão extrapolou a liberdade comercial e se transformou em uma espécie de chantagem: veja o filme dublado ou… não veja o filme. 

Isso é bem fácil de perceber quando se observa a lista dos longas animados que chegaram às nossas salas somente dublados. Dois exemplos da gigante Disney: Enrolados e O rei leão, que reestreou em fins de agosto. O segundo caso tem o agravante de também só ser exibido em 3D, sendo que o filme originalmente é em 2D. Você é obrigado a pagar caro por um ingresso de um filme convertido e sem opção de áudio na língua original. 

Mas pelo menos a dublagem de O rei leão é eficiente, o que não ocorre no outro trabalho que citei — a saga da encantadora princesa Rapunzel sofre no Brasil de um problema grotesco: a escalação do sempre lastimável Luciano Huck como o príncipe da vez. O sujeito apresenta no desenho um desempenho capaz de fazer corar de vergonha o mais intrépido canastrão de uma produção de Sady Baby. Um desastre total, hino à inadequação interpretativa. A culpa não chega a ser exatamente dele, que obviamente foi escolhido por (não me perguntem qual a razão) ser muito popular; a execração, portanto, é devida aos diretores e responsáveis pela escalação e aprovação de semelhante atentado. E, naturalmente, aos queridos distribuidores que impediram que chegasse uma alternativa ao espectador mais consciente. Resultado imediato: gente baixando o filme na rede ou simplesmente decidindo não ir vê-lo, pois gastar uma entrada em um filme em que Luciano Huck está envolvido parece, naturalmente, um evidente desperdício de dinheiro. 

Se já é grave quando isso ocorre com filmes de animação, o que fazer quando você fica acuado nos filmes “reais”? O live action não salva filme nenhum dessas arbitrariedades que deveriam ser classificadas de criminosas. Também aí a dublagem pode imperar. 

Lembro-me que quando O último mestre do ar, última obra em data de M. Night Shyamalan, estreou, eu estava disposto a conferi-lo na tela grande, pois, apesar de não ser admirador do diretor (longe disso, até), havia gostado bastante de sua última criação, Fim dos tempos. Mas o fim dos tempos de verdade foi quando eu percebi que o filme, aparentemente por ser uma leve (?) aventura com ação, foi sabotado nas exibições e só era exibido em cópias dubladas. Minto: havia locais pouco acessíveis que passaram o filme com áudio original e legendas, mas em horários absurdos e aleatórios. É um caminho único “disfarçado” de opção: é claro que desejam na verdade fazer a escolha por você. E o jeito é você comprar a ideia da dublagem. 

Não vou me estender no quanto dublagens são nocivas. Basta falar que elas pasteurizam o texto original, retirando insinuações, duplos sentidos, termos “chulos” e outros elementos de linguagem e expressão, e que também desmontam nuances de atuação e por vezes alteram significativamente a sonoplastia pensada para o filme. Também não discutirei casos como o da Itália e o da Alemanha, países em que é tradição, segundo consta, todos os filmes serem dublados. Eu quero falar da nossa cultura, nossa situação. E todos os interesses envolvidos nisso, do político que não quer alfabetizar os cidadãos às redes de comunicação que não querem que o público pense e adquira cultura, estão a serviço dessa odiosa chantagem. É chegada a hora de se rebelar. Precisamos optar.

O Que É Cinema Brasileiro?

ÁGUAS DE MAURO

 

 (paródia de Carlos Alberto Mattos)

 

É sol, é terra, é o Glauber falando
É o dinheiro pouco, é o Dib filmando
É o riso da Leila, é a praia, é o sal
É a noite, o espantalho, Aruanda, Arraial
É a Velha a Fiar, é a Terra Estrangeira
Uirá, Candeias, é o Nelson Pereira
É A Ostra e o Vento, Denoy de Oliveira
É O Segredo da Múmia, é também Grande Feira
É o Limite do Mário, é o Tarcísio Meira
É a briga, é O Grão, é o Tonico Pereira
É a Carmen posando, Edgar caprichando
Nas águas de Mauro, é Oscarito brincando
É Otelo, é Lewgoy, é a chanchada matreira
Camerinha na mão, filme na cachoeira
É A Grande Cidade, é Cidade de Deus
É o Cabra Marcado, é Fernanda, é Matheus
É o Bandido Rogério, é o Anjo Bressane
A mão do Barreto, Total ou Gullane 
É um grito, é uma greve, é uma luta, é um luto
É a Jordana editando, é o Cosme e o charuto
É a tropa, é trepada, é a Dira atuando
É o palhaço Didi, é Eliana cantando
É a Ilha das Flores, é o Porto das Caixas
É a garrafa de cana, Estrada da Cachaça
É o projeto no pitching, é a luz na favela
É a equipe formada, é a tela, é a tela
Força nesse edital, verba da Petrobras
Fundo setorial, quem dá mais, quem dá mais?
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Pereio comendo a Dama do Lotação
É um saci, Curumim, é Bigode, é Lulu
É a Bete Balanço, Cacá, Lerfa Mu
São as águas de Mauro inundando o sertão
É a gentil Dona Flor semeando tesão
É sol, é terra, é O Fim do sem Fim
É o close na Xuxa, é o Satã do Karim
É um padre, é uma moça, é um Bravo Guerreiro
É O Canto do Mar, é o punhal cangaceiro
São as águas de Mauro inundando o sertão
É o céu se abrindo pro Moleque Tião
sol, terra, fim, carrinho
corta, monta, lança, jeitinho
Cao, Walter, Tata, Dahl,
Manga, Silvio, Brant, Joel
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Iracema posando no meu coração

