Entrevista com Francisco Ramalho Jr.

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

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Por Gabriel Carneiro

O cineasta Francisco Ramalho Jr., 70, está fazendo cinema há mais de 40 anos, desde que começou realizando seus curtas semi-profissionais. São sete os longas: Anuska, Manequim e mulher (1968), À Flor da Pele (1976), O Cortiço (1978), Paula – A História de uma Subversiva (1979), Filhos e Amantes (1981), Besame Mucho (1986) e Canta Maria (2006), além do episódio Joãozinho, de Sabendo Usar não Vai Faltar (1975).

Em entrevista exclusiva à Zingu!, por email, Francisco Ramalho Jr. conta de sua vida no cinema, seja na direção, seja na produção (em que também tem longa carreira), e sobre as dificuldades de fazer no Brasil. Seu próximo longa já está engatilhado: América Americana.

Para ler a entrevista, clique abaixo:

Parte 1: O comece de tudo e Anuska
Parte 2: Filmando na Boca e auge na direção
Parte 3: Anos 1980, depois da entrada do cinema de sexo explícito
Parte 4: Voltando à direção

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Barbosa

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

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Barbosa
Direção Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Brasil, 1988.

Por Gabriel Carneiro

Barbosa é uma mistura entre ficção e documentário. O filme de 12 minutos é talvez o melhor curta de seus autores, os gaúchos Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. Nele, a mensagem parece clara: uma pessoa pode ser julgada por toda sua vida devido a um simples ato. Para mostrar a crueldade humana que extravasa certas paixões, tomam como objeto o goleiro da seleção brasileira de 1950, Moacyr Barbosa, considerado a grande razão de o time perder a Copa daquele ano na abertura do Maracanã.

A necessidade de culpar uma pessoa pelo destino de um jogo coletivo, de se arranjar um bode expiatório, sempre esteve em pauta – a comunidade do Orkut “Valeu, Felipe Mello”, criada no dia 2 de julho, já tem mais de 40 mil membros, para ficar num exemplo atual. A genialidade do curta está na profundidade dos assuntos tratados em tão curto tempo. Ao fazer um homem que tenta ainda entender a derrota, quase 40 anos depois, e que o leva a voltar no tempo, para aquele fatídico dia, Furtado e Azevedo tratam da questão da memória, da história, do relacionamento entre pai e filho e da própria imagem, entre outros.

A memória e a história que se constrói em torno dela parecem ser os principais motes da discussão no filme: um homem é condenado por um único ato – Barbosa é lembrado maldosamente pela falha no gol, e nada mais do que fez parece importar. Uma das cenas mais tocantes do filme é quando, numa entrevista com o ex-goleiro, ele relata um episódio, em que, quando foi balconista de uma loja, foi atender uma mulher, que falou para um garoto: “esse é o homem que fez o Brasil chorar”. Em Barbosa, o personagem de Antônio Fagundes volta no tempo justamente para mudar o destino desse homem, tirar a culpa de suas costas. É uma revisão da história, buscando apagar um momento que só foi um desserviço à nação.

Se o apelo emocional do problema de relacionamento entre pai e filho existe para dar maior identificação com o espectador, a dupla de diretores não deixa de apelar para a discussão fílmica da imagem. Ao final, após os créditos, Barbosa, ri, em entrevista: “é difícil ser artista”. O trecho perde o caráter documental e ganha a ficção: afinal, a imagem não é a verdade.

Obs.: O filme pode ser visto aqui.

Carta ao leitor.

40 edições. Podemos dizer que é uma vitória a Zingu! chegar ao número 40. Feita de forma completamente independente, com custos arcados pela própria redação, sem retorno financeiro algum, não somos uma revista que tem benefícios. A Zingu! mal consegue uma cabine. Mas, talvez, tenhamos as melhores oportunidades: podemos entrevistar grandes nomes do nosso cinema, alguns no ostracismo, outros não, caso de Francisco Ramalho Jr., o perfilado em dossiê dessa edição.

Ramalho é uma pessoa obstinada. Se, num primeiro momento, não conseguiu viver de cinema, lutou até conseguir. Hoje, sua produtora, Ramalho Filmes, está por trás de filmes de sucesso comercial como O Casamento de Romeu e Julieta (2005) e O Contador de Histórias (2009), além de preparar o retorno de Arnaldo Jabor, após mais de 20 anos afastado, com A Suprema Felicidade. Ramalho é prova de que esse hiato pode ser tranquilamente superado. Ele mesmo, que deixou de dirigir filmes após o fechamento da Embrafilme, voltou em 2006 com Canta Maria e já tem um projeto em pré-produção, América Americana.

