Depoimento de Sara Silveira

Dossiê Carlos Reichenbach

Carlos Reichenbach é um dos maiores representantes do cinema de autor no Brasil, comprovadamente através de seus 15 filmes já realizados. Sua cinematografia é muito importante dentro da história contemporânea do cinema brasileiro. É a pessoa mais importante no andar da minha carreira como produtora, além de sermos amigos, somos sócios da Dezenove Som e Imagens. Foi a pessoa que mais me ensinou, mais me mostrou e mais influenciou para a realização dos filmes de autor, sendo um dos mais talentosos autores de nossa cinematografia. Tem um cinema que fala e mostra o urbano de São Paulo, seja através de seus operários como também de seus personagens mais comuns, porém contundentes dentro dos seus relatos e descrição da classe média de São Paulo. Dado o seu talento e generosidade, pois é muito respeitado por isso, nos leva a uma vontade constante de produzir suas obras e fazer parte de seu universo sincero e realizador, perpetuando em película a sua obra corajosa. Enfim… é só honra e orgulho ser produtora, amiga e parceira de Carlos Reichenbach.

Sara Silveira é produtora e sócia de Carlão na Dezenove Som e Imagens

Depoimento de Rosanne Mulholland

Dossiê Carlos Reichenbach

Mais do que falar sobre o trabalho do Carlão, quero falar sobre ele, sobre o homem sincero, generoso e apaixonado que ele é. O Carlão é uma pessoa admirável, no trato com as pessoas, no amor e na dedicação ao trabalho, na espontaneidade que ele tem pra falar de qualquer coisa. Seu conhecimento sobre cinema é assombroso. Quando ele começa a falar sobre o assunto, é capaz de passar horas com os olhos brilhando e um sorriso nos lábios. É capaz de fazer qualquer um gostar ainda mais de cinema. É firme em suas opiniões e intenso em tudo. Pra mim, foi um grande presente conhecê-lo e poder trabalhar com ele, tenho um carinho imenso por esta figura que é tão marcante no cinema brasileiro.

Rosanne Mulholland é atriz, e protagoniza o último filme de Carlos Reichenbach, Falsa Loura

Depoimento de João Callegaro

Dossiê Carlos Reichenbach

Falar de amigo é muito difícil. O Carlão começou comigo, continuou comigo e até hoje é meu amigo. Ele é importante porque trouxe uma visão culturalmente mais embasada do cinema. Tem uma formação brilhante, em música, em fotografia – que ele estudou a vida inteira -, em cinema, em literatura… É um cara que só se dedicou a isso, vivendo numa casa em que as pessoas eram intelectualmente muito embasadas. Essa influência veio pela revista Lady, editada pelo pai, o ombro cultural de Carlão. Ele se profissionalizou e passou a vida inteira fazendo filmes. Creio que isso é importante. Fez filmes brilhantes, continua fazendo filmes com altos e baixos, e faz filmes maravilhosos até hoje. Aquele Dois Córregos é um filme brilhante. O Carlão é importante por isso. Ele profissionalizou o cinema seriamente; é um dos poucos caras no Brasil que conseguiu fazer isso, como fez o Nelson Pereira dos Santos, mantendo a proximidade com o set de filmagem. É importante nesse sentido. É importante também porque é amigo, até hoje.

João Callegaro foi cineasta, que concebeu com Carlos Reichenbach o filme em episódios As Libertinas.

Depoimento de Inácio Araujo

Dossiê Carlos Reichenbach

Carlão era amigo do Márcio Souza e havia fotografado um episódio dirigido pela Ana Lúcia, que era na época mulher do Márcio. Nos conhecemos na casa deles, que ficava numa fantástica vila na praça Buenos Aires, em Higienópolis. É incrível, eles não eram ricos, eram estudantes, o Márcio escrevia roteiros para a Servicine, para o Palácios, mas dava para morar ali naquela época. A vila ainda existe, mas hoje é totalmente tomada por comércio. Carlão e eu nos aproximamos um pouco depois, quando comecei a trabalhar com Sylvio Renoldi, como assistente de montagem. Eu havia trabalhado como assistente de direção – na verdade, era mais um estagiário – num filme do Candeias, A Herança, e o Márcio falou com o Sylvio para eu ter esse novo emprego (“emprego, não; trabalho”, dizia o Sylvio). E logo nos reencontramos no Soberano. Não sei se foi o primeiro encontro, mas o Carlão estava bêbado e com ódio do Rubens Ewald Filho. No começo, queria dar um soco nele, depois uma facada, no fim da conversa já queria dar um tiro de canhão. E eu só ouvia, porque tinha sido colega do Rubinho no Jornal da Tarde, a gente sempre se deu muito bem, embora não tivesse as mesmas opiniões em matéria de cinema (ou justamente por isso). O Carlão dizia que não podia beber porque ficava violento. Ele era muito forte, tinha sido lutador de boxe, essas coisas. Além disso, o Sylvio estava montando o Corrida em Busca do Amor, eu não entendia muito bem, ainda, o trabalho de montagem, mas via que eles se divertiam muito. Aí eu costumava encontrar o Carlão na Servicine, ele falava muito de cinema, me instruía muito, ensinava muitas coisas. Ele conhecia cinema profundamente e também pensava muito no movimento cinematográfico brasileiro, porque era o momento do cinema que hoje se conhece por marginal, mas na época não era.

