Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte

Entrevista com Hernani Heffner – Primeira Parte

 

 

Por Luiz Alberto Benevides*
Fotos:
William Condé – Transcrição: Tiago Rosas e Adriana Clen

Não tinha como ele não ser botafoguense. Só quem já viveu na carne e na alma as inexoráveis “coisas que só acontecem com o Botafogo” é capaz de captar, na sua plenitude, as coisas que só acontecem no Brasil. E principalmente, as coisas que só acontecem com o cinema no Brasil. 

Só aqui, um país eternamente claudicante no investimento em cultura coincidiria com uma das cinematografias mais originais do mundo. Só aqui, um país demoliria um pobre casario no Estácio para construir uma passarela do samba, indenizando a família de um menino que, juntando a fome pelas apostas de turfe com a vontade de ver qualquer tipo de filme, se tornaria a maior enciclopédia viva do cinema no território nacional. Só aqui, um estudante de cinema que não teve professor de fotografia, nem de montagem nem de som se formaria pelo seu autodidatismo com a competência necessária para salvar do assassinato – e do descaso da classe cinematográfica – uma das cinematecas mais importantes da América Latina. Só aqui, um funcionário de uma represa abriria as comportas durante uma enchente e devastaria um bairro inteiro, matando 70 pessoas e quase destruindo toda a memória de uma das suas maiores companhias cinematográficas. Só aqui, aquele menino suspenderia sua profissão de pesquisador para virar restaurador de filmes na marra, ajudando a salvar 17 longas dessa companhia em 14 anos. 

Na paixão, seja pelo Botafogo ou pelo cinema, não existe ganhar ou perder. É só ser. Do saudoso cinema Comodoro, no bairro carioca do Estácio, à pesquisa e conservação na (e da) Cinemateca do Mam; da precária e apaixonada Uff oitentista à salvação do acervo da Cinédia; das interativas sessões de kung fu no cinema Rex às obstinadas aulas de história do cinema mundial. Só aqui, duas horas e meia com Hernani Heffner. 

Parte 1 – A infância; o Estácio; o Rio de Janeiro da época

Parte 2 – Os Anos 70; Santa Teresa; a telelevisão 

Parte 3 – O cinema; os cinemas de rua; a universidade

 

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Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte – Parte 1

Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte
Parte 1 – A infância; o Estácio; o Rio de Janeiro da época

 

Por Luiz Alberto Benevides
Fotos: William Condé – Transcrição: Tiago Rosas e Adriana Clen

Zingu! – Hernani, como sempre, vamos começar falando das origens. Onde você nasceu, quando você nasceu? 

Hernani Heffner: Eu nasci aqui no Rio, no Estácio, em 23 de fevereiro de 1962. Nasci numa família pobre, que vivia onde hoje é o Sambódromo, ficando ali até os meus 17 anos, quando aí se decidiu construir o Sambódromo. A desapropriação foi ainda no governo do  Marcos Tamoio, a construção já se deu no primeiro governo do Leonel Brizola. 

Z: A construção já tinha começado antes? 

Hernani: Não, não. Tinha a idéia. Desapropriaram, ou seja, destruíram as casas desde lá do Túnel Santa Bárbara até lá na Av. Presidente Vargas e por isso, enfim, nós morávamos onde hoje é mais ou menos do lado do Setor 4, do lado onde ficava a Brahma, e ficou aquele “chove não molha”, não se decidiu construir imediatamente. Houve um ano em que construíram de forma improvisada uma arquibancada de madeira, mas desarmaram logo em seguida. E aí o Brizola chegou e havia essa reivindicação do pessoal do samba para se ter um local fixo para se desfilar, aí construíram o Sambódromo. 

É uma área de casas antigas, construídas no final do séc XIX. Ali, eu morava na Rua Senhor do Matosinho; do lado, a paralela é a Rua Salvador de Sá, que é uma antiga vila operária, inclusive. Hoje é um conjunto tombado, remanescente de um momento em que a cidade começava minimamente a se organizar de forma industrial e aí começou a construção das vilas operárias na cidade, que e eram três originalmente: aquela perto da fábrica Confiança, ali em Vila Isabel, que não existe mais, a que era perto da fábrica Corcovado no Jardim Botânico e essa ali no Centro que na verdade servia às fábricas de cerveja instaladas pela região. 

Z: Além da Brahma? 

Hernani: A Brahma foi pra lá depois. Havia fábricas menores. A Brahma foi pra ali porque ali era, digamos assim, uma área onde você tinha uma mão-de-obra, de alguma maneira educada ou formada para trabalhar com isso. Então a Brahma se instalou ali depois dos anos 40 e está  até hoje. O prédio ainda existe, embora a fabricação não seja mais feita. 

Z: A Brahma era uma presença importante? 

Hernani: Era uma presença pontual. Não, ninguém ligava pra Brahma. Não, primeiro porque a Brahma era um muro de concreto de, sei lá, 50 metros de altura. Ninguém nunca entrou, ninguém nunca conheceu, etc. Você tinha uma empresa, na verdade, já muito rica em um bairro muito pobre e isso fazia com que a população do lugar a ignorasse completamente. Havia uma tradição do Catumbi, do Estácio, eu morava na divisa entre uma coisa e outra. A Rua Senhor do Matosinho fica entre a Salvador de Sá e a Frei Caneca e a Frei Caneca é onde começa de fato o Catumbi. Eram bairros formados por imigrantes, em geral, sírios, turcos, enfim, você tinha uma comunidade árabe relativamente significativa no Catumbi e já mais para o Estácio você tinha um daqueles núcleos originais de constituição de favelas, próximo ao morro de São Carlos. Então você tinha um enclave entre um bairro que outrora tinha sido aristocrático, que é Tijuca, que naquele momento já estava decadente, e tinha se transformado em um bairro de classe média, classe média baixa; e você tinha uma área popular até o túnel Santa Bárbara; depois do túnel você já tinha de novo uma área de uma nova classe média que é a Zona Sul: Catete, Flamengo, Botafogo. Então eu morava a rigor no Centro, que estava muito próximo da Presidente Vargas, da Praça da Bandeira, lá muito próximo da região da Praça da Cruz Vermelha, do Catumbi, do Rio Comprido, mas a rigor é uma região que fica entre duas áreas de classe média. Eu morava na rua da delegacia, que era a 8ª DP. 

