Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte – Parte 2

Entrevista Especial: Hernani Heffner – Primeira Parte
Parte 2 – Os anos 70; Santa Teresa; a televisão

 

Por Luiz Alberto Benevides
Fotos: William Condé – Transcrição: Tiago Rosas e Adriana Clen

Zingu!: Nos anos 70 já não tinha? 

Hernani: Santa Teresa era um bairro extremamente aristocrático e as pessoas eram voltadas para si mesmas e para seu pequeno grupo de amigos, né? Se formavam círculos de vizinhança por afinidade e não por contigüidade, quer dizer, o vizinho do seu lado já não interessava mais, você tinha que conhecer e ter afinidade em algum sentido pra ter convivência. Santa Teresa é completamente diferente do que era o Estácio. Era um bairro mais novo. Embora a ocupação de Santa Teresa seja do final do século XIX, ela se renovou mesmo a partir dos anos 30, um bairro Art Déco, um bairro de classe média, classe média alta, que se formou em definitivo ali àquela altura e era um bairro que, por estar isolado da cidade inteira e se ter dificuldade de você chegar lá. Transporte público sempre foi péssimo, bondinho sempre foi de hora em hora… era o Largo dos Guimarães. Você tinha um certo isolamento no bairro. O bairro não tinha nada, não tinha uma agência bancária, só tinha uma delegacia de policia e uma agência do Correio. A mesma coisa, não mudou nada. Uma agência bancária, um supermercado e uma agência de correios. É, a única coisa que tem de novidade em Santa Teresa, porque nunca teve isso ao longo da história do bairro, é um cinema. Hoje em dia tem um cinema. 

Z: E aquela velhinha das frutas, famosa em Santa Teresa que não deixa pegar as frutas, nem fotografar, já existia? 

Hernani: Eu não lembro dela (risos). Enfim, eu na verdade conheci Santa Teresa de uma forma muito ampla porque logo que eu mudei para o bairro, eu comecei a trabalhar e fui trabalhar como entregador do Círculo do Livro [editora e distribuidora extinta no início dos anos 90 que vendia edições em capa dura de livros de diversas editoras e os entregava a domicílio]. Então a minha área era Santa Teresa, eu andei em todas as ruas, fui a todas as casas e todos os prédios etc. E eu conheci o bairro como a palma da minha mão. Fui trabalhar no Círculo do Livro no final de 1977 até 79 e só deixei de trabalhar porque fui para a Uff. Aí eu conhecia muito bem o bairro e sabia exatamente o que o bairro era, como o bairro era hiperfechado e como você não tinha nenhuma infraestrutura de vida comunitária no bairro. Era essencialmente residencial e como as residências, elas já tinham o hábito de se trancar, de se fechar, de colocar grade e de colocar cadeado etc., pois era um bairro muito visado pra assaltos a mão armada, um bairro completamente isolado de toda a cidade. 

Z: Já no fim dos anos 70? 

Hernani: Já. Uma coisa em que não se presta atenção, quer dizer, se tinha muito mais assalto a mão armada, assalto no meio da rua, assalto na esquina, nos anos 70 do que hoje. Porque nos anos 70 você não tinha o tráfico organizado de uma forma, vamos dizer assim, profissional. O tráfico era muito aleatório, era muito desorganizado, a escala era muito pequena inclusive. Droga era um negócio muito caro. A droga essencialmente era pra classe média, classe média alta. Só foi se popularizar nos meados dos anos 80 em diante e aí nesse sentido, enfim, você não tinha outra alternativa pra minorar a desigualdade – sobretudo para aqueles que não tinham nada – do que o assalto, então assalto era muito comum na cidade inteira. E como em geral a maior parte dos assaltos era por pequenos bandidos, então não tem registro, não ficou pras estatísticas. Comparativamente hoje, você tem assaltos ainda, mas proporcionalmente, muito menor hoje do que era naquela época. Tanto que eu andei Santa Teresa inteira, durante dois anos, nunca fui assaltado. E sabia que tinha uma presença de assalto muito grande. Eu nunca fui assaltado, mas via assaltos praticamente diariamente porque quando eu fui pra Uff, eu estudava de noite, então eu voltava e acabava dez horas da noite na Uff e, em geral, eu pegava a barca ou das dez, se tivesse saído um pouco antes, ou das dez e meia. Em geral, eu pegava das dez e meia, chegava dez e cinqüenta na Praça XV e andava até a Senador Dantas pra pegar o último bonde, que saía onze e quarenta e sistematicamente o último bonde era assaltado logo depois que passava pelos Arcos e parava. Só que, como eu sempre andei de estribo, eles não mexiam com quem estava no estribo, só assaltavam quem estava dentro do bonde pagando o bonde, então eu vi centenas de assaltos. 