Carlos Alberto Mattos é pequisador, escritor, jornalista, crítico de cinema e editor do blog Rastros de Carmattos.

Musas do Diniz

Renata Sayuri

 

Por Diniz Gonçalves Junior

 
olhos em elipse
meias-luas inquietas
em rota de rebentação
clarabela, menina de
gestos de esfinge,
dança esguia , poetisa ,
transborda palavras
por todos os poros

Credito foto: Silvio Bonadia

Nossa Canção

“Dedos de Deus”, o luar de Carlos Reichenbach

 Por Gabriel Martins

“Sua alma é uma paisagem seleta
Onde vão mascarados e “bergamasques”*
Tocando alaúde e dançando e quase
Tristes por trás dos fantásticos disfarces” 

(tradução livre de estrofe do poema Clair de Lune, de Paul Verlaine) 

Existem algumas cenas que para além do seu poder cinematográfico, emocionante, referencial, são cenas que nos marcam por trazer em si um projeto estético que é uma ideia de mundo, um espelhamento da vida no cinema com toda potência que esta arte é capaz de exprimir. Tais cenas são eternas, etéreas e importantes de serem experimentadas. Elas movem, pois são instrumentos que tem corpo próprios, obras-primas que nos elevam enquanto seres humanos munidos de sensibilidade. 

Uma dessas cenas, para mim, está em Alma Corsária, filme poderoso de Carlão Reichenbach. O momento em questão é Dedos de Deus, “segmento” do filme passado na Pastelaria Espiritual. 

  1. Os dedos de Deus 

O intertítulo abre a cena com estes dizeres: “Dedos de Deus – para Cesário Verde”. Vemos então, iluminado por uma luz que preza a indiscrição (luz pontual, no ícone), um pianista-estivador com uma camisa colada, não um fraque ou um terno, que aparece no bar como um sujeito ordinário e comum – ele quase sintetiza em si uma possível imagem do universo popular brasileiro. Há um piano Fritz Dobbert. O silêncio é entrecortado pelos passos do instrumentista. Ele senta, estala os dedos – um som alto, cômico, mas de anunciação – e começa a destilar Clair de Lune, uma Debussy volátil, poema. A partir daquele momento, a câmera sai dos dedos (de Deus?) e os personagens do filme estão em volta do piano, observando aquele momento sublime. Uma natureza azul, o clair de lune, entra em cena. 

       1.    O homem de músculos 

Do lado de fora da pastelaria há um homem, um fisiculturista, iluminado por uma luz quente. Quase como um Sandow, de Edison, ele é um comentário cinematográfico que para além de um elemento cômico genial, transcende a cena pela maneira como se coloca nela, parte integrante enquanto imagem, mesmo que não clássico-narrativamente-causal. E é neste símbolo, nesta ideia de exibicionismo, que este momento ocupa um lugar que, infelizmente, muito raramente o cinema brasileiro visita. Como no segmento de Edison supracitado, como no primeiro cinema, existe uma ideia de curiosidade com o filmado, uma ideia de imersão no campo do não racional, no campo do espírito das imagens, da transfiguração e representação do mundo. Ao inserir este elemento, Carlão parece nos entregar a liberdade para ver a cena, nos pedir o dom de ver com olhos livres, ver a imagem como algo vivo. Este momento, do prazer de exibir, da imagem literalmente forte, pauta o que virá a seguir. Do tableau, vamos a: 

