Garrincha, Alegria do Povo

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Garrincha, Alegria do Povo
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Brasil, 1963.

Por Vlademir Lazo Correa

É surpreendente não haver em nossa cinematografia títulos mais marcantes em se tratando de futebol. Seria necessário ser não apenas o país do futebol, mas também do cinema, para a existência de filmes significativos sobre o esporte? O que se sabe é que, se for avaliado o que realmente há de extraordinário em nossa produção sobre futebol, pouco se salva, notadamente o clássico documentário Garrincha, Alegria do Povo, do então jovem Joaquim Pedro de Andrade e com texto poético do jornalista recém-falecido Armando Nogueira.

O cineasta utilizou como base a técnica da montagem, quase que sem acrescentar encenações fictícias, numa edição de imagens já realizadas anteriormente, colando-as com recortes tirados da realidade futebolística de sua época e da vida privada de Mané Garrincha.

O seu filme é fiel ao tempo, ao silêncio e à imagem pura que são tradução do esporte. Há elementos poéticos e dramáticos, com situações encaradas sob diversos ângulos, como a sequência dos exercícios físicos dos jogadores do Botafogo que adquire configurações rítmicas graças aos esforços estéticos do jovem diretor. Além de enquadramentos surpreendentes para a tecnologia da época, com a utilização de várias câmeras e de teleobjetivas sobre os rostos dos torcedores.

Garrincha, A Alegria do Povo ilustra o cotidiano do personagem-título no distrito em que morava, nos treinos no Botafogo (em que são vistos outros craques legendários do futebol brasileiro, como o goleiro Manga, Nilton Santos, Zagallo, etc.) e também em filmagens em que uma câmera escondida acompanha o jogador pelas ruas do Rio de Janeiro. Mas como já afirmou o crítico Inácio Araújo, não existem filmes sobre esporte, mas sim sobre aquilo que existe em torno deles. O importante é o que está fora de campo, partindo do futebol para dizer duas ou três coisas sobre Garrincha e, sobretudo, o próprio país.

Um filme que começa leve e bem-humorado, para mais adiante se transformar em uma crítica que adquire um sabor amargo, visto hoje, pelo fim trágico de Garrincha, que morreu esquecido e na miséria. Pois se o filme exibe gols e lances espetaculares, tampouco deixa de registrar a realidade de brigas e violências entre torcida e jogadores. Garrincha, A Alegria do Povo não é contrário ao futebol, mas contesta o misticismo do povo brasileiro que utiliza o esporte como uma válvula para esquecer a própria miséria e alienação, evidenciando que o futebol também faz parte da engrenagem política. Depois de narrar a trajetória brasileira no bicampeonato das Copas de 1958 e 1962, Joaquim Pedro encerra seu filme com um resumo da final da Copa de 1950, que tanto traumatizou a nação. Longe de qualquer lamento, o documentário com seu distanciamento dramático traz um sentimento geral de solidão e de derrota, lembrando que entre vitórias e fracassos, um povo inteiro pode estar sempre entre a glória e a ruína, como aconteceu ao próprio Garrincha.

Sobre o futebol visto pelo nosso cinema

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Perigo Negro, de Rogério Sganzerla: cinema brasileiro falando de futebol

Por Cid Nader, especialmente para a Zingu!*

Parece texto comum falar da displicência com que o cinema nacional trata do assunto de mais importância e relevância aos brasileiros, como regra quase geral: o nosso futebol. Texto comum, pois percebo em conversas com amigos críticos e cinéfilos (principalmente aqueles que não têm vergonha de declarar o quanto apreciam o esporte bretão), cuja toada reclamatória é similar, que, comparando o apreço norte-americano, a elevação deles a diversos status de poderio junto à formação social local e o registro de diversos de seus esportes em suas produções cinematográficas mais introjetadas no modo de ser de lá, o pouco que se faz aqui com a mesma possibilidade de mote e o que nos resta de saldo é um quase ultrajante quase nada.

Texto comum, que pode não ser tão verdadeiro (assumindo essa cara de “comum” por espelhar reclamações que talvez se baseiem na falação geral) quanto imaginamos em nossa indignação ante uma primeira e leviana olhada em nossas produções, que somadas “grosso modo” (somente no mundo dos longas-metragens) superam a casa dos noventa (90) filmes, em que o esporte é elevado ao papel de protagonista principal ou recebe citação minimamente honrosa: fato que, ajuntado a uma quantidade supostamente similar no terreno dos curtas e mais um tanto outro em filmes que não são facilmente perceptíveis em compêndios que enumerem produções com algum teor de oficialidade, pode gerar uma produção estatística de quase três (3) produções anuais (pensando no tempo da existência do cinema por aqui, e lembrando que faço esse cálculo com boa parte de intuição numérica).

Pensando em três produções anuais até que daria para se pensar em jogar no lixo nossas arrogações de descaso. Será? Pensemos na quantidade de filmes realizados no país em todos os tempos – lembrando que o futebol já caminhava lado-a-lado com o cinema desde seus nascimentos -, que deve beirar a casa dos cinco mil títulos (5.000), em longa, e facilmente a barreira dos vinte mil (20.000) curtas (notando que resolvi deixar de lado os “tais filmes sem algum teor de oficialidade”). Por mais que subamos o número de mínimas citações que seja numa película (quem sabe uma bola de futebol – tem de ser de futebol – abandonada num jardim, ou num terreno baldio, ou, ainda, boiando no mar) a cálculos de referências desesperados em favor do nosso cinema, volta-se a perceber (estatisticamente falando, que é um modo frio, impessoal, nada a ver com paixão – qualidade muito mais adequada ao tema) o quanto está relegado ao quase nada, e o quanto voltam a ser plausíveis as indignações causadas, o nosso esporte/vida, pelo nosso paparicado e respeitável cinema.

