Musas Eternas

Soledad Miranda

Por Felipe Guerra

Soledad é a palavra espanhola para “solidão”. Mas sua pronúncia e escrita lembram uma outra palavrinha em português: saudade. E é justamente este o sentimento que sempre me passa o nome de Soledad Miranda, provavelmente uma das maiores musas eternas de todos os tempos.

Nascida Soledad Rendón Bueno em 9 de julho de 1943, em Sevilha (Espanha), filha de pais portugueses, nossa musa eterna alimentava um sonho desde criança: ser estrela de cinema. Primogênita e com cinco irmãos, começou a trabalhar bem precoce para ajudar a família a conseguir o leitinho das crianças.

Como era sobrinha de uma famosa cantora e dançarina de flamenco – a espanhola Paquita Rico -, Soledad também começou a cantar e dançar, e aos 8 anos já se apresentava em palcos de feiras e pequenos teatros pela Espanha.

Aos 16 anos, ela finalmente resolveu seguir o sonho de ser atriz. Mudou-se para Madri e adotou o nome artístico Soledad Miranda. Graças ao talento como dançarina de flamenco, ela inicialmente conseguia pequenos papéis em filmes musicais, mas o estrelato tão almejado parecia cada vez mais distante.

Um de seus primeiros trabalhos no cinema foi como figurante não-creditada no melodrama em preto-e-branco Reina del Tabarín60), quando tinha 16 anos. O filme era sobre um boa-vida (interpretado por Yves Massard) que seduzia várias mulheres, até se apaixonar por uma dançarina de flamenco.

Mas o mais marcante da obra não foi a história, e sim o fato de ter marcado o encontro entre Soledad e um jovem ator, roteirista e diretor de Madri chamado Jesus Franco, ou Jess Franco. Anos depois desse primeiro e rápido trabalho juntos, seus caminhos se cruzariam outra vez para transformar a espanhola em estrela cult

Até 1964, Soledad participou de uma série de produções de baixo orçamento na Espanha e em Portugal, mas sempre com participações pequenas e frustrantes.

Um dos raros pontos altos dessa primeira fase da sua carreira foi o (hoje esquecido) épico espanhol El Valle de las Espadas (1963), de Javier Setó, em que teve a oportunidade de atuar ao lado de um ídolo adolescente da época, o norte-americano Frankie Avalon, mais conhecido pelas filmes de praia que estrelou nos EUA.

Mas Soledad estava decepcionada com sua “carreira”. Ela queria ser protagonista e só ganhava pequenos papéis.

Ainda em 64, enquanto filmava Un Día en Lisboa em Portugal (com direção de Alfonso Nieva), ela conheceu o piloto de automobilismo português José Manuel da Conceição Simões. O romance nas telas estendeu-se à vida real, e em 1966 eles se casaram.

O primeiro (e único) filho de José Manuel e Soledad, Antonio, nasceu em abril de 1967. Com isso, o pai abandonou o automobilismo para buscar um emprego mais seguro e estável na indústria de carros, enquanto a mãe temporariamente abandonou o cinema e adiou o sonho de ser estrela para cuidar do garoto.

Durante um tempo, Soledad foi apenas mãe. Mas, em 1968, recebeu um convite para trabalhar numa grande produção norte-americana, o faroeste 100 Rifles, de Tom Gries. Novamente, ela teria apenas um pequeno papel (foi creditada como “garota no hotel”), mas trabalhou ao lado de astros como Burt Reynolds, Jim Brown e Raquel Welch.

O ponto de virada na vida e na carreira da atriz aconteceu em 1969. Jess Franco, aquele prolífico cineasta para quem ela fez uma ponta não-creditada quase uma década antes, nunca esqueceu do olhar hipnotizante de Soledad.

Ao preparar uma nova adaptação para o cinema do livro Drácula, de Bram Stoker, Franco resolveu convidar Soledad para o papel de Lucy Westenra, a melhor amiga vampirizada da protagonista. Assim, em O Conde Drácula (1970), ela finalmente teve bastante tempo em cena interagindo com um elenco de astros – como Klaus Kinski, Herbert Lom e Christopher Lee (interpretando Drácula, obviamente).

Este foi o início de uma bem-sucedida associação com Franco, que elegeu Soledad Miranda sua musa oficial. Durante o ano de 1970, o incansável realizador chamou-a para outros seis filmes, finalmente realizando o sonho da moça de ser protagonista, em obras hoje clássicas como Vampyros Lesbos, Eugénie de Sade, Pesadelos Noturnos e Ela Matou em Êxtase.

Como quase todos os filmes foram feitos na Alemanha, produzidos por Karl Heinz Mannchen, Soledad resolveu mudar seu nome espanhol para outro mais “europeu”, adotando o pseudônimo Susann Korda.

