Musas do Diniz

Carla Trombini

carla é escultura de carrara
cabelos de sol, olhos atlânticos
corpo traduzido nos espaços do palco
gestos mínimos, elegância de gazela
uma citeréia perdida na neblina da cinecittá

*crédito da imagem: Priscila Prade

Musas Eternas

Paula Melissa

Por Matheus Trunk

O início da década de 90 foi um período terrível para o cinema brasileiro. A extinção de instituições incentivadoras como a Embrafilme deixaram a produção de nacional em um período de total estagnação. Pouquíssimos filmes eram lançados comercialmente. Dessa maneira, diversas atrizes acabaram não tendo oportunidade de fazer carreira no cinema. Deusas como Mari Alexandre, Isadora Ribeiro e Cláudia Liz acabaram tendo filmografias pequenas.

A morena Paula Melissa é um dos grandes nomes dessa geração. Desde muito cedo, a moça sempre teve forte interesse por moda. Além de estudar o tema, sempre teve pretensão de ter sua grife própria, sonho que ainda não realizou.

Uma das primeiras aparições públicas da musa foi seu ensaio para a revista Trip, em setembro de 1995. Em entrevista a publicação, a moça se declarou “desiludida” e “completamente decepcionada” com o sexo masculino.

Desde então, Paula começou a ser capa de diversas revistas e se tornou conhecida nacionalmente. Em 1997, foi convidada para fazer um dos papéis principais da novela Mandacaru na TV Manchete. Infelizmente, a atração não teve grande audiência, talvez pela crise que a emissora carioca atravessava no período.

Entre os anos de 1999 e 2001, Paula Melissa esteve na telinha quase todos os dias. Isso porque ela era uma das grandes estrelas do Escolinha do Barulho, da Rede Record. Adriana Ferrari, Cida Marques e Mari Alexandre eram as outras componentes do elenco feminino do programa. Melissa fazia a dona Fifi de Assis, a aluna CDF da classe que quando obtinha a nota máxima tirava uma peça de roupa. Seu bordão era o seguinte: “Ai professor, toda vez que eu tiro um 10, eu sinto tanto calor”. Esse período foi o auge da musa, sendo sempre possível vê-la dando entrevistas em programas de celebridades na televisão

Em 2004, Melissa participou do seriado Turma do Gueto, da Record. Ela era talvez o único motivo capaz de fazer o telespectador manter a televisão ligada no programa. Na atração, a atriz fez a personagem dona Suzana, diretora da escola onde se passava a trama. A filha do mestre David Cardoso, Tallyta também fazia parte do elenco do programa.

No meio cinematográfico, a musa só teve uma única incursão: no longa-metragem Olhos de Vampa (1996), do realizador Walter Rogério. No filme, Melissa é a terceira vítima do serial killer Vampa (Joel Barcellos). Esse interessante suspense foi inteiramente filmado no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Com grandes problemas na parte de produção, Olhos de Vampa nunca foi lançado comercialmente. Uma pena porque se trata de uma bela tentativa de se fazer cinema de gênero no Brasil.

Nos últimos tempos, Paula Melissa misteriosamente sumiu dos meios de comunicação. Durante toda sua trajetória na vida artística, além da sensualidade natural, essa grande musa sempre manteve um olhar marcante e extremamente provocante. Infelizmente, o tempo passou e o cinema brasileiro desprezou grandes beldades dos anos 90.

Cinema Extremo

Por Marcelo Carrard

Beautiful Girl Hunter
Direção: Norifumi Suzuki
Dabide no hoshi: Bishôjo-gari, Japão, 1979.