Eu ainda estava começando como montador, havia montado apenas A Selva, do Márcio Souza, e Os Garotos Virgens de Ipanema (que, pelo que soube, consta nos letreiros como montado pelo Sylvio, mas ele montou só a metade do primeiro rolo, depois pulou fora, o Galante deu a ele o cargo de “supervisor”, o que consistiu em duas vezes abrir a porta da sala de montagem, abrir a porta e perguntar se estava tudo bem!), mas o Carlão me convidou para ser montador da Jota Filmes, que ele havia comprado. O que justificava essa confiança? Não faço idéia. Pergunte a ele. Mas, claro, a gente tinha idéias comuns, uma afinidade que já aparecia lá. De certa forma, a gente imaginava tomar parte numa conspiração, ao lado de escritores, poetas, cineastas, amigos em geral. 


Trabalhei com ele em três frentes, por assim dizer. Como montador, ele sempre fez questão de estar presente, mas, ao mesmo tempo, dava total liberdade ao montador. É a única coisa que ele nunca fez em cinema, acho. Então ele gosta de ver o que o montador vai fazer. Mas isso não quer dizer, claro, que ele perdesse o controle do filme, nem pensar. Como roteirista, sempre foi muito divertido. Eu chegava na casa dele por volta de 10, 11h da noite. Até 1h ou 2h da manhã a gente conversava, de filmes, de cinema, do que tínhamos visto, nossas experiências. Depois, trabalhávamos até de manhã. A gente ria muito. Me lembro que quando a Lygia, mulher dele, viu o Amor, Palavra Prostituta ela ficou brava: “Vocês não paravam de rir enquanto escreviam, de repente o filme é essa puta tragédia”, algo assim ela disse.

Também como assistente de direção do Amor, Palavra Prostituta foi muito divertido. As equipes eram muito pequenas. Não havia direção de arte. Eu logo senti que o Carlão não tinha como se ocupar dessa parte. Então fiquei muito atento a isso. Ali também entendi melhor como os atores são delicados.

No quesito pessoal, é difícil dizer como ele é. São muitos anos, as pessoas mudam. Não mudam a essência, mas vão mudando um pouquinho os hábitos. Algumas coisas permanecem, por exemplo, ele sempre teve medo de dentista. Não é um absurdo? Ele é casado com uma dentista, afinal. Mas há muitos aspectos. A amizade, por exemplo. Carlão sempre foi muito apegado aos amigos. Hoje a gente se vê menos, por causa dos trabalhos diferentes, mas quando nos encontramos o sentimento é de que estivemos sempre próximos. E o mesmo acontece com amizades que herdei do Carlão, como o Percival de Souza, por exemplo. Ele sempre foi muito dedicado aos amigos. Ao Jairo, por exemplo.

Inácio Araujo é crítico de cinema e amigo de Carlão, com quem trabalhou em vários filmes, entre eles, Amor, Palavra Prostituta

Depoimento de Guilherme de Almeida Prado

Dossiê Carlos Reichenbach

Foi um privilégio enorme ter o Carlão como fotógrafo de Glaura, o único curta 35mm que realizei. Eu já havia sido sócio dele no projeto da Casa de Imagens, mas nunca tínhamos trabalhado juntos. Todo o filme foi feito como se fosse uma festa de família. Equipe e elenco profundamente integrados. O Carlão é um parceiro do coração. Era para o Carlão ter fotografado A Hora Mágica também, mas ele estava ocupado num projeto próprio na época da minha filmagem.

