Fronteiras do Inferno

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

Fronteiras do Inferno (Lonesome Woman)
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1959.

Por Ana Martinelli

A revisão da filmografia completa de Walter Hugo Khouri ainda nos reserva algumas surpresas. A primeira sensação ao assistir Fronteiras do Inferno é o estranhamento: primeiro porque não temos os cenários urbanos ou luxuosos, o filme se desenrola no interior do Brasil numa vila de exploração de diamantes, nada de glamour ou questões existenciais. Ali, a luta é pela sobrevivência da opressão das famílias e dos trabalhadores pobres subjugados à ganância dos que têm a posse do território.

Feito sob encomenda, o filme é uma produção norte-americana e o elenco brasileiro, portanto, dublado em inglês. A narrativa mostra domínio da linguagem clássica do drama e flerta com os filmes de aventura e, até, ação da época, com direito a alguma pancadaria e lados bem definidos entre mocinhos e bandidos.

No final, como é de se esperar, o amor vence e o casal, interpretado por Hélio Souto e Aurora Duarte, consegue escapar; a disputa pela fortuna, representada pelo domínio do grande diamante, culmina na morte do chefe da mineradora, um bandidão inescrupuloso vivido por Luigi Picchi.

O próprio autor dizia que Noite Vazia (1964) foi um estalo, no qual ele encontrou sua voz no cinema, e alguns teóricos consideram sua produção anterior como a fase do cinema independente. Logo, não é nenhum despropósito dizer que Fronteiras do Inferno é um pré-Khouri.

Alguns elementos que se tornariam marcas registradas do estilo do diretor estão também neste momento de sua carreira, em fase embrionária, e, pensando no conjunto da obra, é quase inevitável não procurá-los.

Khouri reserva uma das mais belas sequências à uma personagem secundário. Bárbara Fazio interpreta a mulher do bandido, uma personagem deslocada, vestida como uma diva, como uma beldade em meio ao nada e ao tédio. Ela não suporta mais e durante uma discussão surta: se olha no espelho da penteadeira, daquelas antigas compostas por três espelhos ligados a dobradiças. Num plano fechado, filmado por trás, vemos três reflexos de seu rosto mergulhado em angústia. Olha-se e, ao mesmo tempo, apenas o vazio de uma existência sem sentido, da promessa do amor que se esvai: “Eu estou ficando louca nesse lugar por sua culpa. Você disse que ficaríamos um ano e já faz oito. Eu estou definhando, dia após dia apodrecendo nesse lugar, coberta de poeira e tristezas. Cheia de ódio.”

Mas são pequenas pitadas de Khouri numa produção tradicional. Apesar da competência da realização e de alguns outros bons momentos, é um filme mediano. Pensando e pesquisando sobre o filme, encontrei um pequeno texto de Gustavo Dahl sobre Fronteiras do Inferno, escrito em 1958. Resolvi compartilha-lo para o entendimento do que significa mediano na filmografia do diretor e também pela clareza com que Dahl consegue traduzir o momento:

“Ele é cultura, sensibilidade, inquietação, inteligência e talento a serviço de um enorme amor ao cinema. E a escassez de tudo isso é tão grande no cinema brasileiro, que mesmo um filme como Fronteiras do Inferno, sabidamente realizado num esquema comercial e com grandes limitações materiais, adquire uma importância que em circunstâncias normais nunca poderia ter.”

 

Ana Martinelli é jornalista, crítica e pesquisadora de cinema. Escreveu e editou o canal de vídeos no site Cineclick, e colabora para a revista Tela Viva, site da TPM, entre outros.

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