Z: Ainda existe essa rua, dos Matosinhos?

 Hernani: Parte só, né? Porque a parte onde um morava… é a arquibancada. Onde eu morava é a arquibancada. Ainda tem um pedacinho, mas não muito grande. Era a rua da delegacia, depois a delegacia mudou dali para perto do Morro de São Carlos. Do lado, era a rua Frei Caneca, do presídio Lemos de Brito, que foi implodido em 2010 e que vai virar conjuntos habitacionais. A infância é povoada de histórias engraçadas, do tipo fugas da delegacia, fugas do presídio, enfim, aquelas coisas de resgates de presos. Não cheguei a ver o do Escadinha, mas vi muitos presos passando pela minha porta saindo correndo e pra criançada era tudo uma festa, não era problema. 

Z: Não tinha aquela história dos tamancos, do português de tamanco? 

Hernani: (risos) Como ali você tinha uma área popular, você tinha hábitos que ainda vinham da década de 60, que era a minha infância, que ainda vinha na verdade do final do século XIX. Tinha velhos comércios como, por exemplo, o armarinho, a padaria de forno de lenha, a carvoaria, a funilaria, o turco que vende toalha, lençol e colchão; colchão não, colcha, de porta em porta. Me lembro de um que vendia relógios, que era o Seu Adolfo, que ia de porta em porta. E você tinha ainda uma presença forte, pelo tipo físico, pelas roupas, pelo calçado, pelo sotaque, de portugueses. Você ainda tinha portugueses, sei lá, de 50/60/70 anos, que na verdade nasceram no início do século e que ainda tinham os hábitos portugueses de uma forma muito arraigada, que costumavam se vestir completamente de preto e ainda tinham um sotaque carregadíssimo e etc. Então você tinha ali ainda a presença de um Brasil do final do século XIX e início do século XX. Aquele momento em que você ainda tinha uma distinção muito grande entre os que formaram o Brasil, os imigrantes que formaram o Brasil, ou seja, os portugueses, os sírios, os europeus e etc., e seus hábitos arraigados, né? Você via portugueses andando de tamanco de madeira praticamente todo dia e isso não era um problema, pois via pessoas vendendo os tamancos de madeira. Eu via isso, você tinha o vassoureiro que vendia lá as vassouras de piaçava etc., e tinha o cara que vendia sapatos; e entre eles, os tamancos de madeira como item regular. O autêntico camelô, que é aquele que fica andando. Porque o camelô de hoje em dia fica parado, ele só corre quando vê o rapa, mas antigamente não, ele andava bastante. Camelô, ele anda pelo meio da rua oferecendo produto, né? 

Z: Era o ambulante. Hernani: Era o ambulante e isso era absolutamente comum na minha infância. Tinha aqueles que vendiam doces pra criançada, aquela chupeta, que é aquele doce caramelado, ultra-melado, que as crianças adoravam e tudo isso fazia parte da infância ali àquela altura; e você tinha, digamos assim, uma convivência, que era uma convivência típica de um pequeno bairro de Portugal. Todos se conheciam, todos tinham laços maiores ou menores, você tinha questões internas, havia preconceito contra os mais pobres ou contra aqueles que, de alguma maneira, te colocavam à margem dali, mas no fundo, no fundo, todo mundo convivia e isso representava um sentido de vizinhança muito forte, que depois desapareceu no Brasil inteiro. Não existe mais isso. Nem mesmo no subúrbio mais. Era o tempo de você viver de porta aberta, das crianças serem largadas no meio da rua e formarem aqueles bandos de cinquenta, sessenta, setenta crianças correndo de um lado para o outro, fazendo todo tipo de estripulia, etc. Pra você ter uma ideia, você tinha a Brahma, do outro lado eram terrenos baldios. Praticamente aqui da Salvador de Sá, onde ficava a Estácio de Sá (a escola de samba, que na época se chamava São Carlos, depois é que mudou de nome para Estácio de Sá), dali da quadra até a Avenida Presidente Vargas era terreno baldio. E aí você tinha a criançada espalhada por aquilo tudo, ou jogando bola ou caçando passarinho ou soltando pipa, etc. e tal. Enfim, era praticamente a criançada da região inteira. E aí, você tinha esse sentido de vizinhança que depois obviamente se perdeu.  

Z: Durante a sua adolescência até acontecer a Derrubada, você ainda teve contato com essas pessoas que moravam no mesmo lugar? 

Hernani: Com todas, eu vivi ali quinze anos. Só mudei dali em 77, que aí, enfim, veio a ordem de desapropriação, veio muito em cima, e aí eu fui mudar para Santa Teresa, onde você não tem sentido de comunidade nenhum, né?

Parte 2

Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte – Parte 2

Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte
Parte 2 – Os anos 70; Santa Teresa; a televisão

 

Por Luiz Alberto Benevides
Fotos: William Condé – Transcrição: Tiago Rosas e Adriana Clen

Zingu!: Nos anos 70 já não tinha? 

