Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

  

Filmes dublados – Veja-os ou deixe-os

  

Agora que o novo Planeta dos macacos estreou, parece fora de dúvida a tendência das fitas mais “populares” do momento: aportar com número de cópias dubladas superior ao de cópias legendadas. Ou pior: cópia legendada alguma. 

Esse fenômeno não é exatamente recente, mas ultimamente tem dado maiores dores de cabeça ao público que ainda resiste a esse tipo de adaptação (eu, inclusive). A questão extrapolou a liberdade comercial e se transformou em uma espécie de chantagem: veja o filme dublado ou… não veja o filme. 

Isso é bem fácil de perceber quando se observa a lista dos longas animados que chegaram às nossas salas somente dublados. Dois exemplos da gigante Disney: Enrolados e O rei leão, que reestreou em fins de agosto. O segundo caso tem o agravante de também só ser exibido em 3D, sendo que o filme originalmente é em 2D. Você é obrigado a pagar caro por um ingresso de um filme convertido e sem opção de áudio na língua original. 

Mas pelo menos a dublagem de O rei leão é eficiente, o que não ocorre no outro trabalho que citei — a saga da encantadora princesa Rapunzel sofre no Brasil de um problema grotesco: a escalação do sempre lastimável Luciano Huck como o príncipe da vez. O sujeito apresenta no desenho um desempenho capaz de fazer corar de vergonha o mais intrépido canastrão de uma produção de Sady Baby. Um desastre total, hino à inadequação interpretativa. A culpa não chega a ser exatamente dele, que obviamente foi escolhido por (não me perguntem qual a razão) ser muito popular; a execração, portanto, é devida aos diretores e responsáveis pela escalação e aprovação de semelhante atentado. E, naturalmente, aos queridos distribuidores que impediram que chegasse uma alternativa ao espectador mais consciente. Resultado imediato: gente baixando o filme na rede ou simplesmente decidindo não ir vê-lo, pois gastar uma entrada em um filme em que Luciano Huck está envolvido parece, naturalmente, um evidente desperdício de dinheiro. 

Se já é grave quando isso ocorre com filmes de animação, o que fazer quando você fica acuado nos filmes “reais”? O live action não salva filme nenhum dessas arbitrariedades que deveriam ser classificadas de criminosas. Também aí a dublagem pode imperar. 

Lembro-me que quando O último mestre do ar, última obra em data de M. Night Shyamalan, estreou, eu estava disposto a conferi-lo na tela grande, pois, apesar de não ser admirador do diretor (longe disso, até), havia gostado bastante de sua última criação, Fim dos tempos. Mas o fim dos tempos de verdade foi quando eu percebi que o filme, aparentemente por ser uma leve (?) aventura com ação, foi sabotado nas exibições e só era exibido em cópias dubladas. Minto: havia locais pouco acessíveis que passaram o filme com áudio original e legendas, mas em horários absurdos e aleatórios. É um caminho único “disfarçado” de opção: é claro que desejam na verdade fazer a escolha por você. E o jeito é você comprar a ideia da dublagem. 

Não vou me estender no quanto dublagens são nocivas. Basta falar que elas pasteurizam o texto original, retirando insinuações, duplos sentidos, termos “chulos” e outros elementos de linguagem e expressão, e que também desmontam nuances de atuação e por vezes alteram significativamente a sonoplastia pensada para o filme. Também não discutirei casos como o da Itália e o da Alemanha, países em que é tradição, segundo consta, todos os filmes serem dublados. Eu quero falar da nossa cultura, nossa situação. E todos os interesses envolvidos nisso, do político que não quer alfabetizar os cidadãos às redes de comunicação que não querem que o público pense e adquira cultura, estão a serviço dessa odiosa chantagem. É chegada a hora de se rebelar. Precisamos optar.

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