Muito mais justo lembrar que o Brasil é reconhecido, pelos de fora, por suas belezas naturais, pela música e pelo futebol. Pensando que as belezas naturais são dádivas que causam orgulho, mas que estão lá por que estão, afinal de contas, dá para sentir que os maiores motivos de orgulho pessoal brotam mesmo da nossa capacidade e qualidade como artistas musicais, e da nossa percepção, sensorialidade, ginga, agudeza e naturalidade futebolística. No caso da música, anda havendo uma sincera mobilização em favor do tempo perdido pelo cinema nos últimos tempos – se bem que ela sempre tenha sido muito mais bem observada e utilizada, bastando lembrar que um de nossos “tempos geológicos cinematográficos” recebeu a “denominação científica” de Chanchadas da Atlântida -, com uma pequena avalanche (perceptivelmente constante nos últimos anos) de documentários sobre músicos (mortos ou em atividade) e festivais: bom e justo para essa que é uma de nossas melhores facetas.

No caso do futebol até anda, também, ocorrendo um fenômeno semelhante, que pode ser significativo, mas que vem sustentado, principal (não unicamente) e fortemente como opção marqueteira de alguns grandes clubes de futebol: Corinthians já jogou dois filmes no mercado prometendo mais outros para completar uma saga; Grêmio e Internacional, em sua eterna e ríspida rivalidade, também não deixaram escapar fatos pessoais para fazer documentários épicos. Sem querer comparar estilo de vida, modo de pensar, jeito de encarar – e, agora, nesse exato instante, baseado nessa pequena miscelânea numérica que aprontei aí em cima -, ou, talvez, opção marqueteira, é triste pensar no modo carinhoso e respeitoso com que os ianques encaram a seus esportes (sim, lá soa três preferências nacionais), reproduzindo-os na indústria que mais os joga à observação mundial que é o cinema. Seria justo para nossa auto-estima utilizar o futebol de modo muito mais desavergonhado e amplo – nossa auto-estima, como nação, está fortemente ligada ao “nosso” desempenho dentro de campo. Somos musicais e esportista-bretões.

Ao menos, resta a esperança de essas ações de marketing dos clubes possa servir de incentivo a cineastas que reverenciam algum ídolo, ou a outros que percebam a importância desse esporte no nosso dia-a-dia: mais do que miséria edulcorada, mais do que dramas de famílias classe-média cariocas, mais do que quase qualquer coisa por aqui. Ao menos, resta também o consolo de ver que alguns dos poucos trabalhos relevantes que utilizaram os gramados em sua essência foram assinados por diretores importantes, e representam grandes filmes dentro de nossa história.

Como exemplo, cito: o classiquíssimo Garrincha, a Alegria do Povo (1962) de um importante Joaquim Pedro de Andrade; o interessante (principalmente por utilizar um dos maiores galãs da época, Edson Celulari) Asa Branca, Um Sonho Brasileiro (1980), na estreia de Djalma Limongi Batista; Boleiros – Era Uma Vez o Futebol (1996), filme de alma pra lá de futebolística dirigido pelo então inspirado Ugo Giorgetti; o significantemente político Pra Frente Brasil (1982), de Roberto Farias; O Rei Pelé (1963), do quase desconhecido, mas muito bom, Carlos Hugo Christesnsen, e Isto É Pelé (1974), de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto (aliás, vale a pena lembrar que curiosamente, ao menos, Pelé atuou em diversos filmes como ator); ou ainda A Falecida (1965), de Leon Hirszman, e Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos. Pra completar, cito, também, alguns curtas, como: Cartão Vermelho (1994), dessa, que anda bem na moda, Laís Bodanzky; Gaviões (1981) de André Klotzel; Barbosa (1988) dos gaúchos Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado; ou ainda, Perigo Negro (1993), de ninguém, menos que Rogério Sganzerla. A tempo: recentemente vi um grande trabalho que mescla tudo que o futebol representa para nós, com o modo como nos comportamos diante dele, que é o documentário, Esperando Telê (2009), de Rubens Rewald e Tales Ab’Sáber.

Vendo alguns desses grandes títulos que destaquei acima me passa novamente uma incerteza do quanto o cinema realmente está em falta com o nosso futebol – sensação que me assaltou por diversas vezes enquanto escrevia esse texto. Com calma, percebo que há grandes títulos, mas que deveríamos ser mais constantes, mais numerosos em trabalhos. Será que os nossos diretores – no dia-a-dia, no que configuraria a possibilidade da quantidade – ao pensar em falar do Brasil pensam no futebol como algo alienante e de importância menor? Mesmo sob o ditado “alertatório” e vociferador de que “ele é a coisa mais importante dentre as menos importantes”, seria injusto pensar em artistas, esses diretores, gente de alma maleável, dispensando-o de dentro de nosso âmago, não o percebendo como o elemento maior de nossa constituição como povo e raça.

*Cid Nader é jornalista e editor do site Cinequanon.

Entrevista com Francisco Ramalho Jr. – parte 4

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Entrevista com Francisco Ramalho Jr.
Parte 4: Voltando à direção

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Francisco Ramalho Jr. e Vanessa Giácomo em Canta Maria

Por Gabriel Carneiro

Zingu! – Depois você passou a se dedicar mais à produção, mas mesmo assim foram poucas, até o começo dos anos 2000. Era muito difícil fazer cinema no Brasil nesse período?

Francisco Ramalho Jr. – Fiz no final dos anos setenta muitos curtas como produtor, e, posteriormente, nos anos oitenta, vários longas, dois como diretor, outros como produtor, mas, de fato, até chegar a lei do audiovisual houve anos difíceis para o cinema brasileiro (a derrocada do modelo Embrafilme, o desaparecimento do Concine e das leis longamente conquistadas, etc).

