No Paraíso das Solteironas

Dossiê Toni Cardi

No Paraíso das Solteironas
Direção: Amácio Mazzaropi
Brasil, 1969.

Por Vlademir Lazo

Sétimo filme dirigido por Mazzaropi (logo após O Jeca e Freira), No Paraíso das Solteironas é mais um produto que a sua Produções Amácio Mazzaropi (PAM) colocava em cartaz anualmente nos cinemas brasileiros nas décadas de 1960/1970, sempre aproveitando a popularidade do astro. Os filmes foram ficando progressivamente piores  à medida que o comediante envelhecia, mas No Paraiso das Solteironas, feito na virada da década, ainda pode manter a atenção dos curiosos por sua filmografia.

Mazzaropi foi um caso raro em nosso cinema de profissional que, em determinado momento, acumulou as funções de intérprete, diretor, produtor e roteirista (como em No Paraíso das Solteironas). Não porque fosse um artista com vocação para se inclinar ao trabalho de um filme em todas as suas etapas, simplesmente sabia que em seus filmes apenas o que importaria para atrair grandes multidões era a sua presença na tela, não fazendo diferença, portanto, quem dirigisse, escrevesse ou produzisse. Sendo assim, poderia ele mesmo, perfeitamente, sempre que tivesse disposição, assumir essas atribuições sem prejuízo do sucesso de suas fitas, poupando gastos e evitando a contratação de outros profissionais para ocupar esses cargos. Se fosse possível, ele próprio também venderia os ingressos na bilheteria  e controlaria a fila nas entradas dos cinemas (do que também jamais descuidou).

É inegável que Mazzaropi tenha sido sobretudo fruto do atraso nacional. Comediante com algum talento e graça, seus melhores filmes foram alguns dos primeiros em que atuou (os rodados na Vera Cruz), quando mesmo que as produções fossem veículos para o seu estrelato, havia uma preocupação maior com a equipe técnica, com os roteiros e a contratação de diretores mais competentes como Abílio Pereira de Almeida, envolvendo criações um pouco melhor elaboradas (Sai da Frente, Nadando em Dinheiro), e até uma versão regional de Cândido, de Voltaire (Candinho). Quando compreendeu a mina de ouro que era, passou a dispensar maiores cuidados e fazer com que pelas mãos dele saísse todo ano filme com seu nome estampado nos cartazes.

O tipo caboclo perpetuado por Mazzaropi encontrava um sucesso garantido no público pouco letrado que vindo do campo no êxodo rural dos anos sessenta enchia as salas de cinema para prestigiar os filmes do comediante, nos quais reconheciam seus ambientes, linguajar e identidades. O próprio No Paraíso das Solteironas utiliza o contexto do êxodo rural em seu argumento: com a perda de sua vaca de estimação, Mazzaropi resolve sair da roça e tentar a vida na cidade. Sua intenção é arranjar o dinheiro para livrar do matadouro o animal que lhe foi tirado.

Na pensão em que se hospeda, passa a ser alvo das atenções e perseguições das solteironas do lugar. Descobre que a cidade onde chegou é cheio delas, incluindo a dona da pensão, cujo nome é o mesmo da vaca de Mazzaropi. Durante um bom tempo as piadas giram em torno das confusões geradas pela coincidência dos nomes. No Paraíso das Solteironas gira muito em torno das mesmas piadas e situações repetidas à exaustão: além dessas com a nomenclatura de personagem e animal, as cantadas das demais solteironas pra cima do protagonista, a dupla de anões metidos a sedutores aproveitando-se da solteirice das matronas, etc.

Uma intriga envolvendo um veneno e a dona da pensão é estabelecida, além de conflitos com o delegado da cidade (o grande Átila Iório), com uma quadrilha de bandidos e um grupo de ciganos, e dos pretendentes que disputam a mão da filha de Mazzaropi. No elenco, mais uma vez Toni Cardi atuando num filme de Mazzaropi, sempre fazendo um papel de durão.

Mas falta um fôlego maior depois de uns 40 minutos para manter a atenção de quem não seja fanático pelo comediante, muito longe que estamos do excelente artesanato das melhores comédias da Atlântida ou mesmo as da Vera Cruz, na década anterior. No Paraíso das Solteironas é recomendado quase que exclusivamente para os nostálgicos pela figura de Amácio  Mazzaropi, na qual gravita cada um de seus filmes sem maiores interesses que não seja a presença do comediante.

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