Dentro da vasta produção japonesa dedicada ao cinema extremo, um nome sempre é lembrado, e não é apenas o de Takashi Miike. Muito antes do mundo se aterrorizar com os clássicos Audition e Ichi the Killer, já estava em ação um dos autores mais fetichistas e transgressores do cinema asiático: Norifumi Suzuki. Suas obras são uma fusão única e hipnótica de beleza, tortura, sangue e devaneios eróticos de rara composição. Suas obsessões estéticas, a tensão cromática de seus filmes, servem como moldura para a “dança” vertiginosa de suas musas. Em filmes magníficos como O Sexo e a Fúria e Convent of the Sacred Beast, vemos os corpos de suas heroínas receberem doses inacreditáveis de uma representação quase surreal do erotismo e da violência, como grandes guerreiras e sensuais assassinas.

Em 1979, porém, Suzuki realizou um dos filmes mais misóginos de todos os tempos: Beautiful Girl Hunter aka Star of David. Se em suas obras anteriores as mulheres se libertavam através do sexo e da violência, nesse, elas são bonecas de carne e osso, a serviço das perversões do jovem protagonista. Enquanto era um menino, ele apenas observava o pai em seus jogos de humilhação e dominação em que cordas imobilizam belas mulheres e a busca do prazer está na dor, na submissão delas, cujo sofrimento parece um combustível para o mestre dominador em seus jogos implacáveis. A beleza das cenas iniciais, na noite chuvosa, diante da lareira, mostram a grande força de Suzuki como esteta. Após anos de aprendizado ao observar o pai, o menino cresce e busca suas vítimas, como um verdadeiro caçador. A suspensão das vítimas em correntes e o banho de sangue do protagonista após o sacrifício da vítima mostram todo o incômodo mesclado com fascínio mórbido que permeia toda a obra de Suzuki. A tortura com os corpos suspensos remetem ao extremo Imprint, de Takashi Miike. As tensões cromáticas e seus contrastes na composição de cada cena aparecem em momentos de pura transgressão, como na que uma inusitada relação de zoofilia acontece entre uma muher e um cão, e na máscara de ferro que parece ser uma estilização da máscara demoníaca de A Máscara do Demônio.

Uma espécie de insert sem a glamourização das demais cenas do filme aparece no registro quase documental de um violento estupro que beira a transgressora estética Snuff. A sequência inacreditável da mulher exposta e livre no alto de um prédio é a maior representação da misoginia do filme, inesperada e genial. Existe outro filme misógino ao extremo, também do Japão, intitulado All The Woman are Whores, ou seja, Todas as mulheres são putas, que é um absurdo, mas o filme de Suzuki não fica atrás. Mesmo com essa jornada extrema pelo sombrio olhar misógino de um assassino, poucos cineastas conseguiram filmar as mulheres com o estilo e a autoria de Norifumi Suzuki.

Reflexos em película

Por Filipe Chamy

Respeitável público

O público de cinema quer destruir o cinema.

Sei que parece uma afirmação temerosa, mas em alguns aspectos objetivos, o público pagante, esse público que mantém os sorrisos dos produtores e condenam ou aclamam determinados projetos cinematográficos, está criando condições tão extremas e absurdas que inviabilizará qualquer progresso ou permanência da arte de que dizem gostar.

Um exemplo é o tão comentado 3D. Esse recurso havia sido utilizado experimentalmente no cinema comercial americano dos anos 1950. Algumas décadas se passaram e ninguém pareceu sentir muita falta desse tipo de realismo forçado. Até que novamente James Cameron presta (de maneira deliberada, evidentemente) o desserviço de criar moda entre os imitadores, capachos e asseclas que o rodeiam em Hollywood. Depois de Avatar, não se pensa em mais um projeto do cinema arrasa-quarteirão ianque que não seja embebido nas tais três dimensões. Esquecem todo o resto para parir às pressas projetos estapafúrdios que nada possuem, mas que enchem os olhos de quem quer ver folha voando, braço que sai da tela do cinema, letras sambando por todo lado. Culpa de quem? Do público, esse senhor que quer ser surpreendido, mas cujas surpresas são sempre as mesmas coisas, o espetáculo barato, a diversão fácil, o prazer vulgar.