O Carlão para mim, além de suas qualidades como criador de Cinema e pesquisador ativo e na prática das possibilidades da linguagem cinematográfica, prima por uma enorme generosidade e carinho. Alguém que olha o Cinema com um olhar generoso e perspicaz ao mesmo tempo. Acho que aqueles óculos de fundo de garrafa são realmente uma lente de aumento para ver melhor o Cinema em todos seus detalhes e significados. O entusiasmo e a falta de preconceitos do olhar de Carlão é um aprendizado para todos que amam o Cinema com C maiúsculo.

Guilherme de Almeida Prado é cineasta, e trabalhou com Carlão em Glaura, além de no projeto Casa de Imagens

Depoimento de Ênio Gonçalves

Dossiê Carlos Reichenbach

Conheci pessoalmente o Carlão quando filmamos juntos uma cena do filme Belas  e Corrompidas, do Fauzi Mansur. Carlão fazia o papel de um cego e eu um gigolô chamado Gardel. Eu o matava a bengaladas usando a sua própria bengala. Logo se estabeleceu uma forte sintonia entre nós dois, que somos cinéfilos; ele, o  maior cinéfilo que conheço. Depois disso, fizemos juntos mais dois filmes (ele como diretor de fotografia). Finalmente veio o convite para Filme Demência, uma experiência rara na minha carreira de ator. Depois vieram Anjos do Arrabalde e Garotas do ABC.

O cinema libertário do Carlão extrapola em criatividade e generosidade, através de personagens e situações inesperadas. Seu amor pelo cinema não admite concessões, sua câmera não balança conforme o vento. Senti-me profundamente honrado quando ele declarou que eu era o seu alter-ego cinematográfico. Devo a ele, também, dois prêmios que recebi como ator: no Rio de Janeiro por Filme Demência e em Brasília por Garotas do ABC. Muito obrigado, meu amigo.

Ênio Gonçalves é ator, e trabalhou com Carlão em vários filmes, entre eles, Filme Demência

Depoimento de Daniel Chaia

Dossiê Carlos Reichenbach

Falar de Carlos Oscar Reichenbach Filho em poucas linhas é algo muito difícil. Carlão tem uma qualidade que o coloca num grupo seleto de cineastas. Basta olhar alguns fotogramas de qualquer filme seu para percebermos sua assinatura.

Quando entrei na faculdade de cinema em 1993, Carlão era professor na ECA/USP, onde lecionou entre 1992 e 1997. Na ignorância dos meus 17 anos, nunca tinha visto um filme seu, mas sabia que Carlão tinha sido colega de meu pai (atualmente cientista social), na Escola Superior de Cinema São Luis, a primeira faculdade de cinema de São Paulo. Lá, Carlão fotografou um curta inacabado de meu pai (tenho o projeto de um dia restaurar e fazer um filme sobre e com o material).

Na minha primeira semana de aula, o então aluno Arthur Autran organizou uma projeção de O Império do Desejo. Foi para mim uma experiência deflagradora das possibilidades do cinema, comparável ao descobrimento na mesma época de Pierrot Le Fou. A liberdade, a anarquia, a mistura dos gêneros cinematográficos, comédia, drama, filme político, existencial, pornochanchada, as paisagens arquetípicas, o popular e o erudito, tudo na mesma bandeja… O filme me fascinou a ponto de ter sido o tema do meu primeiro trabalho para a matéria Cinema Brasileiro.

Alma Corsária foi outro momento fundamental, numa pré-estréia emocionada na sala de projeção da ECA. Um filme sobre a amizade, como só uma figura tão humana e generosa como Carlão poderia fazer.

Foi em 1997, quando eu já estava praticamente formado, que Carlão me convidou para ser seu assistente de direção em Dois Córregos. Ele me ensinou pessoalmente a fazer o trabalho de assistente – análise técnica, plano de filmagem… E descobri o cinema na prática. Dessa verdadeira formação, carrego uma visão do assistente de direção como um parceiro criativo do diretor, e não somente como um burocrático tocador de set e cumpridor de cronogramas. Foi uma grande produção, como Carlão nunca tinha tido antes. Ele, que em geral fotografava ou pelo menos operava a câmera em seus filmes, agora dispunha de um video-assist, e filmou pela primeira vez com som direto. Depois de Dois Córregos, fui seu assistente em Garotas do ABC, Bens Confiscados e Falsa Loura, além de co-roteirista em Bens Confiscados.