Z – As coisas mudaram com a chamada Retomada?

FR – Sim, muito devagar de início até o boom atual, com mais de 100 filmes por ano, com todos os gêneros e criatividade em todas as regiões do país, congraçando novos talentos e reafirmando outros.

Z – Como foi voltar a dirigir depois de vinte anos?

FR – Normal, você não desaprende de nadar.

Z – Por que fazer Canta Maria? Como surgiu o filme?

FR – Um projeto ligado a outros períodos de minha vida: o nordeste e sua cultura foram muito forte nos anos de minha formação e lá estivera fazendo documentários. Quando descobri o livro que deu origem ao filme, Os Desvalidos, do Francisco Dantas, encontrei nele uma sintonia comigo e um material com histórias que me tocavam e me tocaram. Era e é uma grande história de amor passado num período da história do nordeste, de 35 a 38, em que a população vivia num fogo cruzado de uma guerra civil, bandidos e policiais, como ainda hoje vivem segmentos da população brasileira.

Z – Porque o nordeste e sua cultura foram muito fortes na sua formação?

FR – Nos anos sessenta, a cultura nordestina (Gilberto Freyre, Josué de Castro – Rossellini veio ao Brasil para filmá-lo -, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Amando Fontes, Ariano Suassuna, a literatura de cordel, etc), eventos políticos (as ligas camponesas de Francisco Julião, por exemplo) e religiosos (os fenômenos de beatismo), as revoltas populares, o cangaço dos anos 20 e 30, etc – tudo isso fervia e me impressionava aqui no sul. Fizeram e fazem parte de meu modo de ver e pensar o mundo. E fico feliz em ver que o nordeste atual está muito modificado e em amplo progresso. Lamento apenas ver tantos jegues abandonados, pois foram substituídos pelas motos. Mas é o ciclo da vida.

Z – Quanto custou?

FR – Foi barato, considerando que era de época, em locações distantes, na Paraíba e em Pernambuco. Filmei muito rapidamente, em cinco semanas e meia, com equipe pequena, bela fotografia em scope do Lucio Kodato, grandes atores (Vanessa Giácomo, Marco Ricca, José Wilker, Edward Boggis, entre outros), musica do Dimi Kireeff com canções especialmente criadas pela Daniela Mercury. Foi um prazer.

Z – Quais os seus projetos atuais? E os próximos?

FR – Lançamos o A Suprema Felicidade, do Arnaldo Jabor. Um grande filme, uma grande felicidade poder fazê-lo. Estou envolvido em vários projetos que espero crescerem para comentá-los

Z – Você pode falar um pouco de América Americana, que você vai dirigir?

FR – É uma história de amizade entre duas pessoas de culturas distintas que são obrigadas a superar suas diferenças. Um argumento que me foi contado por um grande amigo meu, o Paulo Brito.

Parte 3

Carta ao leitor.

40 edições. Podemos dizer que é uma vitória a Zingu! chegar ao número 40. Feita de forma completamente independente, com custos arcados pela própria redação, sem retorno financeiro algum, não somos uma revista que tem benefícios. A Zingu! mal consegue uma cabine. Mas, talvez, tenhamos as melhores oportunidades: podemos entrevistar grandes nomes do nosso cinema, alguns no ostracismo, outros não, caso de Francisco Ramalho Jr., o perfilado em dossiê dessa edição.

Ramalho é uma pessoa obstinada. Se, num primeiro momento, não conseguiu viver de cinema, lutou até conseguir. Hoje, sua produtora, Ramalho Filmes, está por trás de filmes de sucesso comercial como O Casamento de Romeu e Julieta (2005) e O Contador de Histórias (2009), além de preparar o retorno de Arnaldo Jabor, após mais de 20 anos afastado, com A Suprema Felicidade. Ramalho é prova de que esse hiato pode ser tranquilamente superado. Ele mesmo, que deixou de dirigir filmes após o fechamento da Embrafilme, voltou em 2006 com Canta Maria e já tem um projeto em pré-produção, América Americana.

Ramalho é uma dessas pessoas de cinema que transitou por diferentes realidades, apesar de ter dirigido apenas 7 longas. Passou pelo cinema paulista dos anos 60, sem uma identidade muito forte, foi para a Boca do Lixo, fez cinema com a Embrafilme e agora conta com as leis de incentivo. Manteve-se ativo produzindo os filmes dos amigos. Em determinado momento da entrevista, ele diz: “Não parei de trabalhar em longa-metragem e me posiciono como exemplo vivo para todos de que é possível se fazer cinema no Brasil”. É verdade, é um exemplo. Independente do que se possa julgar a respeito da qualidade dos filmes, Ramalho faz só cinema há mais de 30 anos. Hoje, com 70, continua nisso, e cada vez mais. Mas até que ponto as pessoas sabem disso? Levam essa afirmação em consideração? Isso já não me parece tão freqüente assim.

Ramalho não carrega em si o culto que muitos cineastas do passado – alguns até que continuam em atividade – possuem, como um Glauber Rocha, um Joaquim Pedro de Andrade, um Roberto Santos, ou mesmo um Carlão Reichenbach – longe de isso ser uma forma de desmerecê-los, claro. Talvez seja a chance de Ramalho ganhar um pouco mais de atenção, especialmente com o livro lançado pela Coleção Aplauso (Francisco Ramalho Jr.: Éramos Apenas Paulistas, de Celso Sabadin), no último ano, e com essa edição da Zingu!.