Hernani: Santa Teresa era um bairro extremamente aristocrático e as pessoas eram voltadas para si mesmas e para seu pequeno grupo de amigos, né? Se formavam círculos de vizinhança por afinidade e não por contigüidade, quer dizer, o vizinho do seu lado já não interessava mais, você tinha que conhecer e ter afinidade em algum sentido pra ter convivência. Santa Teresa é completamente diferente do que era o Estácio. Era um bairro mais novo. Embora a ocupação de Santa Teresa seja do final do século XIX, ela se renovou mesmo a partir dos anos 30, um bairro Art Déco, um bairro de classe média, classe média alta, que se formou em definitivo ali àquela altura e era um bairro que, por estar isolado da cidade inteira e se ter dificuldade de você chegar lá. Transporte público sempre foi péssimo, bondinho sempre foi de hora em hora… era o Largo dos Guimarães. Você tinha um certo isolamento no bairro. O bairro não tinha nada, não tinha uma agência bancária, só tinha uma delegacia de policia e uma agência do Correio. A mesma coisa, não mudou nada. Uma agência bancária, um supermercado e uma agência de correios. É, a única coisa que tem de novidade em Santa Teresa, porque nunca teve isso ao longo da história do bairro, é um cinema. Hoje em dia tem um cinema. 

Z: E aquela velhinha das frutas, famosa em Santa Teresa que não deixa pegar as frutas, nem fotografar, já existia? 

Hernani: Eu não lembro dela (risos). Enfim, eu na verdade conheci Santa Teresa de uma forma muito ampla porque logo que eu mudei para o bairro, eu comecei a trabalhar e fui trabalhar como entregador do Círculo do Livro [editora e distribuidora extinta no início dos anos 90 que vendia edições em capa dura de livros de diversas editoras e os entregava a domicílio]. Então a minha área era Santa Teresa, eu andei em todas as ruas, fui a todas as casas e todos os prédios etc. E eu conheci o bairro como a palma da minha mão. Fui trabalhar no Círculo do Livro no final de 1977 até 79 e só deixei de trabalhar porque fui para a Uff. Aí eu conhecia muito bem o bairro e sabia exatamente o que o bairro era, como o bairro era hiperfechado e como você não tinha nenhuma infraestrutura de vida comunitária no bairro. Era essencialmente residencial e como as residências, elas já tinham o hábito de se trancar, de se fechar, de colocar grade e de colocar cadeado etc., pois era um bairro muito visado pra assaltos a mão armada, um bairro completamente isolado de toda a cidade. 

Z: Já no fim dos anos 70? 

Hernani: Já. Uma coisa em que não se presta atenção, quer dizer, se tinha muito mais assalto a mão armada, assalto no meio da rua, assalto na esquina, nos anos 70 do que hoje. Porque nos anos 70 você não tinha o tráfico organizado de uma forma, vamos dizer assim, profissional. O tráfico era muito aleatório, era muito desorganizado, a escala era muito pequena inclusive. Droga era um negócio muito caro. A droga essencialmente era pra classe média, classe média alta. Só foi se popularizar nos meados dos anos 80 em diante e aí nesse sentido, enfim, você não tinha outra alternativa pra minorar a desigualdade – sobretudo para aqueles que não tinham nada – do que o assalto, então assalto era muito comum na cidade inteira. E como em geral a maior parte dos assaltos era por pequenos bandidos, então não tem registro, não ficou pras estatísticas. Comparativamente hoje, você tem assaltos ainda, mas proporcionalmente, muito menor hoje do que era naquela época. Tanto que eu andei Santa Teresa inteira, durante dois anos, nunca fui assaltado. E sabia que tinha uma presença de assalto muito grande. Eu nunca fui assaltado, mas via assaltos praticamente diariamente porque quando eu fui pra Uff, eu estudava de noite, então eu voltava e acabava dez horas da noite na Uff e, em geral, eu pegava a barca ou das dez, se tivesse saído um pouco antes, ou das dez e meia. Em geral, eu pegava das dez e meia, chegava dez e cinqüenta na Praça XV e andava até a Senador Dantas pra pegar o último bonde, que saía onze e quarenta e sistematicamente o último bonde era assaltado logo depois que passava pelos Arcos e parava. Só que, como eu sempre andei de estribo, eles não mexiam com quem estava no estribo, só assaltavam quem estava dentro do bonde pagando o bonde, então eu vi centenas de assaltos. 

Z: E você já sabia disso e ia pro estribo? Você já sabia disso? 

Hernani: No início não sabia, né? Enfim, você pega porque é mais divertido. Estribo é muito mais divertido porque economiza (risos). 

Z: Tava sempre cheio o bonde? 

Hernani: Tava. O transporte é precário, você, na verdade, inclusive, mesmo que você quisesse ir sentado a certa altura, as pessoas tinham que ir em pé porque o bonde era hiperlotado e todo dia passava dos Arcos, parava e assalto, assalto, assalto. Isso foi uma rotina durante uns anos no bondinho em Santa Teresa. Então, você tinha muito isso, né? Mas, enfim, não era uma coisa que se você estivesse habituado com a cidade, você não pudesse evitar, dava pra evitar tranqüilamente. 

Z: E em relação ao cinema? Vamos partir lá do Estácio mesmo, quando você tava naquela área. Você tinha interesse como espectador? 

Hernani: Não, não. Segundo a minha mãe, o primeiro filme que eu vi na vida, eu era muito criança e obviamente eu não lembro, foi o Branca de Neve. Acho que eu tinha uns 3 ou 4 anos de idade. Não lembro absolutamente nada, ela que fala que foi o primeiro filme que ela me levou. Até os 13 anos eu não fui ao cinema. Porque eu não tinha dinheiro. 

Z: Você via filme com 3, 4 anos de idade e depois parou de ver por uns dez anos? 

Hernani: De ir ao cinema. Minha formação de cinema é a televisão, não é a sala de exibição. Ali nos anos 60 e ao longo dos anos 70, a televisão brasileira, por falta de recursos, por uma dificuldade de se organizar ainda industrialmente (novela é uma coisa que só vai despontar mesmo a partir dos anos 70), passava muito filme na televisão e, embora passasse com uma defasagem grande – um filme estreava em 1965 e só ia passar na televisão em 1970 – pra uma criança isso não tem nenhuma importância porque ela não acompanhou o momento anterior. Eu vi sistematicamente na televisão todo o passado do cinema a partir do cinema sonoro, basicamente o americano, mas não só… e vi tudo que vinha sendo apresentado nos circuitos a partir mais ou menos de 1965 de uma forma regular. Então, eu assisti muita coisa na televisão que os cinemas não passavam ou que eventualmente, nem mesmo a Cinemateca, que eu descobri tardiamente, passava. Eu vi Metrópolis na televisão, Eu vi Encouraçado Potemkin na televisão, Eu vi Cidadão Kane na televisão, Eu vi A Marca da Maldade na televisão. Essas coisas, na verdade, me foram tornadas acessíveis pela televisão. O que me formou não foi a sala de exibição e sim a televisão. 