Carlão é talvez o diretor mais adorado pelas equipes técnicas com quem trabalha. Além da gentileza e do bom-humor, fundamentais num convívio que normalmente ultrapassa dois meses, ele tem o conhecimento total de como se cria cinema, dos processos de trabalho, das necessidades de cada área. Carlão decupa o filme no set de filmagem. Às vezes, ele já tem na cabeça boa parte do que vai ser filmado no dia, pois elaborou numa visita prévia, mas em outros momentos é no set que Carlão decide – em rapidez recorde, sempre. Ele diz que não gosta de bater cartão – chegar com um storyboard desenhado e executá-lo. Gosta de sentir o lugar, os atores e atrizes no espaço, a câmera escrevendo o plano.

Um acontecimento na pré-produção de Falsa Loura ilustra bem o tipo de criatividade de Carlão. A uma semana de gravar as músicas que Cauã Reymond iria cantar no filme (e a 10 dias da filmagem do show), ainda não havia resposta de uma famosa banda de rock brasileira quanto à venda dos direitos da música que Carlão queria. Quando qualquer diretor estaria se descabelando, Carlão resolveu com tranquilidade – porque além de roteirista, diretor, diretor de fotografia e ator, Carlão também é músico. Juntos, escolhemos qual dentre as suas músicas era a que tinha uma pegada mais pop. Feita a escolha, no dia seguinte ele já tinha uma letra – Dedo de Deus, cantada como um hit por banda e público. E posso dizer que ficou muito melhor do que teria sido a canção que estava em negociação. A prática de um dos lemas do cinema brasileiro que Carlão adora lembrar – transformar a falta de condição em elemento de criação.

Conhecendo a pessoa e a obra, impressiona o quanto os filmes de Carlão são pessoais. Não são autobiográficos, mas são todos nascidos da experiência de vida dele. Cinema e vida são indissociáveis para Carlão. Talvez seja por isso que seus filmes continuem me transmitindo a sensação extremamente vital que tive ao ver o final de O Império do Desejo. Enquanto os ameaçadores jagunços procuram o casal hippie, os dois terminam de transar na beira do lago. Largam-se de costas na terra, lado a lado. Mas o confronto não aparece no filme. É nesse momento que o filme termina, no momento pós-gozo, na suspensão do tempo, na eternidade que é encontrada no instante em que tudo se integra e a existência faz sentido. Essa visão de mundo está presente em todos os filmes de Carlão. Momentos passageiros em que a vida se realiza com toda intensidade. Encontros que justificam a vida. O cinema de Carlão faz ver isso.

Uma vez ouvi dele uma definição de inteligência. Ele disse alguma coisa do tipo que inteligência é conseguir se comunicar, falar de igual para igual, seja com um camponês analfabeto ou com um industrial magnata. Eu vejo assim os filmes de Carlão. Sem nenhum tipo de concessão comercial, os filmes dele falam com todos, podem ser vistos e apreciados por qualquer tipo de pessoa. Se atualmente não são tão vistos como deveriam, isso se deve ao gargalo geral da exibição do cinema brasileiro. Mas quando são vistos, marcam.

Um dos grandes orgulhos de Carlão é ter sido abordado na rua por um homem que lhe perguntou se ele era o diretor de Filme Demência. Com a confirmação, o homem agradeceu emocionado, e disse que graças ao filme ele tinha tido o desejo de voltar a estudar – e voltou. Carlão faz filmes que transformam. Seja como espectador, seja como parceiro, seja como amigo, estou sempre esperando ansioso o novo filme do mestre Carlos Reichenbach. (São Paulo, 15 de setembro de 2009)

Daniel Chaia é cineasta, e colaborou com Carlão em vários filmes, entre eles, Bens Confiscados

Depoimento de Daniel Caetano

Dossiê Carlos Reichenbach

Don Carlone

O Gabriel me pediu para escrever um depoimento sobre o Carlão. Achei que ia ser moleza, mas não é tão fácil não. O Carlão é uma figura central em muita coisa que aconteceu na cena cinéfila nos últimos anos. O papel que ele cumpriu foi fundamental na minha formação e na de mais uma cacetada de gente. Então eu acho que esse depoimento tem que falar desse aspecto importante, que precisa ser apontado, mas ele se envolveu em tanta coisa que eu já sei que o panorama fica incompleto. Então, pro depoimento pelo menos fazer jus à pessoa, vou tentar sintetizar a ideia numa frase curta: o Carlão Reichenbach é um cara do cacete.

