Floradas na Serra

Especial Liana Duval

Floradas na Serra
Direção: Luciano Salce
Brasil, 1954

Por Filipe Chamy

A Vera Cruz dava seu canto de cisne com este Floradas na serra, após anos fazendo um cinema que possuía como principal característica um certo mimetismo do cinema americano de gênero — não era raro achar fitas como O cangaceiro e O tico-tico no fubá parecidas com certas produções assinadas por gente como William Wyler e George Stevens. Floradas na serra não foge desse padrão, e portanto não tem grandes arroubos visuais ou invencionices de qualquer sorte; no entanto, assim como seus predecessores, não é feia reprodução de tendências que diferenciavam o cinema americano e o brasileiro da época (o que levaria muita gente a pronunciar admirada exclamações como: “é tão bom que nem parece filme nacional!”).

Ainda que em superfície seja um filme tradicional, Floradas na serra foge do convencionalismo. Para começar, dá a uma atriz de teatro — a prestigiada Cacilda Becker — uma personagem literária em uma adaptação cinematográfica! Unindo três mídias o filme foge de um esquematismo muito dogmático de atuação e encenação, algo que hoje ainda tateiam em muitas obras que misturam atores de cinema com os emergentes astros da televisão.

Outra marca distintiva é justamente ter uma mulher de protagonista, mérito aliás próprio da escrita autora da obra original, Dinah Silveira de Queirós, que todos conhecem como pioneira escritora em um mundo de letras masculinas. Mas Floradas não é um filme que se prega modernista, ele simplesmente faz o que pode ser feito quando uma mulher é sua principal figura: trata-a como humana e não a estereotipa. A Lucília a nós apresentada é uma mulher forte, mas não viril: ela tem fraquezas, fragilidades e mesmo assim se impõe, toma iniciativas, não é um fantoche de melodrama vil.

Também é preciso destacar a modernidade do relato: máquinas, maiôs, carros, Floradas mostra uma sociedade em evolução tecnológica e estagnação sentimental, com suas intrigas de alcova que no fundo se mantêm inalteradas há séculos, os mesmos conflitos que encontramos em romances de séculos atrás, mas que, próprios de seu tempo, não soam patéticas “novelices” adequadas a folhetins amorfos. São pessoas integradas a meios que não usam essas condições para esconder falhas de seu desenvolvimento (como personagens ou como pessoas). Não é desvio de caráter ser sincero, e do contrário não se pode acusar uma narrativa como a deste filme.

Seus intérpretes também contribuem para essa verossimilhança, com seus tipos mais físicos que morais (por exemplo, Jardel Filho em sua aparência juvenil de galã dissimulado). Aqui, de Liana Duval, fazendo a expansiva empregada Firmina, a um alheio a tudo John Herbert, tudo conspira para que a barreira ator-personagem-espectador seja esquecida e que a mensagem seja diretamente recebida personagem-espectador.

Sobre a protagonista, sem dúvida a alma do filme, a narrativa alterna seus “altos e baixos” com o próprio espírito de Lucília: se no começo ela se mostra disposta e a narrativa clara, transparente, no decorrer de sua tortura emocional e seu descompasso amoroso tudo vira trevas, escuridão, uma vegetação que assola a tela e cobre a imagem quase como uma surrealista floresta malvada assustando Branca de Neve em sua fuga desordenada. Floradas na serra é uma epopeia urbana.

Se no asilo para tratamento e repouso, na piscina ou em Campos de Jordão, a ambientação não importa muito. Para efeitos de força, todas as criaturas de Floradas na serra retiram seu impacto de seus próprios dramas íntimos. Talvez pareça esquisito tratar o assunto “de dentro para fora”, mas metáforas também podem florescer.

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