Z: Televisão preto e branco? 

Hernani: Preto e branco, velhinha, Bekson. Era uma marca daqueles tubos enormes gigantescos. 

Z: Quantas polegadas? 

Hernani: Nem sei. Isso não existia na época (risos). Acho que era tudo um tamanho só na época. Esse negócio de tamanho maior só veio nos anos 70. A gente até comprou uma Philco Magic, cheia de botão (risos). Isso em 79, se não me engano. A primeira televisão diferente que a gente teve e a cores. 

Z: E como era o acesso à televisão da garotada daquele bairro? Vocês tinham televisão em casa? Tinham “televizinhos”? Como era? 

Hernani: Não, ali, apesar de ser uma vizinhança muito pobre, quase todo mundo tinha televisão. Televisão, naquele momento, você podia comprar em 60, 90 prestações. Era tudo o “milagre econômico”, né? Então as pessoas faziam o esforço para ter esse eletrodoméstico e acabavam conseguindo pagar. Essa televisão que a gente tinha lá em casa, a Bekson, eu não sei a origem dela e me parece que ela era um modelo dos anos 50. Não era uma coisa tão nova assim e aí eu não sei. Desde que eu me entendo por gente, ela tava lá em casa. A imagem mais antiga que eu tenho de vida é a gente sentado na sala vendo televisão. E aí, muito provavelmente a imagem é de 65. 

Z: Você, sua mãe… 

Hernani: Toda a família. Meus pais, minha tia, eu e provavelmente minha irmã que devia ter uns dois anos. Nós éramos cinco. A televisão é que na verdade, de alguma maneira, significou para a maior parte daquela vizinhança o ingresso num certo circuito de comunicação. Porque era raro ler jornal, você não tinha, digamos assim, acesso a informação de uma forma mais qualificada, era raro aparecer livro… enfim, a televisão é que se colocou como uma forma de informação bastante significativa e eu passava o dia inteiro vendo desenho, seriado, filme, novela, o que fosse. E como nos anos 70 alguns canais entraram em decadência tipo Tupi, TV Rio, eles só ficavam passando filme, não passavam mais nada. TV Rio, então, era filme de dez da manhã à meia-noite. 

Z: Não tinha programação brasileira? 

Hernani: Não, não tinha nada. Era só filme, não nem tinha locutor, não tinha anúncio, não tinha nada porque estava absolutamente decadente. 

Z: Tinha vários intervalos comerciais como você tem desde… 

Hernani: Não, não. Na TV Rio? Ela não conseguia mais captar nada. Ela só manteve o sinal no ar. 

Z: Mas ela tinha intervalos comerciais nos filmes? 

Hernani: Não, nos anos 70 não. Nos anos 70 ela já estava absolutamente decadente. As televisões quando entraram em decadência não conseguiam mais captar anúncio. Aí, ela pegava filmes velhos que ela tinha ainda o direito contratual de ainda exibir, fazia reprise um milhão de vezes. 

Z: Você via filmes repetidos ou dava preferência pelos novos? 

Hernani: Eu via o que aparecesse porque criança não tem essa noção de “já vi”, “não vi”. Criança vê um milhão de vezes a mesma coisa e tudo é sempre novo pra ela. E naquele momento, não tinha esse sistema que existe hoje na TV a cabo que você todo dia vê a mesma coisa. Repetia muito, mas de dois em dois anos, de três em três anos. Não era aquela coisa de “a cada semana passa de novo”. Então você às vezes até reconhecia que já tinha visto um ou outro filme, mas era raro. E aí eu fui ter contato com o cinema através da televisão e em preto e branco, quer dizer, a maior parte dos filmes que eu vi na vida, vi em preto e branco. Os filmes eram coloridos, mas a gente via dublados e em preto e branco. No caso da TV Rio, sem comercial. No caso da Globo, da Tupi, tinha comercial. Na Globo, inclusive, como ela virou uma emissora muito significativa ali nos anos 70, foi progressivamente tirando os filmes, né? A Globo foi ocupando os filmes com… 

Z: …programação própria? 

Hernani: É, e com programas de blá-blá-blá, de entrevistas. Me lembro muito, que de manhã, era o horário das crianças. De manhã passava desenho animado e filme em série. Não tinha Globo Esporte, não tinha Mais você, ou naquela época, Malu Mulher ou coisas do gênero. Esses programas chegaram no final dos anos 70 e desalojaram os programas das crianças, né? Tanto que este foi um dos erros táticos cometidos pela Globo e aí, quando a Rede Manchete surgiu, foi lá e colocou um programa de criança. A Globo tinha nos anos 60 o Capitão Furacão, a Tupi tinha o Capitão Aza, eram programas dedicados às crianças, depois isso caiu e o Adolpho Bloch retomou essa coisa com o programa da Xuxa. E aí a audiência foi lá em cima, por quê? Por uma carência, né? Você tinha aquela estrutura nos anos 60/70, aquela estrutura dançou e aí a Manchete retomou e a audiência explodiu; aí a Globo foi lá, pegou a Xuxa e recolocou num horário matutino. Só depois da TV a cabo é que você esvaziou isso porque hoje tem canal dedicado a isso e aí não tem mais pela manhã esse tipo de programa.

Parte 3

 

Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte – Parte 3

Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte 
Parte 3 – O cinema; os cinemas de rua; a universidade

 

Por Luiz Alberto Benevides
Fotos: William Condé – Transcrição: Tiago Rosas e Adriana Clen

Z: E quando é que o interesse pelo cinema começa a se capilarizar? 

