Loucuras de um Sedutor

Especial Wilza Carla

Loucuras de um Sedutor
Direção: Alcino Diniz
Brasil, 1976

Por  Leonardo “Leo Radd” Freitas
 

Lourenço é um personagem feito sob medida pro ator Paulo César Pereio, pois exige um certo talento natural pro tipo mulherengo, canalha, sedutor, cínico, e pilantra. Pra um papel desse tipo, não pode ser um ator qualquer: é preciso ser convincente e fazer com que o espectador torça pro malandro se dar bem e passar a perna em todo mundo durante o filme todo (de preferência saindo impune no final, independente de todas as vigarices que tenha aprontado). Assim transcorre o filme Loucuras de um Sedutor (de 1976), estabelecendo logo de cara uma relação de identificação entre personagem e espectador.   

O filme já começa com Lourenço fugindo da cidadezinha onde morava no dia de seu casamento (forçado) com a filha do violento Coronel Manoelão. Ao ser descoberta a fuga, o malandro passou a ser caçado pela população inteira da cidade e, principalmente, pelo coronel: que não admitia ficar com uma filha grávida plantada no altar. Mas apesar do atraso do trem, o “noivo” conseguiu embarcar e escapar da turba enfurecida. E de quebra ainda mandou uma “banana” pra todo mundo (já a salvo no trem, é claro).

Essa abertura (tudo isso acontece antes de entrar a vinheta animada com os créditos) já dá o tom do filme: o malandro será caçado e perseguido pelo coronel onde quer que tenha ido, e a amoralidade do personagem principal não tem limites, interessando-lhe apenas traçar a mulherada e se dar bem (às custas dos outros, obviamente).

Chegando ao Rio de Janeiro, Lourenço passa a viver de pequenos golpes pra sobreviver na cidade grande. Ele assume diversas personalidades e identidades ao longo do filme: se faz passar por fazendeiro, por escritor (inclusive tirando proveito da ingenuidade de um talentoso mas insano doente mental e assinando as obras por ele), e até mesmo um afeminado costureiro: papel que usa pra seduzir mulheres da alta sociedade, aproveitando-se do fato de que os maridos nem desconfiam que um costureiro aparentemente homossexual irá se fartar sexualmente das mulheres deles.

Numa dessas pilantragens, Lourenço se depara com uma voluptuosa ricaça (Wilza Carla) e acaba se envolvendo com ela pra tentar faturar uma graninha fácil, mas nem tudo que parece fácil acaba sendo de fato, como logo o vigarista percebe. E com a frustração de um golpe mal-sucedido, o negócio é partir pra outro e mais outro, afinal, pro bom malandro o importante é se dar bem com o mínimo de esforço possível.

Paralelamente a tudo isso, o Coronel Manoelão segue os rastros de Lourenço e acaba se hospedando na mesma pensão (onde acaba transando com uma bela loira gostosa e interesseira). Essa pensão, aliás, é um antro de personagens clichês típicos das pornochanchadas dos anos 70: tem a vizinha gostosa e desinibida; o homossexual caricato que serve de alívio cômico pra platéia machista; e inquilinos encrenqueiros e/ou trapalhões. Diante de tudo isso, o coronel (um homem respeitável e moralmente íntegro) acaba se corrompendo pela imoralidade que antes tanto criticava.

Lourenço, até então um sedutor por natureza, acaba ele próprio se deixando seduzir pela belíssima Vera Gimenez (que até o ajuda em alguns golpes). Mas finalmente é capturado pelo coronel e levado de volta ao altar. Só que o bom malandro sempre tem uma carta na manga, e depois de algumas aventuras sexuais na cidade grande, o moralista coronel também passou a ter um telhado de vidro: fato usado pelo malandro pra sair “limpo” dessa no final (já que o coronel se viu obrigado a arrumar outro “otário” pra casar com a filha).

Enfim, filmes protagonizados por malandros poderiam render até mesmo um sub-gênero da nossa produção nacional. Temos vários ótimos exemplos de filmes que seguem o mesmo estilo narrativo e as mesmas características básicas de apresentar as aventuras (ou desventuras) de personagens amorais diante de um contexto onde se deparam com vida dura da cidade grande e precisam usar seus “talentos” pra passar a perna nas pessoas (evitando terem de trabalhar) e seduzir as mulheres (coisa que todo malandro gosta). Memórias de um Gigolô (baseado no livro homônimo), Embalos Alucinantes – A Troca de Casais, O Bom Marido (também estrelado por Pereio), Gente Fina é Outra Coisa, e esse Loucuras de um Sedutor: expoentes desse gênero que se sai muito bem naquilo que se propõe, ou seja, divertir e fazer rir sem maiores pretensões e usando e abusando de estereótipos.

 

Leonardo “Leo Radd” Freitas é autor do blog Submundo HQ (http://submundo-hq.blogspot.com/)

    

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