Já escrevi nesse espaço que a Zingu! se propõe a manter viva a memória de certos personagens de nosso cinema. Todos querem ser lembrados, todos querem crer que fizeram algo que vale a pena não ser esquecido, de que tal obra ou trabalho permanece. É aquela história: as pessoas podem ir, mas suas obras ficam. Que fiquem, que sejam lembrados. A Zingu!, caso seja lembrada, fica, em registro, por sabe-se lá quanto tempo, nem que seja em arquivo, tentando mantê-los na (sua) memória.

Gabriel Carneiro
Editor-chefe da Zingu!
Obs.: Aproveito para anunciar que a edição #40 é minha última edição como editor-chefe. Deixo o cargo, mas não a revista. Passo, assim, o bastão para o grande amigo e pesquisador Adilson Marcelino.
Obs.2: Estreamos a edição #40 após longos meses de reformulação, em especial na parte gráfica. O que chega ao leitor hoje, dia 24/11, é a versão beta – uma versão simples -, que será ainda modificada. A versão alpha, criação de Julia Morena,  será em breve lançada.
Obs.3: Vale falar da nossa enorme alegria ao ser indicado ao Prêmio IBAC – dado pelo Instituto Brasileiro Arte e Cultura -, na categoria cinema, ao lado de grandes nomes, caso do Coletivo Alumbramento e especialmente da Coleção Aplauso.
Obs.4: (atualizado às 0h30 do dia 25/11) É com muita felicidade que anunciamos a vitória da Zingu! no Prêmio IBAC 2010, na categoria cinema. A alegria é enorme. Agradecemos a todos que de alguma forma nos ajudaram a conseguir essa vitória.

Anuska, Manequim e Mulher

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

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Anuska, Manequim e Mulher
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1968.

Por Gabriel Carneiro

Pode-se pensar Anuska – Manequim e Mulher como a semente do cinema de Francisco Ramalho Jr., enquanto diretor. Não só porque é seu primeiro filme, realizado há mais de 40 anos, mas porque, por toda sua carreira, discorrerá sobre o cerne do longa de 1968: as paixões desmedidas e seus desenlaces. Os pares Marcelo e Verônica, de À Flor da Pele, Xico e Olga, Tuca e Dina, de Besame Mucho, e mesmo Maria e Filipe, de Canta Maria, são meras extensões de Bernardo e Anuska: pessoas que se juntam por uma paixão abrupta e desmedida, mas que, com o passar do tempo, vão se apercebendo das conseqüências desse amor ‘irracional’, por assim dizer, fundamentado muito mais na emoção do que em qualquer outra coisa.

anuskaPois, se Anuska – Manequim e Mulher é pioneiro em mostrar o mundo brasileiro da moda, é também avassalador entre filmes de temáticas de amores imperfeitos, que já vinham ganhando maiores contornos, em nosso cinema, com Walter Hugo Khouri. A filiação aqui, porém, é meramente temática. O filme de Francisco Ramalho carece da imersão passional dos filmes de Khouri. A diferença está mesmo no olhar. Para Ramalho, a paixão obsessiva de Bernardo e, a princípio, de Anuska é vista de maneira complacente. Ele não entra no jogo, mostrando apenas com um distanciamento, por vezes, cruel – quase como se fosse um mero observador, um relator de tais paixões. Não há uma identificação com o público dos protagonistas; as fragilidades e desmanches da relação não impactam o espectador. Talvez seja essa justamente a principal conquista do filme, quase como se o filme nos dissesse que devemos ser mais racionais e menos inconseqüentes em nossas paixões, que não devemos entrar de cabeça e idealizar completamente nosso parceiro amoroso – a dor e os problemas podem ser intratáveis durantes os conflitos.

Anuska é uma modelo aspirante, que mantém uma relação estranha com Sábato, responsável por uma linha de roupas. Quando ela conhece o jornalista Bernardo, as coisas mudam radicalmente. Enamorados, passam a morar juntos. Acontece que, mesmo sem Sábato, Anuska consegue entrar na indústria da moda, passa a viajar e tudo o que quer é festejar. Bernardo deixa de ser sua grande paixão, torna-se apenas o porto seguro, a garantia. Mas o mesmo não ocorre com ele. Para manter a vida de luxo que ela tinha, larga o jornalismo para virar publicitário, função que odeia. O apego de Bernardo continua, e a frivolidade de Anuska o destrói.anuska-4

É a história da desilusão. O distanciamento dá ao filme uma conotação mais realista e mais sombria. A obsessão que norteia os personagens, em diferentes momentos, só mostra a pateticidade da experiência. Francisco Ramalho construiu isso ao longo de sua obra. Alguns filmes seminais de sua trajetória apontam ao caminho da aceitação pessoal e da libertação do outro. Anuska – Manequim e Mulher é o ponto de partida, quando começamos a ver o desenlace, que é potencializado em À Flor da Pele, quando a obsessão toma figuras desproporcionais aos próprios sentimentos para com outros e encontram a anulação do eu. Em Filhos e Amantes, após as tragédias finais do filme anterior e das dúvidas dos jovens, encontram a paz interior, a aceitação do eu e a libertação do outro. Besame Mucho funciona então como um balanço, voltando ao início, nos anos 1960, e querendo entender como chegou naquele ponto, nos anos 1980 – como se a libertação, enfim conquistada, estivesse mais na esfera do sonho.

Independentemente de todas essas ponderações, Anuska – Manequim e Mulher também funciona como um filme de sua época, do liberalismo feminino frente ao seu papel como esposa, mãe e dona de casa. É, afinal, sobre transformações.

À Flor Da Pele

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

À Flor da Pele
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1976.