Hernani: Não, eu ia ao cinema para me divertir. Aos 13 anos, eu já ganhava dinheiro suficiente com corrida de cavalo. Eu jogava desde os 7 anos e meu pai jogava em corrida de cavalo e jogo do bicho. E eu gostava muito, eu só jogava corrida de cavalo porque jogo do bicho achava chato. Eu ficava ali sentado na calçada, perto de casa, ouvindo as corridas sábado e domingo. Não sei se você já ouviu uma corrida transmitida pelo rádio, aquilo tem um sabor todo particular e curiosamente o locutor mais popular da época tinha o mesmo nome que eu, que era o Ernani Pires Ferreira. 

Z: A voz mais rápida do turfe… 

Hernani: É, depois ele ganhou alguns concursos de velocidade, mas de fato é uma coisa necessária. Por exemplo, um páreo em mil metros na grama às vezes dura menos de um minuto. O cavalo é um bicho tão veloz, que em menos de um minuto ele percorreu os mil metros, então isso requer toda uma técnica pra conseguir extrair alguma lógica da corrida. E eu acompanhava muito, passei a jogar com 8 anos e passei a ganhar com 9, o que me deu algum capital. Meu pai estabeleceu uma regra, eu só podia jogar a aposta mínima. Então, se a aposta mínima era 1 cruzeiro eu só podia jogar 1 cruzeiro, não podia jogar 9, 10 cruzeiros. Isso a partir dos 8 anos. Então a partir dos 9 anos eu já entendia a mecânica da coisa e comecei a ganhar. Aí eu pegava o dinheiro e comprava quadrinhos. Na infância eu lia muito quadrinho, ia na banca, comprava todos… e ali por volta dos 13 anos eu comecei a ir ao cinema porque tinha dinheiro pra passagem e pro cinema. E como eu morava no Estácio, eu basicamente fui na região da Praça Saens Peña, que começava a rigor aqui na rua Haddock Lobo, na Tijuca… 

Z: Comodoro? 

Hernani: Era, o Comodoro que foi o cinema da minha adolescência. Foi o cinema que eu mais fui, e o que eu mais gostava, apesar de ser um cinema pequeno e sem nada de especial do ponto de vista de decoração… mas era o cinema que tinha programação muito boa, fazia par junto com o Veneza em Botafogo e todos os lançamentos “de arte” do Severiano Ribeiro iam pro Veneza e pro Comodoro, então eu vi filmes muito bacanas no Comodoro e porque era o cinema mais próximo que tinha lá de casa. 

Z: Que filmes você viu no Comodoro? 

Hernani: Vi por exemplo… Annie Hall. Foi um dos primeiros filmes que vi na minha vida, e vi no Comodoro; Woody Allen era considerado sofisticado nos anos 70, e aí “taca lá no Veneza e no Comodoro porque ele não vai dar dinheiro”, né? Então eu via filmes como Annie Hall, Esposamante do Marco Vicario, via às vezes também blockbusters como Aeroporto e coisas do gênero, mas a programação era relativamente sofisticada para a época, e todos os ganhadores de Oscar iam pro Veneza e Comodoro. 

Z: E você tinha preferência pelo Comodoro ou você ia em todos os cinemas da região da Praça? 

Hernani: Não, eu tinha preferência pelo Comodoro por alguns aspectos: eu estudava na Mariz e Barros e no caminho de casa eu passava em frente ao Comodoro, e eu já ficava sabendo o que estava passando e às vezes ia com os colegas. Pra ir na Praça em si era mais complicado. Às vezes não tinha dinheiro pro ônibus e ia a pé, e era um estirão grande ir a pé, mas fui muitas vezes a pé pra Praça. Eu na verdade fui a todos os cinemas entre o Comodoro até o último lá da Praça, o Coper Tijuca, que durou pouco tempo. Na Praça, os cinemas em que eu mais ia eram o América, que hoje é uma farmácia [Drogaria Venâncio], o Rio, que não existe mais, virou uma agência bancária, e o Studio Tijuca, porque passava reprises; passavam às vezes filmes muito antigos no Studio Tijuca e eu via esses filmes, por exemplo, eu vi E o Vento Levou, cópia 70 mm; isso era muito maluco, mas eu cheguei a pegar essas coisas ali, então eu via coisas dos anos 50 e 60 ali naquele cinema. 

Z: Isso na adolescência? 

Hernani: Tudo isso eu vi ali nos anos 70. Por exemplo, eu vi Ben Hur no Rio em 77, vi E o Vento Levou no Studio Tijuca em 78, coisas desse gênero… e os filmes correntes, né? Quando era algo um pouquinho mais sofisticado você tinha que ir pra Zona Sul, Nashville eu vi no Cinema 2, lá no final de Copacabana, em 76. Eu já vi ele quase saindo do circuito. Naquela época você tinha isso, ele era lançado no circuito, depois passava pro circuito de segunda linha, eventualmente ia pra salas isoladas e às vezes ia compor programa, passavam dois filmes ao mesmo tempo nos “poeirinhas” da cidade. Eu vi muito filme em “poeira” no subúrbio. Ali por volta de 76/77 eu resolvi conhecer todas as salas da cidade. 

Z: Então com 14,15 anos você já estava com uma coisa de conhecer todas as salas de cinema? 