        2.     Os sonhos de cinema 

Embriagados pela música, os habitantes daquele bar iniciam pequenas imersões pessoais. Em super-8 a imagem-memória, a imagem-vontade, a imagem-desejo de cada personagem – é belo como a cena consegue fazer coexistir o humor latente na montagem com um sentimento belíssimo de transcendência através da arte. Fora da pastelaria, o fisiculturista continua sua performance. Dentro da pastelaria, o pianista-estivador, Debussy e as pessoas. Nos sonhos de cinema que Carlão nos entrega, ele vai até seu personagem principal. É um movimento visual incrível, em que nos aproximamos lentamente do protagonista Rivaldo e de Anésia, sua paixão. A câmera faz um sutil movimento para a esquerda olhando para Anésia e no mesmo momento volta para Rivaldo, que irá sonhar. E sua fabulação não é uma memória super-8, mas uma memória-personagem, um beijo durante uma viagem com a garota. Em poucos momentos, um filme brasileiro conseguiu somar de maneira tão sublime, em imagem, a ternura com um personagem. Quando voltamos de seu devaneio, afastamos de Rivaldo, e Anésia já não está mais ao seu lado. Ela está indo embora, e resta olhá-la ir. Música cessa. Um bêbado sonha atrasado em super-8, já sem música. Imagem de um martelo de força, “FIESTA!!”. E caem na festa. 

         3.     A descoberta da poesia 

Perguntei para Carlão o porquê de dedicar esta cena ao poeta português Cesário Verde. Me disse que o ponto de partida de Alma Corsária era a sintonia poética entre Augusto dos Anjos e o português, poetas de tempos e grupos sociais diferentes, mas que trazem em si um interesse artístico similar, características que seriam em parte homólogas aos personagens centrais do filme. A cena em questão seria dentro da obra, nas palavras do próprio Carlão, o desejo de dialogar o erudito e o popular, o realismo e a fantasia, o sublime na dança dos loucos. É onde os personagens se descobrem poetas. 

Em alguns momentos tivemos, hoje pouco temos, o cinema brasileiro enquanto uma “descoberta da poesia”. Descoberta, no sentido de retirar todo e qualquer tipo de véu que cobre ou tenta disfarçar, e deixar o belo se construir no risco. “Alma Corsária” é único, e esta preciosa cena ainda mais. Um luar incrível de se observar.
 

*não encontrei uma tradução fiel à palavra “bergamasque” que parece ser uma referência no poema a um estilo de dança rústico aparentemente surgido na Itália.

Gabriel Martins é cineasta, diretor do curta Filme de Sábado, co-diretor do curta Contagem, e co-diretor do longa Estado de Sítio. É também crítico da revista eletrônica Filmes Polvo.

Musas Eternas

 Aldine Müller: Um Convite ao Prazer…

 

Por Leonardo “Leo Radd” Freitas

  

Em se tratando dessa excelente atriz e um patrimônio do nosso cinema, foi impossível resistir ao trocadilho que dá título a esta matéria comemorativa. Pois além da beleza convidativa da atriz, sempre que ouço o nome dela a primeira imagem que me vem à mente é a clássica cena do filme Convite ao Prazer (de Walter Hugo Khouri – 1980), em que ela seduz os dois personagens principais numa cadeira de dentista. É a primeira cena erótica do filme e da mesma forma que os personagens, o espectador também é imediatamente seduzido pelo seu olhar magnético e hipnotizante… o que por si só já seria justificativa suficiente para o nome do filme. 

Foi a primeira vez que vi essa atriz na tela (quando esse filme foi exibido no SBT nos anos 80), já que eu era proibido de entrar no cinema pra assistir esses filmes devido à minha parca idade na época. O jeito era se virar com o que passava na TV mesmo, pois até a metade dos anos 80 o vídeo-cassete ainda não estava tão popularizado a ponto de chegar a todos os lares. Só depois de finalmente poder comprar um aparelho desses é que  a coisa mudou de figura e eu fui atrás de várias pornochanchadas que me eram vetadas até então. E pude rever em todo seu esplendor essa cena de Convite ao Prazer na íntegra em VHS e sem os cortes brutais da TV. 

A partir daí fui atrás de outros filmes da Aldine, já que uma das minhas maiores prioridades ao ter acesso aos filmes em VHS era rever o Convite (filme que me tornou um grande fã dessa atriz até hoje). A questão agora era outra: por onde começar? Eram tantos filmes disponíveis com a proliferação e explosão do VHS que a gente ficava bem perdido na época sempre que entrava numa locadora. E pra piorar, não tínhamos a internet pra pesquisar a filmografia das atrizes. Então, num belo dia, passeando pela locadora me deparo com um filme que trazia a Aldine nua na capa: A Fêmea do Mar (de 1981). 