Z: E você já sabia disso e ia pro estribo? Você já sabia disso? 

Hernani: No início não sabia, né? Enfim, você pega porque é mais divertido. Estribo é muito mais divertido porque economiza (risos). 

Z: Tava sempre cheio o bonde? 

Hernani: Tava. O transporte é precário, você, na verdade, inclusive, mesmo que você quisesse ir sentado a certa altura, as pessoas tinham que ir em pé porque o bonde era hiperlotado e todo dia passava dos Arcos, parava e assalto, assalto, assalto. Isso foi uma rotina durante uns anos no bondinho em Santa Teresa. Então, você tinha muito isso, né? Mas, enfim, não era uma coisa que se você estivesse habituado com a cidade, você não pudesse evitar, dava pra evitar tranqüilamente. 

Z: E em relação ao cinema? Vamos partir lá do Estácio mesmo, quando você tava naquela área. Você tinha interesse como espectador? 

Hernani: Não, não. Segundo a minha mãe, o primeiro filme que eu vi na vida, eu era muito criança e obviamente eu não lembro, foi o Branca de Neve. Acho que eu tinha uns 3 ou 4 anos de idade. Não lembro absolutamente nada, ela que fala que foi o primeiro filme que ela me levou. Até os 13 anos eu não fui ao cinema. Porque eu não tinha dinheiro. 

Z: Você via filme com 3, 4 anos de idade e depois parou de ver por uns dez anos? 

Hernani: De ir ao cinema. Minha formação de cinema é a televisão, não é a sala de exibição. Ali nos anos 60 e ao longo dos anos 70, a televisão brasileira, por falta de recursos, por uma dificuldade de se organizar ainda industrialmente (novela é uma coisa que só vai despontar mesmo a partir dos anos 70), passava muito filme na televisão e, embora passasse com uma defasagem grande – um filme estreava em 1965 e só ia passar na televisão em 1970 – pra uma criança isso não tem nenhuma importância porque ela não acompanhou o momento anterior. Eu vi sistematicamente na televisão todo o passado do cinema a partir do cinema sonoro, basicamente o americano, mas não só… e vi tudo que vinha sendo apresentado nos circuitos a partir mais ou menos de 1965 de uma forma regular. Então, eu assisti muita coisa na televisão que os cinemas não passavam ou que eventualmente, nem mesmo a Cinemateca, que eu descobri tardiamente, passava. Eu vi Metrópolis na televisão, Eu vi Encouraçado Potemkin na televisão, Eu vi Cidadão Kane na televisão, Eu vi A Marca da Maldade na televisão. Essas coisas, na verdade, me foram tornadas acessíveis pela televisão. O que me formou não foi a sala de exibição e sim a televisão. 

Z: Televisão preto e branco? 

Hernani: Preto e branco, velhinha, Bekson. Era uma marca daqueles tubos enormes gigantescos. 

Z: Quantas polegadas? 

Hernani: Nem sei. Isso não existia na época (risos). Acho que era tudo um tamanho só na época. Esse negócio de tamanho maior só veio nos anos 70. A gente até comprou uma Philco Magic, cheia de botão (risos). Isso em 79, se não me engano. A primeira televisão diferente que a gente teve e a cores. 

Z: E como era o acesso à televisão da garotada daquele bairro? Vocês tinham televisão em casa? Tinham “televizinhos”? Como era? 

Hernani: Não, ali, apesar de ser uma vizinhança muito pobre, quase todo mundo tinha televisão. Televisão, naquele momento, você podia comprar em 60, 90 prestações. Era tudo o “milagre econômico”, né? Então as pessoas faziam o esforço para ter esse eletrodoméstico e acabavam conseguindo pagar. Essa televisão que a gente tinha lá em casa, a Bekson, eu não sei a origem dela e me parece que ela era um modelo dos anos 50. Não era uma coisa tão nova assim e aí eu não sei. Desde que eu me entendo por gente, ela tava lá em casa. A imagem mais antiga que eu tenho de vida é a gente sentado na sala vendo televisão. E aí, muito provavelmente a imagem é de 65. 