Hernani: Em 78 já conhecia todas, porque tinha vezes que eu via 10, 12 filmes em uma semana. Eu pegava o trem, em geral, porque a maior parte dos cinemas ficavam ali próximos às estações da Central, alguns poucos ali na Leopoldina… os da Leopoldina foram os cinemas que acabaram primeiro, os da Central sobreviveram mais tempo. Mas eu ia. Aí, por exemplo, eu vi Operação Dragão + Taxi Driver na mesma sessão em Bangu, um cinema chamado Matilde. Você tinha muito isso. O “poeirinha” que eu mais frequentei era o Riachuelo, que era o antigo cinema Modelo, ali na 24 de Maio, que era um cinema tal e qual, acho praticamente desde o final dos anos 30, cadeira de madeira, não tinha ar condicionado, era ventilador… nos dias muito quentes abriam as portas laterais do cinema (risos), era muito engraçado. E era um cinema basicamente freqüentado por crianças, apesar das “censuras 18 anos” das pornochanchadas, eu vi várias, no subúrbio não tinha essa proibição. Você ia ao cinema ver qualquer coisa, nenhum dono de cinema implicava com a sua idade, você assistia o que você quisesse. E também não tinha nada de mais. Os filmes de sexo explícito só chegaram ao Brasil em 1980, antes eles eram proibidos. Ai eu fui muito ao Riachuelo ver Ana, a Libertina, do Salvá, e Os Últimos Dias de Pompéia, versão italiana de 59. O programa adulto se formava da forma mais estapafúrdia… pra mim era tudo diversão! 

Z: E você ia sempre com uma galera? 

Hernani: Eu rapidamente percebi que ir com galera é não ver o filme (risos). Porque a galera fica zoando o tempo todo, né? No América a criançada ia para o balcão para ficar tacando coisa na platéia de baixo e tal, e em geral a gente escolhia filme da Disney, sei lá, talvez por um sexto sentido a gente soubesse que ia ser ruim (risos). Pra ficar tacando coisas na platéia de baixo, ficar criando tumulto, aquela zoeira, mas rapidamente eu percebi que se eu quisesse ver um filme eu teria que ir sozinho. A grande maioria dos filmes eu já ia ver sozinho, e você percebe muito rápido que… se você quer ver mesmo um filme, não vá em sessão cheia: as pessoas são muito inquietas no cinema, levantam, sentam, comem pipoca no cinema, esse hábito é muito antigo; eu sempre detestei as pessoas comendo pipoca do meu lado porque perturba ver o filme. Então eu percebi, em vez de ir na primeira semana, que é a de lançamento, eu ia na segunda semana pra ver o filme e estava mais vazio… como eu era moleque, eu podia ir na sessão de 14h, 16h, que estava mais vazio porque em geral as pessoas iam na sessão noturna… eu ia durante a semana, porque era mais barato, eu raramente ia ao cinema no final de semana, porque era mais caro… 

Z: Então você ficou um ano só indo com a turma, ou nem isso? 

Hernani: Eu ia de forma esporádica, não era sistemático. Se juntava um grupo, “vamo!”. Mas muito pouco, porque eu percebi logo que eu tinha interesse pelos filmes e não tinha tanto interesse pela zorra que se formava. Então, a partir de um certo momento, eu fui sozinho e por exemplo, essa coisa de conhecer o circuito carioca, eu fui sozinho: eu mesmo pegava o trem e ia lá pros subúrbios, e ia no cinema sozinho… 

Z: Isso com quantos anos? 

Hernani: Ali com 14 anos. E embora não soubesse, foi importante conhecer porque tudo aquilo ia acabar em menos de dez anos, todos os cinemas de subúrbio fecharam até 85. Por volta de 85 já havia muito poucos, então eu conheci a grande maioria deles já muito detonados, decaídos, falta de conservação, às vezes a projeção muito ruim… mas eu conheci, né? Sei exatamente o que era, como era, qual era a freqüência, sei exatamente o quê que era o cinema ser de fato um lazer popular. De você às vezes sair da sua casa e três metros adiante estar dentro do cinema e pronto; isso tudo acabou quando chegou o shopping, a coisa mudou e o circuito cinematográfico se transformou por completo. Só que nessa época eu já tava na faculdade, já era uma outra história e esta memória foi uma memória de fim deste momento, que eu peguei meio que por acaso, porque nasci ali naquela época. 

Z: Você testemunhou o olho do furacão ali, né? 

Hernani: É, eu peguei toda a transformação do circuito cinematográfico, daquele circuito antigo da era de ouro, que vinha lá dos anos 20 e 30, então eu conheci as grandes salas, com exceção do Olinda, que foi derrubado quando eu tinha onze anos; esse eu não conheci, foi o único grande cinema do Rio de Janeiro que eu não conheci, o resto eu conheci todos. 

Z: Rian, Caruso, todos existiam? 

Hernani: Todos ainda existiam, eles foram fechando ali entre 80 e 85. Então eu peguei tudo isso e entendi o que era a sala ter 2000 lugares, 2500 lugares, 3000 lugares. Eu ia muito ao Rex ali na Álvaro Alvim, na Cinelândia, que era um cinema de 3000 lugares, e três balcões, eu cheguei a ver filme do terceiro balcão. 

Z: Do lado do Teatro Rival? 

Hernani: É. Era um cinema colossal, e eu via kung fu ali, todos os filmes de Hong Kong ali dos anos 70 passaram no Brasil e eu vi todos no Rex. 

Z: Eles passavam dublados em inglês, ou em chinês mesmo? 

Hernani: Dependia, tinha filme que vinha em inglês, outros em mandarim, cantonês… aí dependia muito do distribuidor, e de onde vinha a cópia… de qualquer maneira você não prestava muita atenção na língua, eu não sabia inglês nem nada… tinha a legenda, e nesse tipo de filme nem legenda, porque na hora da luta não tem conversa; e eram umas sessões animadíssimas… a plateia vibrava, “bate nele!” e tal, mas era um cinema gigantesco. Então eu tinha ideia do que eram essas salas, e as salas de subúrbio, que eram às vezes muito precárias. Eu lembro muito do Pilar, ali na João Ribeiro, que era um cinema que parecia que ia desabar em cima de você, tava tão arrebentado, mas tão arrebentado… e era muito pequenininho, você ouvia todo o barulho da cabine e do projetor, e nossa, parecia rescaldo da Segunda Guerra Mundial. A primeira vez que eu vi Dona Flor eu vi ali. Era um filme proibido para crianças e tal, mas ali você entrava, via e não havia o menor problema, mas a projeção era muito ruim e o som era péssimo. Essa reclamação de que o som do filme brasileiro era ruim, depois se descobriu que não era o filme, era a projeção que era ruim, de fato existia, você compreendia mal o filme, eu que via muitos filmes brasileiros naquele momento por conta da falta de manutenção dos projetores e da própria sala, e não das cópias. 

