A Virgem e o Machão

Dossiê Toni Cardi

 

A Virgem e o Machão
Direção: J. Avellar (José Mojica Marins)
Brasil, 1974. 

Por Daniel Salomão Roque
 

Como todo gênero a se consolidar numa conjuntura específica, a pornochanchada fincou no imaginário coletivo uma série de arquétipos, estereótipos e clichês: a manipulação destes, por sua vez, não dependia somente do carisma, beleza e desinibição do elenco, mas também da criatividade e habilidade técnica das pessoas que permaneciam, vestidas, atrás das câmeras. Se, por um lado, as obras de Carlos Reichenbach, Jean Garret e Cláudio Cunha constituem exemplos vivos de que sexualidade e sátira de costumes podem, sim, conviver em harmonia com o esmero, a inventividade e com os ideais libertários, por outro somos obrigados a engolir uma infinidade de títulos que, analisados isoladamente, parecem justificar todos os preconceitos existentes contra as comédias eróticas brasileiras. 

A Virgem e o Machão se enquadra nessa categoria. O machismo, a precariedade e a celebração da ignorância são as matérias-primas de sua estrutura puramente formulaica, dentro da qual nosso riso e excitação se transformam em verdadeiros atestados de boçalidade. O desleixo que, do início ao fim, caracteriza a fita nada mais é do que a conseqüência imediata da concepção de cinema que se esconde por trás dela: a linguagem, aqui, não está a serviço da construção de um universo pulsante – ela é apenas veículo para uma narração bidimensional composta por uma série de situações imbecis que se sucedem umas às outras. 

Aqui, tudo gira em torno de uma prostituta frígida conhecida pela alcunha de Maria Sorvete, célebre pelo peculiar hábito de chupar picolés enquanto atende aos clientes, e da aposta que um grupo de amigos (entre eles, Toni Cardi) realiza em torno dela: quem conseguisse levá-la ao orgasmo ganharia uma bolada em dinheiro. Quando as esposas traídas descobrem a disputa criada pelos maridos, elas estabelecem um plano de vingança que se torna a gênese de conflitos extremamente patéticos e pitorescos, mas nunca engraçados. 

Os filmes que nos despertam a vontade de vivenciar o cotidiano com mais intensidade e experimentar o cinema em todas as suas formas encontram em A Virgem e o Machão uma perfeita antítese: com uma sonoplastia rasteira, decalcada dos piores desenhos animados, a assinalar quando devemos rir, uma infinidade de piadas mongolóides de duplo sentido e uma utilização extremamente pobre do humor físico, essa pornochanchada colabora com o emburrecimento dos espectadores e desperta em nós uma enorme preguiça em relação às telas. José Mojica Marins, um dos maiores gênios que o cinema brasileiro já teve, tanto sabia disso que fez questão de assinar essa bomba com o pseudônimo de J. Avellar.

 

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