A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral

Dossiê Ewerton de Castro

A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral
Direção: Fauzi Mansur
Brasil, 1976.

Por Adilson Marcelino

Fauzi Mansur é um nome controverso. Alguns falam mal, outros falam bem. Mas no terreno de grande talento da Boca Lixo povoado por Ozualdo Candeias, José Mojica Marins, Carlos Reichenbach, Jean Garrett, Cláudio Cunha e Ody Fraga, haverá sempre um lugar para Fauzi Mansur.

Com carreira extensa – ainda há pouco dirigiu mais um longa, Casamento Brasileiro -, Fauzi Mansur é cineasta de estirpe. E se tivesse dirigido apenas A Noite do Desejo (1973) – o que não foi o caso -, já teria seu nome garantido na história da Boca.

A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral é filme corajoso, pois aposta na inventividade e não faz muitas concessões para o público médio. É claro que estão lá as belas mulheres. E que mulheres! – Marlene França, Kate Hansen, Nádia Lippi, Maria Isabel de Lizandra, Elizabeth Hartmann. Mas o jogo lançado em cena não fica restrito apenas à belas moças e peitinhos e pernocas de fora. Muito pelo contrário.

Com argumento e roteiro de Mansur e Marcos Rey, baseado na peça Ensaio Geral, de Rey, o filme faz intrincado tabuleiro em que as peças se embaralham misturando teatro, cinema, realidade e ficção.

O ponto de partida é o tal ensaio geral de uma peça prestes a estrear e que é acompanhado pelo diretor, autor, críticos, censor, parentes e amigos do elenco. Em cena, quatro prostitutas assassinam seu gigolô à facadas e depois se regalam com vinho para comemorar o feito. O que não sabiam é que a garrafa estava cheia de arsênico diluído na bebida, e com isso cada uma sucumbe após a primeira golada. E, mais que isso, o que a plateia não sabe é que realmente havia veneno na garrafa e que elas realmente se estatelaram no chão de verdade.

Começa aí um labirinto entre cenas da peça, dos bastidores e dos dois juntos, para confusão total do atrapalhado detetive que viera investigar quem cometeu o crime.

Noite das Fêmeas – Ensaio Geral enche a tela com a direção elegante de Mansur, a câmera sinuosa e os belos enquadramentos de Cláudio Portioli. Infelizmente, os diálogos não são tão inspirados – ainda que o próprio Marcos Rey, um bam bam bam, esteja presente no roteiro. A necessidade de tirar graça subterrânea de algumas situações ou mesmo um certo nonsense delas não acompanha a bela estética do filme. Inácio Araújo, que assina a montagem de cena – Eder Mazini está nos ruídos – contou no dossiê da Zingu! de abril deste ano  que abandonou o trabalho por não aguentar a aporrinhação do diretor na mesa de montagem.

Noite das Fêmeas – Ensaio Geral já começa sedutor, com a tal cena do assassinato, quando apresenta suas beldades em vestidos coloridos e clima noturno de cabaré. Pena que essa sedução fique atravancada pelo caminho.

O elenco é estelar, prova do prestígio de Mansur: além das atrizes citadas ainda tem Antônio Fagundes, Hélio Souto, Sérgio Hingst, Dionísio Azevedo, Roberto Bolant, Francisco Cúrcio, Flora Geny, Cavagnole Neto, Walter Portela.

Ewerton de Castro marca presença como o irmão perturbado de Kate Hansen, um homem obcecado com o pedigree dos seus cães e com olhares nada inocentes para a voluptosa irmã.

Cada um dá o que tem – Episódio Uma Grande Vocação

Dossiê Ewerton de Castro


Cada um dá o que tem – episódio Uma Grande Vocação
Direção: Silvio de Abreu
Brasil, 1975.

Por Adilson Marcelino

Cada um dá o que tem é filme em três episódios dirigidos por Adriano Stuart – O Despejo, John Herbert – Cartão de Crédito, e Silvio de Abreu – Uma Grande Vocação.

Com resultado desigual, característica comum desse formato, pois quase sempre os diferentes episódios se diferenciam em termos de qualidade entre um e outro, coube a Silvio de Abreu assinar o melhor deles – não à toa seu seguimento encerra o filme.