Quando eu fui apresentado a ele pelo Fran/Chico Mosqueira, na época em que ele deu aulas na ECA/USP, eu já tinha visto alguns filmes dele. Aproveitei a temporada que estava passando em São Paulo para acompanhar o curso. Era um barato: numa aula ele podia passar horas explicando como filmar e revelar em super-8; noutra, fazia uma revisão crítica do cinema dos quarenta anos anteriores; na aula seguinte, botava a turma pra fazer um exercício de decupagem a partir de um roteiro que nunca saiu da gaveta; em seguida, a partir de uma discussão sobre a importância de uma narrativa que prescindisse de diálogos, ele exibia um filme japonês do Imamura sem legendas.

Alguns anos depois, o Festival de Cinema Universitário fez uma homenagem a ele, com mostra retrospectiva, trouxe-o pro Rio/Niterói. E nessa época ele estava começando a manter um blog no site Zaz, que depois migrou de provedor – e, como todo mundo sabe, está no ar até hoje num endereço independente, http://olhoslivres.zip.net/, tendo sido um dos espaços mais influentes nas discussões de cinema por aí. Nessa época da mostra do FBCU, o Carlão topou dar uma entrevista à ainda muito jovem Contracampo, que dedicaria uma pauta aos filmes dele (era abril de 1999, cerca de seis meses depois de ela ter sido criada). Ao conhecer a revista, o Carlão foi muito generoso e divulgou-a bastante, tendo sido a primeira pessoa da área a fazer isso.

Essa atitude não é rara: ele fez o mesmo com todas as iniciativas semelhantes que pintaram na mesma época e desde então, do site Carcasse à Cinética, passando pela Paisà, pela Teorema, pela Zingu!, pela Filmes Polvo e por aí vai. E ele também participou de listas de discussão cinéfila – cujos temas, algumas vezes, naturalmente, vazavam para o blog dele, como aconteceu com o que se chamaria de cinema extremo a partir da participação na Canibal Holocausto.

E, muito por conta disso, nos anos recentes, ele criou essa fabulosa Sessão do Comodoro no Cinesesc, um horário em que a cinefilia paulistana tem acesso a filmes notáveis, pouco conhecidos e de difícil acesso.

Daria pra falar mais uma porção de coisas sobre o Carlão como cineasta. Mas isso não vou fazer agora, porque foi feito e segue sendo feito por um monte de gente boa, inclusive nessa edição aqui. Mas vou dizer uma coisa: tem muito valor o percurso que ele seguiu. O Carlão, como uns poucos outros cineastas da mesma época, participou de um momento da produção incluído na chamada contracultura e, quando esse esquema entrou em crise, não teve pudor de entrar no esquemão comercial que existia. Ao fazer isso, fez alguns filmes realmente incríveis, esquema que tão comumente é visto com preconceito. Isso me interessava a tal ponto que foi algo determinante para a pesquisa que escolhi para seguir o doutorado – quero tentar discutir os filmes feitos dentro desse esquema “vulgar”, já desconfiando que uma boa parte da crítica não entendeu nada.

Como eu disse, isso foi feito por outros cineastas no Brasil (Neville, por exemplo) e noutros países. Pois quem conhece o Carlão já deve imaginar o imenso número de cineastas geniais de outros países que ele já mencionou e eu nunca tinha ouvido falar – e ele, com generosidade, me fez perceber que eu preciso conhecer. Qualquer pessoa que conversa com ele percebe essa generosidade, depois de ouvir sugestões de dezenas de filmes muito bons (e às vezes até ganhar a cópia, se ele tiver uma disponível).

Esse é o ponto fundamental que eu queria contar aqui. O Carlão se tornou essa figura de referência pra tanta gente por esse motivo: ele transmite uma paixão muito grande pelo cinema e um conhecimento considerável de um monte de carreiras de cineastas que o amigo leitor nunca deve ter ouvido falar. Com esse jeitão gentil que é bem conhecido pelos cinéfilos paulistanos (e não só por eles), ele ajudou bastante para que alguns filmes fossem vistos com menos preconceito e as discussões e papos sobre cinema não se tornassem caretas e tapadas demais.