Por William Alves

Verônica anda muito irritada. Estudante relapsa de Aulas Dramáticas, ela até tenta, mas não consegue prestar muita atenção nas ideias de William Shakespeare. Verônica é uma espécie de Jim Stark do hemisfério sul, com doses mais apuradas de amargura e raiva. Suas explosões de insatisfação são constantes e sem direção específica. Como uma significativa parcela da população jovem mundial, ela odeia, pasmem!, o pai. Temos o desajuste da jovem explicitado em um momento do filme, quando ela exibe os seus seios para um amigo que visitava o seu pai, em um ato de protesto, sabe-se lá contra o que.

É com essa menina de instabilidade patológica que o personagem de Juca de Oliveira, o dramaturgo e professor Marcelo, cisma de se envolver. Marcelo Fonseca mantém uma conduta diametralmente oposta à de Verônica. Bem-humorado, boa gente e atencioso ao ensinar, Marcelo é o típico cidadão de bem, fanático por arte e pai consciencioso. Atraído – seja-se lá pela magnética personalidade ou pelo corpo bem fornido – por sua aluna, Marcelo se vê tomado, no correr da fita, por instintos primitivos que antes não constavam na tela, como os arroubos de fúria e ciúme.

Na extrema ânsia de se mostrar repleta de atitudes, não tarda para que Verônica comece a ameaçar o casamento de Marcelo, mesmo que o matrimônio do dramaturgo tenha se tornado mais uma convenção que um compromisso. Consequências trágicas, que não se anunciavam no tranquilo início, se seguem às impulsivas ações.

A matéria-prima de À Flor Da Pele é a honestidade. Honestidade essa que impede Verônica de simular um comportamento mais socialmente conveniente, que disfarçaria sua psique atormentada. Ou a honestidade em uma diferente roupagem, a que se apodera de Marcelo, transmutando o inicialmente afável professor em amante colérico, que ele não tenta esconder. A trilha sonora dos mpbistas Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro faz o pano de fundo, seja para os momentos melancólicos (maioria) ou a felicidade (tênue) do casal.

O paulista Francisco Ramalho Jr., diretor do longa, obteve maior sucesso comercial com a filmagem do clássico literário O Cortiço, realizada em 1978. O filme, com Betty Faria e Armando Bógus, superou a marca de dois milhões de espectadores no cinema. Mas foram os 100 minutos de À Flor Da Pele que renderam ao diretor algumas honrarias, como o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado, em 1977.

Filmografia

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Como diretor:

2009/10 – América Americana
Direção e roteiro de Francisco Ramalho Jr., baseado em argumento original de Paulo Brito. Produção: Ramalho Filmes. Em desenvolvimento do projeto.

2006 – Canta Maria
Direção e roteiro de Francisco Ramalho Jr., baseado em romance Os Desvalidos de Francisco Dantas. Produção: Ramalho Filmes. Com Vanessa Giácomo, Marco Ricca, José Wilker, Edward Boggiss. Canções originais de Daniela Mercury. Festivais de Calcutá, Xangai, Chicago e Japão.

1986 – Besame Mucho
Direção de Francisco Ramalho Jr. Prêmio Colombo de Ouro de Melhor Filme no Festival Ibero-americano de Huelva, e Menção Honrosa da Radio España no Mesmo Festival (87). Prêmio de Melhor Roteiro (escrito por Francisco Ramalho Jr. e Mario Prata) em Cartagena, Colômbia (87) e no Festival de Gramado, Brasil (87). Prêmio em Havana. Baseado na peça teatral de Mario Prata, com José Wilker, Christane Torloni, Gloria Pires e Antonio Fagundes. Produção: HB Filmes Ltda e Ramalho Filmes como Produtor Majoritário.

1981 – Filhos e Amantes
Direção de Francisco Ramalho Jr. Roteiro de Francisco Ramalho, produção de A. P. Galante & Francisco Ramalho Jr. Roteiro e argumento de Francisco Ramalho Jr. Com Denise Dummont, Lúcia Veríssimo, Walmor Chagas e Renée de Vielmond.

1979 – Paula, a História de uma Subversiva
Direção, argumento e roteiro de Francisco Ramalho Jr. Produção da OCA Cinematográfica. Direitos atuais: Ramalho Filmes. Com Armando Bogus, Regina Braga e Marlene França.

1978 – O Cortiço
Direção de Francisco Ramalho Jr. Da obra de Aluísio de Azevedo roteirizada por Francisco Ramalho Jr. Produção da Argos Filmes. Direitos autorais: Ramalho Filmes. Com Betty Faria, Armando Bogus, Beatriz Segall.

1977 – Caramuru
Direção de Francisco Ramalho Jr. Produção Embrafilme e Oca Cinematográfica. Telefilme (60 minutos) com argumento de João Felício dos Santos e roteiro de Francisco Ramalho Jr. Com Walter Martins. Direitos autorais: Ramalho Filmes.

1976 – À Flor da Pele
Direção de Francisco Ramalho Jr. Premiado em Gramado (77) como Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Roteiro (Francisco Ramalho Jr). Prêmio Air France para Melhor Atriz. Baseado em peça de Consuelo de Castro roteirizada por Francisco Ramalho Jr. Produção da OCA Cinematográfica. Com Juca de Oliveira, Denise Bandeira e Beatriz Segall. Direitos autorais: Ramalho Filmes.

1975 – Joãozinho (Episódio do longa Sabendo Usar não Vai Faltar).
Direção, roteiro e argumento de Francisco Ramalho Jr. Produção A. P. Galante & Alfredo Palácios e OCA Cinematográfica. Direitos autorais: Ramalho Filmes. Com Ewerton de Castro.

1968 – Anuska – Manequim e Mulher
Direção de Francisco Ramalho Jr. Baseado em conto de Ignacio de Loyola roteirizado por Francisco Ramalho Jr. Produção da Tecla Cinematográfica. Prêmio APCA melhor trilha musical. Direitos autorais: Ramalho Filmes. Com Francisco Cuoco, Marília Branco e Armando Bogus.