Z: Então os problemas eram basicamente dos projetores e não das cópias? 

Hernani: Não, os filmes não tinham problemas de som. As salas tinham problema de som, de manutenção do sistema de som, das caixas, da célula fotoelétrica de leitura do som e etc, e isso prejudicava enormemente a projeção. E o público não sabia nada… achava que o filme que era ruim. Porque no filme americano em geral não se presta atenção no som: você lê a legenda. E no filme brasileiro você tem que entender o que o sujeito tá falando senão você não compreende a história. Então você tinha essas coisas, e logo logo você teve as salas de shopping, a primeira foi do Barrashopping que eu também peguei mas depois desapareceu rápido, eram 3 salas, depois de 3 viraram 5 e depois acabou. 

Z: E o Art Barrashopping? 

Hernani: O Art já era outro; o Barra 1, 2 e 3 eram embaixo, pra fora do shopping; o Art era lá dentro e já foi na primeira extensão que o Barrashopping construiu. Nenhum dos dois existe mais. 

Z: Pensando assim mais na parte afetiva, na sua relação e sua ligação com o cinema… você creditaria algum cineasta específico, ou vários? 

Hernani: Você gosta de cinema porque você vai ao cinema todo dia (risos). Isso é uma pergunta típica para quem faz cinema como artista. Não, a certa altura eu me vi gostando de cinema e assim “ah, por que foi algum cineasta que me motivou”? Tanto que eu tenho uma coisa engraçada, quer dizer, eu tendo a lidar com qualquer tipo de filme e apresentar qualquer tipo de filme. Eu não tendo a ter aquela coisa de só os melhores, só os mais importantes, só os decisivos. Porque eu acredito que as pessoas se divirtam com qualquer tipo de filme, eu me divirto com qualquer tipo de filme: ligou a televisão, ligou o projetor, eu vejo qualquer coisa, pode ser horrível, mas eu vejo e me divirto. Então não houve um cineasta ou um filme ou um cinema mesmo. O que me formou foi o cinema ali no final dos anos 60 e da década de 70. 

Z: Foi uma questão de contemporaneidade? 

Hernani: É, eu era adolescente naquele momento, assisti aquilo tudo e gostei daquela maluquice  e aquilo me atraiu. Inclusive aquele foi o último momento de um cinema com características populares, depois o cinema se tornou numa expressão de classe média, com outro universo, com uma percepção muito diferente da que eu tive na adolescência, mas continuo gostando até hoje. 

Z: E como é que entrou a Uff nessa história? 

Hernani: A Uff entrou, quando completei o antigo segundo grau em 79 e tinha que fazer vestibular. Eu gostava de cinema, mas não tinha nenhuma vontade de fazer isso, e eu ia fazer vestibular de economia. Achava interessante. Era Cesgranrio, você tinha aquele caderno, peguei e fui ler por curiosidade, ai vi que quando chegou em comunicação social, tinha habilitação em cinema. Aí eu pensei ”vou fazer pra isso”. 

Z: 79? 

Hernani: O vestibular foi em 1980. Ai  pensei “Ah, tem cinema? Então não vou fazer economia não, vou fazer cinema, negócio divertido”. Ai fiz e acabei entrando pra Uff. No meio do curso já fiquei muito chateado. Naquela época tinha o ciclo básico e o ciclo profissional; e o curso da Uff era muito precário, naquela época tinha uma dificuldade de professor muito grande, várias matérias não tinham professor. E aí eu fui me chateando, tranquei o curso e fui fazer letras na Uerj. Fiz 3 anos de Uerj mas também me aborreci porque era licenciatura e eu achava a cabeça dos professores da área de pedagogia e educação um desastre. Era português-francês, licenciatura. Eu gostei muito da coisa de lingüística, literatura, latim, tinha literatura portuguesa , literatura africana, brasileira, tudo isso eu achei ótimo. 

Z: Até que…? 

Hernani: Didática, estrutura de ensino do primeiro e segundo grau, tudo isso eu achava um horror, um desastre. 

Z: Por sorte isso veio depois.(risos) 

Hernani: Discordava frontalmente da cabeça daquelas pessoas, ai eu larguei letras faltando um período, em 84. Eu não me formei. Aí em 85 voltei pra Uff porque tinha que ter um diploma qualquer, e terminei de uma forma meio mequetrefe, porque às vezes eu nem fazia o curso e era aprovado lá de algum jeito. Já tinha feito o ciclo básico e algumas matérias do profissional, mas ai eu me inscrevia e eventualmente não ia… e no meio desse processo eu tinha me decidido a não trabalhar com produção e a trabalhar com pesquisa. 

Z: E aí em um ano você se formou? 

Hernani: O curso não era muito grande naquela época, e certas matérias como realização de filmes, a rigor eu nunca fiz isso; tinha meu nome lá e eu não tinha condição de fazer, então era aprovado… na época a gente pegou a crise econômica, era tudo em película, tudo muito caro pra, fazer, a escola tinha muita dificuldade… várias matérias… por exemplo, quando eu fui fazer fotografia, o professor, que era o José Joffily, disse: “Não tô mais a fim de ensinar fotografia, vamos fazer um curso de roteiro”. E eu disse: “Não tô interessado em fazer um curso de roteiro, tchau” (risos) e não fiz o curso. Então eu não tive fotografia, não tive som, não tive montagem. 

Z:  Como era, o que tinha de parte técnica? 