O público abandona o cinema porque quer suas novas manias impressas na telona: não quer um filme de ação, quer um videogame; não quer uma comédia, quer um stand-up; não quer nada com nada, e por isso a única coisa que pode lhe agradar é o nada, o vazio, a ausência de importância, de talento, de comprometimento. O novo filme de Tim Burton é um exemplo capital dessa nova tendência do cinema blockbuster de hoje: Alice no País das Maravilhas é frouxo, mal acabado e sem qualquer aspecto memorável, mas está conseguindo estrondoso sucesso a custa da enganação dos efeitos ocos da modernização tão pedida pelo público, que está lotando as salas onde o filme é exibido. Aliás, o caso de Alice é ainda mais grave e sintomático: o filme foi filmado em 2D e apenas na fase da pós-produção foram acrescentadas as mudanças que adicionaram outra dimensão às sempre sem graça imagens da fita. Alice ainda vai além: o que andam elogiando nessa medíocre tentativa de Tim Burton de chegar aos pés de seu mestre Jan Svankmajer? Justamente o visual do longa, o pior de seus defeitos. Um amontoado de atrocidades digitais, como os ridículos Tweedledee e Tweedledum, que mais parecem criaturas saídas de um screensaver que de um mundo de fantasia, sonhado ou não.

E o público aplaude, bate palmas, saltita de alegria ao elogiar esses artificialismos que engavetam todos os filmes que são diferentes, esse tipo de comportamento que já está fazendo surgir entre determinado círculo (o mais abastado, que tem mais dinheiro e tempo) o pensamento de que filmes que não têm esses efeitos, não são em 3D, não têm retoques computadorizados ou efeitos especiais estão quase tão anacrônicos quanto filmes mudos, filmes em preto e branco — exemplos que demonstram que não é apenas o cinema rentável de hoje que tem um público tão lamentável, porque aos poucos o cinema se padroniza e sobra aos independentes hastear a bandeira da novidade (sendo que o público pagante não verá bandeira alguma, pois é cego e daquele que nada quer ver).

Mais apavorante que qualquer filme de terror é um dia na fila de um shopping ouvir os novos cinéfilos e cineastas discutirem seus gostos e preferências. A impressão que fica é que chegará um ponto em que a idéia de cinema comercial será ir para a sala de projeção levar choques ministrados por uma máquina qualquer. Porque o prazer dos olhos, feliz expressão de Truffaut, virou a fúria dos sentidos e está quase martirizando o cinema.

Linha de Passe

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Linha de Passe
Direção: Walter Salles & Daniela Thomas
Brasil, 2008.

Por Filipe Chamy

Em Linha de passe, uma idéia já no início dá o tom do filme: a contraposição de um culto e de um jogo de futebol. Ao longo do filme, esses elementos se misturam, outros são adicionados e as dosagens se alteram, não permitindo separação entre os eventos: o esporte vira uma religião quando o espectador sofre realmente com as partidas, e a religião vira um esporte quando o fiel quer reverter o placar de sua existência.

Mas não é só de bola e igreja que vivem os personagens de Linha de passe, vivem problemas cotidianos de todo tipo, como falta de afeto, complicações românticas, dúvidas até existencialistas. A modéstia financeira não impede a complexidade dos dramas, e por isso o filme de Walter Salles e Daniella Thomas consegue se destacar mais que seus colegas de tema (essa “exploração da miséria” tão comum no cinema brasileiro), porque não se apóia em arquétipos morais para estruturar as ações de seus personagens: todos podem errar ou acertar, pobres ou ricos, e ninguém é inteiramente bom ou ruim — assim como um jogo de futebol, em Linha de passe só tomamos conhecimento do resultado de tudo ao final do segundo tempo, e, mesmo assim, não podemos ficar certos de sua justiça; mas é só um jogo, não?

