Excitação

Especial Liana Duval

Excitação
Direção: Jean Garret
Brasil, 1976.

Por Sérgio Alpendre

Dentro do saudável exercício com gêneros feito na Boca do Lixo, Excitação, dirigido por Jean Garrett em 1976, é um dos mais brilhantes. É também um dos muitos registros da arte de uma atriz pouco falada, Liana Duval, falecida em março de 2011. Ela interpreta a empregada de Kate Hansen.

É um filme de horror, certamente, mas o horror não está apenas no fantasma que aparece para a pobre esposa (Kate Hansen) de um paulistano safado (Flávio Galvão), na casa de veraneio que compraram no litoral. Esse é o horror óbvio, latente. O horror velado, que se entranha na mente da pobre esposa traída como um germe destruidor, é o corpo exuberante de Zilda Mayo, no que ele representa de ameaça para a estabilidade do casamento, ou ao menos, para a fidelidade do marido.

Essa ameaça acaba se materializando em aparelhos que ligam sozinhos, em aparições teatrais e ridículas e, finalmente, em uma crise nervosa. Não importa que é tudo falso, que os aparelhos e as aparições sejam criadas pelo marido para aterrorizar a abalar a mente da esposa. O que importa é que ela acredita, favorecendo que o horror de ordem sexual seja acrescido do horror clássico de um espírito perturbado.

Assim, Garrett nos brinda com um truque inusitado. Já que realizar um filme na boca sem mulheres nuas era quase garantia de fracasso comercial, o diretor usa o corpo de suas atrizes como aparições fantasmagóricas de outra ordem, mais ameaçadoras ainda, porque carnais, que assombram a mente de uma esposa ciente da capacidade de traição de seu marido. Isto faz com que o sexo se integre à trama com precisão, ao contrário do que é comumente falado sobre o filme. Afinal, o motivo da criação de sustos era um caso do marido com a vizinha (Betty Saddy), logo, um outro corpo feminino que parecia mais sedutor, tanto do ponto de vista do marido quanto da esposa insegura e abalada pelas aparições.

Filme incrivelmente feminino do grande Garrett, como quase todos que realizou. Porque talvez um dos horrores que atormentam uma mulher após os 30 anos seja exatamente esse: a certeza de que o corpo, a beleza, a saúde e, consequentemente a possibilidade de ser mãe, não duram para sempre.

Sérgio Alpendre é crítico de cinema, editor do blog Chip Hazard, redator da Folha de S. Paulo (Guia livros, discos, filmes), do UOL, e da Foco.

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