Ramalho é uma dessas pessoas de cinema que transitou por diferentes realidades, apesar de ter dirigido apenas 7 longas. Passou pelo cinema paulista dos anos 60, sem uma identidade muito forte, foi para a Boca do Lixo, fez cinema com a Embrafilme e agora conta com as leis de incentivo. Manteve-se ativo produzindo os filmes dos amigos. Em determinado momento da entrevista, ele diz: “Não parei de trabalhar em longa-metragem e me posiciono como exemplo vivo para todos de que é possível se fazer cinema no Brasil”. É verdade, é um exemplo. Independente do que se possa julgar a respeito da qualidade dos filmes, Ramalho faz só cinema há mais de 30 anos. Hoje, com 70, continua nisso, e cada vez mais. Mas até que ponto as pessoas sabem disso? Levam essa afirmação em consideração? Isso já não me parece tão freqüente assim.

Ramalho não carrega em si o culto que muitos cineastas do passado – alguns até que continuam em atividade – possuem, como um Glauber Rocha, um Joaquim Pedro de Andrade, um Roberto Santos, ou mesmo um Carlão Reichenbach – longe de isso ser uma forma de desmerecê-los, claro. Talvez seja a chance de Ramalho ganhar um pouco mais de atenção, especialmente com o livro lançado pela Coleção Aplauso (Francisco Ramalho Jr.: Éramos Apenas Paulistas, de Celso Sabadin), no último ano, e com essa edição da Zingu!.

Já escrevi nesse espaço que a Zingu! se propõe a manter viva a memória de certos personagens de nosso cinema. Todos querem ser lembrados, todos querem crer que fizeram algo que vale a pena não ser esquecido, de que tal obra ou trabalho permanece. É aquela história: as pessoas podem ir, mas suas obras ficam. Que fiquem, que sejam lembrados. A Zingu!, caso seja lembrada, fica, em registro, por sabe-se lá quanto tempo, nem que seja em arquivo, tentando mantê-los na (sua) memória.

Gabriel Carneiro
Editor-chefe da Zingu!
Obs.: Aproveito para anunciar que a edição #40 é minha última edição como editor-chefe. Deixo o cargo, mas não a revista. Passo, assim, o bastão para o grande amigo e pesquisador Adilson Marcelino.
Obs.2: Estreamos a edição #40 após longos meses de reformulação, em especial na parte gráfica. O que chega ao leitor hoje, dia 24/11, é a versão beta – uma versão simples -, que será ainda modificada. A versão alpha, criação de Julia Morena,  será em breve lançada.
Obs.3: Vale falar da nossa enorme alegria ao ser indicado ao Prêmio IBAC – dado pelo Instituto Brasileiro Arte e Cultura -, na categoria cinema, ao lado de grandes nomes, caso do Coletivo Alumbramento e especialmente da Coleção Aplauso.
Obs.4: (atualizado às 0h30 do dia 25/11) É com muita felicidade que anunciamos a vitória da Zingu! no Prêmio IBAC 2010, na categoria cinema. A alegria é enorme. Agradecemos a todos que de alguma forma nos ajudaram a conseguir essa vitória.

Anuska, Manequim e Mulher

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

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Anuska, Manequim e Mulher
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1968.

Por Gabriel Carneiro

Pode-se pensar Anuska – Manequim e Mulher como a semente do cinema de Francisco Ramalho Jr., enquanto diretor. Não só porque é seu primeiro filme, realizado há mais de 40 anos, mas porque, por toda sua carreira, discorrerá sobre o cerne do longa de 1968: as paixões desmedidas e seus desenlaces. Os pares Marcelo e Verônica, de À Flor da Pele, Xico e Olga, Tuca e Dina, de Besame Mucho, e mesmo Maria e Filipe, de Canta Maria, são meras extensões de Bernardo e Anuska: pessoas que se juntam por uma paixão abrupta e desmedida, mas que, com o passar do tempo, vão se apercebendo das conseqüências desse amor ‘irracional’, por assim dizer, fundamentado muito mais na emoção do que em qualquer outra coisa.

anuskaPois, se Anuska – Manequim e Mulher é pioneiro em mostrar o mundo brasileiro da moda, é também avassalador entre filmes de temáticas de amores imperfeitos, que já vinham ganhando maiores contornos, em nosso cinema, com Walter Hugo Khouri. A filiação aqui, porém, é meramente temática. O filme de Francisco Ramalho carece da imersão passional dos filmes de Khouri. A diferença está mesmo no olhar. Para Ramalho, a paixão obsessiva de Bernardo e, a princípio, de Anuska é vista de maneira complacente. Ele não entra no jogo, mostrando apenas com um distanciamento, por vezes, cruel – quase como se fosse um mero observador, um relator de tais paixões. Não há uma identificação com o público dos protagonistas; as fragilidades e desmanches da relação não impactam o espectador. Talvez seja essa justamente a principal conquista do filme, quase como se o filme nos dissesse que devemos ser mais racionais e menos inconseqüentes em nossas paixões, que não devemos entrar de cabeça e idealizar completamente nosso parceiro amoroso – a dor e os problemas podem ser intratáveis durantes os conflitos.