O filme é dividido em pequenos núcleos que basicamente testemunham os acontecimentos recentes na vida dos rebentos de uma empregada doméstica, grávida mais uma vez. Cada criança ou jovem tem suas preocupações e necessidades, e apesar de filmes episódicos padecerem habitualmente de uma irregularidade que impede um bom acabamento da obra como unidade, Linha de passe acerta justamente ao dividir essas histórias, que são ligadas naturalmente, porque não é honesto tratar uma família tão heterogênea como um só ser pensante, como se todos tivessem os mesmos interesses e obstáculos. Na verdade, Linha de passe é futebolístico até nesse tratamento: o técnico (o casal cineasta) não poderia querer que só um jogador (ator) tocasse na bola (o próprio filme), como é bem lembrado por um personagem no começo da fita.

Mas se Linha de passe não é uma partida vergonhosa, tampouco será lembrado como um jogo memorável, pois suas virtudes esgotam-se quase que inteiramente na sinceridade dos intérpretes, mas seus defeitos começam quando o filme é embalado como um produto artesanal, como quem espiona à distância um animal na floresta e diz, passando o binóculo a um amigo: “veja só que espécime curioso!”. Então acabam fracassando os esforços na tentativa de dar dimensão a certos tropeços dos personagens, pois o espírito que paira é sempre o do observador acostumado com a falta de perspectiva de quem é diferente dele. Por exemplo, quando certo personagem se envolve com o crime, o olhar condescendente parece ainda mais cínico do que seria se fosse um olhar de reprovação. Parece que vem embutido um comentário: “ele se voltou para a marginalidade, mas vivendo naquelas condições ele não tinha mesmo outra opção”. Fica um fantasma de conformismo, quando o que se quer fingir que se diz é justamente o contrário; aí o filme deixa de ser humanista e se torna uma narrativa algo descontrolada, pois quer afirmar o que a imagem do cinema nega.

De qualquer modo, Linha de passe é bem filmado e não compromete as intenções “bom mocísticas” com que foi elaborado. É um filme bem superior ao que o “bom gosto” cinematográfico brasileiro vem legando, e nesse sentido é um pouco como a mãe interpretada por Sandra Corveloni: pode negligenciar um pouco seus filhos (ou os espectadores), mas não nega suas boas intenções, e, assim como ela, tem consciência de que não age corretamente às vezes, seja fumando na gestação (a mãe), seja acusando o público de um problema social de que se afasta (o filme) — às vezes a partida é injusta mesmo.

Um Craque Chamado Divino

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Um Craque Chamado Divino
Direção: Penna Filho
Brasil, 2006.

Por Matheus Trunk

Nas décadas de 60 e 70, o futebol era muito diferente de hoje. Felizmente, as assessorias de imprensa, os empresários e as equipes de marketing esportivo não existiam. Por outro lado, todos os times detinham um ídolo que tinha grande identificação com a equipe. No caso do Palmeiras, o jogador mais marcante foi Ademir da Guia, que ficou conhecido pelo apelido de Divino.

Em 17 anos de clube, ele colecionou títulos e se tornou o maior jogador da história do time alviverde. O filme Um Craque Chamado Divino (2006) narra toda a trajetória de vida desse grande craque da bola. O diretor Penna Filho fez a opção de contar a história do atleta tendo como base a biografia escrita pelo maestro e pesquisador Kléber Mazziero de Souza (Divino: A Vida e a Arte de Ademir da Guia).

O documentário aborda todas as facetas do grande ídolo do Parque Antártica. Sua infância, o início de carreira no Bangu, a chegada no Palmeiras, a consagração. Vendo o filme também é possível entender a face humana de Ademir. Em toda sua trajetória, o craque sempre foi uma pessoa extremamente modesta, humilde e de poucas palavras. Espécie de Paulinho da Viola palmeirense, Da Guia nunca teve seu talento reconhecido na seleção brasileira. O filme também aborda o assunto.