Como produtor:

2010 – A Suprema Felicidade
Direção e roteiro de Arnaldo Jabor, produção de Francisco Ramalho Jr. para a Ramalho Filmes. Filmagens no primeiro semestre de 2009 no Rio, com distribuição da Paramount. Com Marco Nanini e Dan Stulbach.

2009 – O Contador de Histórias
Direção e roteiro de Luiz Villaça, produção de Francisco Ramalho Jr. para a Ramalho Filmes. Com a atriz internacional Maria de Medeiros, e lançado em 7 de agosto de 2009 pela Warner Bros.

2005 – O Casamento de Romeu e Julieta
Direção de Bruno Barreto, produção de Luis Carlos Barreto e Paula Barreto, com Luana Piovani, Luis Gustavo, Marco Ricca e Mel Lisboa. Produtor associado: Ramalho Filmes. Executivo: Francisco Ramalho Jr.

2005 – Jogo Subterrâneo
Direção de Roberto Gervitz, Produção Vagalume Produções Cinematográficas. Produtor Associado: Ramalho Filmes. Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com Felipe Camargo, Maria Luisa Mendonça, Julia Lemmertz, Daniela Escobar e Maitê Proença.

2003 – Cristina Quer Casar
Direção: Luiz Villaça. Produção NIA Produções Artísticas e Ramalho Filmes. Com Denise Fraga, Marco Ricca e Fábio Assunção.

1998 – Coração Iluminado
Direção de Hector Babenco. Produção HB Filmes e Francisco Ramalho Jr. Representante oficial do Brasil no Festival de Cannes em 1998. Com Maria Luiza Mendonça, Xuxa Lopes, Walter Quiroga. Produtor com Hector Babenco e Produtor Executivo.

1991 – Brincando nos Campos do Senhor
Direção de Hector Babenco. Produção: The Saul Zaentz Company, USA. Produtor Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com Tom Berenger, Daryl Hannah, Tom Waits, Katy Bates, José Dumont, Nelson Xavier.

1985 – O Beijo da Mulher Aranha
Direção de Hector Babenco. Produção HB Filmes. Vencedor do Oscar de Melhor Ator em 85 além de indicações para Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Prêmio de Melhor Ator no Festival Internacional do Filme de Cannes, no mesmo ano. Produtor com Hector Babenco, David Weissman e Produtor Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com William Hurt, Raul Julia, Sônia Braga, José Lewgoy.

1981 – Das Tripas Coração
Direção de Ana Carolina. Produção Crystal Cinematográfica. Produtor Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com Antonio Fagundes, Dina Sfat, Miriam Muniz.

1979 – Os Amantes da Chuva
Direção de Roberto Santos. Produção: Oca Cinematográfica. Produtor, produtor executivo e corroteirista: Francisco Ramalho Jr. Com Helber Rangel, Bete Mendes.

1974 – Nordeste: Repente, Cordel e Canção
Direção, produção e argumento de Tânia Quaresma. Direção de Produção: Francisco Ramalho Jr. Documentário de longa-metragem fotografado por Lucio Kodato.

Canta Maria

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Canta Maria
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 2006.

Por Vlademir Lazo Correa

Canta Maria foi saudado como a volta de Francisco Ramalho Jr. ao cinema após um intervalo de duas décadas. O que num primeiro momento salta aos olhos do espectador é a presença de cangaceiros na narrativa, recuperando uma vertente que já foi associada como tradicional a um cinema brasileiro mais antigo. Nos últimos quinze anos, houve alguns poucos esforços de outros diretores para retomar essa tradição, ao que veio se somar o trabalho de Ramalho nessa adaptação do livro Os Desvalidos, do sergipano Francisco J.C. Dantas.

Uma visão atenta, porém, nos traz a compreensão de que, mais do que o ciclo do cangaço, Canta Maria está ligado a uma tentativa de resgate do romance de literatura regionalista. O filme transcorre no conturbado nordeste brasileiro da década de 30, marcado pelos conflitos entre o banditismo dos cangaceiros que seguiam o rastro de Lampião contra as tropas do governo destacadas para manter a ordem e varrer aquele cenário de violência. Um palco de guerra e também de miséria, o que favorecia o fortalecimento das crenças religiosas e milagreiras, como também o apoio de grande parte da população ao cangaço, em decorrência do incentivo do Padre Cícero, muito influente naquele período.

Uma dessas famílias que acobertavam Lampião era a da jovem Maria, cujos pais são assassinados pelas tropas policiais por receberem e ajudarem o temido criminoso. Sozinha, a personagem encontra e se casa com Felipe (Marco Ricca), um domador de cavalos que mora junto com o seu sobrinho, Coriolano (Edward Boggiss). É uma relação formada mais pela necessidade do que pela atração, porque Felipe é uma figura rústica demais comparada com a jovialidade de Maria.

Mas nada é definitivo nessa terra de penúrias e precariedade do Nordeste dos anos 30. O marido decide se tornar caixeiro viajante, por acreditar ser a solução mais segura para o sustento do casal, deixando a jovem aos cuidados do sobrinho, também uma figura traumatizada por outros tipos de violência. Dois personagens marcados pela carência e precoces perdas familiares, mais vítimas do que propriamente responsáveis pelos modos como suas vidas vão se delineando.

A direção opta por uma narrativa simples e sem invenções, marcada pela larga utilização de travellings e planos gerais, numa tentativa de realizar um cinema popular, mas correndo o risco de ser confundido como uma variação de telenovela do horário das seis (até mesmo pela presença de Vanessa Giácomo, revelada um pouco antes numa novela também regionalista). O filme foi rodado primordialmente em Cabaceiras, interior da Paraíba. O lugar teve suas ruas asfaltadas cobertas com areia e seus postes de iluminação, fios e antenas de TV arrancados para recriar a cidade imaginada no romance. O título Canta Maria foi tirado de uma das canções de Daniela Mercury e Gabriel Povoas, responsáveis pela trilha sonora. No elenco, destaque ainda para José Wilker, em sua participação como Lampião, e Rodrigo Penna, num papel menor.

