Guerra Conjugal

Especial Wilza Carla
 

Guerra conjugal
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Brasil, 1975. 

Por Filipe Chamy
 

Histórias do cotidiano seguirão existindo enquanto as pessoas viverem suas vidas. Basta ficar um pouco atento nos ônibus e ouvir essas crônicas diariamente, cada uma com um tempero e uma graça diferentes. 

Filmes sobre esses acontecimentos fugazes não são tão comuns quanto deveriam. A megalomania impera e o desejo dos cineastas e público é por grandiloquência, temas épicos, superproduções que se distanciem o máximo possível de suas vidas. 

Assim também com o cinema brasileiro, que tenta mostrar-se importante aos olhos do mundo investindo em denúncias sociais, críticas políticas e demais panfletarismos passageiros. 

Aos inteligentes, resta a glória duvidosa da subestimação, e Joaquim Pedro de Andrade está nessa situação. Um filme como Guerra conjugal é muito mais importante, enquanto cinema, que tolices como nossas novas “sociochanchadas” (termo já difundido na nossa Zingu!), com suas premissas demagógicas e seus filmes mal desenvolvidos. 

Estruturando a obra em várias esquetes interligadas, temos Joaquim Pedro brincando com a sofisticação narrativa de coisas, afinal, triviais, corriqueiras. Casamentos, traições, disputas verbais ou físicas, desentendimentos, desilusões, fracassos. Não é preciso ser genial como o realizador para perceber que o microcosmos da ventura humana está aí nessas pinceladas do dia a dia das personagens: como ser mais épico do que ao retratar a luta das pessoas em seus dramas diários? 

Claro que o sexo dá as caras, mas não se adentra (felizmente) o vulgar terreno das pornochanchadas, as comédias sexuais do cinema brasileiro. Como o filme foi escrito pelo célebre escritor Dalton Trevisan e pelo próprio Joaquim Pedro, a intenção é mais ambiciosa, e plenamente satisfeita. Fala-se de sexo, claro, mas ele não é o fim de tudo, a obsessão primordial. Antes é preciso zombar das convenções, amoralizar a caretice da iconoclastia ingênua das farsas de humor produzidas em tão largo ritmo: então Cristina Aché é a moça “flor que não se cheire”, que se esfrega de calcinha no namorado cafajeste na frente da avó cega (após um sugestivo diálogo sobre cuspir e engolir), mas a avó também é “santa do pau oco” e apalpará esse namorado canalha enquanto fala sobre velhice e abandono; Jofre Soares é o marido vilão que se sente humilhado pela impotência de perceber-se ridículo, digno do nojo da esposa; Lima Duarte é o advogado que se divide entre o amor, o sexo e a culpa pela indefinição de seus desejos (ainda mais com uma proposta indecorosa que lhe é feita); e Carlos Gregório, o namorado ordinário apalpado pela velha indecorosa, precisa pular de galho em galho até descobrir a que árvore pertence. Numa de suas experiências, depara-se com nossa homenageada Wilza Carla, descrita por ela própria como “noventa e nove quilos de carne”, uma nem tão sutil assim crítica à “objetificação” feminina dos filmes brasileiros de então, onde a mulher geralmente é resumida a carne de abate e consumo. 

Causa uma saudável estranheza uma fita como Guerra conjugal, que parece não ter propósito e não se empenhar em passar qualquer moral. Mas a mensagem é justamente essa: não ter mensagem. As histórias estão lá, as anedotas e “causos”, pintados com suas tintas reais e veiculados convencionalmente como um filme (bem filmado), para quem quiser ver, sem embutir aí qualquer “dedo na cara” ou obrigação cívica — o que parece estar muito em voga hoje. Na verdade, cineastas medíocres e filmes enganosos sempre foram o prato do dia no cardápio de qualquer filmografia, em qualquer país. Mas eventos como Guerra conjugal fazem pensar que as exceções sempre fazem tudo valer a pena.

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