Entre os entrevistados, estão companheiros de longa data no Palmeiras como Dudu, César e Leivinha. Todos contam histórias saborosas sobre o amigo. Jogadores de times adversários como Gérson, Pedro Rocha e Sócrates dão outro ângulo sobre Ademir. Cronistas esportivos como Juca Kfouri e Juarez Soares também prestam preciosos depoimentos. Mas o grande entrevistado do filme é o mestre da locução esportiva Fiori Giglioti (1928-2006). Em um dos momentos mais emocionantes do documentário, ele ressalta: “Eu nunca vi o Ademir da Guia jogar mal. O Pelé eu cheguei a ver. Mas o Ademir nunca”.

Alguns aspectos negativos do filme são as poucas cenas de arquivo. Em um país sem memória como o Brasil, isso infelizmente acaba acontecendo. Mas nada que prejudique a apreciação deste singelo documentário.

Todo o palmeirense tem como obrigação moral ver pelo menos uma vez Um Craque Chamado Divino. Corintianos, são-paulinos e demais torcedores que gostam de futebol e de boas histórias também não irão se arrepender de ver este filme.

O Casamento de Romeu e Julieta

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

O Casamento de Romeu e Julieta
Direção: Fábio Barreto
Brasil, 2004.

Por Leandro Caraça, especialmente para a Zingu!*

Não basta vontade e um tema interessante para se criar uma boa comédia. O filme tem lá seus momentos, muito graças a Marco Ricca e a Luiz Gustavo, mas no geral tropeça nas próprias pernas e sai de campo com bola e tudo. Bruno Barreto, cineasta de quatro ou cinco filmes de qualidade em quase quarenta anos de carreira, se atira na comédia de costumes (como havia tentado no passado em Romance de Empregada e Bossa Nova) baseado do livro Palmeiras, um Caso de Amor, de Mário Prata.

No filme, o romance entre Romeu (Ricca) e Julieta (Luana Piovani) ganha ares de humor por causa da opção futebolística de cada um. Ele, um corintiano de coração, sofredor. Ela, uma palmeirense apaixonada, criada pelo pai fanático (Gustavo) para torcer pelo time desde criancinha. Para que o relacionamento possa ir em frente, Romeu precisa cometer o impensável. Fingir-se de palmeirense, cantar o hino do arqui-rival e se tornar sócio de carteirinha da agremiação. São essas poucas sequências que conseguem fazer rir, num filme que segue em passos previsíveis até o final.

Alguns clichês são bem trabalhados, como a broxada de Romeu devido ao símbolo do Palmeiras na cama de Julieta, só que o filme perde tempo com situações repetidas e choradeira mal colocada. Também seria interessante se Bruno Barreto abandonasse um pouco a sua visão carioca da zona sul quando fosse focalizar a cidade de São Paulo e os torcedores do Corinthians e do Palmeiras. Sair um pouco dos condomínios de luxo e clínicas especializadas e meter a cara nas ruas, nos bares, nas calçadas.

Outra cisma minha, é puramente machista. Perdoem-me as mulheres, mas não tenho como me conter. Luana Piovani, linda e loira, tem talento inversamente proporcional ao seu gênio forte. Mel Lisboa, a eterna Anita, no papel da namorada do filho de Romeu, é uma personagem que aterrissa de pára-quedas em todas as cenas em que aparece. As duas não sabem atuar e não tiram a roupa. Para que vieram, então? O Casamento de Romeu e Julieta é uma comédia popular de certa forma elitista – se a família de Julieta fosse corintiana, acredito que o pai seria Washington Olivetto – e que cria expectativas quase nunca cumpridas. É uma hora e meia de chutões pra frente, com poucas jogadas levando perigo à pequena área.

*Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.

Pelé Eterno

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Pelé Eterno
Direção: Aníbal Massaini Neto
Brasil, 2004.