É óbvio que para um adolescente em plena descoberta dos prazeres da vida e das curvas do corpo feminino, uma capa trazendo uma bela atriz pelada na praia seria um chamariz irresistível. Era como se todos os outros filmes na estante desaparecessem e ficasse apenas eu ali sozinho com a caixinha do filme na minha frente. Ao chegar em casa e botar a fita no aparelho… tive uma bela e estranha surpresa: a Aldine continuava linda, mas parecia outra pessoa com personalidade completamente diferente daquela que eu conhecia na tela. Enquanto em Convite ao Prazer ela era sedutora e decidida, em A Fêmea do Mar ela parecia mais frágil e delicada (quase uma menininha ingênua), mas não menos sedutora e enigmática. No filme, ela se envolve com um marinheiro inescrupuloso, que também tem um caso com a mãe dela (e quase acaba traçando também o irmão dela – que era apaixonado pela própria irmã), gerando uma espiral de amores doentios e impossíveis, que, é claro, acabam em tragédia, como não poderia deixar de ser diante de tanta euforia sexual e paixões proibidas. Foi aí que eu vi logo de cara a versatilidade dessa grande atriz, já que em apenas dois filmes bastante distintos entre si, ela interpretou de forma brilhante duas personagens tão opostas e ao mesmo tempo tão sedutoras e sensuais.         

A essa altura, Aldine já figurava no topo da minha lista de atrizes favoritas do nosso delicioso cinema nacional. E eu ficava atento à cada nova aparição dela nos filmes que eu assistia em VHS ou na TV (várias emissoras exibiam filmes brasileiros entre os anos 80 e início dos 90: SBT, Manchete, Guaíba, Band, etc). Entre alguns clássicos em que a atriz apareceu em papéis principais ou secundários (porém marcantes), cito e recomendo os seguintes: O Segredo das Massagistas (Antonio B, Thomé – 1977), 19 Mulheres e 1 Homem (de David Cardoso – 1977), O Prisioneiro do Sexo (outra obra-prima do mestre Walter Hugo Khouri – 1978), A Força dos Sentidos (de Jean Garrett – 1978), Uma Cama para 7 Noivas (Raffaele Rossi e José Vedovato – 1979),  Bem-Dotado – O Homem de Itu (José Miziara – 1979), Força Estranha (Pedro Mawashe – 1980), Bacanal (Antonio Meliande – 1980), O Império do Desejo (Carlos Reichenbach – 1981), Noite (Gilberto Loureiro – 1985), e Schock – Diversão Diabólica ( Jair Correia – 1986). 

Mas o melhor de todos os filmes de Aldine Müller eu ainda estava por assistir: A Mulher que Inventou o Amor (de Jean Garret – 1979). Demorei alguns bons anos até ter acesso à essa maravilha da Boca, pois apesar de já conhecer a fama desse filme, nunca o encontrei nas locadoras de vídeo e nunca passou na TV (que eu saiba). Somente há poucos anos (graças à internet), achei essa obra-prima disponível e pude constatar que era muito melhor e mais surpreendente do que eu sempre imaginei que fosse. No filme, Aldine está no auge de sua beleza e demonstra todo o seu talento em um complexo papel que alterna as diversas facetas da personalidade da personagem central. No filme ela é uma mulher obcecada com a ideia de casar, mas acaba perdendo a virgindade num açougue, e, a partir daí, cai na vida da prostituição, tornando-se famosa como a “Rainha dos Gemidos” (por gemer como ninguém durante as tórridas cenas de sexo do filme). Com belíssimas imagens e uma trama consistente que ruma pra uma tragédia grega clássica, esse filme reúne o melhor do lado sedutor de Aldine, que transborda sexualidade tanto no papel da mocinha frágil e ingênua, quanto no papel de uma prostituta forte e determinada que é uma verdadeira predadora sexual. 

Nascida em Portugal em 1953, Aldine Müller veio para o Brasil ainda na infância, onde morou no Rio Grande do Sul até se mudar pra São Paulo, aos 18 anos, e iniciando sua carreira de atriz e modelo. Com a queda e redução no ritmo de produção das pornochanchadas nos anos 80 (graças à proliferação do cinema pornô de sexo explícito), a atriz migra pra TV, onde se destaca em novelas (Sassaricando – 1987) entre outros programas da Rede Globo (Escolinha do Professor Raimundo), SBT e Record. Também foi capa da Playboy (onde fez pelo menos dois ensaios nos anos 80) e Sexy (para  qual posou em 2000). Ainda em atividade no teatro, Aldine também se dedica à causas e campanhas sociais, o que só demonstra o quanto essa atriz é uma estrela de 1ª  grandeza e merecedora do aplauso e admiração de seus fãs.   

