Filme-Farol

Por Edu Jancz

Janela da Alma
Direção João Jardim e Walter Carvalho
Brasil, 2001.

Janela da Alma é um dos documentários mais premiados e importantes do cinema brasileiro recente. Poético, lúdico e surpreendente, o filme reúne depoimentos de celebridades como o prêmio Nobel José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o diretor alemão Wim Wenders, o fotógrafo cego Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sachs,  a atriz Marieta Severo  entre outros 14 entrevistados. Os depoimentos são revelações pessoais e inesperadas sobre vários aspectos relativos a visão; o uso de óculos e suas implicações sobre a personalidade; o significado de VER OU NÃO VER em um mundo saturado de imagens; e até a importância das EMOÇÕES como elemento transformador da realidade – SE É QUE ELA É A MESMA PARA TODOS.

Janela da Alma é uma aula instigante com pistas para o autoconhecimento e os caminhos que levam à percepção da IMAGEM, da SOCIEDADE, do nosso COTIDIANO, da nossa FAMÍLIA, de NÓS! Ou não!

Janela da Alma começa com a tela escura. Sem luz. Acendem um fósforo: luz. Imagem. Gravetos pegando fogo. Um giro no anel da objetiva e o fogo vira outra imagem, algo gráfico, que parece fogo, mas agora é outra imagem. A mesma imagem pode ter leituras diferentes e significados diferentes dependendo do ponto de vista, da luz, da objetiva e do repertório de quem olha.

Quem dá vida e luz a Janela da Alma são os depoentes. Reflexões magníficas, intrigantes, simples, algumas aparentemente ingênuas. Outras viris e cáusticas, como a do escritor José Saramago:” E se nós fôssemos todos cegos?  Mas nós somos realmente cegos? Cegos da nossa razão, cegos da nossa sensibilidade, cegos daquilo que faz de nós não um ser funcional da relação humana, mas o contrário, um ser agressivo, um ser violento, isso é o que nós somos… E o espetáculo que o mundo nos oferece é precisamente esse: um mundo de desigualdades, um mundo de sofrimento, sem justificação… é claro, com explicação, mas não tem justificação.”

Podemos em algum momento não concordar com Saramago?

Como seria importante para nós da área jornalística e de comunicações refletir sobre outra reflexão dele, também no filme: “Vivemos todos num Luna Park audiovisual. Onde os sons se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós, mais ou menos creio,  vamos cada vez mais nos sentir perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios.  E em segundo lugar, perdidos na relação com o mundo.”

Janela da Alma não traz respostas prontas. Somente pistas. Instiga. Provoca. Como um farol ilumina caminhos. Agrega esforços e reflexões para que o espectador, a partir da sua realidade, perceba o mundo que o cerca. E descubra que ele é, quer queira quer não, uma metamorfose ambulante!

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