Por Vlademir Lazo Correa

Não é a primeira vez que Edson Arantes do Nascimento foi contemplado num documentário com um amplo material sobre sua carreira futebolística. Além de suas malfadadas investidas em filmes de ficção (Fuga Para a Vitória, Os Trombadinhas, etc.), o grande craque já havia sido tema de Isto é Pelé, que Eduardo Escorel dirigira nos anos setenta, com texto do cronista Paulo Mendes Campos e supervisão de Luis Carlos Barreto. Com material de arquivo do Canal 100 e da Globo, mostrando mais de cem gols, Isto é Pelé foi durante muitos anos uma das fitas mais procuradas no mercado nacional de vídeo e campeão de vendas no auge do videocassete.

O tempo passou e o antigo filme de Escorel foi sendo esquecido, como se o seu material estivesse defasado e urgisse a necessidade de um outro que ocupasse o lugar de filme oficialesco sobre o rei do futebol em nossa época que exige por demais excessos de informações e imagens icônicas. É a forma com que Pelé Eterno se apresenta por inteiro. Ainda que a maior parte carreira do jogador tenha se desenrolado num período em que o videotape ainda engatinhava, o trabalho do cineasta Aníbal Massaini Neto foi o de coletar todo e qualquer material imagético mais relevante em torno de Pelé dentro das quatro linhas.

O resultado é uma verdadeira orgia de gols e lances sensacionais do ex-atleta do Santos e da Seleção Brasileira, costurados numa narrativa didática disposta a cumprir a tarefa de ilustrar a trajetória completa de Pelé. Nada contra, desde que o documentário não se entregasse com vontade férrea à opção de reforçar o mito em torno da figura do homem e jogador, como se o desejo fosse o de agradar não tanto aos espectadores, mas sobretudo ao próprio Pelé. O homem é colocado num pedestal, quase que divinizado, o que resulta em uma simples exposição da sua vida e carreira, com a narração em off explicando o que na maioria das vezes está diretamente exposto nas fotos históricas e fragmentos fílmicos do homenageado, modificando muito do material de arquivo com o uso de computadores, para torná-lo mais palatável às platéias modernas.

O principal atrativo e cereja do bolo do filme de Massaini é a recriação daquele que o próprio Pele considera o mais belo entre os mais de mil e duzentos gols que marcou na carreira, num jogo entre Santos e Juventus, de 1959. Como não existem passagens filmadas desse gol, o documentário mostra depoimentos de atletas que participaram daquela partida, numa edição rápida com cada um deles descrevendo de memória um pedaço do lendário gol, que finalmente é recriado com o uso de computadores, com três balões de Pelé passando pelos zagueiros e o goleiro até fulminar as redes. Demais, ao mesmo tempo em que conta a biografia de Pelé, o documentário prossegue com a exibição de centenas de lances e gols (especialmente os das Copas do Mundo de 1958 e 1970), quase como se fosse uma edição esticada de um dos quadros de O Gol – O Grande Momento do Futebol, da TV Bandeirantes.

Trata-se de reiterar uma homenagem bem-intencionada a uma grande figura futebolística já devidamente explorada nos últimos cinqüenta anos. Ao público, resta deleitar-se (pelo menos os aficionados do esporte) com a revisão do futebol maravilhoso praticado pelo célebre jogador.

Boleiros

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Boleiros – Era uma Vez o Futebol
Direção: Ugo Giorgetti
Brasil, 1996.

Por Matheus Trunk

Boleiros não é um filme qualquer sobre futebol. Trata-se de um dos únicos longas-metragens nacionais a falar dos bastidores do esporte e do lado menos glorioso da modalidade. O enredo gira em torno de um grupo de ex-profissionais do futebol que se reúnem em um bar de São Paulo para conversarem sobre o assunto.

Toda vez que um caso é contado, a ação do filme se desloca para a história que está sendo contada. O ex-atleta que está em sérias dificuldades financeiras, o juiz corrupto, o craque que atravessa uma má fase e tem que apelar para um pai de santo, são alguns dos episódios mostrados na película.