Em Uma Grande Vocação está nítida toda a verve que o cineasta desenvolveria em sua curta, mas expressiva carreira cinematográfica. Estão lá o humor físico e um tanto pastelão, a constante movimentação, a crítica aos bons costumes, as belas mulheres, e grandes atores.

Aqui, reina Ewerton de Castro como o candidato a padre Agostinho, que desde a primeira cena demonstra que a vocação parece ser mais exigência familiar que desejo interno, já que não pode ver um rabo de saia que espreme os olhinhos por trás dos óculos fundo de garrafa, e, sofregamente, a bíblia entre as mãos.

Mas sua vocação será desafiada se é grande mesmo ao passar alguns dias em casa de tios salpicada de belas e apetitosas priminhas, inclusive a que brincava de médico quando criança, agora na pele estonteante de Nydia de Paula.

Bastava a dita para balançar o coreto de qualquer seminarista, mas ainda tem no seu caminho Suzana Gonçalves, Matilde Mastrangi, Marizeth Baumgarten, Tânia Caldas e Meyre Vieira.

E tem ainda os impagáveis Adriano Stuart e Luiz Carlos Miéle – esse último na mais sensacional de suas aparições no cinema como um monsenhor de cinta-liga a fim de traçar um Ewerton com sua apetitosa cara de bebê anos-luz de qualquer Estatuto da Criança e do Adolescente a lhe proteger.

Uma Grande Vocação encontra em Ewerton de Castro o intérprete perfeito, o que faz o filme, ainda que mal finalizado, saltar em qualidade e se despedir da tela com graça.

Rádio Pirata

Dossiê Ewerton de  Castro

Rádio Pirata
Direção Lael Rodrigues
Brasil, 1987.

Por Adilson Marcelino

Lael Rodrigues é nome de expressão no cinema brasileiro com seus filmes de rock para jovens. Nessa praia dirigiu três: Bete Balanço (1984) – o mais bem sucedido de todos; Rock Estrela (1985); e esse Rádio Pirata.

A bem da verdade, ainda que Brasil de Cazuza abra os créditos, Lobão esteja na trilha, e Marina Lima esteja de carne e osso cantando Pseudo Blues, Rádio Pirata tem trama mais adulta, já que trata de corrupção no país– o tal Brasil cantado por Cazuza.

O filme fala sobre espionagem industrial envolvendo o ramo de computação e interesses e jogatinas escusos entre uma empresa brasileira de informática e uma multinacional. Quando Carlos (Ewerton de Castro) descobre o rolo e decide se denuncia ou não, sua vida passa a correr perigo.  Mas quando seu destino se torna carta marcada, somente Bravo (Jayme Periard), seu subordinado que descobrira a falcatrua junto com ele, é que poderá fazer alguma coisa. Bravo usará então uma rádio pirata para fazer as denúncias, contando com a ajuda de Alice (Lidia Brondi), uma paixão fulminante que conhece em uma noite chuvosa.

Rádio Pirata é um equívoco. Falar de corrupção em meio à asa delta e romance desandou de vez nas mãos de Rodrigues, que co-assina o roteiro com Yoya Wurch. Uma pena, pois Lael domina bem a cena de Bete Balanço, mas aqui nem parece ser o mesmo diretor – e o péssimo roteiro faz o filme afundar ainda mais. Provavelmente, pela ambição do tema espinhoso e nada juvenil como nos seus filmes anteriores.

O único destaque do filme é presença ensolarada de Lidia Brondi, que ainda que defenda personagem inverossímil – como, aliás, é também o de Periard e de toda a forma como a trama é conduzida -, mata nossa saudade de ver nas telas uma das ninfetas mais desejadas do país e que abandonou a carreira cedo demais em 1990, com apenas 30 anos.

Patriamada

Dossiê Ewerton de Castro



Patriamada
Direção: Tizuka Yamasaki
Brasil, 1985.