O título desse texto foi um apelido que ele mesmo sugeriu para si. Isso aconteceu porque, quando o conheci, eu, volta e meia, chamava ele de “professor” (já que tinha assistido às aulas na ECA). Ele preferia algum apelido menos pomposo: Carlão, Carlito, Don Carlone… Mas, mesmo que ele não curta o nome solene, escrevi esse texto aqui para lembrar desse papel central que ele cumpriu (com todas as discordâncias e polêmicas, e até por causa delas) como mestre mesmo – não só pra mim, mas pra muita gente bacana que anda aprontado coisas boas por aí.

Daniel Caetano é crítico de cinema e cineasta, amigo e ex-aluno de Carlão

Depoimento de Claudio Cunha

Dossiê Carlos Reichenbach

Carlos Reichenbach foi o grande ídolo da minha juventude. “Meu tipo inesquecível”. Vários anos se passaram e ele continua entre os meus melhores gurus. Conhecemo-nos em meados de 1974, na Rua do Triunfo, na chamada Boca de Cinema, eu dando meus primeiros passos como diretor, ele já consagrado e respeitado entre os colegas por filmes como Lílian M. e Corrida em Busca do Amor . Sua experiência vinha de filmes publicitários, dos quais falava pouco, mas foi ali que se exercitou também como iluminador, o que lhe foi de grande ajuda para sua sobrevivência em períodos críticos do nosso cinema. Seu tipo abrutalhado, grandalhão, contrastava com seus modos finos, um verdadeiro gentleman. Ali no Bar Soberano, era comum vê-lo em inflamados discursos, tanto numa roda de diretores mostrando fatos com uma ótica diferente, anárquica, ou orientando técnicos e aspirantes ao estrelato, tratando todos igualmente. Sempre bem informado, culto, defendia seus pontos de vista com veemência e o que mais me fascinava era sua capacidade de se surpreender até com os próprios filmes que assistia. Era um cinéfilo na verdadeira acepção do termo. Respirava cinema. Gostei dele de cara.

Nossa primeira parceria foi roteirizando meu terceiro filme, Snuff – Vítimas do Prazer, quando nos tornamos amigos. Depois tive o prazer de co-produzir Amor Palavra Prostituta, filme que rodou o mundo, consagrando-o como diretor-autor.  Em O Gosto do Pecado, minha sexta direção, ele atuou como iluminador, o que muito me lisonjeou.  Assim era o Carlão, ora dirigindo, ora iluminando o filme de algum colega, com isso, aprendeu a produzir cinema.  Fiel às suas idéias, seus filmes sempre abordaram temas do cotidiano, refletindo sua angústia com as diferenças sociais, sem abrir mão de uma linguagem brasileira. Conseguiu impor a sua grife, vencendo o problema de fazer cinema no Brasil, adaptando-se a cada momento, transformando obstáculos em fotogramas de genialidade. Há pouco tempo, numa mesa redonda na Net, ele defendia um Oscar honorário para Nelson Pereira dos Santos; eu defendo um Oscar honorário para Carlos Reichenbach.

Claudio Cunha é cineasta, e trabalhou com Carlos Reichenbach em vários filmes, entre eles Snuff – Vítimas do Prazer

Depoimento de Betty Faria

Dossiê Carlos Reichenbach

Eu conheci o Carlão através de um amigo nosso em comum, o Francisco Ramalho Jr., diretor de cinema, e logo depois o Carlão me convidou para fazer Anjos do Arrabalde, em São Paulo, com ele. Dali, começou nossa amizade, e o filme ficou muito bonito, ganhou muitos prêmios, e ficamos amigos para sempre. O Carlão é um príncipe, é uma pessoa muito delicada, muito educada, um excelente diretor, carinhoso, muito educado no set, trata as pessoas muito bem; trabalhar com ele é um prazer. Nunca tive nenhum stress em filmagens com ele; isso, stress de Carlão com ator, não existe. É um grande amigo, é uma pessoa com valores humanos muito especiais – solidariedade, fraternidade, respeito; ele é uma pessoa especial. Eu tenho muito orgulho de ser amiga dele. Bens Confiscados, enquanto parceria, surgiu quando ele ainda estava escrevendo a história, ele me mostrou e combinamos de produzir juntos. Recentemente, ele teve uma idéia bem interessante, que eu não posso dizer qual foi, da qual eu gostei muito, mas ele não levou adiante. Como o Carlão fica lá elucubrando os projetos dele, acho que tem que deixar o artista/criador à vontade. Quando ele tentar fazer algum filme comigo, eu vou correndo.

Betty Faria é atriz, e participou de dois filmes do Carlão, Anjos do Arrabalde e Bens Confiscados