O esporte é um tema recorrente da obra do cineasta paulista Ugo Giorgetti. Um de seus primeiros trabalhos foi um documentário abordando a carreira e as lutas do boxeador bicampeão mundial Eder Jofre (Quebrando a Cara, feito entre 1977 e 86). Infelizmente, esse filme nunca entrou no circuito comercial.

Outra característica do cinema de Giorgetti é ele ser um verdadeiro cronista de São Paulo. Todas as películas do realizador tratam da cidade com um olhar crítico e carinhoso. Ele dirige da mesma maneira que o escritor Marcos Rey escrevia suas crônicas sobre a capital paulista. Este espírito paulistano está presente em cada fotograma de Boleiros.

O elenco é outro ponto a ser destacado. Giorgetti é um cineasta que conhece profundamente a sétima arte e que sabe aproveitar bem seus atores. Lima Duarte, Otávio Augusto, Aldo Bueno e Adriano Stuart estão muito bem no filme. Mas o espectador mais atencioso poderá visualizar grandes atores em papéis pequenos como os comediantes Borges de Barros, Gibe e mesmo o cantor Sílvio César. Ex-jogadores como Zé Maria e Luis Carlos Galter também fazem participações especiais.

Um ex-jogador costuma dizer que nunca havia conhecido tanto sobre si mesmo e sobre o ser humano como num campo de futebol. Esse longa-metragem é um trabalho dedicado a esses homens e seu universo: um olhar crítico e ao mesmo carinhoso sobre os boleiros.

Barbosa

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

barbosa

Barbosa
Direção Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Brasil, 1988.

Por Gabriel Carneiro

Barbosa é uma mistura entre ficção e documentário. O filme de 12 minutos é talvez o melhor curta de seus autores, os gaúchos Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. Nele, a mensagem parece clara: uma pessoa pode ser julgada por toda sua vida devido a um simples ato. Para mostrar a crueldade humana que extravasa certas paixões, tomam como objeto o goleiro da seleção brasileira de 1950, Moacyr Barbosa, considerado a grande razão de o time perder a Copa daquele ano na abertura do Maracanã.

A necessidade de culpar uma pessoa pelo destino de um jogo coletivo, de se arranjar um bode expiatório, sempre esteve em pauta – a comunidade do Orkut “Valeu, Felipe Mello”, criada no dia 2 de julho, já tem mais de 40 mil membros, para ficar num exemplo atual. A genialidade do curta está na profundidade dos assuntos tratados em tão curto tempo. Ao fazer um homem que tenta ainda entender a derrota, quase 40 anos depois, e que o leva a voltar no tempo, para aquele fatídico dia, Furtado e Azevedo tratam da questão da memória, da história, do relacionamento entre pai e filho e da própria imagem, entre outros.

A memória e a história que se constrói em torno dela parecem ser os principais motes da discussão no filme: um homem é condenado por um único ato – Barbosa é lembrado maldosamente pela falha no gol, e nada mais do que fez parece importar. Uma das cenas mais tocantes do filme é quando, numa entrevista com o ex-goleiro, ele relata um episódio, em que, quando foi balconista de uma loja, foi atender uma mulher, que falou para um garoto: “esse é o homem que fez o Brasil chorar”. Em Barbosa, o personagem de Antônio Fagundes volta no tempo justamente para mudar o destino desse homem, tirar a culpa de suas costas. É uma revisão da história, buscando apagar um momento que só foi um desserviço à nação.

Se o apelo emocional do problema de relacionamento entre pai e filho existe para dar maior identificação com o espectador, a dupla de diretores não deixa de apelar para a discussão fílmica da imagem. Ao final, após os créditos, Barbosa, ri, em entrevista: “é difícil ser artista”. O trecho perde o caráter documental e ganha a ficção: afinal, a imagem não é a verdade.

Obs.: O filme pode ser visto aqui.