 

Leonardo “Leo Radd” Freitas é autor do blog Submundo HQ (http://submundo-hq.blogspot.com/)

Expediente

EDITOR-CHEFE: Adilson Marcelino 

CONSELHO EDITORIAL: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo Correa 

REDATORES: Adilson Marcelino, Ailton Monteiro, Andrea Ormond, Daniel Salomão Roque, Diniz Gonçalves Júnior, Edu Jancz, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Marcelo Carrard, Matheus Trunk, Sergio Andrade e Vlademir Lazo Correa. 

REDATORES CONVIDADOS: Alfredo Sternheim, Ana Martinelli, Carlos Alberto Mattos, Celso Sabadin, Eduardo Aguilar, Gabriel Martins, Heitor Augusto, Leo Cunha, Leonardo “Leo Radd” Freitas, Marcelo Miranda, Sérgio Alpendre

CONVIDADOS ESPECIAIS: Afrânio Vital, Cleodon Coelho, Ênio Gonçalves, Renato Luiz Pucci Jr  

CONTATO: revistazingu@gmail.com 

Adilson Marcelino tem paixão pelo cinema nacional em geral e acredita piamente na máxima atribuída a Paulo Emílio Salles Gomes, de que o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor estrangeiro. Chamado por um grupo de jornalistas como o Super Adilson do Cinema Brasileiro, é graduado em Letras e em Jornalismo. Trabalha com cinema desde 1991: foi bilheteiro, gerente, assessor de imprensa, programador, redator e apresentador de programa de rádio. É pesquisador, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro – premiado com o troféu Quepe do Comodoro, outorgado pelo Carlão Reichenbach -, e do blog Insensatez. É o atual Editor-Chefe da Zingu! 

Ailton Monteiro é mestrando em Letras-Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Mantém desde 2002 o blog Diário de um Cinéfilo, um espaço muito querido (pelo menos por parte de seu realizador) e agraciado com o Quepe do Comodoro. Tem um gosto tão diversificado por cinema que quer ver a maior quantidade possível de filmes que o seu tempo de vida puder lhe proporcionar. Contribui eventualmente para os sites Scoretrack e Pipoca Moderna. Também tem forte interesse por literatura, religião (em seu sentido mais amplo) e rock’n’roll. 

Andrea Ormond, pesquisadora e crítica de cinema, mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro  (http://estranhoencontro.blogspot.com), inteiramente dedicado à revisão crítica do cinema brasileiro. Escreve na revista Cinética, além de integrar o conselho editorial da revista Zingu!. Colaborações publicadas nas revistas Filme Cultura e Rolling Stone, dentre outros veículos. 

Daniel Salomão Roque possui um gosto cinematográfico bipolar, oscilante entre Jacques Tati e Jörg Buttgereit. Afeito a filmes dos mais diversos tempos, recantos e tendências, ele tem, contudo, um carinho especial pelo film noir e suas derivações, pelas fitas B estadunidenses dos anos 50/60 e pelo cinematografia popular latino-americana. Adepto de Samuel Fuller, acredita que o cinema é um campo de batalha e também uma área de garimpo: o prazer da descoberta anda lado a lado com os extremos da emoção. Ele já fez curadoria de cineclubes em parceria com a Prefeitura de Osasco, colaborou com a finada Revista Zero, manteve uma coluna sobre quadrinhos nos primórdios da Zingu! e hoje estuda História na Universidade de São Paulo. 

Diniz Gonçalves Júnior é paulistano e poeta. Tem trabalhos publicados na Cult, no Suplemento Literário de Minas Gerais, naArtéria, na Nóisgrande, na Sígnica, em O Casulo, na Zunái, na Germina, na Paradoxo, no Mnemocine, no Jornal de Poesia, na Freakpedia, e no Weblivros. Autor do livro Decalques (2008). 

Edu Jancz (pseudônimo de José Edward Janczukowicz) é jornalista diplomado, formado em Cinema pela FAAP e pelas críticas de Rubem Biáfora, Carlos M. Motta e Alfredo Sternheim (no Estadão). Gosta de cinema. Sem nenhum preconceito. Nenhum pré-conceito. Vê todos os filmes – dos faroestes italianos (dos quais é grande fã) aos clássicos mais e menos conceituados. Sua lista dos 100 melhores filmes do mundo nunca empata com a crítica “acadêmica”. Cobriu para a revista Big Man Internacional o período explícito da Boca do Lixo: desde Coisas Eróticas até o fim de sua atividade. Acredita que a Boca do Lixo – com sua vasta produção  de cinema brasileiro (sem dinheiro da Embrafilme) –  merece um resgate digno, sempre relegado pela “grande e preconceituosa imprensa”.

Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte. 