Besame Mucho

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

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Besame Mucho
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Besame Mucho é possivelmente o melhor filme de Francisco Ramalho Jr. Nele, não há os personagens histéricos que tendem a permear boa parte da curta filmografia do diretor-produtor, mas as diferentes histórias da classe média continuam fazendo-se valer. Contado de trás para frente, Besame Mucho narra pouco mais de vinte anos da vida de dois casais amigos, Tuca e Dina, Xico e Olga. São personagens tentando se entender, tentando manter a paixão, sempre ciclicamente – são vidas que começam e terminam nos anos assuntados, inicialmente retornando de três em três anos, para passar de dois em dois.

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Há uma beleza tremenda na simplicidade com que a história é contada e mostrada. O recurso temporal utilizado é um acerto: ao invés de buscar o prisma da causa e conseqüência para melhor entender o destino de cada um, opta-se por destrinchar o passado, para melhor entender os personagens. Funciona também no espectro de balanço histórico a que o filme se propõe. Aliás, tal balanço faz dele um típico filme dos anos 80, que, com o término do regime militar, começou a olhar para trás, para tempos e estéticas muitas vezes anteriores a ele, com mais bom humor. Eram tempos de esperança, tentando compreender o que havia ocorrido.

Francisco Ramalho Jr. já havia feito um filme político (Paula, a história de uma subversiva), e em Besame Mucho retoma a linha, mas com muito mais leveza. Seu filme olha para trás, e caminha para trás, mostrando os muitos contextos. A memória que Besame Mucho imprime serve bem aos escritores – o roteiro de Ramalho é baseado na peça de Mário Prata -, contemporânea a eles. Os anos 80 fecham um ciclo e mostram um arrefecimento para os dois casais. Os anos 70 são os anos políticos, especialmente para Xico e Olga, que lutam por um país livre, buscando o fim da ditadura. Os anos 60 são os anos do amadurecimento. Não há nostalgia no olhar de Ramalho para com esses últimos, quando tudo parecia bem. O que vemos, muito mais do que isso, é a ilusão de que eram realmente anos nostálgicos, são anos sem preocupações, quase como se fosse um sonho sendo realizado a cada momento. É quando vem o regime militar que o período anterior ganha o ar de nostalgia: o sonho fora destruído por uma realidade muito mais crua, especialmente quando a vida interiorana dá lugar à megalópole.besame-mucho-300x200

Uma das razões de o filme ser tão bem sucedido é não se prender a um partidarismo panfletário. A crença dos personagens parece pouco importar, o encanto está nas idiossincrasias. Em determinado momento, Olga vai à casa de Xico. Eles estão separados, e ele já é um promissor dramaturgo esquerdista, contra o regime dito opressor. Olga não. Ela vai falar com Xico para lhe dizer que está mudando para a França. Conhecera um rapaz, por quem se apaixonara, que precisava se exilar. Xico pergunta se eles já haviam transado. A resposta dela, positiva, deixa-o perturbado. Diz ele que ainda não conseguiu se livrar de todas as crenças de quando vivia na pequena cidade do interior paulista. A aparente contradição é que dá tanto gosto ao filme – ganha, assim, maior liberdade. Pouco importa o que vai acontecer no futuro, a graça está nesses momentos, quando passamos a melhor entender o outro – e, quem sabe, o mundo ao redor.

Uma vida dedicada ao cinema

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Por Adilson Marcelino

Produtor, cineasta e roteirista, Francisco Ramalho Jr. é nome fundamental na história do cinema brasileiro.

Nascido em 1940, em Santa Cruz das Palmeiras, São Paulo, Francisco Ramalho Jr. passou a infância em Pirassununga, também interior paulista. Foi lá que nasceu a paixão pelo cinema, assistindo aos seriados no cinema e criando histórias e exibindo para os amigos em projetor doméstico improvisado. Mais tarde, fica ainda mais íntimo do cinema quando cursa a Politécnica e dirige o Centro Acadêmico, e depois vai trabalhar na Cinemateca Brasileira, em época do grande Paulo Emílio Salles Gomes.

Depois das brincadeiras de garoto, a primeira experiência como realizador é no formato Super-8. Em 1964, dirige o curta Teatro Popular, em 1967, Mal de Chagas, e em 1974, Tietê – além de assistência de montagem nos curtas Subterrâneos do Futebol (1965), de Maurice Capovilla, e Auto da Vitória (1966), de Geraldo Sarno.

Em 1968, Francisco Ramalho Jr. estreia em longas com o filme Anuska – Manequim e Mulher. Adaptado do conto Ascensão ao Mundo de Anuska, do livro Depois do Sol, e em dois contos não publicados de Ignácio de Loyola Brandão, que assina os diálogos, o filme fala de uma história de amor e de ciúme entre um jornalista, vivido por Francisco Cuoco, e uma modelo, vivida por Marília Branco. Situado no mundo da moda, Anuska – Manequim e Mulher é uma estreia com estilo e que possibilita rara oportunidade de ver Francisco Cuoco no cinema, já que o ator retomaria sua carreira nas telas só a partir da década de 1990.

