Macunaíma

Especial Wilza Carla

 

 

Macunaíma
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Brasil, 1969. 

Por Filipe Chamy
 

Se a adaptação literária em cinema já é um imbróglio suficientemente intrincado com livro que seja, que dirá com Macunaíma

Além de ser um romance capital da literatura modernista (e moderna) brasileira, o livro é tão famoso que não só é ícone como objeto de paródias, releituras, análises mil e inúmeros tipos de revisões, influências e homenagens. 

E não só isso: é uma obra de linguagem, de métrica (ou de falta de métrica, de sua irrelevância), de vozes de todo tipo se confrontando, de vanguardismo poético, de todo tipo de surrealismo chocando sentidos textuais e não textuais. 

Para adaptar uma sinfonia caótica dessas, apenas alguém pelo menos tão capacitado (ou imaginativo) quanto seu autor, o célebre Mário de Andrade. E a pessoa ideal, claro, era Joaquim Pedro de Andrade.

 Já desde o início Joaquim Pedro vai insinuando sua visão de mundo no meio do intrincando cosmos de retalhos de folclore, crítica social e proposta de estrutura descritos por Andrade. Agrega elementos de suas percepções e idiossincrasias, como quando põe Ci (feita por uma bela e elétrica Dina Sfat), uma espécie de guerrilheira, ao sabor da efervescência política dos “anos de chumbo”, ou quando enche a narrativa de máquinas modernas, carros e outros contrastes com a ideia inicial (na história) de calma, bucolismo, indianismo.           

Aliás, o caráter “sem caráter” do herói da nossa gente é representado brilhantemente por uma dupla transição: nasce Macunaíma feito por Grande Otelo, de uma mãe-entidade feita por Paulo José; depois, uma mágica água transforma o negro Grande Otelo no branco Macunaíma Paulo José, que terá um filho que é negro e… Grande Otelo! Essa dualidade, ou melhor, essa “falta” de aparência, esse amorfismo, está presente em todo o romance, e em todo o filme, de maneiras diferentes, opostas mas complementares. Que não se diga que Joaquim Pedro traiu “o espírito” do livro, pois seu Macunaíma é tão bizarramente irreverente, iconoclasta e (claro) preguiçoso quanto o das linhas publicadas em 1928. 

Pontuando essa carnivalização étnica de nossa gente, espécie de desfile de nossa cultura caricaturada por uma mente gozadora, está uma galeria de personagens grotescas que faria inveja a Alejandro Jodorowsky (aliás, grande admirador de Joaquim Pedro): Rodolfo Arena é Maanape, irmão de Macunaíma com veneranda aparência de druida – ou mais propriamente um hippie, pois Woodstock foi quase simultâneo a este filme -; Milton Gonçalves é Jiguê, o outro irmão, meio sobra de uma saudade colonialista (o que é irônico, pois ele é de pele negra também); Jardel Filho é Venceslau Pietro Pietra, o gigante comedor de gente, detentor da muiraquitã, a pedra-símbolo da busca inalcançável por identidade de Macunaíma. E, para fechar o cortejo, a recém-falecida Wilza Carla é uma senhora de proporções fellinianas e caráter não menos expansivo e circense: é ela a estranhamente terna mulher que cuidará (com aparentes segundas intenções) da convalescença do herói quando ele se ressente do embate contra o gigante; ela acompanhará boa parte do confronto, torcerá, o apoiará e cuidará de sua depressão no fracasso. No fundo, é o papel de um treinador de boxe, que acudirá com água e uma toalha seu campeão prostrado no ringue. 

Mas Macunaíma não pode perder a luta: é a brasilidade em jogo. Mas como Joaquim Pedro nunca foi bobo, o discurso é o mínimo que interessa a ele para dar seu recado. Aos ufanistas ele repetirá incessantemente as palavras do herói: “ai, que preguiça”.

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