Hernani: Tinha uma câmera 16 mm Arri, dois ou três refletores, dois gravadores, um Nagra e um UHER. Mas todo mundo usava o Nagra. Eu só fiz um filme na Uff, que era um filme de cadeira chamado A Cartomante, que eu fiz a direção de arte… uma experiência pra ver o que era, se eu ia dar mesmo pra aquele negócio e descobri que não ia dar de jeito nenhum. 

Z: Você não gostou do seu resultado? 

Hernani: O filme é legal, mas é legal por causa do Alexander Vancelotte, que é o diretor. Uma coisa bem interessante, uma montagem bacana. Era um filme de época que se passava no século XIX. Levantei tudo do século XIX e duas semanas antes de se iniciar a filmagem, mudou pro século XX, década de 50, então a improvisação foi grande, mas o resultado é bem legal, bem interessante. E naquele momento, em 1983, eu já tinha muito interesse em cinema brasileiro, eu via filmes brasileiros correntes no cinema, mas filmes brasileiros antigos eu tinha uma curiosidade enorme mas nem sabia se existia porque não passava de jeito nenhum. O primeiro filme brasileiro antigo que eu fui ver, eu fui ver na Cinemateca do Mam, foi a primeira vez que eu fui ao Mam, em 1980. Depois eu soube que a Cinemateca esteve fechada por causa do incêndio de 78. Aí teve uma sessão isolada em 1980 numa sala improvisada onde hoje é o Restaurante Laguiole e passou o Argila, do Humberto Mauro. E eu achei aquilo bem legal, bem interessante, tipo de cinema diferente, bonito em algum momento… e eu quis saber mais. Aí eu tinha a matéria de cinema brasileiro na Uff com o José Marinho – que faz o “Povo” no Terra em Transe – e que na verdade era professor de interpretação, mas como não tinha professor de cinema brasileiro, ele acabou dando essa matéria e a gente acabou lendo Paulo Emílio: Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. 

Z: Isso em 80? 

Hernani: 83, por aí… Paulo Emílio morreu em 77, e o livro foi publicado em 74. E que é um livro genial, o melhor livro que tinha sido publicado de cinema no Brasil até o momento. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte é a tese de doutorado dele. Que é um livro que abriu as portas deste passado obscuro, é um livro super bem escrito, cativante… que te leva a gostar daquilo que você nem conhece. Aí eu fiquei muito interessado por tudo aquilo e incentivado por um professor da Uff, que era o João Luiz Vieira, que estava tentando motivar alguns alunos a não serem só cineastas e fotógrafos etc., e eventualmente trabalharem com pesquisa histórica. Na minha turma entraram 50 pessoas, no semestre que eu entrei, e dessas 50 só 4 queriam cursar cinema. 

Z: Só 4? 

Só 4. Na época comunicação social não era dividida como é hoje, você fazia uma opção ali no terceiro ano. Só quatro queriam cursar cinema e, dessas quatro, um que a gente se aproximou muito que é o Lécio Augusto Ramos, também quis trabalhar com pesquisa histórica e a gente apresentou dois projetos pra um concurso aberto pela Embrafilme chamado Cine Tema 2. Eu apresentei um projeto pra fazer uma biografia de um fotógrafo, que era o Edgar Brasil, e o Lécio apresentou um projeto para indexar uma revista chamada Cinearte e que tinha muito a ver com o livro do Paulo Emílio. A gente tinha trabalhado nos dois projetos juntos… éramos colegas de turma, e aí a gente ganhou as bolsas do Cine Tema e começamos pela Cinearte, indexamos a revista inteira e depois fomos trabalhar na vida do Edgar, na biografia do Edgar. 

Z: Vocês pegaram a coleção da revista? 

Hernani: Lá no Mam, a gente pegou a coleção no Mam e indexou a coleção toda, 561 números mais 7 álbuns. O conteúdo inteiro das revistas. A revista não tinha índice, a gente que fez o índice das revistas. O outro trabalho era a biografia do Edgar Brasil. A gente deu o nome de Ensaio Biográfico. E aí, por conta desses trabalhos, eu me tornei uma pessoa ligada à Cinemateca, e além de fazer a indexação da Cinearte lá, eu passei a freqüentar, depois me tornei voluntário, até que fui trabalhar lá e me tornei funcionário em 86. E por conta do Edgar Brasil acabei indo à Cinédia, porque ele tinha trabalhado lá… fiz uma pesquisa lá, no início de 86 e em abril de 86 a Dona Alice [Gonzaga] me convidou para entrar na Companhia. Como pesquisador. Então, os dois lugares que na verdade se transformaram nos lugares de trabalho a vida inteira, me foram abertas através deste concurso: a indexação da Cinearte me levou pra Cinemateca, onde estou até hoje, e a biografia do Edgar Brasil me levou pra Cinédia, onde estou até hoje. Então minha vida se define ali, em meados dos anos 80, com todo aquele contexto de crise econômica, de estagnação do país, de fim da ditadura. Não nasci na ditadura, mas cresci ao longo da ditadura. Então, quando ela caiu em 85, era um momento em que eu estava definindo minha vida profissional, e essa definição foi em meio a um momento da história do Brasil de uma enorme estagnação. Nesse sentido a minha geração foi uma geração que perdeu muito, perdeu a década de 80, que foi a década em que nada aconteceu, e em termos de formação nessa área específica, eu tive que na verdade ser autodidata. 

Z: Você não teve uma série de cadeiras básicas, né? 

Hernani: É, eu fui aprender por conta própria, tanto uma coisa quanto outra, porque você não tinha cursos dedicados a isso, ou porque você tinha deficiências grandes na universidade naquele momento sobretudo porque era um período de formação, de crise econômica. 

Z: E em 83 foi o ano do concurso? 

Hernani: Foi o ano do concurso, o resultado saiu em novembro de 83 e a gente começou a trabalhar em 84. Na Cinearte a gente ficou um ano e meio, e no Edgar a gente ficou até 88.

 

… Entrevista continua na edição de agosto – Zingu! 48

* Luiz Alberto Benevides é publicitário de formação, entrevistador por opção e diletante por aspiração.

 

Parte 1