Z: Você, sua mãe… 

Hernani: Toda a família. Meus pais, minha tia, eu e provavelmente minha irmã que devia ter uns dois anos. Nós éramos cinco. A televisão é que na verdade, de alguma maneira, significou para a maior parte daquela vizinhança o ingresso num certo circuito de comunicação. Porque era raro ler jornal, você não tinha, digamos assim, acesso a informação de uma forma mais qualificada, era raro aparecer livro… enfim, a televisão é que se colocou como uma forma de informação bastante significativa e eu passava o dia inteiro vendo desenho, seriado, filme, novela, o que fosse. E como nos anos 70 alguns canais entraram em decadência tipo Tupi, TV Rio, eles só ficavam passando filme, não passavam mais nada. TV Rio, então, era filme de dez da manhã à meia-noite. 

Z: Não tinha programação brasileira? 

Hernani: Não, não tinha nada. Era só filme, não nem tinha locutor, não tinha anúncio, não tinha nada porque estava absolutamente decadente. 

Z: Tinha vários intervalos comerciais como você tem desde… 

Hernani: Não, não. Na TV Rio? Ela não conseguia mais captar nada. Ela só manteve o sinal no ar. 

Z: Mas ela tinha intervalos comerciais nos filmes? 

Hernani: Não, nos anos 70 não. Nos anos 70 ela já estava absolutamente decadente. As televisões quando entraram em decadência não conseguiam mais captar anúncio. Aí, ela pegava filmes velhos que ela tinha ainda o direito contratual de ainda exibir, fazia reprise um milhão de vezes. 

Z: Você via filmes repetidos ou dava preferência pelos novos? 

Hernani: Eu via o que aparecesse porque criança não tem essa noção de “já vi”, “não vi”. Criança vê um milhão de vezes a mesma coisa e tudo é sempre novo pra ela. E naquele momento, não tinha esse sistema que existe hoje na TV a cabo que você todo dia vê a mesma coisa. Repetia muito, mas de dois em dois anos, de três em três anos. Não era aquela coisa de “a cada semana passa de novo”. Então você às vezes até reconhecia que já tinha visto um ou outro filme, mas era raro. E aí eu fui ter contato com o cinema através da televisão e em preto e branco, quer dizer, a maior parte dos filmes que eu vi na vida, vi em preto e branco. Os filmes eram coloridos, mas a gente via dublados e em preto e branco. No caso da TV Rio, sem comercial. No caso da Globo, da Tupi, tinha comercial. Na Globo, inclusive, como ela virou uma emissora muito significativa ali nos anos 70, foi progressivamente tirando os filmes, né? A Globo foi ocupando os filmes com… 

Z: …programação própria? 

Hernani: É, e com programas de blá-blá-blá, de entrevistas. Me lembro muito, que de manhã, era o horário das crianças. De manhã passava desenho animado e filme em série. Não tinha Globo Esporte, não tinha Mais você, ou naquela época, Malu Mulher ou coisas do gênero. Esses programas chegaram no final dos anos 70 e desalojaram os programas das crianças, né? Tanto que este foi um dos erros táticos cometidos pela Globo e aí, quando a Rede Manchete surgiu, foi lá e colocou um programa de criança. A Globo tinha nos anos 60 o Capitão Furacão, a Tupi tinha o Capitão Aza, eram programas dedicados às crianças, depois isso caiu e o Adolpho Bloch retomou essa coisa com o programa da Xuxa. E aí a audiência foi lá em cima, por quê? Por uma carência, né? Você tinha aquela estrutura nos anos 60/70, aquela estrutura dançou e aí a Manchete retomou e a audiência explodiu; aí a Globo foi lá, pegou a Xuxa e recolocou num horário matutino. Só depois da TV a cabo é que você esvaziou isso porque hoje tem canal dedicado a isso e aí não tem mais pela manhã esse tipo de programa.

Parte 3

 

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