Gabriel Carneiro é um pretenso jornalista e crítico de cinema, mais pretenso ainda pesquisador. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, o que gosta mesmo é de assistir filmes e ponderar sobre eles. Como iniciação científica, pesquisou a filmografia de Guilherme de Almeida Prado. Já escreveu no portal Cinema com Rapadura, e manteve por três anos e meio o blog Os Intocáveis. Rascunhou em alguns outros lugares. Atualmente, também escreve no Cinequanon e na Revista de CINEMA. Adora resmungar, e adora as feminices das mulheres que o rodeiam – é fato, a falta da simples presença feminina o deixa deprimido. A cada dia sua admiração por filmes de baixo orçamento aumenta – tanto que fez um TCC sobre a ficção científica de 1950-64 e planeja fazer um filme de terror. Foi editor-chefe da Zingu! entre maio de 2009 e dezembro de 2010. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial da revista. 

Marcelo Carrard é jornalista e crítico de cinema. Autor da tese de mestrado: O Cozinheiro, O Ladrão, Sua mulher e o Amante – Peter Greenaway e Os Caminhos da Fábula Neobarroca, colaborou no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib. Nesse livro, foi o responsável pelas entrevistas com os diretores José Joffily, Silvio Back e Neville de Almeida. Doutorado em cinema pela Unicamp. Grande conhecedor de cinema oriental, europeu e mesmo brasileiro, ministra cursos e workshops. Manteve o blog Mondo Paura, premiado no troféu Quepe do Comodoro. Carrard é também crítico do site Boca do Inferno, o maior em português dedicado ao Cinema Fantástico. Muito sincero e honesto, o que lhe causa grandes problemas frente os pseudointelectuais de esquerda que pensam que escrevem na “Cahiers du Cinema”. Assina a coluna Cinema Extremo, dedicado a filmes feitos fora da linguagem comum. 

Matheus Trunk é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi editor-chefe da Zingu! entre outubro de 2006 e abril de 2009. Trabalhou na revista Transporte Mundial, no jornal Nippo-Brasil e no jornal Metro ABC. Atualmente é assessor de imprensa. Fanático por cinema brasileiro, música popular e pela Sociedade Esportiva Palmeiras, é editor do blog Violão, Sardinha e Pão. 

Sergio Andrade é bibliotecário e cinéfilo dos mais atuantes. É fã de cinema extremo, mas também de grandes diretores. Em matéria de cinema brasileiro também é grande entendido, sendo fã de carteirinha do saudoso crítico Rubem Biáfora. Mantém uma relação de amor com a Cinemateca Brasileira, por ter trabalhado lá nos arquivos da entidade. Mantém os blogs Kinocrazy e Indicação do Biáfora. 

Vlademir Lazo Correa é gaúcho de nascimento e tem como única qualidade inquestionável nessa vida o fato de ser torcedor fanático do Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Escritor sem obra e atleta cujo único esporte é o jogo de xadrez, é apaixonado por antiguidades das mais diversas, dedicando-se a colecionar discos de vinil que ninguém mais quer e livros velhos de sebos empoeirados que quase ninguém lê. Desde que se conhece por gente aprecia o cinema em suas mais diferentes formas, vertentes e direções ao ponto de estar se convertendo em um museu de imagens e só prestar nesse mundo para assistir filmes e, ocasionalmente, escrever sobre eles. Foi colunista do site Armadilha Poética e mantém (só não sabe até quando) o blog O Olhar Implícito. 

 

Inventário Grandes Musas da Boca

… no cinema de Walter Hugo Khouri

Por Adilson Marcelino

Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khouri, foi produzido por Aníbal Massaini Neto, personagem importante da Boca do Lixo – produtor e diretor. Mas foi na virada dos anos 70 para os 80, que Khouri dirigiu dois filmes essencialmente ligados à Boca e com a cara da Boca: O Prisioneiro do Sexo (1979) e Convite ao Prazer (1982), ambos produzidos pelo mítico Antonio Pólo Galante.

Como se sabe, Walter Hugo Khouri é o cineasta que filmou as mais belas atrizes do cinema brasileiro, e isso desde o início da carreira. Desde sempre, marcaram presença em seus filmes verdadeiras deusas, e, dentre elas, várias que se tornariam musas amadas da Boca do Lixo, como Elizabeth Hartmann – A ilha (1963), e a saudosa Marlene França – falecida no dia 23 de setembro – em Fronteiras do Inferno (1959), e outras que “nasceriam” já nos domínios da Boca, como Helena Ramos – Convite ao Prazer – e Vera Fischer – Amor Estranho Amor, Amor Voraz (1984), e Forever (1991).

A coluna Inventário Grandes Musas da Boca faz uma homenagem à presença dessas deusas na obra Khouriana.

