Reflexos em película

Por Filipe Chamy

Respeitável público

O público de cinema quer destruir o cinema.

Sei que parece uma afirmação temerosa, mas em alguns aspectos objetivos, o público pagante, esse público que mantém os sorrisos dos produtores e condenam ou aclamam determinados projetos cinematográficos, está criando condições tão extremas e absurdas que inviabilizará qualquer progresso ou permanência da arte de que dizem gostar.

Um exemplo é o tão comentado 3D. Esse recurso havia sido utilizado experimentalmente no cinema comercial americano dos anos 1950. Algumas décadas se passaram e ninguém pareceu sentir muita falta desse tipo de realismo forçado. Até que novamente James Cameron presta (de maneira deliberada, evidentemente) o desserviço de criar moda entre os imitadores, capachos e asseclas que o rodeiam em Hollywood. Depois de Avatar, não se pensa em mais um projeto do cinema arrasa-quarteirão ianque que não seja embebido nas tais três dimensões. Esquecem todo o resto para parir às pressas projetos estapafúrdios que nada possuem, mas que enchem os olhos de quem quer ver folha voando, braço que sai da tela do cinema, letras sambando por todo lado. Culpa de quem? Do público, esse senhor que quer ser surpreendido, mas cujas surpresas são sempre as mesmas coisas, o espetáculo barato, a diversão fácil, o prazer vulgar.

O público abandona o cinema porque quer suas novas manias impressas na telona: não quer um filme de ação, quer um videogame; não quer uma comédia, quer um stand-up; não quer nada com nada, e por isso a única coisa que pode lhe agradar é o nada, o vazio, a ausência de importância, de talento, de comprometimento. O novo filme de Tim Burton é um exemplo capital dessa nova tendência do cinema blockbuster de hoje: Alice no País das Maravilhas é frouxo, mal acabado e sem qualquer aspecto memorável, mas está conseguindo estrondoso sucesso a custa da enganação dos efeitos ocos da modernização tão pedida pelo público, que está lotando as salas onde o filme é exibido. Aliás, o caso de Alice é ainda mais grave e sintomático: o filme foi filmado em 2D e apenas na fase da pós-produção foram acrescentadas as mudanças que adicionaram outra dimensão às sempre sem graça imagens da fita. Alice ainda vai além: o que andam elogiando nessa medíocre tentativa de Tim Burton de chegar aos pés de seu mestre Jan Svankmajer? Justamente o visual do longa, o pior de seus defeitos. Um amontoado de atrocidades digitais, como os ridículos Tweedledee e Tweedledum, que mais parecem criaturas saídas de um screensaver que de um mundo de fantasia, sonhado ou não.

E o público aplaude, bate palmas, saltita de alegria ao elogiar esses artificialismos que engavetam todos os filmes que são diferentes, esse tipo de comportamento que já está fazendo surgir entre determinado círculo (o mais abastado, que tem mais dinheiro e tempo) o pensamento de que filmes que não têm esses efeitos, não são em 3D, não têm retoques computadorizados ou efeitos especiais estão quase tão anacrônicos quanto filmes mudos, filmes em preto e branco — exemplos que demonstram que não é apenas o cinema rentável de hoje que tem um público tão lamentável, porque aos poucos o cinema se padroniza e sobra aos independentes hastear a bandeira da novidade (sendo que o público pagante não verá bandeira alguma, pois é cego e daquele que nada quer ver).

Mais apavorante que qualquer filme de terror é um dia na fila de um shopping ouvir os novos cinéfilos e cineastas discutirem seus gostos e preferências. A impressão que fica é que chegará um ponto em que a idéia de cinema comercial será ir para a sala de projeção levar choques ministrados por uma máquina qualquer. Porque o prazer dos olhos, feliz expressão de Truffaut, virou a fúria dos sentidos e está quase martirizando o cinema.

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