Francisco Ramalho Jr. ficaria quase uma década sem dirigir longas, pois foi a época barra pesada da ditadura militar, época em que trabalhou em outras frentes, como professor de física e diretor do Museu Lasar Segall. O retorno se dá com À Flor da Pele (1976), filme de sucesso e vencedor de vários prêmios – Melhor Filme, Melhor Atriz (Denise Bandeira), e Melhor Roteiro (Ramalho) no Festival de Gramado 1977, e Prêmio Especial Air France de Cinema 1976 para Denise Bandeira. O filme, baseado em peça de Consuelo de Castro, conta a tumultuada história de amor entre um autor de telenovelas, Juca de Oliveira, e sua aluna na Escola de Artes Dramáticas, Denise Bandeira. Em 1976, dirige também o episódio Joãozinho, do longa Sabendo Usar Não Vai Faltar, uma produção de Alfredo Palácios e Antonio Polo Galante.

Em 1978, Ramalho dirige o maior sucesso de sua carreira e, curiosamente, o único longa que não tinha produzido até então, O Cortiço. Adaptado da obra-prima naturalista de Aluísio Azevedo, O Cortiço é uma super produção para a época e bancada pelo produtor Edgar de Castro. O filme reúne nas telas um dos casais mais explosivos daquele momento, Betty Faria e Mário Gomes, que vinha da novela de sucesso Duas Vidas (1976/77), de Janete Clair, e de separação bombástica entre Betty e o diretor Daniel Filho. O Cortiço não tem a força do romance, mas conta com bom elenco – ainda tem Armando Bógus, Marcus Vinícius, Ítala Nandi, Jacyra Silva, Beatriz Segall, Zaira Zambelli, Sílvia Salgado; e belíssima música de John Neschling – a canção Rita Baiana na voz de Zezé Motta foi sucesso nas rádios.

Com Paula – A História de uma Subversiva (1979), Francisco Ramalho Jr. faz seu filme mais pessoal. Pela primeira vez escreve uma história original, o reencontro entre um arquiteto e seu antigo torturador na época da ditadura e as lembranças de um antigo amor morto pelo regime, e que tem muita a ver com a vivência de Ramalho – durante a ditadura ele foi preso duas vezes. O filme marcou também a primeira co-produção com a Embrafilme, que ainda fez a distribuição. Paula – A História de Uma Subversiva é protagonizado por Walter Marins – o arquiteto Marco Antonio e ex-professor da Faculdade de Arquitetura da USP -, Armando Bógus – Oliveira, ex-torturador e atual chefe do setor de entorpecentes da polícia -, Carina Cooper – Paula, líder estudantil que integra a luta armada -, Regina Braga – fotógrafa e esposa de Marco Antônio -, e Marlene França – professora infantil e ex-esposa do arquiteto. Quando a filha de Marco Antônio desaparece, ele reencontra seu ex-torturador, agora designado pela polícia para encontrar o paradeiro da moça. Esse episodio faz Marco Antonio relembrar o passado e seu caso de amor com Paula, líder estudantil caçada ferozmente por Oliveira. Paula – A História de Uma Subversiva é um bom filme, mas fracassou totalmente nas bilheterias.

Nos anos 1980, dirigiu o cultuado Filhos e Amantes (1981), produzido por Antonio Polo Galante. O filme conta o encontro em uma casa nas montanhas de vários personagens e as conseqüências que vão originar daí. Sexo, homossexualidade, drogas e amor livre em elenco com Lúcia Veríssimo, Denise Dumont, André de Biase, Nicole Puzzi, Hugo Della Santa, Rosina Malbouisson, Walmor Chagas e Renee de Vielmond. O outro filme da década é o sucesso Besame Mucho (1986), adaptado da peça homônima de Mário Prata. O filme conta, de trás para frente, a história de dois casais – Antônio Fagundes e Christiane Torloni, José Wilker e Glória Pires – desde a adolescência até a tumultuada vida de casados. Sucesso popular, Besame Mucho foi premiado no Festival de Gramado 1987, como Melhor Roteiro (Prata e Ramalho), e no Festival de Cinema Íbero-Americano de Huelva, Espanha, 1987, como Melhor Filme.

Depois de Besame Mucho, Francisco Ramalho fica longe da carreira de cineasta por quase duas décadas, retornando em 2006 com Canta Maria. Adaptado do romance Os Desvalidos, de Francisco J. C. Dantas, o filme conta uma história de amor e ciúme no nordeste povoado por cangaceiros e volantes. No elenco, Vanessa Giácomo, Marco Ricca, José Wilker e Edward Boggiss.

Além da carreira de diretor, Francisco Ramalho Jr. tem também importante carreira de produtor, não só de seus filmes mais de inúmeros outros cineastas. A parceria mais bem sucedida foi com Hector Babenco, que começou com o sucesso internacional de Babenco, O Beijo da Mulher Aranha (1985) – Oscar de Melhor Ator e prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes para William Hurt, além de outros prêmios na Noruega, Japão, Espanha e Estados Unidos. Ainda com Babenco, Ramalho produziu Coração Iluminado (1998).

Francisco Ramalho Jr. participou de várias produções, como produtor ou produtor executivo, de filmes como Os Amantes da Chuva (1980), de Roberto Santos; Das Tripas Coração (1982), de Ana Carolina; Cristina Quer Casar (2003), de Luiz Vilaça; Jogo Subterrâneo (2004), de Roberto Gervitz; O Casamento de Romeu e Julieta (2005), de Bruno Barreto; O Contador de Histórias (2009), de Luiz Villaça; e acaba de chegar sua nova produção aos cinemas, a volta de Arnaldo Jabor, A Suprema Felicidade.

Fontes:
Livros: Dicionário de Cineastas Brasileiros (Luiz F. A. Miranda), Dicionário de Filmes Brasileiros – Longa Metragem (Antonio Leão da Silva Neto)
Documentário: Francisco Ramalho Jr. (André Barcinski)
Sites: Mulheres do Cinema Brasileiro, Insensatez e IMDb