Tudo parecia encaminhar-se para um final feliz: casada, com um filho e finalmente estrelando filmes ao invés de apenas fazer figuração, a moça recebeu a notícia de que o produtor de Franco queria assinar um contrato de dois anos com ela para a realização de novas obras. Vantajoso, o contrato também lhe garantia um cachê muito maior do que aquele que vinha recebendo.

Finalmente, Soledad Miranda seria uma estrela de cinema.

Em agosto de 1970, às vésperas da assinatura do contrato, o destino foi cruel com a jovem atriz: ela e o marido aproveitavam um raro final de semana de folga em Portugal quando envolveram-se num acidente de carro, batendo violentamente contra um caminhão. José Manuel, que dirigia, escapou com ferimentos leves, mas Soledad sofreu ferimentos gravíssimos no crânio e na espinha.

Ela foi levada ainda com vida, em coma, para o Hospital de São José, em Lisboa, onde morreu horas depois sem nunca recobrar a consciência, aos 27 anos de idade. Deixou inacabado o último filme que estava estrelando para Jess Franco, Der Teufel kam aus Akasava (aka The Devil Came from Akasava), que seria completado com a ajuda de uma dublê e lançado em 1971.

Numa daquelas trágicas e irônicas coincidências do destino, o acidente que matou Soledad aconteceu na Estrada Costa do Sol, entre Lisboa e Estoril, no litoral português. Foi a mesma estrada em que a atriz filmou uma cena de Un Día en Lisboa seis anos antes, quando conheceu o futuro marido!

Há vários elementos dramáticos na saída de cena de Soledad Miranda, como o fato de ela ter sido sepultada em segredo, sem funeral, num túmulo anônimo de um cemitério de Lisboa. Ou ainda a possibilidade de que ela nunca tenha visto nenhum dos filmes de Jess Franco que estrelou, já que quase todos foram finalizados e lançados apenas após sua morte.

Sobre esse último boato, Franco esclareceu, em entrevista recente, que a atriz na verdade viu todos os seus filmes antes de morrer, inclusive cenas dos que não estavam concluídos. Mas eu arriscaria dizer que o cineasta estava apenas tentando suavizar o caso: Soledad Miranda provavelmente morreu sem nunca ter se visto como protagonista na tela grande – até porque seu grande papel como estrela, Ela Matou em Êxtase, chegou aos cinemas no ano seguinte à sua morte, em 1971.

Logo, foi apenas postumamente que Soledad realizou seu sonho de tornar-se estrela de cinema. Hoje, é uma autêntica celebridade cult, respeitada e admirada por uma legião de fãs de todas as gerações. E é impossível dissociar filmes como Vampyros Lesbos da imagem hipnótica da belíssima atriz espanhola.

Infelizmente, em vida ela nunca alcançou fama e notoriedade no seu país de origem, a Espanha, já que a censura proibia o lançamento dos filmes de Franco por lá devido ao seu forte teor erótico. Ela lamentou, numa de suas últimas entrevistas, o fato de ter se convertido em “uma atriz alemã” (já que as produções com Franco foram filmadas na Alemanha), ao invés de estar trabalhando na Espanha, como queria.

Sempre que me lembro de Soledad Miranda, a primeira imagem que me vem à cabeça é a do clássico Ela Matou em Êxtase. É difícil sequer imaginar este filme sem a atriz no papel principal.

Na trama, para quem nunca viu, Soledad interpreta uma viúva que se vinga daqueles que considera responsáveis pelo suicídio do marido: ela seduz as vítimas, homens e mulheres, e então as mata no momento do sexo.

Eu escrevi sobre o filme para o site Boca do Inferno (leia em http://bocadoinferno.com/artigos/soledad-puro-extase), quando observei o fato de que as futuras vítimas da personagem, mesmo sabendo qual será seu terrível destino após as primeiras mortes, entregavam-se à sedução e à morte sem pestanejar, como aqueles insetos cuja fêmea mata o macho na hora do orgasmo.

Fica, assim, a imagem de que Soledad Miranda é maior e mais forte do que a morte.

Saudade, Soledad…

PS: Para quem quiser saber mais sobre a curta carreira da musa, e ainda conferir uma gigantesca coleção de fotos suas, sugiro o fantástico fan site Sublime Soledad (http://www.soledadmiranda.com/index.html), um justo tributo a uma musa eterna digna desse título.

 

Felipe M. Guerra é jornalista e cineasta independente. Escreve no Boca do Inferno  e está para lançar seu novo filme, Entrei em Pânico ao Saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado – parte 2  – A  Hora da Volta da Vingança dos Jorgos Mortais de Halloween.

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