Anuska é uma modelo aspirante, que mantém uma relação estranha com Sábato, responsável por uma linha de roupas. Quando ela conhece o jornalista Bernardo, as coisas mudam radicalmente. Enamorados, passam a morar juntos. Acontece que, mesmo sem Sábato, Anuska consegue entrar na indústria da moda, passa a viajar e tudo o que quer é festejar. Bernardo deixa de ser sua grande paixão, torna-se apenas o porto seguro, a garantia. Mas o mesmo não ocorre com ele. Para manter a vida de luxo que ela tinha, larga o jornalismo para virar publicitário, função que odeia. O apego de Bernardo continua, e a frivolidade de Anuska o destrói.anuska-4

É a história da desilusão. O distanciamento dá ao filme uma conotação mais realista e mais sombria. A obsessão que norteia os personagens, em diferentes momentos, só mostra a pateticidade da experiência. Francisco Ramalho construiu isso ao longo de sua obra. Alguns filmes seminais de sua trajetória apontam ao caminho da aceitação pessoal e da libertação do outro. Anuska – Manequim e Mulher é o ponto de partida, quando começamos a ver o desenlace, que é potencializado em À Flor da Pele, quando a obsessão toma figuras desproporcionais aos próprios sentimentos para com outros e encontram a anulação do eu. Em Filhos e Amantes, após as tragédias finais do filme anterior e das dúvidas dos jovens, encontram a paz interior, a aceitação do eu e a libertação do outro. Besame Mucho funciona então como um balanço, voltando ao início, nos anos 1960, e querendo entender como chegou naquele ponto, nos anos 1980 – como se a libertação, enfim conquistada, estivesse mais na esfera do sonho.

Independentemente de todas essas ponderações, Anuska – Manequim e Mulher também funciona como um filme de sua época, do liberalismo feminino frente ao seu papel como esposa, mãe e dona de casa. É, afinal, sobre transformações.

Besame Mucho

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

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Besame Mucho
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Besame Mucho é possivelmente o melhor filme de Francisco Ramalho Jr. Nele, não há os personagens histéricos que tendem a permear boa parte da curta filmografia do diretor-produtor, mas as diferentes histórias da classe média continuam fazendo-se valer. Contado de trás para frente, Besame Mucho narra pouco mais de vinte anos da vida de dois casais amigos, Tuca e Dina, Xico e Olga. São personagens tentando se entender, tentando manter a paixão, sempre ciclicamente – são vidas que começam e terminam nos anos assuntados, inicialmente retornando de três em três anos, para passar de dois em dois.

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Há uma beleza tremenda na simplicidade com que a história é contada e mostrada. O recurso temporal utilizado é um acerto: ao invés de buscar o prisma da causa e conseqüência para melhor entender o destino de cada um, opta-se por destrinchar o passado, para melhor entender os personagens. Funciona também no espectro de balanço histórico a que o filme se propõe. Aliás, tal balanço faz dele um típico filme dos anos 80, que, com o término do regime militar, começou a olhar para trás, para tempos e estéticas muitas vezes anteriores a ele, com mais bom humor. Eram tempos de esperança, tentando compreender o que havia ocorrido.

Francisco Ramalho Jr. já havia feito um filme político (Paula, a história de uma subversiva), e em Besame Mucho retoma a linha, mas com muito mais leveza. Seu filme olha para trás, e caminha para trás, mostrando os muitos contextos. A memória que Besame Mucho imprime serve bem aos escritores – o roteiro de Ramalho é baseado na peça de Mário Prata -, contemporânea a eles. Os anos 80 fecham um ciclo e mostram um arrefecimento para os dois casais. Os anos 70 são os anos políticos, especialmente para Xico e Olga, que lutam por um país livre, buscando o fim da ditadura. Os anos 60 são os anos do amadurecimento. Não há nostalgia no olhar de Ramalho para com esses últimos, quando tudo parecia bem. O que vemos, muito mais do que isso, é a ilusão de que eram realmente anos nostálgicos, são anos sem preocupações, quase como se fosse um sonho sendo realizado a cada momento. É quando vem o regime militar que o período anterior ganha o ar de nostalgia: o sonho fora destruído por uma realidade muito mais crua, especialmente quando a vida interiorana dá lugar à megalópole.besame-mucho-300x200

Uma das razões de o filme ser tão bem sucedido é não se prender a um partidarismo panfletário. A crença dos personagens parece pouco importar, o encanto está nas idiossincrasias. Em determinado momento, Olga vai à casa de Xico. Eles estão separados, e ele já é um promissor dramaturgo esquerdista, contra o regime dito opressor. Olga não. Ela vai falar com Xico para lhe dizer que está mudando para a França. Conhecera um rapaz, por quem se apaixonara, que precisava se exilar. Xico pergunta se eles já haviam transado. A resposta dela, positiva, deixa-o perturbado. Diz ele que ainda não conseguiu se livrar de todas as crenças de quando vivia na pequena cidade do interior paulista. A aparente contradição é que dá tanto gosto ao filme – ganha, assim, maior liberdade. Pouco importa o que vai acontecer no futuro, a graça está nesses momentos, quando passamos a melhor entender o outro – e, quem sabe, o mundo ao redor.