Marlene França (2) – Fronteiras do Inferno (1959)

Lola Brah – Fronteiras do Inferno (1959)

Elizabeth Hartmann – A Ilha (1963)

Lisa Negri – Noite Vazia (1964)

Marisa Woodward – Noite Vazia (1964)

Inês Kanaut – As Amorosas (1968)

Glaucia Maria – As Amorosas (1968)

Rossana Ghessa (3) – O Palácio dos Anjos (1970), Convite ao Prazer (1980)

Elza de Castro – O Palácio dos Anjos (1970)

Kate Hansen (4) – As Deusas (1972), O Desejo (1975), Eros, O Deus do Amor (1981)

Selma Egrei (5) – O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), As Filhas do Fogo (1978), Eros, ODeus do Amor (1981)

Monique Lafond (6) – Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987), As Feras (1996)

Aldine Muller (7) – Paixão e Sombras (1977), O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980)

Misaki Tanaka (8) – Paixão e Sombras (1977), O Prisioneiro do Sexo (1979), Eros, O Deus do Amor (1981)

Liza Vieira – Paixão e Sombras (1977)

Maria Rosa – As Filhas do Fogo (1978),  O Prisioneiro do Sexo (1979)

Rosina Malbouisson – As Filhas do Fogo (1978)

Karim Rodrigues – As Filhas do Fogo (1978)

Sandra Bréa (9) – O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1981)

Kate Lyra (10) – O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981)

Nicole Puzzi (11) – O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987)

Mara Husemann – O Prisioneiro do Sexo (1979), Amor Estranho Amor (1982)

Novani Novakoski (12) – O Prisioneiro do Sexo (1979)

Suely Aoki – O Prisioneiro do Sexo (1979), Eros, O Deus do Amor (1981)

Helena Ramos (13) – Convite ao Prazer (1980)

Patrícia Scalvi  (14)- Convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981)

Alvamar Taddei  (15) – convite ao Prazer (1980), Eros, O Deus do Amor (1981)

Rita de Cássia  – Convite ao Prazer (1980), Amor Estranho Amor (1982)

Shirley Steck – Convite ao Prazer (1980)

Tamuska – Convite ao Prazer (1980)

Christiane Torloni – Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987)

Vera Fischer (1) – Amor Estranho Amor (1982), Amor Voraz (1984), Forever (1991)

Íriz Bruzzi – Amor Estranho Amor (1982)

Sandra Graffi (16)- Amor Estranho Amor (1982)

Vanessa Alves – Amor Estranho Amor (1982)

Carmen Angélica – Amor Estranho Amor (1982)

Elys Cardoso – Amor Estranho Amor (1982)

Reneé Casemart – Amor Estranho Amor (1982)

Márcia Fraga – Amor Estranho Amor (1982)

Rosângela Gomes – Amor Estranho Amor (1982)

Kátia Spencer – Amor Estranho Amor (1982)

Matilde Mastrangi (17) – Amor Estranho Amor (1982)

Carta ao Leitor

A Zingu! chega aos seus 5 anos de história.

Com profundo amor ao cinema brasileiro, sobretudo o popular, a equipe da Zingu! não mede esforços para trazer, a cada edição, um olhar crítico e respeitoso para filmografias, artistas e técnicos que fizeram a fazem a história do cinema nacional.

Nesses cinco anos, muitos desses personagens, que, injustamente, quase nunca tiveram muito espaço pela fortuna crítica, encontraram guarida na Zingu!, que sabe da importância de cada um deles para a construção da nossa identidade fílmica.

E mesmo os que sempre desfrutaram de respeito também por aqui passaram e passam, pois nós da Zingu!, ainda que façamos um recorte mais focalizado no cinema popular, sabemos que a história do cinema brasileiro não é estanque, são fluxos que ora se interagem, ora se repelem, mas sempre em movimento contínuo, por mais dificuldades que ela encontra em seu caminho.

A Zingu! é feita por puro amor, dedicação e respeito pelo cinema brasileiro, já que por aqui ninguém recebe um tostão sequer. E aí tanto vale para o editor como para os redatores fixos, colaboradores e convidados. É uma revista de equipe, como é o cinema.

Este ano de 2011 é muito especial, pois nem tínhamos acabado de sair da honrosa premiação com o Prêmio IBAC distinguido para a Zingu!, na categoria cinema, no final do ano passado, e já publicávamos a edição de aniversário de 4 anos em fevereiro com o grande cineasta Alfredo Sternheim – mudanças internas ocasionaram o adiamento daquela comemoração.

Daí que agora, em outubro – mês real de aniversário da revista – , publicamos a edição de 5 anos da Zingu! trazendo à cena dois artistas amados pela redação e da maior importância para a história do cinema brasileiro.