Por Cid Nader

Patriamada, de Tizuka Yamazaki, poderia ser definido como um compilado que carrega em si muito do que é o cinema na concepção – e no modo de concretizá-lo – da diretora. Filme que investiga um momento de forma quase jornalística (coisa que a motiva desde Gaijin, quando retratou de forma quase investigativa os primórdios de seus ancestrais em terras brasileiras), e que tenta manter seus elos de ligação com a fluidez possível de ser obtida na execução ficcional/dramática. Nessa representação de seu cinema recriada em métodos repetidos, aqui também reside um mal que faz com que  suas obras acabem por residir em locais não muito nobres quando se pensa nelas de modo mais crítico: apesar de ser sempre interessante quando executa o lado documental de seus trabalhos, realmente não é muito feliz na maneira que conduz suas tramas na questão das artes encenadas e  interpretadas, já costuradas na edição. Seus filmes sofrem demais por equívocos de montagem e liberdade exagerada aos modelos de interpretação de seus atores: há desníveis interpretativos estonteantes que acabam comprometendo os que fazem bem sua parte, sendo que isso seria ao menos  contornável com uma mão mais rigorosa ou consciência do que deveria ser utilizado, e em quais instantes.

Especificamente em Patriamada. Se tivesse de resumir a importância e fulgurância (sim!) que o filme entrega por um trecho somente de seu todo, não teria como não citar o grande instante em que os eventos ocorrem na Candelária lotada por um milhão de pessoas pedindo as “Diretas Já”, sob o impacto emotivo da canção de Milton Nascimento preenchendo os espaços sonoros: encenado, em momentos pelas presenças de Buza Ferraz (Goiás) ou Débora Bloch (Lina) registrando tudo nas funções de cineasta e repórter (respectivamente); em outro, com Walmor Chagas (o empresário de mente aberta, Rocha Queirós) soberano e dominador da cena, caminhando na direção do prédio de sua empresa; além dos registros factuais de um trecho de discurso do então sindicalista e presidente do PT, Lula, ou um depoimento de Leonel Brizolla (mais vários artistas e alguns outros políticos). Vale dizer que a música de Milton (Canção da América) representou uma espécie de hino daqueles momentos de mudanças, que foi estendido durante ao processo de convalescência e morte de Tancredo Neves (presidente escolhido, pelo colégio eleitoral, como o primeiro civil após o término consensual da ditadura militar).

Há evidente caráter sociológico/político dominando as ações da direção, e um “sensível olhar forte” antropológico, também, sobre as pessoas que vagavam por aqueles momentos tão nacionais. Ao optar pelo metacinema para executar esses procedimentos, que são a linha forte da costura, Tizuka merece seu quinhão de reconhecimento: pois adorna com mais signos da arte esse seu pendor forte observacional – são bonitas as cenas reais daqueles momentos, captadas pelas lentes da diretora, mas tendo no meio do caminho de seus focos a câmera e os mecanismos “manuseados” por Goiás e sua equipe. E resulta muito interessante a obtenção de depoimentos dos envolvidos, in loco, pelo microfone da jornalista Lina. A diretora real imprime ritmo e cinema nos momentos em que não se esperaria necessariamente tal atenção.

Porém, a ficção do trabalho é ruim, recheada dos conhecidos problemas que costumam infestar a sua obra: apesar de tecnicamente se dar bem com a boa utilização da câmera na mão, a montagem (como até citado antes) é precária e faz parecer que algumas partes não pertencem ao mesmo corpo. Apesar de Ewerton de Castro (Antônio Queirós, direitista, filho e assessor do empresário esquerdista) criar bem seu personagem, o destino maniqueísta imaginado para ele ressuscita a má percepção de Tizuka quanto à utilização de meios tons (ou tons de passagem), criando abismos dramáticos imperdoáveis. E várias situações na parcela ficcional também acabam por sofrer da falta dessas nuances na mistura. Esses pulos de beira de abismo para outra beira abismo, constantes, emperram o filme e impedem a cooptação ideal. Pior: voltam a impor aquele conhecido ar de artificialidade que faz desconfiar da capacidade dela. Isso tudo, aliado a um sensível “datamento” (coisa só perceptível pela distância temporal do nascimento da obra), talvez represente o modo de pensamento estético da diretora.

Duvidosas também são algumas maneiras pensadas para homenagear ou elevar nosso cinema: um discurso um tanto inocente já no momento de uma discussão inicial entre Goiás e sua ex-mulher, que retoma abruptamente de suas mãos um livro de Glauber Rocha; ou quando o mesmo, já próximo do final, vocifera um “merda”, questionando quem iria patrocinar seu filme – o “Patriamada” – se o país está invadido por seriados enlatados e cinema estrangeiro.

De todo modo há a volta a 1984 (com todos os personagens de então: Fernando Henrique, Montoro, Ulysses Guimarães, Dante de Oliveira, Tancredo Neves, Paulo Maluf, Milton Nascimento… – além dos dois citados no início) e o clima raro de então.