Com isso, apresentamos o dossiê duplo de aniversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz. Casamento perfeito entre cineasta e atriz e que rendeu momentos luminosos para a nossa cinematografia.

Esta edição 49 é comemorativa aos 5 anos da Zingu! e também aos 82 anos de nascimento de Walter Hugo Khouri (21/10/1929 – 27/06/2003) e aos 25 anos de morte de Lilian Lemmertz (15/06/1937 – 05/06/1986).

O dossiê duplo O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz apresenta farto material com críticas de todos os filmes de Khouri e quase a totalidade dos filmes de Lilian (20 de 22), mais entrevistas, depoimentos, textos especiais e filmografia.

Esta edição 49 abre espaço também para as colunas tradicionais: a dublagem dos filmes; Janela da Alma; “Dedos de Deus”, o luar de Carlos Reichenbach; As Águas de Mauro por Carlos Alberto Mattos; e as musas Renata Sayuri, Aldine Muller, e toda uma constelação Khouriana.

Agradecemos a todos os redatores, colaboradores, convidados e leitores que sempre nos ajudam a construir a trajetória da Zingu! A participação de todos vocês é fundamental.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Fronteiras do Inferno

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

Fronteiras do Inferno (Lonesome Woman)
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1959.

Por Ana Martinelli

A revisão da filmografia completa de Walter Hugo Khouri ainda nos reserva algumas surpresas. A primeira sensação ao assistir Fronteiras do Inferno é o estranhamento: primeiro porque não temos os cenários urbanos ou luxuosos, o filme se desenrola no interior do Brasil numa vila de exploração de diamantes, nada de glamour ou questões existenciais. Ali, a luta é pela sobrevivência da opressão das famílias e dos trabalhadores pobres subjugados à ganância dos que têm a posse do território.

Feito sob encomenda, o filme é uma produção norte-americana e o elenco brasileiro, portanto, dublado em inglês. A narrativa mostra domínio da linguagem clássica do drama e flerta com os filmes de aventura e, até, ação da época, com direito a alguma pancadaria e lados bem definidos entre mocinhos e bandidos.

No final, como é de se esperar, o amor vence e o casal, interpretado por Hélio Souto e Aurora Duarte, consegue escapar; a disputa pela fortuna, representada pelo domínio do grande diamante, culmina na morte do chefe da mineradora, um bandidão inescrupuloso vivido por Luigi Picchi.

O próprio autor dizia que Noite Vazia (1964) foi um estalo, no qual ele encontrou sua voz no cinema, e alguns teóricos consideram sua produção anterior como a fase do cinema independente. Logo, não é nenhum despropósito dizer que Fronteiras do Inferno é um pré-Khouri.

Alguns elementos que se tornariam marcas registradas do estilo do diretor estão também neste momento de sua carreira, em fase embrionária, e, pensando no conjunto da obra, é quase inevitável não procurá-los.

Khouri reserva uma das mais belas sequências à uma personagem secundário. Bárbara Fazio interpreta a mulher do bandido, uma personagem deslocada, vestida como uma diva, como uma beldade em meio ao nada e ao tédio. Ela não suporta mais e durante uma discussão surta: se olha no espelho da penteadeira, daquelas antigas compostas por três espelhos ligados a dobradiças. Num plano fechado, filmado por trás, vemos três reflexos de seu rosto mergulhado em angústia. Olha-se e, ao mesmo tempo, apenas o vazio de uma existência sem sentido, da promessa do amor que se esvai: “Eu estou ficando louca nesse lugar por sua culpa. Você disse que ficaríamos um ano e já faz oito. Eu estou definhando, dia após dia apodrecendo nesse lugar, coberta de poeira e tristezas. Cheia de ódio.”

Mas são pequenas pitadas de Khouri numa produção tradicional. Apesar da competência da realização e de alguns outros bons momentos, é um filme mediano. Pensando e pesquisando sobre o filme, encontrei um pequeno texto de Gustavo Dahl sobre Fronteiras do Inferno, escrito em 1958. Resolvi compartilha-lo para o entendimento do que significa mediano na filmografia do diretor e também pela clareza com que Dahl consegue traduzir o momento:

“Ele é cultura, sensibilidade, inquietação, inteligência e talento a serviço de um enorme amor ao cinema. E a escassez de tudo isso é tão grande no cinema brasileiro, que mesmo um filme como Fronteiras do Inferno, sabidamente realizado num esquema comercial e com grandes limitações materiais, adquire uma importância que em circunstâncias normais nunca poderia ter.”

 

Ana Martinelli é jornalista, crítica e pesquisadora de cinema. Escreveu e editou o canal de vídeos no site Cineclick, e colabora para a revista Tela Viva, site da TPM, entre outros.