Cid Nader, editor do site Cinequanon (www.cinequanon.art.br).

O Quarto

Dossiê Ewerton de Castro

O Quarto
Direção: Rubem Biáfora
Brasil, 1968.

Por Adilson Marcelino

Ewerton de Castro estreou no cinema em O Quarto, de Rubem Biáfora.

Nada mal, não? Afinal, O Quarto é filme acachapante e que só faz crescer a cada revisão.

A trama dá lugar para o GRANDE Sérgio Hingst brilhar de ponta a ponta como Martinho, um pobre diabo que vive sendo explorado e humilhado pelos colegas de repartição. Ele sente raiva, mas é incapaz de revidar, engolindo em seco os desaforos diários.

Martinho divide seus dias e suas noites em cotidiano marcado pelo trabalho, o pingado pelas manhãs e o rabo de galo à noite. Faz também caminhadas noturnas, sempre em busca de prostitutas, com as quais quer mais beijos e abraços que sexo, radiografia perfeita de suas carências afetivas.

Resta-lhe ainda, nesta vida ordinária, o quarto, onde relembra suas penas e se apequena em seu anti-Repouso do Guerreiro.

Essa crônica de destino anunciado sofre uma reviravolta quando conhece uma ricaça, Giédre Valeika, despertando uma coragem insuspeita e fazendo emergir nele os mesmos sentimentos/comportamentos de quem sempre o subjugou.

O Quarto é mesmo um jóia. Poucas vezes se viu casamento tão perfeito entre roteiro, direção e escalação de seu protagonista – e há ainda a fotografia de Rudolph Icsey e a câmera de Pio Zamuner.

Biáfora craque da pena em suas críticas, estava mesmo inspirado quando escreveu essa história. “você quis tomar champanhe e eu quis beber pinga”, é um dos diálogos certeiros e cruéis desse grande filme que é O Quarto.

Em elenco, que conta ainda com Pedro Stepanenko, Francisco Curcio, Berta Zemel, Lélia Abramo e Pedro Paulo Hatheyer, Ewerton de Castro é o funcionário da repartição que está em experiência, e por isso submisso a todos – inclusive de Martinho, que em cena emblemática de seu caráter, vinga-se em Ewerton o que sofre na mão de seus chefes.

Filmografia

 

Diretor

Viúvas Precisam de Consolo, 1979

Ator

O Jeca e a Freira, Amácio Mazzaropi, 1967
O Quarto, Rubem Biáfora, 1968
As Armas, Astolfo Araujo, 1969
Sentinelas do Espaço, Ary Fernandes, 1969
As Gatinhas, Astolfo Araujo, 1970
Paixão na Praia, Alfredo Sternheim, 1971
Anjo Loiro, Alfredo Sternheim, 1973
Último Êxtase, Walter Hugo Khouri, 1973
A Noite do Desejo, Fauzi Mansur, 1973
As Delícias da Vida, Maurício Rittner, 1973
O Poderoso Machão, Roberto Mauro, 1974
Cada um dá o que tem – episódio Uma Grande Vocação, Silvio de Abreu, 1975
A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral, Fauzi Mansur, 1976
À Flor da Pele, Francisco Ramalho Jr., 1976
Sabendo Usar Não vai Faltar – episódio Joãozinho, Francisco Ramalho Jr., 1976
O Estripador de Mulheres, Juan Bajon, 1978
Na Violência do Sexo, Antonio Bonacim Thomé, 1978
Adultério Por Amor, Geraldo Vietri, 1978
Os Rapazes da Difícil Vida Fácil, José Miziara, 1979
Alguém, Julio Xavier da Silveira, 1980
A Noite das Depravadas, Juan Bajon, 1981
Sexo, Sua Única Arma, Geraldo Vietri, 1981
O Médium, Paulo Figueiredo, 1983
Patriamada, Tizuka Yamasaki, 1985
Rádio Pirata, Lael Rodrigues, 1987
Kuarup, Ruy Guerra, 1989
Uma Escola Atrapalhada, Del Rangel, 1990
Caminho dos Sonhos, Lucas Amberg, 1998
O Príncipe, Ugo Giorgetti, 2002
Maria, Mãe do Filho de Deus, Moacyr Goes, 2003